Para não esquecer

Porque eu me recuso a contribuir para o Museu do Esquecimento (como bem disse meu amigo Paulo Magalhães®), vou lembrar que há três anos Cláudia Silva Ferreira foi assassinada pela PM do Rio de Janeiro e até hoje não houve julgamento. E os policiais que participaram da ação estão trabalhando normalmente. Podem parar seu carro e pedir seus documentos. Podem atirar num suspeito perto de onde você está. Podem te colocar na caçamba.
Cláudia não pode mais nada. 

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Imagens do projeto  “Mais 100 vezes Cláudia”, da mulherada porreta do Think Olga.

Helê

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Resistência

Em tempos de crise uns choram, outros vendem lenço.

Outros tantos resistem, de muitas maneiras:

– O Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, trocou algumas de obras de seu acervo por trabalhos de artistas dos sete países afetados pela ordem executiva do presidente Trump referente à imigração. Trabalhos de artistas como Picasso e Matisse deram lugar a outros de Ibrahim El-Salahi e Parviz Tanavoli, por exemplo, acompanhados de um texto do Museu, explicitando suas intenções: “This work is by an artist from a nation whose citizens are being denied entry into the United States, according to a presidential executive order issued on January 27, 2017. This is one of several such artworks from the Museum’s collection installed throughout the fifth-floor galleries to affirm the ideals of welcome and freedom as vital to this Museum, as they are to the United States.
(Com informações do Hypeallergic, via Canal Meio)

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Parviz Tanavoli, “The Prophet” (1964) (photo by Robert Gerhardt)

– Uma mesquita no Texas sofreu um incêndio, de causas ainda não esclarecidas, no dia 28 de janeiro – apenas algumas horas depois da ordem de Trump, que neste momento em que escrevo, está suspensa por um juiz federal. Uma petição on line para a reconstrução do templo atingiu o valor necessário em menos de três dias. E a ajuda veio também de outras formas:
Some people have offered to perform carpentry work, lend their trucking services and knit new prayer rugs, while churches and a synagogue have offered space to Muslim members to pray and hold meetings, according to Dr. Hashmi and the fund-raising page.
“Jewish community members walked into my home and gave me a key to the synagogue,” he said. “Churches came and prayed with us, and people brought cash and checks.” (New York Times)

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 (Mohammad Khursheed/Reuters)

É isso, gente, é preciso estar atento e forte. De novo e sempre.
Só quero saber do que pode dar certo.

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 (Dylan Miner, Métis)

Helê, querendo resistir mas sem saber direito como.

Obama out*

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Escrevi sobre Barack Obama várias vezes aqui; também minha sócia comentou sobre esse presidente que primeiro capturou nossa atenção e, depois, conquistou nossa definitiva admiração. Por causa dele minha filha revelou seu feminismo precoce e autodidata; encontrei paralelos entre a trajetória dele e a minha, e não resisti a publicar Obama’s  pictures, série de posts com imagens de  uma coleção mais ampla. Ainda assim, hoje penso que foi pouco, que poderia ter falado mais ou melhor sobre seu imenso carisma e a sua natural habilidade midiática, bem aproveitada por um competente time de comunicação. Falo então agora, a pretexto de despedida e homenagem.

O fato de ser o presidente dos Estados Unidos ao mesmo tempo nos fascina e afasta, porque ele tem todos ou muitos dos vícios desses vizinhos que sentem senhorios do mundo, os donos da bola. Mas Obama não será lembrado por aquilo que o iguala aos seus antecessores, e sim pelo que o distingue – para além da cor da pele, mas também por causa dela.

Sentirei falta desse homem cuja figura e postura produziram efeitos tão impactantes  (ou mais) que suas palavras. Mesmo seus opositores não são imunes a sua imagem equilibrada, confiante e classuda. Sua elegância inegável e perene ultrapassa o vestuário ou as atitudes: tornou-se um jeito de estar no mundo, um modo Obama de ocupar os espaços conquistados, sem pretensão ou arrogância, mas com propriedade e segurança. E isso, mes amis, não é pouco; é para poucos.

14b782ce723ea0da0c18914e993fa4bfObserve  que na maioria dos registros do presidente – com a família, com crianças, em cerimônias ou pronunciamentos – ele está à vontade. Aparece quase sempre ereto, mas não rígido; flexível sem ser desajeitado; sensível mas nunca afetado. Obama parece confortable in his own skin – em sua black skin, é bom que se diga. Quantos de nós podem se sentir assim, independente de idade, peso, cor, gênero? E quem de nós, negras e negros, estando onde não nos esperam encontrar, consegue ficar realmente à vontade? As fotos carregam uma mensagem subliminar poderosa: Barack Obama mostrou não apenas que um negro pode ocupar cargos de importância e destaque, mas pode fazê-lo com a mais absoluta desenvoltura e naturalidade.

