The Xereca Olimpics

Estou morando nas Olimpíadas e não quero voltar. Num relacionamento sério com os Jogos Olímpicos de Tóquio, começo a sofrer por antecipação sabendo do fim. Era pra ser só um casinho sem consequências, uma distração pra parar de passar raiva com esse país truculento e arcaico. Mas aí encontrei um bando de gente simpática, talentosa, amorosa, muitas mulheres, pretas e pretos, nordestinos, lésbicas e as gueis, moleques e molecas que me fizeram torcer por eles. E torço por que? Porque nasceram no mesmo pedaço de terra que eu, falam como eu, e tornam-se campeões apesar disso. Eu num disse que tinha conflitos com patriotismo?

Quem escreve os roteiros do Brasil, precisamos admitir, não é lá muito criativo. Em geral a gente nunca ouviu falar do cara (ou da cara), aí pinta um medalha: viva! brasil! e tal, e aí vamos saber que a cara (ou o cara) não tem patrocício, surfou no isopor, nadou no açude, treinou no terreno baldio etc. E dá-lhe musiquinha triste e elogio à meritocracia. Vendo as histórias de superação de nove em cada 10 atletas brasileiros fiquei imaginando como seria ganhar sem drama, sem ter que lutar para sobreviver AND para treinar. Aí vi as moças que ganharam na vela, Martine e Kaena, e descobri que também pode ser bonito e emocionante. A gente não precisa sofrer tanto pra ser feliz. Ainda mais no esporte, que já tem naturalmente uma intensa carga dramática, baseado que é na superação – do corpo, do tempo, do outro.

E nesta edição ainda foi preciso superar um micróbio FDP e governos idem (nessa modalidade somos ouro, mas não estamos sós), o que provavelmente explica um clima de companherismo inédito nos Jogos. No começo parecia que era coisa da galera do skate, melhor em tudo, total relaxada e parça. Mas depois reparei na ginástica, que sempre teve uma vibe mega tensa, no judô, no atletismo, vários gestos de atletas que iam além da gentileza educada. Imagino que há uma mistura de alegria e celebração por terem conseguido chegar até ali. Desta vez, de um modo inédito, todo mundo enfrentou um adversário comum.

Nós brasileiros começamos festejando a vitória da menina de 13 anos mas também comentando a conjugação do inusitado verbo xerecar (v. intransitivo) no skate (sempre ele). Depois, Rebeca Andrade ganhou duas medalhas (e disse o tuiter que não trouxe a terceira pra evitar excesso de bagagem). Mayra Aguiar conquistou o terceiro bronze olímpico da carreira. Já temos encaminhada uma medalha no boxe feminino e no vôlei de quadra só as mulheres ainda podem trazer ouro ou prata. Além das já citadas velejadoras, conhecemos, torcemos e vibramos, mais ou menos nesse espaço de tempo, Ana Marcela – que quase acabou com meu fôlego, mesmo ela lá e eu no sofá. E que dedicou a medalha à namorada. Fora a menção do Alison, do vôlei de praia, ao pedir gentilmente mais tranquilidade pro parceiro (“Calma, buceta!”). São ou não the Xereca Olimpics?

Se, como ensina Angela Davis, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”, imagina o que acontece quando ela voa, como graciosamente fez a Rebeca. Minha torcida por ela continua e se intensifica agora, que ela passa a ter um imenso holofote a acompanhá-la. Por mais resiliente que tenha se mostrado, nada prepara totalmente alguém para isso, tá aí a Simone Biles que não me deixa mentir. Uma mulher incomoda muita gente. Uma mulher negra bem-sucedida incomoda muito mais. Li que Biles usou em seu collant uma cabra de strass [em inglês, goat – great of all times, o maior de todos os tempos, uma gíria do esporte comum entre machos como Neymar e Cristiano Ronaldo]. Na prova em que ousou usar o desenho pela primeira vez, mesmo fazendo um exercício nunca feito por uma mulher na história da ginástica, ficou com uma pontuação 6.6. É com esse tipo de coisa, que um atleta branco jamais enfrenta, que Biles tem que lidar, além de todas as outras de qualquer atleta de excelência. Rebeca Andrade, apesar do jeito sorridente e terno, deu algumas respostas que fogem um pouco da esquema gratidão religiosa submissa (ainda bem!). Dizer “eu agradeço por ter tido inteligência de aproveitar as oportunidades” é mais elaborado e consciente do que apenas jogar tudo na conta do Senhor. Tem capacidade para não ser manipulada pelos insaciáveis interesses que se moverão em sua direção, mas nem todos em seu benefício. Permaneço, portanto, na torcida!

E acho que foi a mãe da Mary W. que comentou esse feito incrível, mudar a imagem da ginástica artística. Os da minha idade se acostumaram a ver um esporte de gente branca de nome difícil, de lugares muito distantes, e sisudos. E primeiro a Daiane dos Santos, e agora a Rebeca alteraram a referência no imaginário de algumas gerações para um esporte de mulheres negras, sorridentes e felizes. E fodas. Isso não tem preço. (Péra que entrou um cisco aqui) Se você , como eu, também achava que a Daiane era medalhista olímpica, deve ser por coisas como esse vídeo aqui, do qual eu não lembrava, mas que a laureou para sempre no meu registro:

Mamãe, agora sem as mãos. Agora sem música!

Ah, o skate trouxe mesmo um frescor para os jogos que nem sei se estávamos preparados – nós, público, acho que sim, mas os comitês/confederações eu não sei, me pareciam sempre um pouco assustados na hora do pódio, com medo de receber um abraço indevido ou hangloose mais expansivo. Foi ótimo ver essa galera xóvem e diversa, totalmente à vontade numa coisa que todo mundo estava jogando uma megaexpectativa. Faz pensar o que é próprio da modalidade e o que se deve à estreia – teriam os outros esportes sido também mais soltos nos seus primórdios? O skate apresentou outras formas de ser profissional, de competir, de se concentrar. E de se divertir, que afinal era o objetivo inicial da coisa toda, não?

Helê

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3 Respostas

  1. […] Xereca Olimpics. What a fuck, 2021? YouTube, meu canal de TV. Zé recuperado! […]

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  2. Helê, ia comentar semana passada, mas minha bateria acabou: faria uma menção honrosa ao Paulinho saudando Exu lindamente e comemorando gol lançando a flecha de papai Oxóssi num ambiente dominado por evangélicos. Nunca foi sorte, sempre foi Exu. Muita gente sabe disso, mas não tinha coragem de dizer.

    Tem toda razão, Rê, faltou mesmo! É que a seleção de futebol é tão à parte de tudo! Mas Paulinho mereceu, seu gesto tem um valor imenso!
    Bom te ver por aqui! Beijoca.
    Helê

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  3. Medalha de ouro para esse texto delicioso! Também fui tragada pelas Olimpíadas!

    Obrigada, querida” Medalha, medalha, medalha (com a voz do Mutley! :-D )
    Beijoca!
    H.

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