Constrangimentos, vilanias, tribunais e contextos

O filme “E o Vento Levou” foi retirado da plataforma de streaming HBO Max ontem, no momento em que grandes protestos contra o racismo e a brutalidade policial, por conta da morte de George Floyd, levam os canais de televisão a revisar o conteúdo oferecido. O longa-metragem de 1939 sobre a Guerra Civil americana, que venceu oito estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme, continua sendo uma das maiores bilheterias de todos os tempos (quando são calculados os ajustes pela inflação), mas sua representação de escravos conformados e heroicos proprietários de escravos é alvo de críticas. (Fonte: UOL)

Eu vi “…E O Vento Levou” algumas vezes na vida. Uma delas enquanto esperava pacientemente o intervalo entre as contrações diminuir para que o trabalho de parto enfim começasse, há quase 18 anos.

Alguns meses atrás comprei o filme numa plataforma de conteúdo para assistir com o namorado, que nunca tinha visto. Junto com o filme vieram três ou quatro documentários, como conteúdo extra.

Esperei um domingo sem jogos importantes, afinal o filme é longo, e lá fui eu assisti-lo de novo junto com ele.

E me dei conta, com enorme constrangimento por nunca ter percebido isso antes, que “…E O Vento Levou” é um filme que enaltece os confederados. Sim, aqueles, os que perderam a guerra de secessão. Aqueles que defendiam a escravidão e que achavam que os ianques não podiam interferir no seu direito de possuir seres humanos. Aqueles que achavam que “salvar a economia” vale mais do que “preservar vidas humanas” (opa, que ano é hoje?).

Gone with the Wind removed from HBO Max - BBC News
Scarlett, além de mimada e frívola, era uma indesculpável escravocrata

E o pior: mesmo fazendo tudo isso, é um excelente filme, sob todos os outros aspectos. É um épico, tem um roteiro bem amarrado, a história é bem contada, o elenco é excelente*, os figurinos, lindíssimos, a fotografia impecável. Etc.

O fato de ser bom torna o filme ainda pior.

Porque a gente assiste, a gente gosta, e a gente não pensa sobre o absurdo que está sendo mostrado ali.

É como o caso do Tintim e do Monteiro Lobato: foram obras que envelheceram muito mal.

***

Daí fui assistir os documentários que vieram junto com o filme como conteúdo extra. E foi incrível. Toda aquela sensação incômoda que me perturbou enquanto assistia o filme foi explicada e analisada por professores, pesquisadores, especialistas. Ou seja, no século XXI não basta assistir às quatro horas de “…E O Vento Levou”, é preciso dedicar mais uma ou duas horas para a explicação sobre o que o filme representa e em quantos níveis ele está errado.

Se você ainda não viu, talvez seja melhor deixar pra lá ;)

***

Desde domingo venho acompanhando também a demolição de estátuas erguidas em homenagem a pessoas hoje vistas como deploráveis. Confesso que me entusiasmei ao ver as imagens de Bristol. A derrubada da estátua do traficante de escravos fez todo sentido, principalmente porque sua retirada vinha sendo pedida há tempos e ignorada pelas autoridades municipais.

Daí se seguiram movimentos semelhantes pelo mundo. Aqui no Brasil querem retirar a estátua de Borba Gato que fica em São Paulo. Hoje uma estátua de Cristóvão Colombo em Boston amanheceu decapitada. Outra, em Richmond, também foi parar no fundo do rio.

Acho que esses gestos são importantes para trazer à tona uma discussão que já deveria ter sido feita há décadas, séculos.

Alguns historiadores, no entanto, questionam a eliminação dos monumentos porque eles são, de certa forma, um registro do que já fomos. A escravidão de negros e indígenas faz parte de nossa história. O fato de os bandeirantes terem sido (e ainda serem, em larguíssima medida) tratados como heróis, também. Já vi sugestões de que essas estátuas — que, mantidas como estão, se constituem em homenagens — sejam realocadas para museus, onde se poderá explicar esse contexto e registrar que um dia fomos (somos) uma sociedade que enaltecia práticas vis.

Acho tudo válido, por contraditório que pareça: a fúria do momento, que leva à derrubada da estátua, tem um sentido. O debate que se segue, idem. As providências que tomaremos na direção da mudança são — têm que ser — a parte mais válida de todo esse processo.

Ate porque, e isso é muito importante, eu temo pelo limite. As manifestações da turba refletem, sim uma vontade popular. Mas não pode haver um tribunal da multidão para nada — nem para linchamentos reais, nem virtuais, nem para julgamentos históricos. As sentenças, sejam penais, morais ou históricas, têm que ser proferidas após argumentações de ambos os lados, após ponderação, amadurecimento de ideias. Senão, o que diremos quando derrubarem uma estátua de um dos “nossos”? Aí não pode? Quem traça o limite?

***

Voltando ao início, por isso gostei da medida da HBO Max de retirar o filme imediatamente, para mitigar o problema imediato, que é o constrangimento de exibir um filme que romantiza escravocratas. Mas o comunicado da emissora diz que em breve ele voltará, devidamente embalado em contexto. Espero que isso de fato aconteça.

-Monix-

* Detalhe curioso que vale um registro: a atriz Hattie McDaniel, que faz o papel de Mamie, foi a primeira atriz negra a vencer um Oscar, na categoria de atriz coadjuvante, vencendo inclusive outra atriz do filme, a super caucasiana Olivia De Havilland.

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