Se eu, sob tortura em Guantánamo, fosse obrigada a escolher apenas uma das memoráveis fotos de sua passagem pela Casa Branca, seria uma tirada ainda no início do primeiro mandato, ele e o menino no salão oval:

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Essa imagem ao mesmo tempo forte e amorosa, transgressora em so many levels, ainda me impressiona: o homem mais velho que se curva diante do erê; o poderoso capaz de se deixar tocar, e logo na cabeça (coroada). O menino não acredita que o chefe da nação seja tão parecido ele;  pergunta então se os penteados são iguais e Obama oferece o cabelo, esse forte signo da negritude (e também vetor do preconceito). Só estando muito confortável com sua própria posição você pode subverter a ordem e desprezar a liturgia do cargo sem perder a compostura. Acho que foi a partir desse momento que eu me rendi ao moço  – assim como ao talento do Pete Souza, fotógrafo capaz de tornar irresistível um trabalho chapa branca que tinha tudo para ser apenas burocrático**.

3204ce313273efa9e82f1303cdcfd940Mas há ainda um ensinamento que aprendi com Obama, fruto de outro ganho simbólico a destacar dos Obama’s years, que é a relação dele com a esposa. Como já disse antes aqui, enaltecer a família e seus valores está no capítulo 1 do livro da política, mas Obama foi além: enalteceu o casal, valorizando a parceria ao mesmo tempo em que dava espaço para a brilhante personalidade de sua mulher. Não perdeu oportunidade de reconhecer e homenagear a inteligência e habilidades de Michelle, e nem de declarar seu amor. No discurso de despedida em Chicago, na semana passada, ele a chama pelo nome completo, para depois identificá-la carinhosamente como “the girl from the south side”, numa referência ao início do namoro, ocorrido naquela cidade. É um momento terno, bacana, mas o mais eloquente aconteceu segundos antes: quando ele fala “Michelle” e olha para ela. Pronto, já está tudo dito. Ela sorri, visivelmente emocionada; ele faz uma pausa, enxuga uma lágrima, igualmente emocionado, e o público explode em ovação (aqui o vídeo). Eu, daqui, com um cisco no olho,  aprendi a lição: namore alguém que te olhe como o Obama olha pra Michelle.

Helê

*Esse artigo, em inglês, explica o significado por trás do gesto divertido de Obama, o drop the mic no último jantar com os correspondentes estrangeiros.

**Neste link você pode ver a seleção anual de fotos feita por Souza.

Apenas parem

Gente, 2016 tem muitos motivos para ser considerado uma merda monumental mas, pô, pessoas morrem todos os anos, e aos 90 não chega a ser exatamente uma surpresa, né? Quem quiser pedir pra descer, pedir pro mundo acabar, chamar o meteoro, ok. Acho que a piada já deu mas quem sou eu? Sei que eu quero continuar; agora que eu tô aqui quero ver como termina essa p*rra. Como cantou o Chico, que sabe das coisas: “Façam muitas manhãs que se o mundo acabar eu ainda não fui feliz” – não o suficiente. 2016 teve uma larga cota de desastres e tragédias, queira deus que já tenha se esgotado (não olhe agora, mais ainda tem ano pela frente). Mas não coloquem a morte de Fidel nesta conta – ou a da maravilhosa Sharon Jones, que eu amava, ou a do Cohen, que eu mal conhecia. Morrer não é uma das misérias do ano, e sim da vida.
E ainda assim há controvérsias.
Apenas parem.
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Ao comandante, todo o meu respeito. Meu carinho e admiração para Sharon, que foi cedo demais, e sobre que nem consigo escrever, só ouvir e admirar.
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Helê

Temer jamais

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As Duas Fridas

#comofaz?

 

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“Paulinho da Viola cantando o hino foi tipo qdo a gente tá apavorada e a mãe vem, abraça e fala, sshhh, ei, vai dar tudo certo, confia em mim” Lu Figueiredo, na mosca!

Acordei e vi as capas de jornais do mundo (0brigada, internet!), passei pela TL, catei tuites que perdi. Gargalhei, me emocionei, e sigo desistindo de dar ordem às ideias e emoções e apenas embrancig the chaos. Gostei muito dos textos do Simas, do Dinho e da matéria impecável do New York Times. Mas nada resumiu melhor meu sentimento após a cerimônia que esta frase:

Helê

 

Rio 2016, vésperas

“Quem meu filho beija, minha boca adoça”. Parte do acervo moral e afetivo da minha família, esse ditado me ocorreu quando um casal de amigos mineiros descreveu, com evidente encantamento, os dias em que estiveram no Rio de Janeiro, na semana passada. Com a intenção de justificar um não-encontro, contaram do roteiro que fizeram, uma verdadeira imersão no Centro, visitando tesouros  pouco valorizados como o Real Gabinete Português de Leitura, igrejas centenárias, botequins honestos, palácios, museus. Nem chegaram ao porto olímpico, nem subiram ao Cristo ou Santa Teresa; mergulhados nas ruas e vielas históricas onde a cidade começou descobriram um Rio que não se exibe mas que se dá a conhecer a quem dele se aproxima com interesse legítimo. A descrição empolgada, o carinho para se referir ao Rio e a alegria verdadeira me deixaram feliz por tabela, apenas por saber que eles foram felizes aqui, nessa cidade que eu amo tanto, apesar.

