Coltrane

Cheguei até “Chasing Trane” porque precisava de conforto e digitei na pesquisa da Netflix: ‘Denzel Washington’ (desculpa, Idris, mas nessas horas eu preciso de algo mais sólido, de uma relação longa e estável na minha vida). Além dos filmes que vejo e revejo tanto quanto crianças veem Frozen, tem um ou dois clássicos dele que não vi pra economizar pra um momento de necessidade. E apareceu esse documentário sobre o saxofonista John Coltrane, que eu comecei a ver curiosa pra saber se Denzel apareceria dando algum depoimento. Logo vi que não: ele é a voz de Coltrane nos momentos em que são lidos pensamentos, trechos de entrevistas e poemas do músico que tocou com lendas e tornou-se, ele mesmo, uma delas. Denzel Washington foi apenas uma isca para mim (e para vocês, neste texto): o documentário é um primor, não deixe de ver se tiver oportunidade. John teve uma vida injustamente breve (dsclp o spoiler), porém incrivelmente plena, e os depoimentos ao longo do filme não deixam dúvida sobre sua importância para a música. Você não precisa ser entendedor nem amante de jazz – eu não sou -, basta gostar de música e de boas histórias. Terminei de ver emocionada às lágrimas, catando discos do Coltrane no Spotify e ligeiramente apaixonada por ele. (Volúvel, não: generosa).

Helê

Coisa mais negra

Eu reconheço a importância do audiovisual para a sociedade, tanto do ponto de vista cultural, simbólico, quanto econômico. Sei também que outros já sacaram isso muito antes de nós e trataram de dominar o mercado e sufocar indústrias que pudessem remotamente ameaçar seu poderio (malditos ianques). Com isso em mente, segue aqui uma crítica e uma sugestão:

  • Não dá, em 2019, pra escolher um elenco em que predomina gente bonita, pessoal. Isso simplesmente non ecziste, é irreal , a vida não é assim nem em Ipanema. Eu sei, já fui lá. Tem gente feia até em Paris, a cidade mais linda do mundo. Quando eu começo a ver filme, série, novela e começa a aparecer esse monte de rostinho global já vai me dando um desinteresse …no mínimo, perde a credibilidade, porque, como já disse, não encontra amparo na realidade.
  • Aproveitando a popularização das discussões sobre descolonização do pensamento e afins: quem é que vai contar a história da música brasileira tendo o samba como protagonista e não como um coadjuvante que dá “molho”, “ritmo”, “gingado” à MPB? No conto das três raças da música — que no caso só tem duas — tem uma MPB feita em algum lugar, oficial, cheirosa, penteada, bem-vestida, branca mas meio insossa, que encontra com o samba, suado, mal-vestido, alegre, envolvente e preto, e volta mais interessante. Mas ele, o samba, fica lá, e a dona MPB volta melhorada. Sério, gente, em 2019?! Depois do desfile da Mangueira desse ano alguém ainda tem coragem de contar essa história? Bem, eu não tenho interesse em ouvir, eu quero saber quem vai contar, de preferência na tela, a história da música brasileira contada pela perspectiva do seu protagonista desde sempre, o povo negro, a Música Preta Brasileira, como chama Sandra de Sá, uma de suas rainhas. Certamente que será uma história riquíssima e abrangente, na qual não serão omitidas participações especiais de brancos incríveis como Noel Rosa, Tom Jobim, Chico Buarque e suas enormes contribuições.

Ilustração de Marcos Arthur 

Helê

 

#ElzaSim! #EleNão

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A quantidade absurda de talento musical reunido num palco como eu só vi numa igreja no Harlem. O orgulho e acolhimento que o filme “Pantera Negra” me proporcionou, amplificados. A esperança que me embalou após o espetáculo “Primavera das Mulheres”, em 2016.

Algumas comparações para dar a dimensão do que me causou “Elza”, que assisti na última quinta-feira e do qual ainda não me recuperei – que bom. Catártico, estonteante, poderoso e potente. E lindo. Para uma libriana praticante feito eu, nada arrebata mais que a beleza.

Ah, o insondável tempo das coisas: tive a oportunidade de ver na pré-estreia, perdi. Ia com as amigas, também não aconteceu. Mas Monix escreveu um post ensolarado aqui depois de ver a peça, com uma empolgação que não lhe é comum, e a Dedeia reforçou que ir era mandatório. Então fui com minha filha e tive a certeza rara na vida que estava exatamente onde, quando e com quem deveria estar.

