Notas sobre um carnaval teórico

Você sabem que eu não sou a pessoa mais animada do bloco quando chega o carnaval.

Mas sou uma carnavalesca teórica. Acho essa festa a coisa mais potente que nosso povo já criou. Adoro a ideia de carnaval, embora não a ponto de ir. (Quer dizer, às vezes eu até vou.)

Um registro meio tremido de uma vez que fui…
… e vários outros direto do baú da Helê, minha guardiã da folia.

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Nos últimos anos tenho me sentido cada vez mais exilada no meu próprio país. Não sei se o povo brasileiro se transformou em alguma coisa horrível com a qual não me identifico, ou se ele sempre foi isso aí mesmo e a elite intelectual à qual pertencemos criou uma fantasia sofisticada de Brasil na qual acreditamos. Só sei que tem sido difícil me sentir parte dessa nacionalidade. Mas o carnaval sempre me lembrava que sou sim brasileira, que tem algo no Brasil-que-toca-bateria que também reverbera aqui dentro.

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Eu adoro os blocos, mas tenho um carinho especial pelo desfile da Sapucaí. Acho aquilo um espetáculo extraordinário, sem igual no mundo.

Ver o vídeo da Alcione cantando sozinha na avenida me derrubou. Mesmo sabendo que é propaganda pra vender mais cerveja, não importa. Chorei demais quando me dei conta do tamanho dessa ausência, desse silêncio forçado que na verdade já começou mas que vai ser mais palpável a partir de hoje.

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Sei que a Helê está sofrendo, nossa Frida carnavalesca de coração, corpo e alma. Ela e outras amigas queridas que vivem o carnaval intensamente. Fico pensando que se eu estou nesse estado de espírito, elas não devem nem conseguir colocar em palavras o que significa um ano sem folia. Talvez isso explique porque é que a Frida menos animada foi quem conseguiu escrever sobre isso.

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Hoje eu assisti uma live da prefeitura do Rio sobre os números da Covid na cidade. Em determinado momento o prefeito pediu para dar um recado (ele queria dizer que estão fiscalizando bailes e festas não autorizadas e que não pode ter aglomeração de nenhum tipo). A gente sabe que Dudu é do balacobaco, que ama carnaval, provavelmente tanto quanto minhas amigas foliãs. Ele começou dizendo mais ou menos o seguinte: “é um ano difícil pra quem gosta de carnaval. Imaginem para mim, que passei quatro anos esperando para dar a chave da cidade ao Rei Momo… O sujeito que veio antes de mim fez tudo pra acabar com o carnaval, e logo no meu primeiro ano, tive que cancelar a festa.”

Se tá ruim pro Dudu, se tá ruim pra Helê, tá ruim pra todos nós. Dá vontade de sair por aí implorando a todo mundo: pelo amor de Dadá, faça esse sacrifício valer a pena, fica em casa e se cuida. Bora curtir esse (espero que) único carnaval teórico de verdade, para que no ano que vem a gente possa se acabar de alegria. Quem sabe até eu me junto à empolgação? Vai ser histórico.

-Monix-

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