Ouvir estrelas

Ora direis ouvir estrelas? Certo perdeste o senso mas não, estou falando da nossa nova empreitada midiática, o nosso pedido, aguardado, adiado e esperado podcast! (Se você não concorda com ‘estrelas’ sinto muito, acordei com a autoestima desregulada).

É com a alma lavada, enxaguada e quarada ao sol que comunico que está no ar o primeiro episódio do Duas Fridas podcast, que você pode ouvir no Spotify. Ainda incorporando o Odorico Paraguaçu, adianto que neste formato podcastal vamos manter a mesma linha editorial do blogue, ou seja: falar sobre tudo o que nos der na telha, com o auxílio luxuoso de vossas sugestões e comentários. Então, sem mais delongas, corre lá pra ouvir e depois passa aqui pra deixar pegada, combinado?

Helê

Fé, rituais e liturgias

Eu tenho esse hábito: sempre que preciso, peço à d. Mamãe pra incluir alguém nas orações dela (como fiz esta semana, com o coração apertado). Embora eu também reze – na maioria das vezes, de maneiras não-ortodoxas – recorrer à minha mãe me parece uma providência necessária e efetiva, como se estivesse recorrendo a uma instância superior (exatamente o que a mãe é, ora bolas)

Não sei exatamente quando nem como começou, mas vem de longe. Lembro vagamente de pedir na adolescência por amigos que iam fazer uma prova; mais tarde passaram a almejar empregos ou alugar um apê. Com o tempo as requisições foram ficando mais graves, urgentes, próximas. Passei a pedir sorte num exame ou tratamento, primeiro para os pais de amigos, depois para os próprios. (Como se pode imaginar, dona Mamãe andou sobrecarregada nos últimos meses).

Minha mãe recebe os pedidos e reza. E continua rezando, até que eu a libere; às vezes esqueço e ela também. Meses depois, pergunta: E fulano, conseguiu o emprego? Terminou o tratamento? Ela pode esquecer de me perguntar, de rezar, nunca; segue capricornianamente disciplinada e fiel. Houve uma época em que participava de um grupo espírita que aceitava pedido de reza, mas pediam nome completo, até o número do quarto do paciente. Eu achava meio burocratas esses espíritos, dava as informações que tinha para minha mãe e pronto, minha fé sempre foi na fé dela; o resto eram coadjuvantes (bem-vindos, claro, nesse departamento a gente não dispensa ajuda).

Mas é que existe algo de especial nesse nosso ritual, essa liturgia inventada, no ato de pedir pra mãe rezar por alguém – que na maioria da vezes ela não conhece, mas por quem intercede com fervor, indiscriminadamente. É a primeira coisa que penso em fazer quando um amigo está necessitado; para os mais íntimos chego a tranquilizar: Pode deixar, já pedi pra minha mãe rezar. Como se. Mas pra mim sim, pelo menos temporariamente, restabelece o equilíbio das coisas.

(Claro que agora me ocorre a lembrança de Nossa Senhora, a mãe de todos. Certeza que toda mãe tem sim, em função do cargo, uma preferencial com o Todo Poderoso, como me ensinou não a Bíblia ou a igraja católica, mas o Ariano Suassuna e a Fernandona) .

Eu, já mãe e ainda filha, acredito em muitas forças. Acredito em Deus, deusas, energias, vibrações, na minha mãe e em sua fé. E nesse fio de amor que e gente estica entre o sagrado e quem a gente quer bem.

#ForçaZé!

Helê

Gilberto Gil imortal

Eleito para ABL – que sorte da Academia!

Helê

Marília

Há coisa de uns meses atrás (talvez mais, como medir o tempo com precisão depois de um ano e oito meses de infinitena?) ouvi falar no nome dela pela primeira vez, na tela inicial da GloboPlay. Pela ênfase dada à divulgação da série documental, parecia alguém importante. Dividida entre a curiosidade por saber do que é popular e a preguiça de conhecer coisas novas, fui vencida pela segunda. Em pouco tempo, os destaques do serviço de streaming mudaram, a fila andou, enfim, ela saiu de novo do meu radar.

Sexta-feira passei o dia concentrada no trabalho, e só no fim da tarde, em uma breve olhada nas mensagens, fiquei sabendo: primeiro de um acidente ao qual ela supostamente havia sobrevivido; depois, a retificação e a confirmação da tragédia.

Mas só aos poucos fui entendendo o tamanho que tinha Marília Mendonça. E minha ignorância diz muito sobre mim, sobre o quanto minha percepção do mundo é limitada por uma experiência de vida meio-intelectual-meio-de-esquerda (e também meio-MPB-meio-rock’n’roll), mas também diz muito sobre as bolhas e o quanto é fácil se estar completamente alienada de um fenômeno popular dessa magnitude, sem nem ao menos saber que se está por fora.

No programa Lady Night, em 2018

Hoje voltei na GloboPlay e a série da Marília estava novamente em destaque. Mesmo que não estivesse, eu procuraria por ela — entrei no streaming para isso. Assisti os quatro episódios de uma só vez e fiquei ainda mais espantada com o fato de ter, durante anos, veja bem, anos, pois pelo menos desde 2015 essa mulher é um sucesso retumbante, ignorado sua existência. Nem entro no mérito de gostar ou não de suas músicas (não é meu estilo musical preferido, mas feminejo é mais divertido que o sertanejo universitário e outros subgêneros, então sim, curto levemente, digamos assim). O ponto é sobre como é possível que pessoas bem informadas — outras como eu admitiram, nos últimos dias, o mesmo desconhecimento — estarem totalmente desatentas a um fenômeno desta proporção. Na época da comunicação de massas, se um artista alcançasse o topo, como ela alcançou, todos saberíamos.

Em 2017, na Expo Araçatuba

Essa moça bonita, carismática, de voz potente e energia incansável, se foi cedo demais, mas deu tempo de deixar sua marca na história musical de um país que tem grandes nomes nessa arte. Assistindo a série, aprendi muito sobre quem ela era: acima de tudo, alguém que se conectava com as pessoas de uma maneira única. E isso não é pouca coisa, especialmente em tempos tão dominados pelo narcisismo. Vai fazer falta.

-Monix-

Ainda o mar

Alertada pela Manu, eu passei a acompanhar a Tamara Klink na travessia que ela acaba de concluir, viajando sozinha num veleiro, vindo da França até o Recife. Peguei a viagem mais ou menos no meio do caminho; quando me juntei ao cardume de leitores e leitoras ela já havia deixado Nantes e fazia uma parada na Espanha, se não me engano. Só poucos dias antes da chegada descobri como acompanhar a rota do Sardinha, seu barco, via GPS, e então quase todo dia eu ia lá espiar em que ponto do Atlântico ela estava. E essa é a primeira das muitas e inevitáveis comparações com as viagens de seu pai, Amyr: no caso dele, era preciso esperar que elas terminassem e virassem livro para que a gente pudesse embarcar.

Tamara tem desenvoltura com os instumentos de navegação e também com as palavras: seus relatos quase sempre poéticos, mesmo que em prosa, não deixavam de captar a dimensão filosófica e transcendente de sua empreitada, uma jovem mulher de apenas 24 anos cruzando um oceano inteiro por conta própria. Observar a trajetória dessa moça tem um sabor todo especial para quem, como eu, navegou durantes anos entre as páginas dos livros de seu pai. Tenho a sensação parecida com a que tenho com as conquistas dos filhos de amigos: a (ilusão de) proximidade, a alegria por uma vitória que é dela, mas que perpassa também seu pai, de muitas e insondáveis maneiras.

Tenho um profundo respeito e admiração pelo Amyr Klink (foi a última pessoa a quem pedi um autógrafo; antes dele, só para o Veríssimo, pra você ter uma ideia). Seus livros me lançaram em paisagens nunca antes lidas e foram passaporte para muitas outras histórias incríveis sobre a descoberta dos polos ou a ascenção ao Everest. Assitir agora, na palma da minha mão, sua filha chegando em tempo real depois de uma temerosa e bem-sucedida jornada me comove um bocadinho, me fala sobre o tempo, tempo, mano velho correndo macio e sendo legal, me deixando testemunhar uma outra geração Klink de desbravadores – daqui do alto das minhas próprias conquistas, também vendo herdeira dando os primeiros passos para zarpar logo vida a fora. E enquanto escrevo lembro, pra deixar redondo esse moto-contínuo que é o tempo e seus assombros, que presenteei a Manu, anos atrás, exatamente com o “Cem dias entre céu e mar”, que ela de certa forma me devolve ao me contar da Tamara e sua travessia, que atravessa minha vida trazendo frescor, esperança e gratidão.

Helê

PS: E por alguma dessas coincidências da vida, o post sobre o autógrafo do Amyr foi publicado há exatos quatro anos. 

Sonhador

Arte de natibassanesi

Da série Corações

Helê

Bem-aventurades

(Arte da lauraberbert)

Helê

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