Saiba

Esbarrei nessas fotos no tuíter e não resisti a trazer pra cá – em que pese o erro de incluir o Chico Buarque no Bonde dos Octogenários (no qual ele só embarca em 2024). O engano certamente se deve à genialidade dessa turma; alguém sugeriu que no ano de 1942 um portal se abriu. Por ele passaram também, pra ficar só na música brasileira, Clara Nunes, Nara Leão, Paulinho da Viola e Tim Maia. (Um tal de Paul MacCartney também passou). A Flávia Oliveira abordou o “fenômeno” em uma de suas excelentes colunas, quando chamou atenção para os “oitenta anos” dessas e de mais duas figuras com excesso de talento: Muniz Sodré e Nei Lopes, cada um a seu modo e em suas áreas, responsáveis por relevantes serviços e obras para a cultura brasileira. Acho que a Flávia só não colocou a Vera porque – que pena! -, não teve ainda o privilégio de conhecê-la, a grandmothern de todas nós e minha amiga, com muito orgulho e saudade. A Vera, Veríssima, só confirma a excelência impressionante dessa safra de gente.

Voltando às fotos: de cara eu fiquei impressionadíssima em como o Milton mudou tão pouco. Ao mesmo tempo, na Rádio Cabeça começou a tocar “Saiba“, do Arnaldo Antunes, essa canção de ninar que eu acho absolutamente genial. A mistura de gente reconhecidamente bacana e vilões incontestáveis quase assusta num primeiro momento, mas cumpre a missão do poeta, de colocá-los todos como humanos que somos. Também faz isso nos propondo o inusitado exercício de imaginar em fraldas e com chupetas gente como Einstein, Freud ou Buda, que se fixaram em nosso imaginário como velhos desde sempre. Em verso ousado e talvez contraindicado para uma lullaby, Antunes também nos iguala pelo final, lembrando da morte, tão certa quanto o fato de que tivemos, todos, pai e mãe. Ou seja, uma canção de ninar improvável, tratando de temas delicados, ainda que aparentemente simples, e que cita Hitler e Fernandinho Beira-Mar, Che Guevara e Simone de Beauvoir. Mas faz tudo isso de um jeito tranquilizador, sereno e sábio, com uma melodia que nos embala e afinal, nos convence de que é isso aí, tudo natural, é assim para todos, e somos todos humanas potências, para o Bem ou para o Mal. A geração de 42 talvez tenha apenas caprichado um pouco mais.

Helê

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