Uma mãe brasileira*

Quando acabei de assistir a minissérie sobre o assassinato da atriz Daniella Perez, Pacto Brutal, bateu um pessimismo imenso, comum a quem que vive nesse país injusto e desigual. Inevitável se surpreender e se revoltar com o fato de que os assassinos só foram condenamos por causa do trabalho direto e incansável da mãe da vítima. Na série, ficamos sabendo em detalhe o trabalho investigativo feito pela Glória Perez, seu empenho em convencer testemunhas a prestar depoimento e em zelar, durante 30 anos, pela memória da filha assassinada, sempre passível de ataques. E aí você pensa: se foi assim com a Glória Perez, uma mulher famosa, querida, contratada da maior empresa de comunicação do país, a nós só resta rezar para nunca, nunca mesmo, precisar da Justiça.

Glória, aliás, tem noção do seu lugar de privilégio, se comparado à trajetória de dezenas, centenas de outras mães brasileiras. Lembra das Mães de Acari, todas já falecidas hoje, sem saber o paradeiro de seus filhos. A elas poderíamos juntar muitas outras, como sabemos bem, especialmente no Rio de Janeiro – sempre na vanguarda do crime, como se diz no excelente podcast República das Milícias, uma investigação cuidadosa e reveladora das raízes da configuração atual do poder criminoso na cidade e no Estado.

Falando em podcast, aconteceu que eu vi a série enquanto ouvia os primeiros episódios de “Crime e Castigo“. Foi uma coincidência muito boa, porque o programa da Rádio Novelo procura discutir conceitos como reparação, punitivismo, a diferença entre justiça e vingança, reabilitação. Não é fácil de ouvir, tem depoimentos muito dolorosos. E o exercício de pensar sobre essas questões já é em si desconfortável porque, lembra, a gente tá sempre rezando pra nunca precisar da Justiça. Mas são questões que a cada dia mais nos alcançam, de um jeito ou de outro. Encarcerar resolver? Sempre? Condenar é ter justiça? Existe reparação possível? Reabilitar é uma possibilidade? Nós, sociedade, teremos que nos fazer essas perguntas para rever um sistema obviamente falido, ineficiente e cada dia mais cruel.

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Eu comecei a ver a minissérie para saber exatamente o que tinha acontecido. Eu já era adulta quando tudo aconteceu, lembro bem do choque, das pessoas comentando por semanas, as matérias, programas, reportagens. Mas depois a gente cansa e fica com uma versão assim meio imprecisa dos fatos. Rever algumas gravações da época não deixa de ser uma curiosa viagem no tempo pra quem viveu aquilo – a gente lembra onde estava estudando ou trabalhando, com quem estava, um revival involuntário.

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Foi um crime absolutamente terrível e bizarro, desde sempre. Mas, embora eu tivesse quase a mesma idade da Daniela naquela época, acho que me comovi mais ainda agora, vendo a Glória Perez, e sendo eu mãe de uma jovem de quase 20 anos. É possível que eu tenha chorado mais hoje, vendo o calvário dessa mãe, que a gente tem vontade de abraçar e acolher, mesmo passado tanto tempo, mesmo sabendo que não adianta.

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Acho que a minissérie poderia ter um pouco menos de cenas da Daniella – me incomoda sempre, em todos os programas do tipo, querer mostrar quão boa era a vítima, quando ela não deveria ter morrido independente do seu caráter, personalidade e aspirações. Mas ok, não chegou a resvalar no sensacionalismo. Acho que o documentário falha um pouco no episódio “De onde vem?”, que explora muito do que se sabe sobre o assassino, mas pouco sobre a família da assassina, que parece bastante poderosa. Agora, tem pelo menos duas participações Pilatos no Credo, do tipo nada-a-ver com-porra-nenhuma: a Sônia Abraão posando de jornalista séria e o Roberto Carlos, que só aparece pra dizer que é noveleiro e amigo da Glória. Totalmente dispensáveis.

Helê

*Penei para encontrar um título, e ainda não sei se é o melhor. Mas quando pensei nesse lembrei na hora da pungente “Chora, brasileira“, da Fátima Guedes, cantada pela Nana Caymmi. Então fica esse, com a menção musical.

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