A Grande Ficha

Resultado de imagem para a grande ficha de laerte

Bem, parece que aos poucos a Grande Ficha vai caindo, exceto para nosso irresponsável Pesadelo Eleito.

***

É chegada a hora de ficar em casa e esperar. Paciência, algo que desaprendemos a ter, é o que a humanidade mais precisará nos próximos meses.

***

Este é um evento de uma magnitude que a gente ainda nem consegue dimensionar. Não é como o pós-11 de setembro. Não é como a queda do Muro de Berlim. Talvez se compare à invasão da Polônia pelo exército nazista. A conferir.

***

Teorias da conspiração: não passem adiante, por mais engraçadas que sejam. Há todo tipo de maluco, as pessoas acreditam em piadas.

***

Mas se fosse para acreditar em alguma conspiração, acho que seria a natureza finalmente se cansando da espécie humana e mandando um recado, digamos, mais enfático.

***

É hora de ver nossos privilégios como eles realmente são. Ver o valor de pequenas coisas, como ter a benção de passar a quarentena com pessoas que você ama, ou juntos, em casa, ou se aproveitando dos recursos que a tecnologia nos permite usar. Imaginem na época da gripe espanhola, ficar confinada bordando.

***

Desde semana passada não consigo parar de pensar em como sairemos dessa crise global. Nesses momentos, o melhor e o pior da humanidade se apresentam. Prefiro focar no melhor. Iniciativas de apoio, coletivos, ajuda material, arte espontânea, tenho visto muita coisa bonita. Profissionais de várias categorias pensando em formas de ajudar — psicólogos fazendo atendimentos virtuais, nutricionistas compartilhando receitas, jornalistas ajudando a identificar o que é fato e o que é boato, isso sem falar no médicos e todos os profissionais de saúde, e em uma turma meio invisível que é fundamental: os técnicos que mantêm os servidores de internet no ar, os funcionários das companhias de água e energia, etc.

Penso muito nas categorias de trabalhadores não especializados, que serão essenciais para todos nós — por exemplo, funcionários de supermercados, entregadores, cozinheiras de restaurantes. Merecem aplausos na janela, também.

***

Eu continuo trabalhando normalmente, e acumulando tarefas domésticas, então não tenho muitas dicas sobre o que fazer na quarentena. Sugiro que visitem as categorias do blogue sobre livros, filmes e afins e se distraiam com os posts antigos para se inspirar.

Ah, e enquanto nossa sanidade mental permitir, continuaremos mandando a newsletter toda quarta, tentando reciclar posts sobre belezuras e assuntos um pouco mais leves, para ajudar a enfrentar o que vem por aí.

***

Cuidem-se. Lavem as mãos. Fiquem em casa.

-Monix-

Pastilhas Garota* (de meia idade)

O carioca é mesmo um ser muito desbocado. Criou uma alternativa xrated para o etcétera, que é, como se sabe, oscaralho. Pode denotar um sentido coletivo (“Ele levou pai, mãe, filho e oscaralho); ou intensidade (Vai desfilar em três escolas, nos blocos e oscaralho). Mas se a intensidade for muita, utilizamos o superlativo ocaralhoaquatro. Um fino, o carioca.

*

Tem certas palavras ou expressões que se auto denunciam como falsas. Adquiriram uma reputação tão ruim que, mesmo quando usadas legitimamente, inspiram desconfiança. Coisas como “não é que eu seja….” – já era, irmão, pra mim você é o que quer que venha depois. Ou quando o sujeito fala que “não é de esquerda nem direita” – direitoba, certamente. Em mim já dá vontade de centralizar um soco, pro cabra parar de tentar me enganar.

*

Quando eu tinha uns 10 anos, meu pai me disse algo que me chocou: “tudo é política, todo ato é político”. Tentei o que me parecia mais impossível: “Até um beijo?” Ele, convicto: “Até um beijo”. Não foi na hora, mas logo depois eu entendi o que ele quis dizer, e hoje agradeço a ele essa lição precoce, porque me poupa de certos vexames. Como um juiz federal dizer que a greve dos petroleiros é política. O que não é, moço?

*

Não quero me acostumar com a vida de desempregada. O horário é bom, mas paga muito mal.

*

E atenção, recrutadores: vamo combiná que pretensão salarial num pais com 13% desempregados é uma cretinice brutal, não? Joga o candidato um dilema terrível, porque ele não deve pedir alto demais, tão pouco se desvalorizar, mas nos dias atuais a grande pretensão tem sido conseguir um emprego. Tenho vontade de devolver a bola para o empregador em forma de enigma: minha pretensão é receber três vezes mais o que eu aceitaria. Ele que lute pra saber quanto é isso.

