Uma Monica inesquecível (pelos motivos errados)

Em 1998, eu tinha pouco menos de 30 anos e trabalhava como editora de um telejornal na finada TV Manchete. Por isso, quando estourou um escândalo envolvendo uma mulher quase da minha idade e com o mesmo nome que eu, naturalmente aquilo me interessou, não só como jornalista, mas também nos aspectos mais subjetivos da história. Talvez seja por isso que, vinte e quatro anos depois, ainda tenho a lembrança de algumas sensações. Numa época em que a gente não conhecia termos para definir coisas terríveis, como por exemplo o slut shamig, eu ficava bastante incomodada com a destruição da reputação de uma moça jovem, que claramente estava sendo atacada em um nível muito pessoal. Pensava que a sociedade americana era moldada por um puritanismo excessivo: um caso do presidente com uma estagiária não me parecia um motivo assim tão relevante para derrubar um governo. (Não me lembro de ter ficado particularmente impressionada com a assimetria de posições de poder entre os dois; hoje este com certeza seria o primeiro aspecto do caso a me chamar a atenção).

Se você nasceu antes de 1980, essa foto não precisa de legenda

Tenho uma memória vívida de muitas reflexões sobre como os Clinton eram o retrato de uma geração que viveu várias quebras de paradigmas no comportamento sexual e afetivo, mas que na real não tinha mudado tanta coisa assim. Lá estava o marido cheio de histórias sobre casos extraconjugais, e a mulher aparentemente aturando tudo em nome da carreira dele e da preservação da família. (Depois repensei essa impressão, e hoje acredito que a questão é um pouco mais complexa que isso, mas talvez esse seja um tema para outro post.)

Enfim, o tempo passou, o ciclo da notícia se esgotou, e parecia que o assunto estava encerrado. Mas em 2015, Monica Lewinsky ressurgiu em um TED Talk bastante impressionante, em que ela se coloca como a “paciente zero” do ciberbullying. Ela fala com uma tranquilidade inesperada sobre as consequências da humilhação pública, em escala global, à qual foi submetida. Fiquei surpresa ao saber que ela não trocou de nome, não tentou mudar a aparência, e que se apresentava diante de uma plateia que certamente sabia detalhes sórdidos de sua vida pessoal. Depois dela, a cultura da humilhação na internet tomou outras proporções, muitas pessoas foram vítimas de exposições cruéis de suas histórias íntimas, e Lewinsky queria convidar as pessoas a refletir sobre compaixão e empatia. Em 2021, assisti ao documentário 15 Minutes of Shame, produzido por ela, em que os mesmos temas são abordados com mais profundidade.

Essa é Monica Lewinsky, alguns anos atrás

Neste fim de semana, maratonei a série Impeachment – American Crime Story, que conta de forma dramatizada a história do escândalo, acompanhando de perto as trajetórias de três mulheres que estiveram no centro dos acontecimentos: além de Monica, há Paula Jones e Linda Tripp. É curioso o modo como a série retrata as relações entre as mulheres envolvidas no caso, especialmente porque há outras, que manipulam a situação para obter benefícios pessoais ou políticos. A série se baseia no noticiário da época e em um livro chamado A Vast Conspiracy: the real story of the sex scandal that nearly brought down a president. O enfoque é bem esse mesmo: a série defende a tese de que aquilo que me parecia, na época, um excesso de puritanismo da sociedade americana, na verdade tinha muito mais motivações políticas que moralistas.

Monica Lewinsky, que é coprodutora da série, tem um nome e um rosto inesquecíveis. O “crime” que ela cometeu, além de se apaixonar pela pessoa pessoa errada, foi assinar um papel negando tudo, na tentativa de se preservar. Os erros que cometeu aos vinte e poucos anos a perseguem até hoje. Poucas pessoas, nesse momento histórico da virada entre dois séculos, me parecem tão interessantes quanto ela.

-Monix-

Aqui estamos, no nos vamos

A semi retrospectiva de la Otra me lembrou desse clipe, que foi uma das coisas mais impactantes e bacanas que vi este ano. Pensei em postar várias vezes, sozinho ou como parte de um post falando de outras coisas mas acabei não fazendo. E essa obra de arte que merece e precisa ser vista pelo maior número de pessoas possível. Sobretudo porque fala da América Latina e de nós como latino-americanos, essa identidade que desprezamos mas que nos identifica irremediavelmente, como fica evidente no vídeo.

