Independência e vida

Desculpe aí, patriarcado, mas são duzentos anos de uma história contada pela metade, então hoje precisamos fazer uma correção importante. A independência do Brasil foi proclamada por uma mulher. É isso mesmo, repito para que não haja dúvidas:

A independência do Brasil foi proclamada por uma mulher. No dia 2 de setembro de 1822.

Essa mulher se chamava Maria Leopoldina, e hoje seu nome é mais reconhecido quando vem com um sufixo, no nome da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Duzentos anos atrás, ela era a princesa regente do Brasil, portanto quem tinha autoridade para tomar decisões e assinar documentos oficiais. E foi isso que ela fez naquele 2 de setembro. Portugal queria que D. Pedro voltasse à Europa. A corte brasileira pressionava pela independência do Brasil. A relação colonial já não fazia sentido. Mas o príncipe estava ausente (ué, um homem ausente na hora que mais se precisa dele, cê jura?). Quem botou o dito cujo na mesa foi a consorte de apenas 25 anos, que tinha sido preparada a vida inteira para cumprir com os deveres de Estado.

Nos dois episódios históricos de 1822, Leopoldina esteve em defesa da emancipação brasileira. Em 13 de agosto (…) D. Pedro viajou para São Paulo , e Leopoldina assumiu pela primeira vez a regência do país. Durante esse período, no dia 2 de setembro, presidiu a sessão do Conselho de Estado na qual deliberou a separação entre os dois reinos, fazendo registrar na ata a assinatura de todos os ministros. Documentos afirmam que a independência foi oficialmente decidida nessa ocasião, e alguns dias depois proclamada por D. Pedro às margens do Ipiranga.

(Trecho extraído do verbete sobre Leopoldina de Habsburgo-Lorena, do Dicionário Mulheres do Brasil)

Leopoldina comeu o pão que o diabo amassou no Brasil, mas amou este país até o final

A história oficial tende a apagar a participação feminina nos grandes eventos ao longo dos séculos, mas nunca é tarde para revisitar o cânone e dar crédito a quem merece. Além de Leopoldina, que atuou aqui na corte do Rio de Janeiro, o Brasil como o conhecemos hoje deve muito às heroínas da independência da Bahia: Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa. Essa história também merece ser contada, mas hoje, 2 de setembro, o que eu quero é propor que comemoremos a verdadeira data de independência do Brasil relembrando Leopoldina — por exemplo, você já leu o livro da Fal e da Suzi? E se não leu, o que está esperando?

Olha quem já leu… Só falta você rsrsrs (a foto é montagem, mas fica a dica como inspiração)

A independência contada da perspectiva masculina tem cavalos, uma espada meio fálica (ops) e um grito que fala em morte. O que eu quero é uma independência que fale de vida, e a Imperatriz Leopoldina, com toda sua dignidade perante o sofrimento, sua habilidade para construir alianças e sua vocação para os negócios de Estado me parece uma representante muito melhor do espírito que devemos buscar para a nação brasileira.

-Monix-

Uma Monica inesquecível (pelos motivos errados)

Em 1998, eu tinha pouco menos de 30 anos e trabalhava como editora de um telejornal na finada TV Manchete. Por isso, quando estourou um escândalo envolvendo uma mulher quase da minha idade e com o mesmo nome que eu, naturalmente aquilo me interessou, não só como jornalista, mas também nos aspectos mais subjetivos da história. Talvez seja por isso que, vinte e quatro anos depois, ainda tenho a lembrança de algumas sensações. Numa época em que a gente não conhecia termos para definir coisas terríveis, como por exemplo o slut shamig, eu ficava bastante incomodada com a destruição da reputação de uma moça jovem, que claramente estava sendo atacada em um nível muito pessoal. Pensava que a sociedade americana era moldada por um puritanismo excessivo: um caso do presidente com uma estagiária não me parecia um motivo assim tão relevante para derrubar um governo. (Não me lembro de ter ficado particularmente impressionada com a assimetria de posições de poder entre os dois; hoje este com certeza seria o primeiro aspecto do caso a me chamar a atenção).