*

Trudia tava zanzando pelo YouTube e comecei a assistir uma entrevista do Paulo Coelho. Ele metia o pau no Pesadelo Eleito®, estarrecido com as declarações, os ministros e oscaralho. Aí quando o cabra pergunta: “O que ainda te dá orgulho no Brasil”, o mago responde: “o povo”. E eu: “Hã?! O mesmo que elegeu esse imbecil?” Vamos parar de romantizar o Brasil?

Avenida Paulista, São Paulo
Photo by Lucas Martins @lucasport01
everydaybrasil

Helê

*Porque Drops, só da Fal

®Tina Lopes, que se não inventou essa expressão precisa, foi quem me ensinou

Um retrato do Brasil

Severino bordando, na porta de sua casa, a gola de caboclo que ele vai usar no Carnaval. Tracunhaém, mata norte de Pernambuco.
Do twitter da Fabiana Moraes

Reza a lenda (urbana) que João Gilberto teria dito, ao ver uma mulher negra descendo o morro, “Olha o Brasil descendo a ladeira!”. A partir dessa “exclamação poética”, Moares Moreira escreveu sua conhecida canção. Pois eu tive reação semelhante ao ver essa foto hoje: de estar vendo o Brasil – ao menos aquele que me interessa, instiga e inspira. Um ao qual eu pertenço e em que me reconheço: tudo nessa foto soa familiar, embora eu não nunca estado em Tracunhaém e tão pouco tenha visto um Caboclo de Lança ao vivo. Não queria morar nessa foto: sinto que, de algum modo, eu vivo ali. 

Helê

Great power, great responsibilities

Um amigo meu tem uma teoria que seria cômica se não fosse trágica: após o quinto gol da Alemanha (vocês sabem qual era o jogo), o Brasil entrou no mundo paralelo e não conseguiu mais sair.

Faz sentido. Pensa bem: o Brasil perder de 4 X 0 para a Alemanha numa Copa do Mundo seria humilhante? Seria. Mas seria algo como um portal para o mundo bizarro? Não. O 7 X 1 nos transportou para uma dimensão tipo twilight zone e eu realmente me pego perguntando se um dia conseguiremos sair dela.

Mas há quem diga que não, que na verdade o que aconteceu foi que os maias (não confundir com os Maias) tinham razão e o mundo acabou em 2012. Não dá para dizer que os fatos não sustentam essa teoria… afinal, de lá para cá tivemos as jornadas de junho, a ascensão ao poder de figuras bizarras no mundo todo, enfim, muitas coisas estranhas aconteceram. E além disso 2012 foi o ano em que Barack Obama foi reeleito para seu segundo e último mandato na Casa Branca. Realmente, olhando em retrospecto, parece que de lá para cá o mundo só desceu a ladeira.

***

Essas reflexões me vieram à cabeça porque estou lendo a autobiografia de Michelle Obama, ex-primeira dama dos EUA. Cá entre nós, faz tempo que eu suspeito que a família Obama na verdade não existe – são atores contratados por Hollywood para encenar um grupo de pessoas maravilhosas e fazer o mundo parecer um grande comercial de margarina.

Tá, digamos que Michelle existe. Claro que numa autobiografia a pessoa seleciona os melhores aspectos de si mesma, faz uma edição do lado obscuro da vida,especialmente da política, e mostra só os fatos que servem para compor um bom retrato de si mesma.

Mas isso não vem ao caso para falar sobre o que me impactou no livro.

Resultado de imagem para michelle obama minha história

Porque um livro como este, com potencial para alcançar milhões de pessoas no mundo todo, carrega a força de uma mensagem. E a mensagem de Michelle é a de que o poder não é um fim em si, é um meio para causar impacto positivo na vida das pessoas. Com todas as suas limitações, o poder pode (ou deve) ser usado com responsabilidade sobre aqueles que o concederam – os eleitores, no caso de um representante eleito democraticamente.

E por isso, não importa se sinceras ou não, as palavras de Michelle mostram o poder não como algo fascinante, mas algo que a família encarava com grande seriedade. Fiquei comovida com diversos trechos da narrativa em que essa sensibilidade se revelou, mas especialmente neste parágrafo em que ela conta como se sentiu após passar uma noite passeando com o marido em Nova York, em um jantar seguido de teatro, algo que milhões de pessoas fazem, em milhares de cidades ao redor do mundo, corriqueiramente.

Era como se, com nossa noite a dois, Barack e eu tivéssemos testado uma teoria e provado tanto a melhor quanto a pior parte de uma longa suspeita. A parte boa era que podíamos sair de cena para uma noite romântica, como costumávamos fazer, anos antes, quando a vida política dele ainda não tinha assumido o controle. (…) A parte ruim era ver o egoísmo inerente a fazer isso, sabendo que nosso programa havia exigido horas de reuniões entre as equipes de segurança e a polícia local. Acarretara trabalho extra para nossos funcionários, para o teatro, para os garçons do restaurante, para as pessoas cujos carros haviam sido desviados da Sixth Avenue, para os policias na rua. Era parte do peso que nos acompanhava agora. Era muita gente envolvida, muita gente afetada, para qualquer coisa ser leve.

