Narciso maduro

Caetano Veloso anda em evidência nos últimos tempos, seja na internet, seja nos meios de comunicação tradicionais. O Sol entrou em Leão em julho e Caetano em nossa casa em 7/8, na lendária live em comemorou 78 anos cantando juntos dos filhos um repertório de sucessos mas que não foi óbvio. Pareceu escolhido com intenção desde a canção de abertura, a definitiva “Milagres do Povo”.

Quem descobriu o Brasil foi o negro que viu a crueldade bem de frente

e ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente

Talvez o certo fosse dizer que nós entramos na casa de Caetano (mas aí eu perderia a metáfora do início do texto e o que a gente não faz por uma, não é mesmo?) O clima foi intimista, com aquela formação familiar em linha em frente a uma estante repleta de símbolos posteriormente comentados e decodificados no twitter, esse reino da semiótica e da frivolidade.

E então Caetano Veloso voltou a “bombar” por causa do lançamento de “Narciso em férias” o excelente documentário dirigido por Ricardo Callil e Renato Terra. É chocante e deprimente assistir esse filme no contexto de um governo militar eleito democraticamente. Mas ainda assim é necessário. Talvez nesse momento seja ainda mais importante destacar a violência arbitrária, brutal e burra de que são capazes os militares brasileiros. Não digam que depois que não sabiam.

“Narciso em férias” também é bastante intimista, com seu cenário duro e revelações igualmente despidas de enfeites, algumas surpreendentemente íntimas – brutally honest, dizem com precisão os americanos. Emociona, revolta, diverte até.

Em determinado momento, o baiano se manifesta com veemência um anti-comunista; em várias entrevistas de lançamento do documentário ele aproveitou para fazer uma nota de pé de página a essa afirmação e rever suas crenças liberais. Creditou ao jovem  historiador Jones Manoel essa mudança. Afirmou repetidas vezes que as falas de Manoel e sua indicação da obra de Domenico Losurdo abriram sua cabeça e o fizeram menos liberalóide.

O liberalismo, claro, atingido na alma, tratou de se mexer, e a internet foi palco de variadas tretas. Curiosamente, Caetano foi parcialmente poupado; Jones Manoel, o jovem historiador negro de origem periférica, foi tachado de stalinista e reduzido a mero “treteiro de twitter”.  Na verdade não há nada de curioso nisso, apenas o racismo e classismo nossos de cada dia.

Mas eu acho que a internet miss the point, como de costume. Pelo menos o meu ponto, que não estou interessada em discutir stalinismo a essa altura do campeonato. O que me parece mais cintilante nesse rebuceteio digital é o frescor de um homem velho (que deixa vida e morte para trás), aos 78 anos, capaz de mudar de opinião e defender essa mudança. Que reconhece a ascendência de um jovem professor sobre suas ideias. Caetano tem esse passe fluido e orgânico entre os mais jovens que ele (é colaborador da Mídia Ninja, por exemplo), sem querer ser ou parecer jovem. Sendo ele mesmo, um velho baiano, que faz menção à própria idade às vezes, outras não. Ele sempre tão leonino , se mostra nesse episódio  generoso e humilde – e, para mim, brilha ainda mais por isso. 

Helê

Viva Walter Firmo ou saudades do Brasil

Hoje lembrei daquela foto icônica de Pixinguinha sob uma árvore, numa cadeira de balanço, numa ambiente que em muito me lembra a casa de minha vó em Marechal Hermes. Em seguida, veio à mente imagem de Clementina de Jesus sentada sobre folhas, e pensei em Walter Firmo com saudade, carinho e alegria, como quando a gente escuta sem querer uma música que gosta muito mas não ouvia há tempos.

Atravessei o portal encantado do Google e vaguei bastante por essa internet de meu deus. Primeiro fui checar e Mestre Firmo taí firme e forte, aos 83 anos (louvado seja!). Fui ao mesmo tempo vendo e lembrando de imagens penduradas na minha memória de poucas paredes e muitas caixas: Cartola, Dona Ivone Lara (linda!), Quelé em muitas poses, sempre divindade; e muitas, muitas fotos dessa figura poética, mística e etérea que se chama povo brasileiro e só se materializa diante de quem consegue lhe dar os contornos e luzes que merece. Muita gente preta, acho que ninguém nos fotografou tanto e tão bem. Será que já reverenciamos Walter Firmo o tanto que ele merece? Porque eu me sinto em dívida; sei que ele tem sua cota na minha formação, especialmente no tocante à negritude – que me constitui, identifica e sustenta.

 

Dona Neuma e Dona Zica; a foto do Pixinguinha que até de costas é incrível; Cartola e Nelson Cavaquinho; Madame Satã saindo do escuro; Ivone ainda sem ser dona; Jamelão; Cartola abraçado, Artur Bispo do Rosário; instantâneos do Brasil

Como blogue serve (também) pra fazer as homenagens que a gente acha justas e necessárias, fiz esse post como reconhecimento e agradecimento ao grande fotógrafo Walter Firmo. Também um beijo escrito, ou a transcrição do beijo dado e recebido com igual prazer, na foto em que a geolocalização está toda descrita em luz, sombra e cor, sem necessidade de legenda alguma.

Precisei me obrigar a parar ou essa galeria seria ainda mais extensa. A beleza dessas imagens me leva a tantos lugares, no tempo e no espaço, no passado e no futuro, que é difícil parar de vê-las. Embora elas também contenham, pra mim, uma dose amarga de melancolia. Eu ando por demais desiludida com esse país, triste, sem esperança alguma e até com alguma raiva da minha incapacidade de perceber o tanto de feiura e violência de que também somos feitos. Não posso mais olhar para essas fotos e pensar ingenuamente que esse é “O Brasil que merece o Brasil” (título da última exposição de Firmo). Ou ver Caetano naquela live delicada e potente e pensar que há um caminho para o Brasil. Como se existisse um país da beleza e outro em que o ódio tem gabinete na capital. É tudo a mesma suposta nação, argamassa, pedra e cimento da mesma construção que já é ruína, como cantou precisamente o mesmo Caetano.

O professor Luiz Antônio Simas, sabidíssimo, que eu admiro e com quem aprendo, sempre disse, mesmo antes desta fratura exposta em vivemos neste inacreditável 2020, que detesta o Brasil (seu autoritarismo, conservadorismo, patentes e colonialismos) mas a ama a brasilidade (as festas, as frestas, a rua, os ritmos). Uma solução plausível, mas que ainda não me conforma, nem conforta. Há em mim uma fratura e um desacerto, um desassossego incômodo que precisarei apaziguar para olhar as fotos de Walter Firmo sem que o sorriso ameace virar lágrima.

Helê

Brasil, mostra tua cara

Daí que 1988 não é só outra época; talvez seja outro planeta.

Rever uma novela tão emblemática como Vale Tudo é, antes de qualquer coisa, uma experiência no mundo bizarro. No plano material, cada cena é um mergulho em uma indagação sobre como vivíamos “sem” tal coisa, ou “com” tal coisa. Telefones de fio (em um dos cenários o telefone tem o fio todo enrolado, coisa que deixava meu pai maluco), videocassetes, disc-lasers (era assim que chamávamos os moderníssmos CDs no final dos anos 80, crianças), computadores grandalhões e disquetes, máquinas de telex (!), até os eletrodomésticos pesadões e quadradões, tudo me espanta. Os carros, meu Deus, os carros. 1988 foi antes do Collor dizer que os carros brasileiros eram todos umas carroças, ofendendo a indústria automobilística nacional e os defensores da reserva de mercado (é, crianças, pesquisem). Spoiler alert: eram mesmo. (Voltarei ao Collor daqui a pouco.) 1988 foi antes de o fax chegar a Brasil. E não me façam começar a falar de roupas e penteados, porque né?

figurino solange vale tudo - Pesquisa Google | Figurino, Moda, Solange
Ombreiras, minha gente, isso já existiu.

Não sei se na época era claro para mim, mas Vale Tudo parte de uma premissa (e tudo na novela gira em torno dela): a desonestidade estrutural da sociedade brasileira. A trama central se baseia nas interpretações diferentes que Raquel (a mãe) e Fátima (a filha) fazem dessa constatação inicial. Raquel acha que se todos são desonestos, cabe a ela (e a todos que a cercam) corrigir isso por meio de ações estritamente éticas. Já Fátima entende que se todo mundo torce as regras para se dar bem, a solução é abandonar qualquer senso ético como única forma de sobreviver nesse mundo cruel.

A música-tema tem um dos versos mais contundentes do rock nacional, de autoria de Cazuza: “o meu cartão de crédito é uma navalha”…

Assistir a esse dilema tendo como pano de fundo a conjuntura de 2020 dá margem a muitas reflexões.

