Náufragos

Janeiro, fevereiro, quarentena, dezembro – assim resumiram o ano no reino da concisão, o twitter ( que também é terra das dores mal disfarçadas de deboche). É como se a gente estivesse andando no jardim e cataploft! caímos num buraco feito a Alice – história pela qual, aliás, nunca nutri simpatia. Menos ainda quando a gente cai no país das Milícias e o rei louco é um capitão perverso que não corta a cabeça, mas deixa morrer milhares. 2020 parece uma fenda no tempo, feito “A caverna do dragão” – só que nos falta o Mestre dos Magos, e o Vingador é o presidente, eleito democraticamente.

“Muitos temores nascem do cansaço e da solidão”, diz um texto que eu gosto imenso e ao qual volta e meia recorro como uma oração. Ao final deste ano impensável, acumulo doses excessivas de ambos; temores gigantescos, portanto. Sinto-me exausta, embora tenha sido um tempo de deslocamentos menores. Ficar nunca foi tão custoso. Saudades de todo tipo: miúdas, profundas, recorrentes, aleatórias. A quarentena me conectou mais com algumas pessoas, inesperada e felizmente. Mas de um modo geral deixou mais frouxos todos os laços de afeto – ou esse é apenas mais um dos meus temores.

Há dias em que preferia a tristeza porque ela, em geral, tem RG e endereço conhecido: alguém ou alguma coisa nos entristece. Melhor que essa mistura de melancolia com angústia, esse aperto no peito sem nome ou com muitas caras mas sem definição, esse desassossego, uma inquietação que dá volta em torno de si mesma sem chegar a nenhum lugar, cachorro correndo atrás do rabo. A gente não se livra do que não consegue nomear, nem dá vazão aos sentimentos sem conseguir identificá-los. E faz o que, então? Escreve umas linhas tortas num blogue anacrônico como quem joga uma garrafa ao mar (já que estamos todos náufragos em nós mesmos).

Helê

 

 

 

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