Fora as correlações pessoais, “Elza” narra uma trajetória ao mesmo tempo incomum e próxima da mulher que vai da pobreza ao estrelato sem atalhos e com desvios, e de lá passa ao quase ostracismo, e cai e levanta incontáveis vezes, metafórica e literalmente. Sem nunca ter pertencido a um grupo ou movimento musical, Elza Soares tem uma carreira de décadas que surpreendentemente se torna cada vez mais relevante. De idade desconhecida (e desimportante), ela se mantém conectada com o presente com lucidez e acuidade escassas em muitos artistas mais jovens que ela. Essa cantora que começou no rádio com Ary Barroso (!) (google, milenials, para rádio e Ary) e acaba de lançar seu novo álbum pelos serviços de streaming é um vitorioso case de envelhecimento bem-sucedido. Experimente ouvi-la cantando “Dindi e “Exu nas escolas” e perceba: não é que ela tenha melhorado: ela já era formidável e conseguiu continuar sendo. Ou ser novamente, de outra maneira, mas ainda a seu modo.

Elza se recria tantas vezes, no palco e na vida, que a gente sai do espetáculo renascida também, de certa forma. Ou, pelo menos, com aval e apoio para fazê-lo sempre que for preciso.

A peça consegue ser fiel à contemporaneidade de Elza de um modo inteligente, sagaz e verdadeiro como ela. Apresenta soluções cênicas criativas, um conjunto musical (só de mulheres) impecável, um texto versátil e bem elaborado e a notável direção musical do Pedro Luís, Larissa Luz e Antônia Adnet. E o elenco…ah, o elenco! Não há uma protagonista inesquecível ou coadjuvante que roube a cena: são sete atrizes e cantoras estonteantes, incandescentes, inacreditavelmente talentosas. Sete mulheres negras com um brilho tão intenso que quase cega. Talvez por isso elas apareçam aos poucos, para que a gente vá se acostumando com tanto, mas ainda assim o impacto da presença delas deixa a todos meio sem fôlego no início. Elza multiplicada por sete não é pra qualquer um.

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E aqui chegamos em outro valor agregado (não acredito que usei essa expressão, mas cabe, vai) da peça, que é a plateia. Uma audiência muito mais negra do que em geral eu encontro em peças ou musicais (como o público que encontrei na excelente exposição sobre o samba, no MAR). No mínimo, racialmente mais diversa. Para mim, um conforto e alegria adicionais me ver entre os meus. Parecia que eu estava em Madureira comprando cabelo mas não, eu estava no teatro. E se representatividade importa, nêgo, imagina coletividade. Olhar em volta e não ser minoria. Não tem preço.

Caetano Veloso, que também fez um post entusiasmado sobre a peça disse, bela e precisamente: “A mulher brasileira, o povo negro brasileiro, o músico brasileiro estão vingados. Pode-se até crer em bom futuro”. É com essa disposição que você sai do teatro – convenhamos, nada desprezível nos dias que correm. Ampliei minha plataforma de campanha para “EleNão, ElzaSim!”, querendo que todos os meus amigos que estão no Rio de Janeiro ou que estarão aqui até o dia 30 de setembro vejam “Elza”. Veja, por favor. Acredite: é para o seu bem.

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Helê

Com um beijo para Leila Moreno, coordenadora de produção, pelo presente de aniversário antecipado e maravilhoso.

Deus é Mulher

Na segunda-feira de manhã recebi no Facebook um convite para um grupo chamado “Mulheres Unidas contra o Bolsonaro“. Fui dar uma olhada, por curiosidade, e vi que já havia 150.000 membr(a)s. Fiquei impressionada com o número (mal sabia eu) e acabei ficando. Em 24 horas acho que o número já tinha quadruplicado, sei lá. Só sei que hoje éramos mais de 2 milhões de mulheres nesse grupo – surpreendentemente, apesar de obviamente a dinâmica da interação ser caótica, a convivência é até bem pacífica e civilizada. Há mulheres de todos os espectros políticos, cis e trans, e alguns eventos já estão sendo articulados.*

Só que o crescimento exponencial do grupo virou notícia, chamou a atenção, e o grupo está sob ataque de hackers desde quinta-feira. Mudaram o nome, invadiram os perfis das administradoras, mandaram ameaças. Uma amostra grátis do que nos espera logo ali na curva da frente. 😦

Tudo isso é muito triste e, principalmente, preocupante. Ainda faltam 20 dias para o primeiro turno das eleições, e depois teremos toda a campanha do segundo turno pela frente, e a cada dia parece que o fundo do poço é um novo alçapão.

Mas. Sempre tem um mas. E eu sou aquela pessoa do copo meio cheio. Estou aqui para manter elevado o moral das tropas. De nada.

Então queria dizer a vocês que isso aí que está acontecendo não é ação, é reação.

Porque eu acabei de chegar do teatro, e eu vi Elza, e a Elza de verdade é incrível, mas o elenco é quase tão incrível quanto, e a plateia é mais incrível ainda. A plateia é uma celebração da diversidade, no sentido mais bonito que essa palavra possa ter. A plateia é pura potência.

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Corre que ainda dá tempo!

Aí a gente sai do teatro acreditando de novo que há uma mudança importante em curso, e que, não custa repetir, a gente é ação, eles são reação. Ou, como disse a Mary, eles perderam. Vamos vencer com classe.

