Great power, great responsibilities

Um amigo meu tem uma teoria que seria cômica se não fosse trágica: após o quinto gol da Alemanha (vocês sabem qual era o jogo), o Brasil entrou no mundo paralelo e não conseguiu mais sair.

Faz sentido. Pensa bem: o Brasil perder de 4 X 0 para a Alemanha numa Copa do Mundo seria humilhante? Seria. Mas seria algo como um portal para o mundo bizarro? Não. O 7 X 1 nos transportou para uma dimensão tipo twilight zone e eu realmente me pego perguntando se um dia conseguiremos sair dela.

Mas há quem diga que não, que na verdade o que aconteceu foi que os maias (não confundir com os Maias) tinham razão e o mundo acabou em 2012. Não dá para dizer que os fatos não sustentam essa teoria… afinal, de lá para cá tivemos as jornadas de junho, a ascensão ao poder de figuras bizarras no mundo todo, enfim, muitas coisas estranhas aconteceram. E além disso 2012 foi o ano em que Barack Obama foi reeleito para seu segundo e último mandato na Casa Branca. Realmente, olhando em retrospecto, parece que de lá para cá o mundo só desceu a ladeira.

***

Essas reflexões me vieram à cabeça porque estou lendo a autobiografia de Michelle Obama, ex-primeira dama dos EUA. Cá entre nós, faz tempo que eu suspeito que a família Obama na verdade não existe – são atores contratados por Hollywood para encenar um grupo de pessoas maravilhosas e fazer o mundo parecer um grande comercial de margarina.

Tá, digamos que Michelle existe. Claro que numa autobiografia a pessoa seleciona os melhores aspectos de si mesma, faz uma edição do lado obscuro da vida,especialmente da política, e mostra só os fatos que servem para compor um bom retrato de si mesma.

Mas isso não vem ao caso para falar sobre o que me impactou no livro.

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Porque um livro como este, com potencial para alcançar milhões de pessoas no mundo todo, carrega a força de uma mensagem. E a mensagem de Michelle é a de que o poder não é um fim em si, é um meio para causar impacto positivo na vida das pessoas. Com todas as suas limitações, o poder pode (ou deve) ser usado com responsabilidade sobre aqueles que o concederam – os eleitores, no caso de um representante eleito democraticamente.

E por isso, não importa se sinceras ou não, as palavras de Michelle mostram o poder não como algo fascinante, mas algo que a família encarava com grande seriedade. Fiquei comovida com diversos trechos da narrativa em que essa sensibilidade se revelou, mas especialmente neste parágrafo em que ela conta como se sentiu após passar uma noite passeando com o marido em Nova York, em um jantar seguido de teatro, algo que milhões de pessoas fazem, em milhares de cidades ao redor do mundo, corriqueiramente.

Era como se, com nossa noite a dois, Barack e eu tivéssemos testado uma teoria e provado tanto a melhor quanto a pior parte de uma longa suspeita. A parte boa era que podíamos sair de cena para uma noite romântica, como costumávamos fazer, anos antes, quando a vida política dele ainda não tinha assumido o controle. (…) A parte ruim era ver o egoísmo inerente a fazer isso, sabendo que nosso programa havia exigido horas de reuniões entre as equipes de segurança e a polícia local. Acarretara trabalho extra para nossos funcionários, para o teatro, para os garçons do restaurante, para as pessoas cujos carros haviam sido desviados da Sixth Avenue, para os policias na rua. Era parte do peso que nos acompanhava agora. Era muita gente envolvida, muita gente afetada, para qualquer coisa ser leve.

Neste mundo bizarro/pós-apocalíptico em que vivemos, é um sopro de alento vislumbrar uma visão tão consciente sobre o quanto nossos atos afetam os outros.

