Quarta

Quarta-feira – e nem de cinzas é. (Se fosse, haveria uns bloquinhos carnavalescos desgarrados pela cidade, sempre um tantinho melancólicos em negação inútil e rebeldia inofensiva, mas renitentes e divertidos). Alguém já disse que é o pior dia da semana esse que fica igualmente distante do começo e do fim, quando a gente parece que já não está, mas ainda nem. De certo modo, é como se estivéssemos todos em uma looonga quarta-feira, as lembranças já começam a amarelar sem que a gente seja capaz de sonhar novos sonhos.

Tempos atrás – quando completamos cem dias disso que nenhum nome mais dá conta – eu disse que nadávamos sem mar à vista, tarefa ingrata até pra Phelps Ana Marcela. Agora avistamos montes aqui e ali – há até quem acene das bordas, pulando serelepe (prestes a cair na água, os incautos). Mas nadamos contra correntezas, a sensação persistente de que não saímos do lugar, ou que nos movemos muito pouco.

Uma quarta-feira loooonga demais. Mais do mesmo. Variantes de vírus vencem, quando precisávamos variar as saídas, as soluções  – e de meia dúzia de heróis, já que os vilões  se multiplicam sem controle nem constrangimento.

Cansaço abissal que já não é apenas desse país tacanho, mas da vilania do mundo, talebãs e tal. Sempre que inspiro mais fundo vira um suspiro, como se eu respirasse saudade. Aperfeiçoo, contra a minha vontade, a arte de perder sobre a qual Bishop falou melhor que ninguém. 

Mas sigo. Sístole e diástole, ou algo perto disso. Setembro vem aí, e ele, em geral, não me decepciona. Por favor, capriche na primavera e mantenha sua reputação.

Helê

 

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