O não-carnaval

Se a guerra for declarada
Em pleno domingo de carnaval
Verás que um filho não foge à luta
Brasil, recruta
O teu pessoal

Se a terra anda ameaçada
De se acabar numa explosão de sal
Se aliste, meu camarada
A gente vai salvar o nosso carnaval

Alguém sugeriu que, já que vai ter guerra mesmo, deviam então liberar o carnaval (foi no tuíter, claro, aquele repositório de sabedoria e bobagens). Desde então eu não tiro da cabeça essa marchinha deliciosa do Chico, na qual a tropa do general da banda dança o samba em Berlim, a melindrosa manda bala e a rajada é de tamborim.

Caminhando para o terceiro ano de pandemia temos novamente o carnaval cancelado – mas se pagar, pode. Suspensos o desfile das escolas e o esparramar dos blocos, multiplicam-se programações pagas pela cidade, porque o coranavírus, como se sabe, só funciona em eventos gratuitos. Surgem também, aqui e ali, uns subversivos que insistem em ir às ruas, e assim o carnaval popular carioca entra na clandestinidade – algo que eu nunca pensei que veria.

Mas o Francis Hime, parceiro de Chico, perguntou há tempo atrás, numa canção repleta de absurdos, “e se o carnaval cair em abril?” , e é para este mês que foi transferido o desfile na Sapucaí. E não podemos esquecer que o Botafogo foi campeão (da segunda divisão, mas o Francis não especificou). Então eu já não duvido de mais nada, e torço pro meu amor gostar, então, de mim.

Não consigo evitar a melancolia desses dias, um banzo orgânico e incontornável. Não julgo quem vai pra folia, pagando ou escondido; condeno o poder público, incapaz de exercer a autoridade concedida pela população para protegê-la. Para mim não funciona esse carnaval meia boca, fantasia é muito diferente de disfarce. Eu quero ver cada paralelepípedo dessa cidade se arrepiar, quero botar o bloco na rua, festejar o teu sofrer, o teu penar, ser rainha no meio de uma gente tão modesta. Na rua e sem medo.

Pretendo encontrar uns poucos amigos, tomar algumas cervejas e dar um grito de Carnaval (só um, pra não espantar a clientela do bar). Vou aproveitar para discuitr com outro foliões desterrados nomes de não-blocos, como Náufragos da Alegria, Se melhorar eu volto, Abstêmios da Folia, Órfãos de Momo, Me beija que eu tô vacinada, Sambistas da Saudade. Uma brincadeira melancólica, mas é o que temos para hoje.

Sigo torcendo para que em 2023 a gente volte pra rua com alegria e fervor. Até lá, vou continuar me guardando pra quando o carnaval chegar.

Helê

Lançando filhos, criando foguetes

Raising a kid is like sending a rocket ship to the moon. You spend the early years in constant contact, and then one day, around the teenage years, they go around the dark side and they’re gone. And all you can do is wait for that faint signal that says they’re coming back.

Modern Family, Claire citando Phill Dumphy

Eu amo essa fala desde a primeira vez que ouvi. Considero um ótimo exemplo da qualidade do texto de Modern Family, e também da sua capacidade única de nos fazer rir com os olhos cheios d’água. É engraçado, divertido, e incomodamente verdadeiro. A gente começa a ler rindo, e termina apenas concordando – e torcendo pelo sinal. (Acho o texto tão bem escrito que não quis bulir nele traduzindo, o Google Tradutor pode ajudar, se preciso.)

Claro que existem variações de tons dentro do quadro pintado com essas imagens. Nem todas as crianças que conheço viraram ogros distantes na adolescência (na verdade, bem poucos). E ‘dark side’ pode incluir um leque variado de significados. Mas acho acho muito preciso o conceito geral, a ideia de criar filhos sendo desde sempre a preparação para uma separação, um lançamento; e o contato, inevitavemente se perderá. A conexão precisará ser refeita em outros termos, com o filho desenhando a sua própria órbita.

Não é fácil – mas ninguém disse que seria. Pode acontecer na adolescência, pode ser adiado para um pouco depois, mas também pode acontecer aos poucos, com a entrada na faculdade, a estreia excitada, titubeante e assustada no desejado mundo dos adultos. Nada impede que chegue muito antes da chamada Síndrome do Ninho Vazio. A certa altura, os filhos vão pedindo espaço e estabelecendo distâncias, com maior ou menor suavidade. Sentimos a movimentação das placas tectônicas dos afetos, atenções, prioridades. Deixar de ocupar o lugar de privilégio afetivo e fazer a transição para um outro, ainda a ser estruturado, traz um sentimento de perda inevitável e pode ser bastante assustador. Mas a experiência de educar filho é toda alicerçada no paradoxo de cuidar de alguém tão bem que ele não precise mais de você.

Assim, as placas tectônicas se movem e se acomodam, enquanto a gente torce para que o magma do amor nos mantenha aquecidos e conectados.

Helê, que só outro dia ouviu Wild Word na primeira pessoa.

Yemanjá, a rainha do mar

Do Pinterest

Odo Yá!

Helê

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