Neste mundo bizarro/pós-apocalíptico em que vivemos, é um sopro de alento vislumbrar uma visão tão consciente sobre o quanto nossos atos afetam os outros.

-Monix-

Chi-chi, le-le

Com interesse e banda larga, hoje em dia a gente pode conhecer boa parte do mundo, acompanhar o que acontece em lugares que nunca fomos ou iremos, mas que capturam nossa atenção – ainda que apenas na duração de tuíte. Por isso, estabelecemos com as cidades que efetivamente visitamos uma relação diferente, mais próxima; nunca mais ouvimos seu nome no noticiário da mesma maneira.

Digo isso pra explicar por que meu coração aperta a cada notícia que chega do Chile, especialmente de Santiago, que nos recebeu muito bem (a mim e à Fifi) e da qual guardamos amorosas lembranças de nuestra primeira viagem internacional. O Chile distante e mítico de Allendes (de Salvador e Isabel) tornou-se um pouco nosso também, depois de quatro dias e muitas caminhadas. Neste outubro de 2019 não faltam convulsões sociais em diferentes escalas, próximas ou distantes: Líbano, Equador, Catalunha, Bolívia. Mas o Chile captura o maior pedaço da minha atenção.

Como a maioria das pessoas da minha bolha (esquerdista/abortista/feminista/gayzista/graças à deusa), acho potente e inspirador que a população esteja saindo às ruas para questionar um sistema que vem sendo exportado como positivo sem que se esclareça para quem. Mas temo pela cidade, pelas pessoas, pela truculência dos carabineiros e das forças armadas – cuja presença na vida cotidiana da cidade me pareceu demasiada quando estive por lá.

Foto de Susana Hidalgo. A bandeira no topo representa os Mapuche, chilenos antes de existir o Chile. Manifestação de 25/10, que reuniu mais de um milhão de pessoas, a maior desde o fim da ditadura.

Tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas…não, péra, isso é música do Belchior. Tenho ouvido podcasts*, lido artigos e procurado informações no tuíter de gente que vive lá, para tentar compreender o que tá coteseno. Se vivemos um tempo em que os movimentos sociais são ou estão difusos, sem liderança e voláteis, também não basta se informar apenas pelos meios de sempre. Até porque, para a chamada grande imprensa, a maior surpresa é que haja revolta popular diante de indicadores econômicos tão positivos, mas ninguém faz o óbvio: questionar esses indicadores.

Sigo acompanhando por aqui, torcendo pelo melhor, ou seja: que a luta resulte em mudanças reais, especialmente para todas as periferias: econômicas, sociais e políticas . E que a memória do povo chileno seja ingrediente indispensável na construção de um futuro melhor.

Memorial no Estádio Nacional, em Santiago do Chile

Helê

*Um dos meus pods preferidos atualmente é o Muito mais que futebol, cujo teor é absolutamente fiel ao título; vale a pena. Aceito outras indicações :-) 

 

Mais opinião que notícia

Queria vir aqui falar de viagem, filho, idade – do meu umbigo, em resumo, que tem me dado mais prazer que o noticiário – , mas não posso perder esse gancho que minha sócia me deu, sem saber, para extravasar minha indignação. Sobre a notícia de que funcionários do PT ganharam na loteria essa semana, a revista istoé (assim mesmo, com as minúsculas que merece) publicou uma nota com o seguinte título: “Os petistas ficaram ricos – sem roubar”. Eu li mais de uma vez para acreditar que estava lendo uma veículo de notícias, e não uma propaganda eleitoral fora de época, um panfleto de DCE, uma notinha social num boletim militar. E cada vez que leio me ferve a irritação com esse pseudo jornalismo que envergonha a profissão.

Não tenho muita paciência para a maioria dos veículos de esquerda porque me parecem jornalisticamente fracos, mas pelo menos são honestos: você sabe quais são os princípios que os orientam. A chamada grande imprensa, com seu falso verniz de imparcialidade e isenção, segue ajudando a consolidar o atual a situação de indigência política e intelectual que se alastra pelo país.

A nota da revistinha transborda desprezo e despeito pela sorte dos petistas – esse adjetivo que a imprensa, mais que nenhum outro setor, se esforça para transformar em xingamento. Para azar dos que tentam enxovalhar o PT e seus seguidores, informo que a esquerda tem muita experiência em transmutar em orgulho o que tentam lhe impingir como ofensa.

Helê, putíssima

Utilidade pública

Achei que devia avisar.

Helê

%d bloggers like this: