Dufas Dial no Spotify

Nós jurássicas, que mantemos este blogue há mais de uma década, quando chegamos, vocês sabem, isso tudo aqui era mato. Já vimos muita coisa surgir nessa internet sem porteira; algumas vingaram e outras tantas viraram poeira cósmica digital (dizem que os blogues também acabaram mas quem liga? Nós não).

Numa plataforma chamada Multiply criei o Dufas Dial, que reunia playlists relacionadas com meus posts, basicamente . O Multiply morreu, mas hoje existe o Spotify, e me ocorreu de reeditar lá algumas listas, ressuscitando posts antigos. E criar novas, se a inspiração me visitar.

Para começar, uma lista de variações sobre o mesmo tema: em 2009 eu escrevi sobre Don’t let me be misunderstood, essa canção que não para de ser regravada. O Spotify não tem algumas versões citadas no post original (que eu achei no Grooveshark, outra plataforma falecida). Em compensação, de lá pra cá a música ganhou versões de Mary J. Blige e Lana Del Rey, provando meu ponto. (Re)leia o post, ouça as faixas e escolha a sua interpretação favorita

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Helê

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Back to basics 

Boa música, como se sabe, nunca sai de moda. Mais que isso, suspeito que para pessoas de uma certa idade são as velhas canções as mais eficientes naqueles momentos cruciais da vida, assim, quando dá ruim de verdade. Recorremos àquelas que a gente ouviu quando era pequeno ou bem jovem, às primeiras que a gente fez interpretação de texto quando nem sabia que tinha esse nome.

Bom, pelo menos comigo é esse o padrão. Há algum tempo, quando o oceano da vida me mandou um tsunami que nenhum radar foi capaz de detectar, eu me peguei cantarolando Guilherme Arantes, porque eu que tinha tudo (ou quase) queria estar no escuro do meu quarto e daria tudo por meu mundo e nada mais. Uma canção que aprendi quando tinha uns sete anos de idade, com a novela Anjo Mau, na versão em preto em branco (pelo menos na minha televisão era). Quando me separei eu me peguei garrada no Milton e repetindo “forte eu sou, mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar”, versos aprendidos antes de ser capaz de tamanha tristeza. Quando o amor acabou, ouvi mil e uma canções de separação, mas a explicação mais precisa e honesta veio num samba de Cartola, preciso desde o título: “Acontece”. Faz parte de um disco maravilhoso que meu pai ouvia semana sim e outra também, e que sei de cor. De coração – de onde saem para me acudir e consolar, sempre que preciso, essas canções que aprendi muito cedo, e que compreendi antes mesmo de entender.

E você, pra que canções antigas você corre ou quais te alcançam quando você precisa?

 

Helê

Êxtase

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(Big Jay McNeely (via fotografias incríveis de celebridades)

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(via ◆ COOL PHOTOS ◆ /)
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Helê

Anotações para uma biografia musical

Quando eu nasci, há dez mil anos atrás, veio um anjo safado que decretou que eu tava predestinada a ser errada assim. Deus, que é um cara gozador e adora brincadeira, pra me jogar no mundo tinha o mundo inteiro, mas sou natural daqui Rio de Janeiro, sou em quem levo a alegria. Nascida no subúrbio nos melhores dias. Eu era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim. Levava uma vida sossegada, gostava de sombra e água fresca. Seemed that life was so beautiful, magical. Quando fui ferida, vi tudo mudar das verdades que eu sabia. Yesterday came suddenly. Minha casa não é minha e nem é meu esse lugar. A cada  mil lágrimas sai um milágre. Eu sei, serei feliz de novo. Ah, se eu fosse marinheiro, seria doce o meu mar. I’m all about the bass. Em matéria de guarida, espero ainda a minha vez. My friends all drive Porshes, I must make amends. Tenho desejos maiores, eu quero beijos intermináveis. I told you I was trouble. As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.

Helê

Quando o samba me salva

 

É de manhã cedo, e no primeiro post do dia Maria Bethânia, ao lado de Zeca Pagodinho, pede para buscar quem mora longe. Tiro o olho da tela por um instante e encontro ‘A Vida no Campo’ bem ao lado; momentaneamente parece haver uma relação entre as obras, mas talvez seja só a minha cabeça delirante. Sonho meu. Volto para a tela do lépi tópi. A princípio, Bethânia parece tímida ao lado de Zeca. Ele, indisfarçavelmente feliz, exercita a típica marra carioca: “Agora sou eu e ela!”.  Nas primeiras notas, some qualquer vestígio de timidez e Maricotinha ordena, sensual e dengosa: “Vá buscar quem mora longe, Sonho meu”. Tão bonito ouvir Betânia encontrando entonações surpreendentemente novas nessa canção já antiga; que cena prazerosa vê-la feliz, rodeada de músicos também extasiados com o momento, incluindo Zeca, orgulhoso, totalmente “pinto no lixo”! O maestro Rildo Hora rege tudo com entusiasmo e vigor, as usual. A ternura e o sorriso que o vídeo desencadeia em mim têm raízes fundas: me dou conta de que ouvi muito essa canção na infância; minha mãe tinha o disco, e houve um tempo, senhoras e senhores, em que Bethânia tocava no rádio e era sucesso de execução e vendas. O Gúgol me acode e denuncia minha velhice: o álbum é de 1978. Eu ainda contava a idade com um dígito; tudo desse tempo visto daqui parece feliz. “Sonho meu” encaixa na categoria confort music porque desperta intimidade, reconhecimento, soa familiar – na acepção mais positiva e agradável da palavra.  Reparo que a letra, breve, tem versos simples e belos, como sói acontecer com os sambas de qualidade. A música de Dona Ivone Lara e a poesia de Délcio Carvalho têm ainda um bocado de tristeza – como Vinícius advertiu ser necessário para fazer um samba com beleza. Traz a pureza de um samba sentido, marcado de mágoas de amor. Que, não obstante isso, nos envolve e leva ao movimento, seja com palmas, seja um leve balançar da cabeça ou remexendo as cadeiras. Um samba que mexe com o corpo da gente.  E essa gravação/congraçamento que reúne Santo Amaro e Rio de Janeiro, Recôncavo e Guanabara, a Abelha Rainha e o Rei de Xerém, me deu a alegria necessária (mesmo que não suficiente) para começar o dia e – por que não? – o mês com alguma esperança.