Primeira: a novela acabou em janeiro de 1989. Em novembro, tivemos a primeira eleição direta para presidente em 29 anos. E elegemos (opa, nós quem, cara-pálida?) Fernando Collor de Mello, que baseou sua campanha na ideia de caçar “marajás”, funcionários públicos que ganhavam super salários sem trabalhar. Fala-se muito da influência das novelas da época sobre a mentalidade nacional que resultou em sua vitória, especialmente as exibidas nos meses da campanha, como O Salvador da Pátria e Que Rei Sou Eu?, mas a ideia de uma “faxina ética” direcionada apenas (ou principalmente) à classe política, olhando em retrospectiva, parece ter sido uma simplificação tremenda.

Segunda: em Vale Tudo, a corrupção está em todas as instâncias da sociedade brasileira, e ali são retratadas principalmente as mais cotidianas, com um foco especial na corrupção no setor privado: um dos vilões se dedica a desviar recursos da empresa familiar. Mais de trinta anos depois, parece que nosso foco se desviou para o “andar de cima”, a política partidária e institucional, e aquele papo sobre como a corrupção começa com quem molha a mão do guarda (que, diga-se de passagem, é outra simplificação besta, mas enfim, é um ponto de partida) foi praticamente esquecido.

Terceira: a parte da novela que fala de crise econômica e desemprego, tirando as questões ligadas à inflação, é tristemente atual. No entanto, um detalhe me chamou a atenção. A moeda era o cruzado, e tudo custava milhares de. Mas, para conseguir acompanhar os valores das coisas, percebi que tirando um zero de cada preço eu chegaria mais ou menos ao tanto que elas custariam hoje. As únicas exceções foram a diária da faxineira, que pela minha equivalência tabajara hoje vale 3 vezes mais (alvíssaras!), e o câmbio do dólar, que hoje, bizarramente, mesmo com a taxa absurdamente alta, seria seis vezes mais caro, se fosse mantida a proporção da época em relação aos preços das outras coisas.

Quarta: a exemplo de boa parte das obras de ficção, e não só as brasileiras, os vilões são pessoas muito mais interessantes. Até aí, nada de novo. Acho essa questão bem problemática, e isso talvez seja assunto para outro post. Mas em Vale Tudo os mocinhos de modo geral são muito chatos, e a suposta heroína, Raquel, é insuportável na sua unidimensionalidade — seus chiliques e suas lições de moral parecem, vistos de hoje, um ensaio canastrão para sua meteórica e constrangedora passagem pelo governo federal. Parece que Regina Duarte acreditou na personagem que interpretou três décadas atrás, e comprou aquele discurso fajuto de “vamos moralizar o país”. Raquel, a chata, com certeza seria uma bolsomonion (e pior, uma “tia do zap”) em 2020.

Quinta: há, no entanto, honrosas exceções a esse padrão de mocinhos unidimensionais, e elas se encontram principalmente nas personagens que encarnam os temas “polêmicos” que toda novela que se preza precisa abordar. A Heleninha Roitman que vejo hoje me parece bem mais interessante (na época eu a achava chata, provavelmente por conta da interpretação excessivamente dramatizada de Renata Sorrah, que eu não curto). A relação de Laís e Cecília marcou época, mas é engraçado ver como elas eram apresentadas como “amigas” e ninguém falava diretamente sobre o fato de obviamente serem um casal — até que uma delas morre e a questão da herança entra no meio. Tem sido interessante lembrar que estávamos saindo de um longo período em que produtos culturais e artísticos sofriam censura prévia, e que de repente se podia falar de certos assuntos. No Brasil de Damares, não sabemos até quando.

Há outra muitas reflexões possíveis, claro. Se quiser, deixe as suas nos comentários. Eu por aqui fico pensando que na verdade, fora cenários e figurinos, o Brasil de 2020 é de novo tristemente parecido com o de 1988.

-Monix-

Há vagas

Era pra ser apenas mais uma mensagem num grupo de oportunidades de trabalho para jornalistas. Enviaram  o anúncio de uma vaga que pedia candidatos negros ou negras. Pouco tempo depois, alguém enviou a seguinte mensagem: “Estou indignada. Se a pessoa não for negra não é qualificada? Não conhece de cultura negra? AFF!” Logo depois precisei desabilitar as notificações do grupo, as mensagens não paravam, num fluxo constante e implacável: a Indignada foi contestada, com maior ou menor delicadeza  e paciência, por todos os que se manifestaram. Se alguém concordou com ela, calou. Eu fiquei acompanhando: em tempos de quarentena toda treta é distração. Sem me pronunciar, porque tenho preguiça de educar branco – eles que lutem.