Parei no apesar porque não teríamos tempo para listar todos os pesares, e não é deles que quero falar. Ou não apenas. As adversidades e desvantagens de viver no Rio de Janeiro me parecem de demônio público: são muitas e todo mundo sabe e fala delas constantemente. Ainda assim, não conseguimos saída para a inadimplência ética crônica em que vivemos, (des)governados por políticos vis e vigiados por uma polícia assassina.

Galotti e Pedro Paulo Malta no lançamento do livro de Custódio Coimbra e Cristina Chacel, "Guanabara espelho do Rio"

Eu procuro saídas que não estejam no aeroporto; eu quero saber do que pode dar certo (tenho cada vez menos tempo a perder; envelheço – como os Titãs). Quero saber de iniciativas inovadoras, de alternativas, do Rio que insiste e persiste, apesar. Da Livraria Folha Seca, que promoveu uma roda de samba para o lançamento de um livro sobre a Baía de Guanabara, com o auxílio luxuoso do prof. Simas contando histórias da cidade entre uma música e outra. Do espetáculo Primavera das Mulheres, que me emocionou até a raiz dos cabelos e me deu uma dose do que eu não encontrava há tempos: esperança. Do samba na rua escondido em uma transversal da Tiradentes e do que encontrei aqui, na minha rua, sem propaganda ou alarde, comendo solto em plena tarde de domingo e acolhendo desavisados feito eu.

Na véspera da Olimpíada – literalmente – tenho sentimentos contraditórios. A cidade sabe e gosta de receber grandes eventos e levas de estrangeiros (tese defendida pela sócia há muitos carnavais). A gente tem prazer em ajudar o gringo a pedir café da manhã na padaria em Vista Alegre (né, Yabeta? 😉 ). E houve ganhos urbanos inegáveis (embora, depois da tragédia da queda da ciclovia, tudo tenha ganhado uma demão de suspeita no tocante à qualidade). Mas a que custo foram feitas essas melhorias só podem contabilizar as pessoas removidas da Vila Autódromo ou da região do porto. Foram mais de 6o mil remoções, mais do que na famosa (e também violenta) reforma de Pereira Passos. Do preço a ser pago pelo decantado legado podem falar as mães e pais de Costa Barros que a tristeza ainda não matou, para citar apenas um caso entre centenas em que negros pobres foram mortos por policiais que permanecem impunes. Tudo isso, e mais a conjuntura golpista,  deu uma freada no entusiasmo carioca. Percebo um quase constrangimento quando alguns falam sobre os ingressos que compraram, como se a gente ficassem meio sem graça de participar e gostar de um evento realizado dessa forma, cuja conta nós vamos pagar sem ter quem rache conosco.

O livro “Olympic Favela”, do fotógrafo Marc Ohrem-Leclef, revela a emoção e luta de pessoas de 13 favelas cariocas afetadas pela remoção em virtude dos megaeventos esportivos.

Por outro lado, quase todo mundo conhece alguém que está trabalhando diretamente no evento e que, inserido nas entranhas dos acontecimentos, está entusiasmado com o que de fato é, ou deveria ser, uma Olimpíada, um momento único de congraçamento. Essa visão acaba por nos contagiar positivamente;  a gente lembra porque esse circo foi armado e pensa que, ah, vai, pode ser bacana. Mas a empolgação incipiente esbarra em camadas de propaganda, marcas, negócios e rede globo que embalam o evento. Em meio a tudo isso, lá no caroço, tem o ideal olímpico e tal, mas para chegar até ele a gente tem que aturar uma quantidade enorme de supérfluos, como a bola gigantesca de uma marca de cerveja à beira da Baía de Guanabara e ouvir ad nauseam a estúpida expressão “família olímpica”, bizarrice que combina com coração feito com as mãos e #gratidão. Eu golfo feito bebê toda vez que ouço.

Pensando bem, sentimentos conflitantes são o default de quem vive aqui. É que nesses momentos de superexposição tudo se amplia, potencializa, então o bom vira ótimo, e o ruim fica péssimo. Eu vou torcer pela paz, como diria Jorge Benjor, e esperar pelo melhor. Ouvi de fonte segura que o  espírito olímpico já chegou: baixou num terreiro na zona oeste e ainda não sabe usar o BRT. Mas já pegou uma van e já, já chega aí.

Helê

Imagens: 1ª Galotti e Pedro Paulo Malta na roda de samba do lançamento do livro de Custódio Coimbra e Cristina Chacel, “Guanabara espelho do Rio”.
2ª: O livro “Olympic Favela”, do fotógrafo Marc Ohrem-Leclef, revela a emoção e luta de pessoas de 13 favelas cariocas afetadas pela remoção em virtude dos megaeventos esportivos. Outra referência sobre o tema é SMH 2016: remoções no Rio de Janeiro Olímpico, da Mórula, com o apoio da  Fundação Heinrich Böll. (Olha o jabá de amizade aqui, Manoela! 😀 ).
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