Se você nasceu antes de 1980, essa foto não precisa de legenda

Tenho uma memória vívida de muitas reflexões sobre como os Clinton eram o retrato de uma geração que viveu várias quebras de paradigmas no comportamento sexual e afetivo, mas que na real não tinha mudado tanta coisa assim. Lá estava o marido cheio de histórias sobre casos extraconjugais, e a mulher aparentemente aturando tudo em nome da carreira dele e da preservação da família. (Depois repensei essa impressão, e hoje acredito que a questão é um pouco mais complexa que isso, mas talvez esse seja um tema para outro post.)

Enfim, o tempo passou, o ciclo da notícia se esgotou, e parecia que o assunto estava encerrado. Mas em 2015, Monica Lewinsky ressurgiu em um TED Talk bastante impressionante, em que ela se coloca como a “paciente zero” do ciberbullying. Ela fala com uma tranquilidade inesperada sobre as consequências da humilhação pública, em escala global, à qual foi submetida. Fiquei surpresa ao saber que ela não trocou de nome, não tentou mudar a aparência, e que se apresentava diante de uma plateia que certamente sabia detalhes sórdidos de sua vida pessoal. Depois dela, a cultura da humilhação na internet tomou outras proporções, muitas pessoas foram vítimas de exposições cruéis de suas histórias íntimas, e Lewinsky queria convidar as pessoas a refletir sobre compaixão e empatia. Em 2021, assisti ao documentário 15 Minutes of Shame, produzido por ela, em que os mesmos temas são abordados com mais profundidade.

Essa é Monica Lewinsky, alguns anos atrás

Neste fim de semana, maratonei a série Impeachment – American Crime Story, que conta de forma dramatizada a história do escândalo, acompanhando de perto as trajetórias de três mulheres que estiveram no centro dos acontecimentos: além de Monica, há Paula Jones e Linda Tripp. É curioso o modo como a série retrata as relações entre as mulheres envolvidas no caso, especialmente porque há outras, que manipulam a situação para obter benefícios pessoais ou políticos. A série se baseia no noticiário da época e em um livro chamado A Vast Conspiracy: the real story of the sex scandal that nearly brought down a president. O enfoque é bem esse mesmo: a série defende a tese de que aquilo que me parecia, na época, um excesso de puritanismo da sociedade americana, na verdade tinha muito mais motivações políticas que moralistas.

Monica Lewinsky, que é coprodutora da série, tem um nome e um rosto inesquecíveis. O “crime” que ela cometeu, além de se apaixonar pela pessoa pessoa errada, foi assinar um papel negando tudo, na tentativa de se preservar. Os erros que cometeu aos vinte e poucos anos a perseguem até hoje. Poucas pessoas, nesse momento histórico da virada entre dois séculos, me parecem tão interessantes quanto ela.

-Monix-

Batom é pouco, queremos direitos

Até 1988, o homem era considerado o chefe da família pela lei brasileira. Se ele decidisse mudar de cidade, a mulher e os filhos eram obrigados a acompanhá-lo. 1988, gente. Logo ali. E olha o que dizia o código civil de 1916 (tá, um pouco mais antigo, mas nem tanto assim): uma mulher que tivesse bens e se casasse perdia o direito de administrar o próprio patrimônio. É, o marido passava a controlar tudo. Quer vender a casa que era do sogro e torrar tudo em jogo? Pode.

Quando foi instituída a Assembleia Constituinte, em 1987, 26 mulheres foram eleitas deputadas. Quando assumiram seus mandatos, descobriram que não existia banheiro para elas no plenário da Câmara. A representação feminina ainda é pífia na política brasileira, mas por incrível que pareça já avançamos um bocado. E devemos muitas das conquistas que hoje nos parecem óbvias, como o direito a usar nosso próprio dinheiro ou escolher a cidade onde vamos morar, tanto a essas deputadas quanto a muitas outras mulheres que participaram do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, criado em 1985. Elas estudaram todo o arcabouço legal (nunca pensei em usar essa expressão no blogue hahaha) que na década de 1980 tratava de questões ligadas à vida das mulheres. E descobriram que muita coisa precisava ser mudada. Daí botaram a mão na massa e escreveram um documento chamado Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes, que foi elaborado com a participação de gente do Brasil inteiro. Muitas das demandas dessa carta hoje fazem parte da nossa constituição cidadã.

A bancada feminina na Assembleia Constituinte

Toda essa história está contada no documentário O Lobby do Batom, que tem depoimentos incríveis de várias dessas mulheres que mudaram nossas vidas. A elas, meu muito obrigada.

-Monix-

Temos ódio e nojo à ditadura

As Duas Fridas

Gilberto Gil imortal

Eleito para ABL – que sorte da Academia!

Helê

Quer que desenhe? Taí

Na semana passada, nós listamos os crimes do presidente em nossa newsletter (mentira que você não assina?!) e eu fiquei me perguntando se não deveria postar aqui também, para dar mais visibilidade às barbaridades que desse dementador. Acabei não fazendo por falta de tempo e ainda bem: hoje posso reproduzir aqui essa capa genial (graças ao sempre atento Márcio Maturana, que postou lá no tuinto). E mantenho o canto: Vem tribunal de Haia! Vem Tribunal de Haia!”*

Helê

*Vinheta/mantra do combativo e divertido podcast Medo e delírio em Brasília

Vilões de novela

Aqui no Brasil estamos tão anestesiados com os absurdos em série do nosso desgoverno que poucas coisas têm causado indignação de verdade. Mas esse caso da Pr*vent Senior é diferente. A cada novo detalhe divulgado, sinto uma reação física, mistura de revolta com choque e vontade de sair correndo.

Nunca pensei que em pleno século 2021 viveríamos para ver experimentos à la Mengele serem tocados às claras, em hospitais brasileiros. Fizeram isso com um médico que era símbolo do negacionismo no Brasil. Ao que tudo indica, o mesmo aconteceu com a mãe do empresário bolsonarista mais conhecido como Véio da Havan.

A Pr*vent transformou os pacientes em cobaias humanas. Em bom português, foi isso. É sério: pausa a leitura deste post, lê essa matéria, assiste os vídeos e depois volta aqui. Eu sei que é horrível e que ninguém aguenta mais notícia ruim, mas a gente precisa saber do que aconteceu. Isso é importante demais.

O que já se descobriu sugere que a ideia era mesmo disseminar o vírus propositalmente, para estimular a fracassada e irresponsável “imunidade de rebanho”. Isso sem falar que mudavam os prontuários, escondendo mortes por Covid dos supostos estudos que foram alardeados para reforçar a “eficácia” (só que não) do tratamento precoce. Tudo possivelmente sob coordenação do tal gabinete paralelo que, já se sabe, passou por cima do Ministério da Saúde em vários momentos da condução da pandemia pelo desgoverno.

Há outros absurdos, como as denúncias de que havia um prazo máximo para os pacientes ficarem na UTI. Depois de certo período de tempo, passavam a receber apenas cuidados paliativos (ou seja, eram considerados doentes terminais). Nunca saberemos se poderiam ter sobrevivido.

Em resumo, é um show de horrores. Crime contra a humanidade é pouco.

***

Uma coisa que me espanta desde aquela famosa reunião ministerial de abril do ano passado é que naquele momento ficou claro o seguinte: esses caras são vilões de novela!

As cenas de vilões de novela/quadrinhos/cinema são sempre muito caricatas, porque os vilões precisam enunciar de forma bem clara e explícita seus planos malignos pro povo entender. Não pode ter sutileza.

O Véio da Havan é um dos melhores representantes desses vilões caricatos que tomaram conta do país

O bolsonarista típico é assim. Ele fala bem claramente: “vamos estimular as pessoas a ficarem doentes”, “deixa as empresas pequenas quebrarem”, “eu tenho ódio de indígena”, etc. É muito surreal.

Eu já presenciei algumas reuniões com empresários, por motivos de trabalho. Existe ali, mesmo em ambientes privados, um discurso muito bem construído que denota preocupação com responsabilidade social, redução de desigualdades e outros temas de impacto para a sociedade.

Com o bolsonarismo não. É na lata mesmo. As intenções perversas são tratadas às claras e a gente que lide com isso.

Quem ainda tá nesse governo em pleno século 2021 não tem desculpa: ou é criminoso, ou é criminoso.

-Monix-

Sobre patriotismos — e algumas notas olímpicas

Os japoneses são tão organizados que calcularam direitinho pra olimpíada cair bem no intervalo da CPI da Pandemia, garantindo o entretenimento dos brasileiros.

E a gente estava mesmo precisando de uma diversão que não fosse apenas passar raiva juntos.

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Eu sou aquela que só gosta de futebol na Copa do Mundo. E dos demais esportes, quando os ventos favorecem, só mesmo em alguns Jogos Olímpicos. Em 2016 eu dei uma surtada com os Jogos no Rio e assisti um monte de eventos. Foi a última vez que minha cidade, que tanto amo, me fez realmente feliz.

Ano passado, quando adiaram os Jogos de Tóquio, eu estava mais preocupada com a crise global da pandemia. Não dediquei mais que dez segundos pensando “ah, fizeram bem”, e segui dando banho nas compras (a gente ainda estava nessa fase, lembram?). Mas desde semana passada, quando me caiu a ficha de que mesmo com a pandemia ainda nos ameaçando aí fora haveria, sim, olimpíada, convivo com um misto de sentimentos. O primeiro deles foi a saudade imensa do Rio olímpico, do alto astral daqueles dias. Revi vídeos e ri até das coisas que reclamei rabugentamente na época, como a zoeira exagerada da torcida carioca em esportes tradicionalmente mais “comportados”.

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Pouco antes de começar a olimpíada, fiquei meio na dúvida se era certo assistir, afinal, pandemia né? Durante outros dez segundos fiquei pensando se era incoerente acompanhar os Jogos depois de criticar a vinda da Copa América para o Brasil*, tempo suficiente para concluir: eles que lutem.

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O esporte é uma forma genial de canalizar o patriotismo das pessoas, construir um senso de nacionalidade, sem precisar levar todo mundo para a guerra. Assistir EUA X China no vôlei é um microcosmo de tensões geopolíticas que terminam quando o juiz dá o último apito. Este ano eu lembrei que adoro vôlei (sei lá por que tinha esquecido disso), e fico catando partidas nos inúmeros canais sem locução disponíveis no meu pacote. Mas não consigo assistir sem torcer, então escolho um país. Normalmente vou pela proximidade ou afinidade cultural: entre Irã e Venezuela, fiquei com nossos vizinhos. Perderam. Na partida entre americanas e chinesas, tentei de verdade torcer pelas representantes do nosso continente, Mas elas eram tão antipáticas, e as asiáticas, por outro lado, tinham tanta alegria (davam gritinhos a cada ponto), que mudei com cinco minutos de jogo.

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E obviamente há o Brasil. No Twitter o que mais vejo são negociações sobre para qual atleta podemos torcer, quem é ou não bolsominion, se é melhor focar nos esportes individuais e escolher os mais confiáveis ou se nos coletivos para diluir o risco. Sinceramente? Estou zero preocupada com isso. Torço mesmo. O esporte, como eu disse, é uma forma de emoldurar nosso conceito de nação — e curiosamente ao mesmo tempo é mostrado como um instrumento de superação pessoal de dificuldades, etc. Paradoxos.

Mas enfim, digressões à parte, há alguns anos, principalmente a partir de 2013, me sinto um pouco lesada no meu direito de pertencer ao Brasil, de ser brasileira, de me ver representada por símbolos nacionais (os piores casos são a bandeira e a camisa da seleção de futebol, que foram roubados de nós pelos extremistas de direita e hoje causam desconforto na maioria das pessoas da minha turma). Por isso, tem sido bom aproveitar os Jogos Olímpicos para me reencontrar com o sentimento de brasilidade. De saber que ser brasileira, mais do que vergonha internacional, é fazer parte de um povo alegre, apaixonado e apaixonante, intenso de todas as formas (às vezes a ponto, sim, de ser vergonhoso, mas por motivos mais inofensivos do que destruir a Amazônia ou deixar a pandemia fora de controle para lucrar com vacinas superfaturadas e garantir popularidade no ano de eleições).

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O maior símbolo do Brasil que eu quero e preciso resgatar no meu coração é a fadinha Rayssa Leal. O sorriso no rosto dessa menina, a leveza em cima do skate (e o próprio fato de o skate se tornar esporte olímpico), tudo isso me representa.

Aos 13 anos, Rayssa Leal, a Fadinha, conquistou a medalha de prata no skate stre
Valeu, garota :)

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Ainda nesse quesito “reflexões sobre o patriotismo nos esportes”, chama a atenção a situação dos atletas russos. O país foi banido de competições internacionais, porque o governo estava dopando todo mundo pra conseguir os melhores resultados (resumindo em poucas palavras uma situação obviamente mais complexa que isso).

Esse caso da Rússia leva ao limite o argumento de que o esporte é uma forma de sublimar as guerras, de levar as tensões geopolíticas para dentro das quadras e pistas e etc. Hoje é século XXI, galera. O soft power é tão importante quanto qualquer outro, se não for mais.

Enfim, quando vi a bandeira olímpica e a a sigla ROC indicando que os atletas estão competindo pelo Comitê Olímpico Russo, e não pelo país, achei estranho e meio que como trocar seis por meia dúzia. Se são as mesmas pessoas, que diferença faz? Não é uma hipocrisia danada permitir isso?

Claro que há interesses comerciais que não podem ser contrariados. Um atleta de alta performance fora de uma olimpíada causa um prejuízo enorme para as marcas que investiram nele. Uma delegação inteira, ainda mais uma do porte da russa, seria incalculável.

Mas, negócios à parte, realmente não é a mesma coisa que competir sob a bandeira do país. Subir ao pódio e não ter o hino executado é um golpe no sentimento de patriotismo que vem junto com a vitória no esporte. Ainda mais quando se sabe que isso acontece porque o governo do seu país foi punido.

Além disso, na prática a medida significa que os atletas estão reunidos sob o Comitê Olímpico Russo, um órgão que o Comitê Olímpico Internacional consegue controlar.

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Um silêncio veemente que se escuta é o do presidente Jair. Políticos e artistas que entendem essa relação umbilical entre os esportes e o conceito de nação estão parabenizando os atletas, vibrando com cada conquista, e na medida em que adjetivam e qualificam cada acontecimento, ajudando a emoldurar a ideia que fazemos de Brasil. O Brasil é o sorriso da Rayssa? É o choro emocionado do Ítalo? É a persistência dos caras do vôlei que viraram um jogo suado contra a Argentina? Sim. Somos um pouco de tudo isso. E o presidente? Soltou uma nota burocrática parabenizando os skatistas e aproveitando para falar de isenção de impostos para skates, como se alguém estivesse pensando nisso na hora de comemorar medalhas. Francamente. Fora isso, nada mais. É quase como se estivesse aproveitando que todos mundo está olhando pro outro lado para entregar de vez o governo ao fisiologismo.

Ou vai ver que ele só consegue mesmo se pronunciar quando é pra atacar a ideia de Brasil que esses atletas representam. Por isso, quando eles triunfam, não consegue dizer é nada.

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Voltando ao começo, semana que vem a CPI recomeça e desconfio que o recreio vai acabar — ou seja, será o fim desse intervalo maravilhoso em que foi possível esquecer do Brasil sombrio de 2021 e acreditar que podemos ser muito, muito melhores que isso.

-Monix-

* Refletindo melhor, concluí que não, não é a mesma coisa. O Japão está há mais de um ano planejando e pensando em formas de realizar um evento deste porte em condições minimamente seguras para todos. O Brasil atravessou a rua para escorregar numa casca de banana que nem era nossa, e abrigou uma competição internacional com dias de antecedência, seguindo a lógica sanitária do salve-se quem puder.

Em busca do ânimo perdido

Tá tudo meio chato. Tudo meio assustador. Tudo meio deprimente. E esses “tudos” deixam a gente sem ânimo.

(Aliás, a palavra é bem essa mesmo. A gente costuma usar “ânimo” para falar de um estado de espírito, mas na origem a palavra significa o próprio espírito. E essa soma de coisas ruins — ou de nadas — parece estar matando o nosso espírito, não? Pelo menos é assim que eu me sinto, há uns bons meses.)

***

As últimas semanas foram particularmente difíceis nesse quesito do ânimo. Mas aprendi com a turma do Medo e Delírio em Brasília que passar raiva junto é melhor. Foi por isso que na sexta à noite, apesar de não me sentir exatamente motivada, resolvi na marra que iria à manifestação do sábado.

Na rua não teve Fla X Flu. Torcidas unidas na força do ódio.

Eu fui. E sim, passar raiva juntos é extremamente motivador.

Estou há um ano e meio em casa, durante uma pandemia fora de controle, sabendo que está tudo errado e que as coisas não precisavam ser tão desastrosas assim. Essa sensação de isolamento misturado com revolta é uma receita certa para desanimar, ou, mais exatamente, definhar. (Se você ainda não sabe o que é definhar, dá uma pausa na leitura aqui e clica no link. Depois volta aqui. Sério mesmo, essa matéria explica muita coisa.)

Estar na rua cercada por pessoas tão indignadas quanto eu teve o efeito contrário ao isolamento forçado da pandemia: foi revigorante. Não é natural para nós, humanos, estarmos longe de nossos pares, distantes de qualquer troca, alijados da vida em sociedade. Fazer parte de um grupo tão grande, tão diverso e tão potente me fez bem.

Durou pouco, é verdade. Assim como a destruição causada ao país vai demorar a ser recuperada, os danos à nossa saúde mental também não serão curados em um dia. Mas é preciso começar por algum lugar.

Então, leitores e leitoras do meu coração, fica a dica: na próxima manifestação, estejam lá. Faz bem ao país e, principalmente, faz bem para a nossa cabeça.

-Monix-

Lição

Eu devia ter uns dez anos, se muito. E estava conversando com meu pai, não lembro sobre o que exatamente, e ele me disse a frase fatídica: “Tudo é política. Tudo é um ato político”. Espanto. Descrença. Não é possível, meu pai devia estar exagerando ou só sendo impaciente. “Tudo tudo, pai?” E ele, irredutível: “Tudo!” Revirei todos os conhecimentos que tinha conseguido juntar até ali pra tentar combater aquilo que parecia uma senteça da frieza do mundo. Não podia tudo na vida ser aquilo que eu achava cinza, chato e de adulto como a política. E então usei o exemplo que me parecia o mais distante possível e me parecia irrefutável: “Um beijo na boca, pai? Beijo é política?” Ele nem perdeu tempo considerando meu argumento pretensamente definitivo: “Sim, claro, até um beijo é um ato político”, respondeu, inabalado.

Sem mais recursos, eu desisti, mas não me convenci. Fiquei ainda algum tempo chocada com o que me parecia uma heresia. Como podia ser político um gesto tão lindo? (Lembre que eu tinha só dez anos, sabia menos sobre beijo que sobre política…)

Só mais tarde – mas nem tanto assim, no começo da adolescência – eu compreendi o que meu pai quis dizer. Descobri, por exemplo, a potência de uma frase como “Faça amor, não faça a guerra”, que aos dez anos daria um curto-circuito na minha cabecinha. Mas na qual eu já não via contradição ou inconsistência, pelo contrário: estava impregnada de política – e também de afeto e de muitos outros significados. Eu agradeço por ter sido educada para compreender a política como algo amplo, ordinário, presente no cotidiano de todos, cientes ou não disso.

E me irrito praticamente todos os dias com uso equivocado da palavra, as falsas oposições (‘é um quadro técnico, não político’ – ahã…) e com a ignorância orgulhosa de quem acha que política é aquilo que se faz em Brasília e não as mensagens mentirosas que eles distribuem no zap da família. Leio estarrecida comentários do perfil de um sindicato: “Cuidem de nossos problemas e deixem a política de lado.” Tenho ganas de responder: “Amadah?!?!”

Barba 🏀 on Twitter: "No segundo o beijo fictício de 2018 entre Bolsonaro e  Trump do artista BadBoy Preto em Maracanaú, Ceará. Artistas diferentes,  lados diferentes do espectro politico, países diferentes... Mas
Mein Gott, hilf mir, diese tödliche Liebe zu überlebenobra do artista russo radicado na Alemanha, Dmitri Wrubel. 

Helê

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