Obrigada, Cláudio Luiz, por postar o vídeo e pelas emoções subsequentes (e por me possibilitar escrever um post musical como eu não fazia há tempos e morria de saudade).

Helê

Mermão

Em inglês se diz brother-in-law; em francês, beau-frère – diferença que sempre achei interessante: o que uma língua determina pela lei a outra define pela beleza. Em português há uma palavra específica, cunhado – que a sabedoria popular diz que não é parente, enfraquecendo um parentesco já meio frouxo. Pois o Laerte foi todos esses e mais alguns. Cariocamente bróder, parceiro na alegria e no perrengue; legalmente cunhado, irmão no amor pela beleza das canções. Por um longo tempo fomos também brothers in arms, unidos numa feliz, debochada e resistente trincheira flamenguista, cercada de alvinegros por todos os lados.

Mas eu e Laerte fomos, somos – e desconfio que seremos sempre – irmãos em notas. Não as monetárias (que a gente não dispensa), mas as musicais, para nós vitais porque nos alimentam, orientam, constituem. No mundo mágico da música estabelecemos um território de entendimento, livre de preconceitos e dogmas: ouvíamos de tudo, gostávamos de muitas coisas e até nos divertíamos com as discordâncias. Não é que a gente goste das mesmas coisas, é que a gente gosta do mesmo jeito. Compartilhamos o mesmo entusiasmo pela canção recém-descoberta, a expectativa pelo próximo álbum, a excitação pela regravação Na trincheirainusitada, a rendição ao verso matador que justifica um disco inteiro. Nossos encontros, que quase sempre começavam com sorriso e abraço festivo na minha chegada, pareciam jam sessions em que a gente ia improvisando, mostrando um ao outro novas aquisições ou clássicos resgatados; nos entendíamos por música e tocávamos de ouvido: sem partitura, marcando o tempo na batida do coração. Gente como Laerte e eu ouve música como quem respira: para viver.

A vida, essa mesma que nos reuniu e nos deu a chance de conviver, sofrer e crescer juntos, também nos apartou. É da vida fazer isso, como a falta é do jogo. Se a gente for esperto aproveita enquanto pode, retém o que precisa, celebra o que permanece. E a nossa fraternidade se mantém porque o que a música (e o Flamengo) uniu nada separa. Então, Lau, nessa data querida  eu quero te desejar os batuques mais potentes, as mais belas melodias, os solos mais surpreendentes, todas as cores do som. Tims, e Bens e tais; para você o que você gosta diariamente: nem mais, nem menos; nem luxo, nem lixo, só beleza pura. Saúde pra gozar no final (no meio e no início também). Desses seus (primeiros) 50 anos eu só posso dizer o que a gente falava nas nossas festas memoráveis, depois que a música certa na hora exata fazia todos dançarem loucamente: pode melhorar – e vai.  Qualquer hora dessas a gente se encontra de novo e faz um som daqueles, mermão.

Helê

Mais da mesma

Lembrei da data, pensei nas imagens e postei para lembrar o inesquecível, que Amy Winewhouse não está mais entre nós. Fui tomar um banho e então as palavras começaram a escorrer na mente; corri para registrar, antes que secassem.

Cinco anos desde sua morte, cinco anos que parecem meses e também cinco décadas, o tempo sempre distorcido pelo filtro da saudade. Lembro exatamente onde estava quando soube da morte dela, quem me avisou, o impacto da confirmação do que se sabia previsível mas, ainda assim, era inaceitável. Porque a Amy é para mim o que foram Elvis, Lennon ou Colbain para outros. Embora eu sinta e lamente a perda de muitos outros nomes, tenho com Amy uma relação toda especial, que inclusive pode ser rastreada neste blogue jurássico: a primeira referência aparece em 2007, e retorna outras tantas vezes, antes e depois de sua morte em 23 de julho de 2011. E acho que voltarei a falar sobre ela, mesmo daqui a muitos anos.05981aefb4fe98dffbadbfc7c3d9c077

Claro que conta o fato de ter acompanhado sua trajetória – seu arco excessivamente dramático, eu diria, se sua vida tivesse sido uma ficção. Mas já tenho tempo de janela suficiente pra ter acompanhado muitos outros talentos; isso não explica tudo, não justifica essa falta que não passa, a sensação de injustiça por ela ter tido tão pouco tempo para existir nesse mundo. Não sei precisar exatamente o porquê da minha ligação com Amy; essas coisas de amor e amizade a gente sente e aceita, agradece e aproveita – mesmo quando dói.

Helê

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