A esta altura já não lembro mais como esbarrei no clipe, já que sofro da mesma alienação que critico e sei muito pouco sobre a produção cultural dos nossos vizinhos. Mas por sorte esse me alcançou e foi uma leve obsessão por alguns dias. A Eva Uviedo, já não bastasse desenhar divinamente, escreveu muito bem sobre o que vemos na tela; há fios no tuíter e vídeos no YouTube que também buscam desvelar as imagens e suas referências: são muitas, e é preciso um guia para perceber todas. Algumas cenas são bem fortes, é bom se que diga – mas todas justificadas dentro na narrativa muito bem costurada pelo rapper, que unifica nossas dores e tragédias.

Acho importante ressaltar o que Residente disse em entrevistas: ele não está propriamente contestando o clipe de This is America, de Childish Gambino (também excelente), mas estabelecendo com ele um diálogo, ao lembrar que América vai do Canadá à Terra do Fogo.

Você já tinha visto? O que achou?

Helê

Semi-retrospectiva (na metade de 2022)

Sempre tive o costume de anotar filmes, livros, eventos culturais que vejo, leio, assisto, compareço. No final do ano, transformo essas anotações em retrospectivas aqui no Dufas, seja para registrar e me lembrar, seja pra deixar aí como dicas pra quem se interessar.

Este ano, em vez de anotar em uma agenda ou caderno de papel, como era meu hábito, estou fazendo isso num quadro do Trello (meu vício atual, não vivo sem ele). Não sei se pela facilidade de anotar tudo por conta da onipresença do celular ou se pelo esforço deliberado que venho fazendo para acompanhar menos notícias, o que gerou um tempo livre “extra” no fim de cada dia… fato é que minha lista de vistos e lidos já está gigantesca e mal passamos da metade do ano.

Olhando pra essa lista e pensando na preguiça que eu teria de fazer a mãe de todas as retrospectivas no final do ano, resolvi me antecipar e já soltar uma semi-retrospectiva. Se alguém tiver curiosidade e fôlego pra chegar até o final, me contem nos comentários se gostaram (ou não) de alguma coisa.

Livros

Essa Dama Bate Bué – li em janeiro esse, que recomendei até no nosso podcast. Foi a primeira obra de uma série involuntária de leituras sobre a colonização e seus efeitos. Me transportou para Luanda e eu reconheci muito do meu Rio de Janeiro por lá.

Cachorro Velho – segundo livro dessa minha série pessoal com histórias de quem foi colonizado, e não dos colonizadores. A obra, que ganhou o prêmio Casa de Las Américas, se passa em Cuba, mas o tempo todo eu li pensando num engenho de cana por aqui mesmo. Somos todos resultado dos mesmos sofrimentos.

O Som do Rugido da Onça – para completar essa trilogia involuntária sobre a herança (maldita) colonial, foi a vez da ficção alcançar as histórias de indígenas e nossa relação ancestral com suas culturas, mesmo que a gente esqueça disso tantas vezes.

Viver É Melhor Que Sonhar – mudando de assunto, peguei essa biografia do incrível Belchior, que conta principalmente a vida do artista no período em que ele desapareceu dos holofotes e passou por uma experiência que, se não podemos chamar de loucura, não sei que nome tem.

Meu Muito Querido Pedro – engraçado, acabei de me dar conta que depois das leituras, digamos assim, pós-coloniais, encarei uma pequena série sobre mulheres da realeza. A primeira foi a Imperatriz Leopoldina, cuja história é pouco conhecida por nós brasileiros e foi desvelada nessa pequena pérola da Drops Editora, da nossa querida Fal.

Maria Stuart – a segunda rainha que fui conhecer é conhecida como Mary, Queen of Scots. A biografia, escrita por Stefan Zweig, mostra uma personalidade interessantíssima. Se tivesse nascido homem, Mary seria tipo um Henrique VIII da Escócia, e provavelmente sua vida teria um final bem menos trágico.

Claraboia – um delicado Saramago que permaneceu inédito até a morte do autor.

Meninas – este livro de contos da escritora russa Liudmila Ulítskaia traz um retrato singelo e intenso sobre a infância sob o stalinismo na antiga União Soviética.

Querido Lula – escrevi sobre o livro aqui.

Filmes

Netflix

A Filha Perdida – mais uma história de Elena Ferrante, mais uma mulher atormentada. Ferrante é tipo ame ou odeie. Veja e descubra qual é seu time. Só um aviso: tem Olivia Colman arrasando, como sempre, então, sei lá, acho que a chance de gostar é tipo bem grande.

Imperdoável – um thriller sem grandes pretensões, com mais uma boa atuação da Sandra Bullock.

Axé: canto do povo de um lugar – quem escuta um axé e não tem vontade de sair dançando, desculpe, só pode ser doente do pé. Esse documentário conta a história do gênero mais alto astral da música brasileira.

O Guia da Família Perfeita – essa “dramédia” não vai mudar a vida de ninguém. Mas às vezes a gente só quer passar o tempo assistindo algo sério e divertido ao mesmo tempo, sabe. Gosto dessas surpresinhas despretensiosas da Netflix, especialmente quando vêm de países que a gente não costuma ver no cinemão. Essa é do Canadá.

The House – essa animação stop-motion em três capítulos mostra três histórias possíveis em uma mesma casa, em diferentes épocas. Todas bastante surreais e muito bem contadas.

América Latina para Imbecis – o comediante John Leguizamo só precisa de um quadro-negro e uns pedaços de giz para recontar três mil anos de história do nosso continente.

O Barato de Iacanaga – que Rock in Rio que nada. O festival de música mais incrível deste país aconteceu em uma fazenda no interior de São Paulo, produzido com a cara e a coragem. Esse documentário conta a história do Festival de Águas Claras, o “woodstock brasileiro”.

Contra o Gelo – a editoria “exploradores da natureza” é com a Helê, mas esse filme conta uma história tão incrível que me deixou alguns dias levemente obcecada por essa expedição à Groenlândia (e suas implicações).

Munich e O Soldado Que Nunca Existiu – esses dois são da editoria “nós contra o nazismo”. Para mim, mais interessante que os filmes em guerra propriamente ditos é o fato de que, quase 80 anos depois do fim da II Guerra, ainda existam incontáveis filmes sendo feitos sobre o assunto. Talvez um dia eu escreva um post com meus dois centavos sobre o assunto ;)

Our Father – esse documentário conta a história mais bizarra dessa retrospectiva. É um daqueles casos que, se fosse ficção, a gente diria que é inverossímil; como aconteceu na vida real, só nos resta acreditar.

HBO

Confisco – documentário sobre o inacreditável período da história em que o governo brasileiro achou por bem confiscar o dinheiro de todas as contas bancárias, de pessoas físicas e jurídicas, e só devolver um ano e meio depois, quando o valor tinha virado (quase) pó.

King Richard: criando campeãs – opinião polêmica: onde todo mundo viu um filme sobre uma linda história de superação, eu vi um pai com tendências claramente abusivas empurrando as filhas (Serena e Venus Williams) para uma trajetória obviamente bem sucedida, mas sabe-se lá a que custo. Ou não. O que você achou?

Globoplay

Agente Duplo – indicado ao Oscar de melhor documentário, esse filme chileno borra a fronteira entre o que é real e espontâneo e o que é ensaiado, brinca com a dúvida (será que a narrativa apresenta é honesta mesmo?, a gente pensa o tempo todo), e tudo isso para mostrar que às vezes o vilão da história está bem perto de nós mesmos (talvez até dentro de nós).

Storm Video – mais um documentário, dessa vez sobre aquela que talvez seja a última videolocadora do Rio de Janeiro. Em pleno ano de 2022, a existência da Storm Video parece algo surreal. As instalações parecem cenográficas. O dono parece uma personagem. Mas, até prova em contrário, é tudo verdade.

Eles Não Usam Black-Tie – um dos filmes mais aclamados do cinema brasileiro, e eu nunca tinha assistido. A versão que está na Globoplay foi restaurada digitalmente em 2007 e tem uma qualidade muito boa.

O Lobby do Batom – já escrevi sobre esse filme aqui.

8 presidentes 1 juramento – a dolorida história da redemocratização brasileira é contada através dos presidentes que tivemos. Montanha russa emocional define.