-Monix-

Chi-chi, le-le

Com interesse e banda larga, hoje em dia a gente pode conhecer boa parte do mundo, acompanhar o que acontece em lugares que nunca fomos ou iremos, mas que capturam nossa atenção – ainda que apenas na duração de tuíte. Por isso, estabelecemos com as cidades que efetivamente visitamos uma relação diferente, mais próxima; nunca mais ouvimos seu nome no noticiário da mesma maneira.

Digo isso pra explicar por que meu coração aperta a cada notícia que chega do Chile, especialmente de Santiago, que nos recebeu muito bem (a mim e à Fifi) e da qual guardamos amorosas lembranças de nuestra primeira viagem internacional. O Chile distante e mítico de Allendes (de Salvador e Isabel) tornou-se um pouco nosso também, depois de quatro dias e muitas caminhadas. Neste outubro de 2019 não faltam convulsões sociais em diferentes escalas, próximas ou distantes: Líbano, Equador, Catalunha, Bolívia. Mas o Chile captura o maior pedaço da minha atenção.

Como a maioria das pessoas da minha bolha (esquerdista/abortista/feminista/gayzista/graças à deusa), acho potente e inspirador que a população esteja saindo às ruas para questionar um sistema que vem sendo exportado como positivo sem que se esclareça para quem. Mas temo pela cidade, pelas pessoas, pela truculência dos carabineiros e das forças armadas – cuja presença na vida cotidiana da cidade me pareceu demasiada quando estive por lá.

Foto de Susana Hidalgo. A bandeira no topo representa os Mapuche, chilenos antes de existir o Chile. Manifestação de 25/10, que reuniu mais de um milhão de pessoas, a maior desde o fim da ditadura.

Tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas…não, péra, isso é música do Belchior. Tenho ouvido podcasts*, lido artigos e procurado informações no tuíter de gente que vive lá, para tentar compreender o que tá coteseno. Se vivemos um tempo em que os movimentos sociais são ou estão difusos, sem liderança e voláteis, também não basta se informar apenas pelos meios de sempre. Até porque, para a chamada grande imprensa, a maior surpresa é que haja revolta popular diante de indicadores econômicos tão positivos, mas ninguém faz o óbvio: questionar esses indicadores.

Sigo acompanhando por aqui, torcendo pelo melhor, ou seja: que a luta resulte em mudanças reais, especialmente para todas as periferias: econômicas, sociais e políticas . E que a memória do povo chileno seja ingrediente indispensável na construção de um futuro melhor.

Memorial no Estádio Nacional, em Santiago do Chile

Helê

*Um dos meus pods preferidos atualmente é o Muito mais que futebol, cujo teor é absolutamente fiel ao título; vale a pena. Aceito outras indicações 🙂 

 

Mais opinião que notícia

Queria vir aqui falar de viagem, filho, idade – do meu umbigo, em resumo, que tem me dado mais prazer que o noticiário – , mas não posso perder esse gancho que minha sócia me deu, sem saber, para extravasar minha indignação. Sobre a notícia de que funcionários do PT ganharam na loteria essa semana, a revista istoé (assim mesmo, com as minúsculas que merece) publicou uma nota com o seguinte título: “Os petistas ficaram ricos – sem roubar”. Eu li mais de uma vez para acreditar que estava lendo uma veículo de notícias, e não uma propaganda eleitoral fora de época, um panfleto de DCE, uma notinha social num boletim militar. E cada vez que leio me ferve a irritação com esse pseudo jornalismo que envergonha a profissão.

Não tenho muita paciência para a maioria dos veículos de esquerda porque me parecem jornalisticamente fracos, mas pelo menos são honestos: você sabe quais são os princípios que os orientam. A chamada grande imprensa, com seu falso verniz de imparcialidade e isenção, segue ajudando a consolidar o atual a situação de indigência política e intelectual que se alastra pelo país.

A nota da revistinha transborda desprezo e despeito pela sorte dos petistas – esse adjetivo que a imprensa, mais que nenhum outro setor, se esforça para transformar em xingamento. Para azar dos que tentam enxovalhar o PT e seus seguidores, informo que a esquerda tem muita experiência em transmutar em orgulho o que tentam lhe impingir como ofensa.

