Boas notícias em ano ruim

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Eu já disse em outras ocasiões que fecho com a minha amiga e leitora Ana Paula: esse ano não merece redenção — pelo menos não da nossa parte. Foi um ano ruim e indefensável, sofrido além da conta. E tudo o que aprendemos ou descobrimos com ele a gente preferia que tivesse sido de outro jeito.

Isso posto, eu sugiro fortemente que você ouça esse episódio do podcast do The New York Times, com depoimentos de ouvintes sobre coisas boas que aconteceram neste ano que mais parece um B.O. Corre o risco de você terminar, como eu, com um sorriso no rosto e relembrando alegrias no meio desse mau gosto que foi o ano que ora se encerra (o maior medo de todos é que ele não termine).

O “Daily” é um dos meus podcasts favoritos — foram muitas louças lavadas neste 2020 ouvindo seus episódios, de um jornalismo superior, responsável e sempre criativo. A proposta é simples, quase despretensiosa, e nem mesmo é original: a BBC, que produz muitos e bons podcasts, também pediu aos ouvintes boas histórias, que eu acho que estão sendo transmitidas individualmente, em um ou outro programa. E aqui percebe-se que uma boa ideia é só início de um trabalho bem-feito. No caso da BBC tenho apenas uma vaga lembrança do resultado, enquanto o Daily me fez vir aqui escrever essa recomendação.

Ouvindo “The year in good news”, lembrei muito de um livro adorável do Paul Auster, “Achei que meu pai fosse Deus”, com estórias espetaculares de gente comum. A gente termina a leitura encantado, surpreso e até assustado, mas olhando pra nós mesmo com um olhar curioso e percebendo que coisas grandiosas, interessantes e intensas podem acontecer a todo mundo, todos os dias. No Daily, as histórias de gente como eu e você são ainda mais comuns que nós; mulheres, homens, crianças, idosos, gente de lugares muito diferentes e contextos ainda mais compartilham a alegria de ter concluído uma tese ou terminado um cachecol, de ver o filho aprender a andar de bicicleta, de aprender a tocar instrumento, se apaixonar. Aos 43 do segundo tempo desse ano extraordinário, eu recuperei um pouco da esperança com essas doses de cotidiano, contos da vida ordinária, as pequenas alegrias da vida adulta de que nos fala Emicida. Tempos difíceis podem durar (no Brasil certamente até 2022, pelo menos). Mas não é pra sempre e não é todo dia. Adaptei a frase do Lennon e conclui que a vida (também) é o que acontece enquanto a gente enfrenta uma pandemia.

Agora você, por favor, acrescente uma alegriazinha no meu ano deixando um comentário nesse post: me conte uma coisa boa que você viveu em 2020.

Helê

*No site do jornal, além de ouvir o programa, você tem um texto contando como ele foi feito e a transcrição do áudio, caso perca alguma coisa.

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