A arte é a nossa salvação. Vamos fruir a arte, vamos prestigiar a arte, vamos ensinar nossos filhos a ver arte e, principalmente, a viver de uma forma artística. Não precisa ser artista para fazer isso. Basta aprender a lição de Oscar Wilde e saber que a vida imita a arte (e não o contrário).

 

 

Sejamos ação. Sigamos com a nossa turma, que essa é, e sempre será, a melhor turma.

-Monix-

* Enquanto eu escrevia este post, o grupo foi apagado. Há várias informações chegando ao mesmo tempo, parece que as administradoras estão prestando queixa na delegacia de crimes digitais. Vamos acompanhando.

Posts de ouvir

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Sinatra e Cartola, Lenine e Maysa, ABBA e a Velha Guarda da Portela. Todo mundo se encontra no amor e na dor de sua perda. Em 2011 eu escrevi um post sobre músicas de separação, uma vertente das canções de amor. O post foi um sucesso de público, rendendo muitos comentários com contribuições. Agora, com a advento do Ispotifai, criei uma playlist com as canções citadas no post, as sugeridas pelos leitores e mais um punhado que eu considerei “incontornáveis” (como dizem os franceses).

 

Na verdade, o post anterior foi uma introdução para o que eu tinha em mente, que eram as canções feitas depois do fim e que olham com generosidade e carinho para a história de amor terminada. Uma lista muito mais modesta, mas de canções não menos importantes e belas; também nessa lista incorporei sugestões dos leitores e leitoras. Divirta-se!

Helê

 

Aretha

Na semana passada, a saber da morte de Aretha Franklin eu quis recontar aqui a história de “Respect”, talvez a mais conhecida canção da Rainha e uma de nossas favoritas. Mas não tive tempo e outras pessoas contaram, como a sempre admirável Daniela Abade.

Aí hoje, num momento de procrastinação, eu encontrei esse texto falando da atuação de Aretha junto à comunidade negra e ao movimento pelos direitos civis, e da oferta que ela fez para pagar a fiança de Angela Davis. Se puder, leia o artigo completo; aqui destaco essa frase lapidar:

“I know you got to disturb the peace when you can’t get no peace”. 

RIP and thanks, Mama!

Helê

Origens

Esbarrei nesse vídeo dia desses e fiquei impressionada com essas reminiscências do compositor. Acho notável que ele, tão jovem, tenha elaborado toda uma crítica social a partir da observação da impossibilidade de um amor. Claro que influenciado por uma família reconhecidamente progressista, por assim dizer. Mas a narrativa que ele faz é, antes de tudo, a elaboração individual de um menino. Acho que me identifiquei: já contei aqui que depois de adulta percebi que foi muito nova, por causa do Flamengo, que estabeleci meus primeiros conceitos sobre raça e classe.

Acho particularmente interessante que o Chico tenha feito essa construção (com ou sem trocadilho) em detrimento da figura paterna, de um tamanho enorme para uma criança. Na comparação entre o trabalho (fácil) do pai com o desagradável esforço do lixeiro, o menino identifica a injustiça que sofre o trabalhador braçal (e, por extensão, também a doméstica). E compreende a injustiça do mundo – uma dura lição que muita gente passa a vida inteira sem aprender. Diante dela, como não virar comunista ?

Curioso ainda que nesse episódio estão amalgamadas duas das temáticas mais recorrentes do compositor ao longo de sua extensa carreira: a desigualdade social e o amor. Parece que já estava tudo ali, desde muito cedo; depois ganhou sofisticação, requinte e beleza, talhados pelo talento único do Chico. (Vai ver a teoria do meu amigo Vitor está certa: que a gente já sabe quem é aos 12, 13 anos; às vezes dá uma volta danada na vida pra voltar a ser a pessoa que a gente sabia que seria naquela idade).

A babá, o lixeiro e seu romance interdito poderiam facilmente ser protagonistas de uma canção buarquiana. Ele encontra paralelo imediato com o pedreiro que espera o aumento desde o ano passado para o mês que vem; ela viu morrer alegrias e rasgar fantasias enquanto sonhava com o casamento. Ou cansou de ser babá e voou para a América, feito a Iracema que trabalha numa casa de chá. Talvez eles vivam anônimos em algumas músicas de Chico: posso vê-los gratos pela fumaça, desgraça, que a gente tem que engolir; mas prefiro imaginá-los correndo para praça cheios de ternura ao som da Valsinha. Porque graças àquele garoto que reparou num amor não realizado, eu posso sonhar com um outro destino para o casal. Afinal, talvez a vida não seja um fato consumado.

Helê

Este post vai pra Dorival Caymmi, João Gil…não, péra; vai pro Christian, me inspirou a escrevê-lo e é, além de grande fã do Chico, um mestre nas paródias infames e bem elaboradas; a esta altura já está imaginando a babá cantarolando “Olha aí, olha o meu gari, olha aí….” Feliz aniversário, Chris!

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