Helê, putíssima

Utilidade pública

Achei que devia avisar.

Helê

Inimigos imaginários

Quase todo mundo que eu conheço está reclamando de cansaço extremo. E eu não acho que seja por causa da “vida moderna”, o estresse da cidade grande, trabalho demais, nada disso.

Acho que é porque cansa demais levar pancada o tempo todo e não saber nem por onde começar a reagir. É isso: a minha turma foi escolhida como inimiga número um da sociedade – pelo menos pela parcela mais alucinada da sociedade.

O problema é que esses ataques são tipo a Ursal. Quando o Cabo Daciolo tirou da cartola essa teoria da conspiração, o que aconteceu? No dia seguinte, quebrou a internet (pelo menos a internet onde eu circulo). Mas por quê a minha turma achou tanta graça e criou tantos memes? Justamente porque a gente nunca tinha ouvida falar em Ursal. Assim como nunca tínhamos ouvido falar em “marxismo cultural” nem em “ideologia de gênero”. E aí é que mora o perigo: como a gente navega em bolhas, tem um pessoal de outra bolha que está nos julgando (e condenando) com base em coisas que simplesmente não existem.

Ou seja, é pior do que combater inimigos imaginários – coisa que desde Dom Quixote já sabemos que é bem difícil. É que nós fomos transformados em inimigos imaginários e estamos sofrendo ataques reais. Quem descobrir como se defender, capaz que ganhe o Nobel da Paz em 2020.

Então somos acusados de ser comunistas e tentamos responder dentro do conceito que a gente conhece de comunista, dizendo: olha, o comunismo já não existe mais em país nenhum do mundo, etc. Só que não é desse comunismo que se está falando. Comunista, na linguagem da direita populista, é qualquer um que se oponha ao seu projeto moralizante-autoritário travestido de anti-sistêmico. Incluindo a Veja, o Papa Francisco, etc.

E é com base nessa realidade que só podemos chamar de “alternativa” (aliás, faça um favor a si mesmo e leia esse artigo do linguista Jan Blommaert sobre “fatos alternativos”) que são tomadas decisões importantes sobre políticas públicas.

Tipo o contingenciamento de verbas das universidades e institutos federais.

Tirar dinheiro dos “doutrinadores” não vai fazer as pessoas mudarem seu pensamento. Se a UFRJ não tiver comida no bandejão, se a UFF não tiver segurança nos campi, se o Colégio Pedro II ficar sem luz elétrica (sem telefone já está, há mais de um ano)… os professores e os estudantes continuarão pensando as mesmas coisas que pensam hoje com luz, segurança e comida. Talvez eles só não possam mais debater essas coisas em sala de aula, porque as aulas terão que ser suspensas.

Mas isso seria exatamente o significado da metáfora “matar um mosquito com tiro de canhão”. Sendo que o mosquito, no caso, nem existe.

-Monix

PAREM DE MATAR OS PRETOS!

O Estado não tem passe livre para matar nenhuma pessoa (ainda que suspeita de cometer um ato ilícito). Portanto, La Otra tem toda a razão e o direito de também exigir não tornar uma vítima da violência policial-militar.

Eu, quando digo parem de nos matar, evidentemente estou falando como uma mulher negra de origem classe média baixa, alguém mais suscetível à violência institucional e mais imune às raras políticas compensatórias estatais. 

Olhem para Evaldo dos Santos Rosa, fuzilado pelo exército, numa rua de Guadalupe. Olhe para rua e os que fazem parte da cena, entre familiares, passantes e curiosos. Você imagina a vítima com um sobrenome Werner, de pele clara e cabeleira loura, e o trânsito interrompido numa esquina do Leblon? E não uma, mas OITENTA balas perdidas?

Ou a gente discute racismo ou ele matará todos nós, de um jeito ou de outro.

