Válter e eu

“Breaking Bad” estreou em 2008 e terminou em 2013; suspeito que não há nada sobre a série que não tenha sido dito. Apesar disso, escrevo – para registrar as impressões que causou em mim, para trocar figurinha com outros que viram, e também para tentar me despedir de Válter (como eu chamo Walter White/Heisenberg desde o início, nem sei porque). Terminei a série há semanas mas essa história ainda reverbera em mim. Algo me capturou de maneira irremediável no percurso desse homem que no meio da vida faz um desvio radical. As condições de temperatura e pressão capazes de provocar, acelerar ou impedir essa mudança; a perseguição de um desejo que, afinal, não era genuíno; a felicidade num lugar diferente de onde a procuramos, tudo isso (e mais) me incluiu entre os entusiastas da série.

Tinha tentado ver BrBa antes e achei o primeiro episódio chato e arrastado (o que me parece totalmente incompreensível agora). A quarentena me pareceu a ocasião perfeita para tentar novamente. Minha conversão se deu aos poucos. No começo eu dizia que só queria saber como Válter perdeu as calças. Porque tudo começa com a dita cuja voando e a intrigante cena desse homem de cuecas numa paisagem árida gravando um vídeo de despedida para a família. Um começo que condensa muito do trágico, patético, engraçado, tenso e dramático que viria a seguir.

O episódio começa pelo fim; após essa cena bizarra nós somos apresentados a esse cidadão mediano e sua vida medíocre que, aos 50 anos, é presenteado com um câncer de pulmão em estágio avançado e decide prover sua família nos meses que lhe restam produzindo a melhor metanfetamina do mercado. (Como é que eu não me interessei por isso antes?) Nos primeiros episódios parece que tudo que pode dar errado dá, e segui movida pela curiosidade em ver quando esse cara ia se dar mal, o que parecia inevitável e iminente.

Aos poucos fui pegando gosto pela história, pelos personagens, locações (eu tenho um fraco por desertos). Aliás, o fato de ser ambientada no Novo México confere tons especiais à narrativa. Uma paleta de cores terrosas domina a paisagem e a vida das pessoas, compondo uma atmosfera peculiar: esta não é a América glamurosa e idealizada que a gente costuma ver na tevê. Pelo contrário, é uma quase esquecida, perto demais do incômodo e subdesenvolvido vizinho latino. Mas nem por isso é menos América. 

Vale dizer que a escolha do local foi um dos vários aspectos não programados da série – e eles são muitos e surpreendentes. As filmagens, que seriam na Califórnia, mudaram para o Novo México por detalhes técnicos. O personagem Jesse Pinkman duraria apenas alguns episódios da primeira temporada, mas a interpretação visceral de Aaron Paul fez Jesse sobreviver — inclusive à série. E várias outras pequenas histórias como essa se acumulam nas muitas entrevistas e reportagens disponíveis sobre BrBa . A produção soube tirar vantagens do acaso e se adaptar bem aos imprevistos naturais de uma produção do tipo.

Um ponto alto de Breaking Bad está no aspecto visual — não tenho certeza se “direção de fotografia” dá conta de tudo a que me refiro; se sim, ela é primorosa. Há engenho na escolha dos enquadramentos, nos objetos de cena, no movimento da câmera — nada é por acaso, e quase tudo tem um significado. Eles fazem “rimas visuais”, como alguém nomeou: uma cena que faz lembrar outra sem que sejam iguais. São detalhes que perdem a força e até mesmo o sentido se descritos, precisam ser vistos. A história de Válter é contada por diálogos e silêncios, planos, contraplanos, uma ótima trilha sonora e tudo mais que carateriza um bom produto audiovisual.

Nada disso se sustentaria sem excelentes interpretações, sendo Brian Cranston o destaque absoluto. Salvo ignorância minha, ele fez de BrBa o que Válter fez com o câncer: uma oportunidade para fazer algo grandioso em uma carreira até ali mediana. Sua interpretação arrebatadora, sob todos os aspectos memorável, foi capaz de nos manter interessados nesse personagem que desprezamos muitas vezes, pelo qual torcemos para que se foda tantas outras, mas com quem estabelecemos uma ligação incontestável. E que também despertou nossa empatia e compaixão.

