Canções de guerra, quem sabe canções do mar

Depois de um longo período sem conseguir me concentrar em nada, nem mesmo no escapismo catártico da ficção, aos poucos estou voltando a consumir alimentos para o espírito. #alertadeclichê

Eu sempre fui devoradora de filmes, séries, livros, e, mais recentemente, podcasts. Por isso, me preocupava um pouco minha total incapacidade de assistir mais de 20 minutos de um filme, minha total falta de vontade de começar uma série por saber que não daria conta de ir adiante, e, claro, minha total falta de foco para ler mais de duas páginas de um livro. Acho que muita gente está assim também, e ter companhia me deu algum conforto, claro. Mas o que realmente me deixou satisfeita foi conseguir, aos poucos e sem explicação, voltar a encontrar prazer nas coisas que sempre amei.

Daí que nos últimos meses vi muita coisa interessante, li um livro lindo que ganhei de presente, maratonei séries, enfim, I’m back :)

Como gosto de anotar o que estou vendo e ouvindo, reparei que nas últimas semanas assisti vários filmes passados mais ou menos na época da II Guerra Mundial — um pouco antes, durante, um pouco depois. (Eu sempre fico impressionada com a capacidade da indústria cultural de produzir infinitas obras sobre os horrores do nazismo. Já houve uma moda de filmes sobre a Guerra do Vietnã, que aconteceu bem depois, e a fase passou. Mas a II Guerra continua rendendo assunto até hoje. E faz sentido: depois de ler Hannah Arendt eu entendi.)

***

Antes de chegar a um conclusão, se é que chegarei, deixo o registro dos filmes que vi (e um que revi) nas últimas semanas sobre esse tema.

Operação Final: agentes do serviço secreto israelense vão à Argentina para capturar e retirar do país o criminoso de guerra Adolf Eichmann (cujo julgamento inspirou outra obra da Hannah Arendt que ainda não li). A operação é bastante questionável do ponto de vista do Direito Internacional (talvez flagrantemente irregular, mas sei lá eu). Mas seus resultados concretos e simbólicos são, esses sim, inquestionáveis.

O Fotógrafo de Mauthausen – espanhóis derrotados na Guerra Civil foram tornados apátridas pelo ditador Franco, e enviados ao campo de concentração de Mauthausen, na Alemanha. Lá, um deles se torna assistente do oficial nazista que fotografava as atrocidades cometidas. Conforme os prisioneiros percebem que o fim da guerra se aproximava, alguns deles se unem na tentativa de preservar os negativos que serviriam (e serviram) de provas nos tribunais do pós-guerra. O filme é baseado em acontecimentos reais, e algumas cenas reproduzem fielmente as fotos tiradas na época.

A Escavação – pouco antes da guerra começar (a Inglaterra já era sobrevoada por ameaçadores aviões alemães), uma viúva, proprietária de terras, decide escavar um terreno onde, segundo a lenda local, havia coisas antigas debaixo da terra. Ela contrata um arqueólogo amador, eles fazem uma descoberta muito importante e o resto é história (e História). A trama não é lá grande coisa, mas as imagens da escavação são sensacionais e valem o filme.

Lida Baarová – em meados da década de 1930, em plena ascensão do nazismo na Alemanha, uma atriz de cinema tcheca, já famosa em Praga, se muda para Berlim na tentativa de ser bem sucedida por lá. Na época, Berlim era um polo cinematográfico que competia com Hollywood — e para a qual perdeu talentos como Fritz Lang e Marlene Dietrich, fato citado em uma das cenas. (Aliás, eu só fiquei sabendo mais sobre essa era de ouro do cinema alemão quando visitei o Museu do Cinema berlinense.) Bom, pra variar, I digress. Voltando ao filme: a atriz Lida Baarová de fato consegue fazer sucesso na capital alemã, tanto que chama a atenção do Führer em pessoa e do poderoso ministro da Propaganda Joseph Goebbels, de quem torna-se amante. A história de Lida é uma história de decisões erradas.

A sociedade literária e a torta de casca de batata – logo após o fim da guerra, uma escritora londrina conhece, através de cartas, um grupo de amigos moradores da ilha de Guernsey, que chegou a ser ocupada pelo exército alemão. Deu vontade de rever um confort movie, escolhi esse. Apesar do tema de guerra, é uma história doce sobre como o amor e a amizade podem surgir em momentos (e por pessoas) que não se espera. O livro, um romance epistolar delicioso, já foi tema de post da Helê.

***

Bom, depois dessa enxurrada de filmes mais ou menos sobre o mesmo tema, alguns mais delicados, outros bastante pesados, me peguei pensando por que será que estou tão interessada na II Guerra Mundial, que nem é um período histórico pelo qual eu tenha uma preferência especial.

E o mais estranho: a vida real está tão difícil, tão complicada, que eu deveria estar buscando conforto na ficção, eu acho. Em vez de assistir a coisas ainda mais horríveis.

Mas talvez seja isso: talvez, de algum forma, saber sobre coisas horríveis pelas quais a humanidade já passou, conhecer aquilo a que sobrevivemos, esteja me ajudando a lidar com nossos tempos duros. Eu ainda quero acreditar que nós somos ação, eles são reação. Eles passarão, nós passarinho.

-Monix-

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