Helê

 

Oitenta

No momento em que escrevo este post, a hashtag OITENTA TIROS está no topo dos assuntos mais comentados do Brasil no Twitter.

Essa é a história mais trágica de um período em que a tragédia virou cotidiana para nós brasileiros. Uma família estava indo para um chá de bebê quando, segundo contam todas as testemunhas – e como mostram algum vídeos -, o carro branco em que estavam foi fuzilado, sem motivo aparente, por militares. Nos vídeos, aparecem um tanque camuflado e um jipe do Exército. Não consegui entender de qual dos veículos partiram os tiros, ou se dos dois. Mas foram oitenta. OITENTA.

A Helê disse, em outro lugar: parem de nos matar. Essa é a primeira coisa, de fato, que deve ser dita.

Parem. De. Nos. Matar.

Eu tenho outras coisas para dizer. Basicamente perguntas, que não sei se serão respondidas.

A primeira coisa que eu gostaria de entender é o seguinte: a intervenção militar no estado do Rio não tinha terminado no fim do ano passado? Por quê, então, militares do Exército estavam “patrulhando” Guadalupe, bairro próximo à Vila Militar? A primeira informação divulgada foi de que os militares teriam disparado os tiros após serem alvejados por um carro conduzido por “bandidos” (assaltantes? traficantes? não sabemos). Então, antes de mais nada, eu gostaria de saber com que atribuição os militares do Exército estavam atirando, seja lá em quem for. (O mais triste é escrever isso e temer ser acusada de estar defendendo bandido, como já fizeram com o jornalista Carlos de Lannoy. Conto com a insignificância da nossa audiência para – ainda – poder afirmar essas coisas sem o risco de entrar no turbilhão de misunderstandings que se chama internet.)

A segunda coisa que me deixou confusa – e, vejam, além de não estar “defendendo bandido”, muito menos estou advogando a eficiência das forças de segurança na eliminação de pessoas, quem quer que sejam – foi o baixo índice de acertos. Assim, não é que eu quisesse que cinco pessoas tivessem morrido, nem mesmo se fossem os tais bandidos que não sabemos quem são nem de onde vinham nem para onde foram. Mas, só para tentar entender a lógica por trás do que se queria que tivesse acontecido, vamos supor que o carro branco tivesse cinco perigosos traficantes, e não uma família indo para um chá de bebê. Os militares dispararam OITENTA TIROS e acertaram três no motorista, que morreu, e um número desconhecido (eu não vi) no sogro, que está ferido, e em um homem que passava na rua e tentou ajudar. A mulher do motorista, o filho e uma outra passageira do carro simplesmente abriram a porta e saíram correndo. Então me expliquem, se puderem: que raio de execução é essa? Nem para exterminar os bandidos os nossos homens da lei servem? Na melhor/pior das hipóteses, dos OITENTA TIROS disparados, dez acertaram os alvos? A ideia é o quê? Atirar a esmo e torcer para alguma bala encontrar algum alvo? Eu pensei que o plano (péssimo, mas enfim, um plano) era botar snipers, atiradores de elite, para eliminar cirurgicamente os malfeitores. Isso que aconteceu em Guadalupe é o exato oposto do que as autoridades andaram dizendo que iam fazer (e que, de novo, mesmo se desse certo já seria uma péssima ideia).

Por fim, uma questão que é quase existencial. Imaginem se o motorista do carro branco tivesse uma arma. Ele era um cidadão de bem. Na circunstância de ser atacado como foi, se houvesse tempo e oportunidade, e ele reagisse atirando… isso poderia, Arnaldo? O cidadão de bem que é atacado por outros cidadãos de bem, assim, “por engano”, faz o quê? Atira de volta e aumenta a carnificina?

É bem provável que ninguém responda a nenhuma das minhas perguntas, mas eu precisava compartilhá-las com vocês.

Ah, e last, but not least: Parem. De. Nos. Matar.

-Monix-

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