Gil e nós

Ao contrário de boa parte do tuíter, eu não quero entrar para a família Gil, nem acho que eles são excepcionais. Na verdade, nessa família genuninamente musical, oriunda de um gênio do ofício, me encantou tudo de ordinário que aparece, comum a todas as famílias. As tensões gerenciadas, os desabafos emocionais, as mágoas confessadas, as lágrimas incontidas, as gargalhadas memoráveis. Observar a família Gil me fez lembrar da minha própria família, origem, ramificações, agregados, separações e reuniões. E talvez esse tenha sido o gancho que nos prendeu a todos logo de cara: fomos interessados no Gil e na música, mas foram as relações e os afetos que nos fisgaram, humanos gregários que somos. Sem esperar, encontramos um espelho.

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“Viva a nossa família, viva todas as famílias!”, exalta Gil a certa altura. Não deixo de observar a ironia de um músico revolucionário e contestador como ele (e também Caetano, cantando com os filhos) que chega ao anoitecer da vida louvando essa estrutura naturalmente conservadora. Mas Gil ensina que a única coisa permanente na vida é a mudança. E essa família sorridente da foto é resultado de pelo menos três casamentos. Que topou a proposta considerando que, talvez, o clima pudesse pesar, como alguém confessa, no final. Então sim, viva a família: a família de verdade, cheia de falhas e de força, cujas bases se alicerçam no afeto, acima de qualquer coisa. Sem isso não vale a pena, e nem família é.

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Se há um viés de homenagem e reconhecimento a um músico extraordinário, há, inevitavelmente, um sopro de despedida na celebração do nosso Griô maior. Aos 80 anos, aumentam as chances de passarmos dessa para outra, por assim dizer; a sombra do final permanece à espreita. Não damos muita bola pra ela, mas sabemos, nós e eles – filhas, filhos, netos e etc. – da oportunidade preciosa que estamos tendo de observá-lo e expressar de algum modo nosso amor e gratidão.

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Também preciso admitir que ter mais de 50 anos, ou seja, estar no segundo tempo da vida, afeta de um jeito peculiar o olhar sobre essa história e esses personagens. A gente estabelece identificações, mas também consegue se observar em várias pessoas e momentos, ora filha, ora neta, ora nós mesmas – por que não?-, matriarcas/patriarcas dos nossos próprios clãs. Um exercício involuntário, emocionante, desconcertante.

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Do ponto de vista técnico, a série consegue a proeza de ser íntima sem ser invasiva. Não quer passar a imagem de uma família perfeita – há, como já disse, tensões, o vaso sanitário entope, até Buda Gil altera a voz uma ou duas vezes. Dá pra ver uma mágoazinha atrás de uma almofada, uma frustração que o lenlçol não consegue encobrir. Mas Andrucha mantém uma linha respeitosa e escapa da vulgaridade e da maledicência. Hermano Vianna traça um roteiro inteligente, em que a escolha do repertório do show, com a defesa de cada canção – e cada um indicando outro membro para falar, como um amigo não-oculto -, deu um sentido, uma espinha dorsal para a gravação, ao redor da qual foram sendo agregadados outros momentos, de diferentes composições e intimidades variadas, como o futebol de todo mundo, as conversas de Gil e as filhas mais velhas, os momentos delicados do casal Gil e Flora.

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Por fim, eu gostaria de reivindicar Gil um pouco mais para mim (ser uma preta da diáspora, aliás, é um eterno reinvindicar, requerer e apossar. Tão necessário quanto exaustivo). Cidadão do mundo como poucos, reverenciado em todo canto, esse homem preto baiano que jamais esqueceu suas raízes é motivo de orgulho imenso para nós pretos. E sim, é preciso que se diga o óbvio: que trata-sede um homem preto esse que agora recebe todas as graças e honrarias, porque é justo quando cismam que a cor de sua pele não faz diferença. Em momentos de sucesso ou de visibilidade inventam asneiras como uma “era pós-racial” (que tentaram implacar no governo Obama, mas esqueceram de combinar com a polícia, que continuou matando negros a granel). Por muitos, infelizes e trágicos motivos, nesta terra de desigualdades descomunais, ver um patriarca negro feliz, devidamente reverenciado e cercado de amor tem um gosto particularmente saboroso para mim e para os pretos todes, que raramente temos essa oportunidade, na vida ou na ficção.

Helê

PS: Para quem ainda quer mais, esse vídeo do UOL mostra Gil e alguns membros da família diante do resultado de um teste de DNA que investiga ancestralidade genética. E o Rafa Aragão (que eu não conheço) fez um fio com produções sobre vida e obra de Gilberto Gil disponíveis nas plataformas de streaming.

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