Válter não é um personagem agradável. Em determinado ponto da trama eu me dei conta de que não gostava dele, mas podia compreendê-lo e até torcer a favor dele, aqui e ali. Gostar a gente gosta do Pinkman, a irresistível empatia pelo adolescente perdido que todo mundo foi um dia, em certa medida. Mas Válter, não: é um adulto que utiliza a doença terminal como passe para jogar fora seu compasso moral com a desculpa mais nobre  – pelo bem da família. Alguém contraditório, perdido, corajoso, confuso , culpado e até mesmo piedoso, embora a sua imagem violenta, egoísta e cruel tenha prevalecido.

 

Isso, aliás, me incomoda um pouco no fandom de Breaking Bad. A série tem em torno de si uma aura de veneração: há uma legião de apaixonados capaz de discutir teorias, contestar falas e produzir artes incríveis, mesmo anos depois do fim. Mas percebo um viés equivocado em ver Válter quase como um super herói. É como se não tivessem reparado que, o tempo todo, era de ambivalência e ambiguidade que falavam Vince Guillian ( o criador da série) e Cranston em sua interpretação multidimensional. Mesmo nas temporadas finais, quando Válter fica mais Heinsenberg, não desaparece a sombra do medo, da dúvida e da dor em sua face. (Não por acaso, num momento de vitória absoluta, ele tem um curativo no meio da cara, uma lembrança incômoda de sua fragilidade).

Suspeito que essa mesma galera que enaltece o Heinsenberg é a mesma que hostiliza sua esposa, Skyler, creditando a ela a responsabilidade pela infelicidade do Válter, a mulher controladora que o mantém cerceado nos limites de um casamento opressivo. Acho essa uma visão simplista e machista (desculpem a redundância). No casamento, é preciso dois para fracassar ou ser feliz, a culpa nunca é apenas de uma pessoa (eu sei, I’ve been there, e voltei pra contar). Skyler ama Válter profundamente e isso fica claro muito mais por suas ações que pelas palavras. Tenta compreendê-lo e ficar ao seu lado mesmo quando descobre suas atividades. É ela que faz Válter confrontar suas reais motivações quando lhe pregunta “quanto é suficiente”. Enquanto Válter encarna o macho típico na falta de contato com as próprias emoções, no desconhecimento de seus desejos verdadeiros e na ontológica inabilidade de comunicação.

Apesar disso, não o considero um monstro. As circunstâncias e suas escolhas o levaram a fazer coisas monstruosas, mas Válter me parece tão humano quanto eu e você, e é isso que o torna assustador, terrível, e também sedutor. Um mentiroso contumaz cujas mentiras mais graves foram contadas para si mesmo. Valter é ao mesmo tempo seu próprio herói e algoz, na busca por se redimir da sua mediocridade.

Poderia falar muitas outras coisas sobre BrBa, mas a ideia é se despedir, não falar sem parar. Quero destacar apenas mais dois aspectos: Breaking Bad não mima nem subestima a audiência. Os personagens não ficam justificando seus atos, explicando suas razões; muito pelo contrário. Você tira suas conclusões e ao longo da história vai comprovando teorias ou descobrindo mal-entendidos. Talvez por isso até hoje desperte debates apaixonados internet afora.

E por fim, mas não menos importante, Breaking Bad não sucumbiu ao erro comum do universo das séries, que é ser vítima do próprio sucesso. Seu público foi crescendo aos poucos, ao longo das temporadas, mas ali entre a terceira e a quarta já havia quem questionasse o plano do genial Vince Gilligan, de parar na 5ª temporada. Ele se manteve fiel a sua fórmula, sabendo que, como na Química, qualquer alteração muda o resultado final. Vince soube, ao contrário de Válter, a hora certa de parar.

Helê

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