Amazon Prime Video

Coda – poderia ser apenas um belo filme tipo Sessão da Tarde, e de certa forma é, mas levou o Oscar de Melhor Filme em 2022. e, convenhamos, em 2022 tudo o que estamos precisando é de um pouco do clima de sessão da tarde.

Disney+

West Side Story – Steven Spielberg decidiu refilmar um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos. Deu certo? Claro que sim.

No cinema (sim, eu tomei coragem e voltei às salas de projeção, com máscara e tudo)

Medida Provisória – uma distopia de um futuro próximo/alternativo, que é na verdade uma alegoria do tempo presente. Já está na Globoplay.

Amigo Secreto – um documentário que conta os bastidores da Vaza Jato, a aliança entre veículos jornalísticos que denunciou e documentou os abusos cometidos pela operação Lava Jato.

Séries

Netflix

Queer Eye (sempre)

Como se Tornar um Tirano (falei sobre a série aqui)

Anatomia de um Escândalo

Grace and Frankie (última temporada)

HBO

The Gilded Age (para os órfãos de Downton Abbey)

It’s a Sin

Julia

My Brilliant Friend

A Escada

Hacks

Globoplay

Avisa Lá Que Eu Vou (se você tiver que escolher só uma série da lista, escolha essa)

O Canto Livre de Nara Leão

Expedição Rio

Elza e Mané e Casão

Queer Eye (sempre)

Amazon Prime Video

Em Casa com os Gil (errei, se tiver que escolher só uma série, escolha esta, sem dúvida. Escrevemos sobre ela aqui e aqui)

The Marvelous Mrs Maisel

Em dezembro tem mais (ou não)!

-Monix-

Gil e nós

Ao contrário de boa parte do tuíter, eu não quero entrar para a família Gil, nem acho que eles são excepcionais. Na verdade, nessa família genuninamente musical, oriunda de um gênio do ofício, me encantou tudo de ordinário que aparece, comum a todas as famílias. As tensões gerenciadas, os desabafos emocionais, as mágoas confessadas, as lágrimas incontidas, as gargalhadas memoráveis. Observar a família Gil me fez lembrar da minha própria família, origem, ramificações, agregados, separações e reuniões. E talvez esse tenha sido o gancho que nos prendeu a todos logo de cara: fomos interessados no Gil e na música, mas foram as relações e os afetos que nos fisgaram, humanos gregários que somos. Sem esperar, encontramos um espelho.

*

“Viva a nossa família, viva todas as famílias!”, exalta Gil a certa altura. Não deixo de observar a ironia de um músico revolucionário e contestador como ele (e também Caetano, cantando com os filhos) que chega ao anoitecer da vida louvando essa estrutura naturalmente conservadora. Mas Gil ensina que a única coisa permanente na vida é a mudança. E essa família sorridente da foto é resultado de pelo menos três casamentos. Que topou a proposta considerando que, talvez, o clima pudesse pesar, como alguém confessa, no final. Então sim, viva a família: a família de verdade, cheia de falhas e de força, cujas bases se alicerçam no afeto, acima de qualquer coisa. Sem isso não vale a pena, e nem família é.

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Se há um viés de homenagem e reconhecimento a um músico extraordinário, há, inevitavelmente, um sopro de despedida na celebração do nosso Griô maior. Aos 80 anos, aumentam as chances de passarmos dessa para outra, por assim dizer; a sombra do final permanece à espreita. Não damos muita bola pra ela, mas sabemos, nós e eles – filhas, filhos, netos e etc. – da oportunidade preciosa que estamos tendo de observá-lo e expressar de algum modo nosso amor e gratidão.

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Também preciso admitir que ter mais de 50 anos, ou seja, estar no segundo tempo da vida, afeta de um jeito peculiar o olhar sobre essa história e esses personagens. A gente estabelece identificações, mas também consegue se observar em várias pessoas e momentos, ora filha, ora neta, ora nós mesmas – por que não?-, matriarcas/patriarcas dos nossos próprios clãs. Um exercício involuntário, emocionante, desconcertante.

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Do ponto de vista técnico, a série consegue a proeza de ser íntima sem ser invasiva. Não quer passar a imagem de uma família perfeita – há, como já disse, tensões, o vaso sanitário entope, até Buda Gil altera a voz uma ou duas vezes. Dá pra ver uma mágoazinha atrás de uma almofada, uma frustração que o lenlçol não consegue encobrir. Mas Andrucha mantém uma linha respeitosa e escapa da vulgaridade e da maledicência. Hermano Vianna traça um roteiro inteligente, em que a escolha do repertório do show, com a defesa de cada canção – e cada um indicando outro membro para falar, como um amigo não-oculto -, deu um sentido, uma espinha dorsal para a gravação, ao redor da qual foram sendo agregadados outros momentos, de diferentes composições e intimidades variadas, como o futebol de todo mundo, as conversas de Gil e as filhas mais velhas, os momentos delicados do casal Gil e Flora.

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Por fim, eu gostaria de reivindicar Gil um pouco mais para mim (ser uma preta da diáspora, aliás, é um eterno reinvindicar, requerer e apossar. Tão necessário quanto exaustivo). Cidadão do mundo como poucos, reverenciado em todo canto, esse homem preto baiano que jamais esqueceu suas raízes é motivo de orgulho imenso para nós pretos. E sim, é preciso que se diga o óbvio: que trata-sede um homem preto esse que agora recebe todas as graças e honrarias, porque é justo quando cismam que a cor de sua pele não faz diferença. Em momentos de sucesso ou de visibilidade inventam asneiras como uma “era pós-racial” (que tentaram implacar no governo Obama, mas esqueceram de combinar com a polícia, que continuou matando negros a granel). Por muitos, infelizes e trágicos motivos, nesta terra de desigualdades descomunais, ver um patriarca negro feliz, devidamente reverenciado e cercado de amor tem um gosto particularmente saboroso para mim e para os pretos todes, que raramente temos essa oportunidade, na vida ou na ficção.

Helê

PS: Para quem ainda quer mais, esse vídeo do UOL mostra Gil e alguns membros da família diante do resultado de um teste de DNA que investiga ancestralidade genética. E o Rafa Aragão (que eu não conheço) fez um fio com produções sobre vida e obra de Gilberto Gil disponíveis nas plataformas de streaming.

Três coisas belas

Daqui a uns anos espero pensar neste 2022 e ter sentimentos positivos. Porque o cotidiano é feito de sensações, mas a memória é feita de recortes. E por mais difíceis que sejam os dias deste ano intenso, há também belezas que poderão ser lembradas. Nos últimos três dias recebi três coisas bonitas, e deixo aqui como registro para minhas lembranças do futuro, torcendo para que ajudem a alegrar o presente de mais alguém.

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Na sexta-feira, meu amigo Ricardo compartilhou uma playlist só de músicas brasileiras lançadas em 2022. Conheço muita gente que acredita mesmo que não há mais música brasileira que valha a pena. Seja você deste time ou não, te convido: apenas escute.

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No sábado, minha amiga Geide deu a dica: o livro Querido Lula, que reúne cartas recebidas pelo ex-presidente na cadeia, em Curitiba. Na introdução, a historiadora Maud Chirio resume o que a obra tem de tão especial. Outros livros tipo “cartas da prisão” publicados até hoje (Gramsci, Wilde, Mandela e tanto soutros) mostram as reflexões provocadas pela experiência carcerária. Mas este é um registro diferente: quem denuncia a injustiça e contextualiza a situação política do país são os apoiadores do ex-presidente. Durante todo o período em que esteve preso, Lula recebeu milhares de cartas que falam dos imensos benefícios trazidos para a vida das pessoas. Não é um manifesto, é um testemunho escrito por milhares de mãos.

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No domingo, conversando com amigas, perguntei sobre a série Em Casa com os Gil. As recomendações foram entusiasmadas e chegando em casa maratonei até o limite da insônia. A família Gil é uma prova viva de que o Brasil tem talento, tem poesia, tem gentileza, tem sensibilidade, sim senhor. Que privilégio sermos contemporâneos de pessoas tão incríveis.

Os poucos episódios têm vários diálogos antológicos, mas registro aqui um dos que mais me comoveu. Cada membro da família deveria escolher uma música para incluir na turnê europeia que está acontecendo agora, em comemoração aos 80 anos do patriarca. Um dos netos explica sua escolha dizendo que escutava uma determinada música todos os dias, mas não sabia que era uma composição do avô. E conta de sua felicidade quando descobriu a autoria. A música é a imortal Sítio do Picapau Amarelo. Achei fofo demais. Imagine que legado incrível, ter um avô que é o autor desta canção.

-Monix-

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