A Indignada  tentou responder. A certa altura disse, entre outras coisas, “trabalho e já trabalhei com vários negros, extremamente competentes” (aos berros, utilizando maiúsculas) . Que é outra maneira de dizer “nada contra, tenho até amigos que são”. Apanhou mais que Judas no sábado de Aleluia (essa é velha, hein? Eu também.). Mas “apanhou” sem baixaria, sendo contestada com vários níveis de argumentação. Algumas até bem elaboradas, como a que falava sobre o “pacto narcísico da branquitude”. Não houve xingamento, ela foi chamada apenas e tão somente de racista – errado não tá. Duas pessoas sugeriram que a Indignada deixasse o grupo – o que ela acabou fazendo, menos de uma hora depois da mensagem original, sem dizer adeus. A esmagadora maioria (incluído o moderador do grupo) apoiou os requisitos da vaga e condenou a postura da Indignada.

Eu fiquei surpresa com a força e a unanimidade com que ela foi rechaçada.  Fosse uns anos atrás (não muitos), teria acontecido o oposto: o anúncio, se houvesse, seria mais contestado que defendido. E a composição do grupo não justifica essa reação; jornalista não é mais conscientizado que, sei lá, um engenheiro civil formado (ironia intended). O episódio me parece um sinal de que houve alteração nas relações raciais no Brasil e na compreensão de suas nuances, impasses, forças. Tenho a impressão de que certo discurso, antes restrito ao movimento negro e à academia, transbordou para outros espaços. Estamos inegavelmente mais  conscientes e vocais. Aturamos menos e falamos mais, muito mais  – e melhor. E enquanto adquirimos novos instrumentos  e lapidamos a retórica, os brancos ainda recorrem ao pueril e  rudimentar “tenho até amigos que são”. Sofistiquem-se: deixem de ser racistas.   

Arte de Temi Coker, reproduzida  no Pinterest

Helê

Constrangimentos, vilanias, tribunais e contextos

O filme “E o Vento Levou” foi retirado da plataforma de streaming HBO Max ontem, no momento em que grandes protestos contra o racismo e a brutalidade policial, por conta da morte de George Floyd, levam os canais de televisão a revisar o conteúdo oferecido. O longa-metragem de 1939 sobre a Guerra Civil americana, que venceu oito estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme, continua sendo uma das maiores bilheterias de todos os tempos (quando são calculados os ajustes pela inflação), mas sua representação de escravos conformados e heroicos proprietários de escravos é alvo de críticas. (Fonte: UOL)

Eu vi “…E O Vento Levou” algumas vezes na vida. Uma delas enquanto esperava pacientemente o intervalo entre as contrações diminuir para que o trabalho de parto enfim começasse, há quase 18 anos.

Alguns meses atrás comprei o filme numa plataforma de conteúdo para assistir com o namorado, que nunca tinha visto. Junto com o filme vieram três ou quatro documentários, como conteúdo extra.

Esperei um domingo sem jogos importantes, afinal o filme é longo, e lá fui eu assisti-lo de novo junto com ele.

E me dei conta, com enorme constrangimento por nunca ter percebido isso antes, que “…E O Vento Levou” é um filme que enaltece os confederados. Sim, aqueles, os que perderam a guerra de secessão. Aqueles que defendiam a escravidão e que achavam que os ianques não podiam interferir no seu direito de possuir seres humanos. Aqueles que achavam que “salvar a economia” vale mais do que “preservar vidas humanas” (opa, que ano é hoje?).

Gone with the Wind removed from HBO Max - BBC News
Scarlett, além de mimada e frívola, era uma indesculpável escravocrata

E o pior: mesmo fazendo tudo isso, é um excelente filme, sob todos os outros aspectos. É um épico, tem um roteiro bem amarrado, a história é bem contada, o elenco é excelente*, os figurinos, lindíssimos, a fotografia impecável. Etc.

O fato de ser bom torna o filme ainda pior.

Porque a gente assiste, a gente gosta, e a gente não pensa sobre o absurdo que está sendo mostrado ali.

É como o caso do Tintim e do Monteiro Lobato: foram obras que envelheceram muito mal.

***

Daí fui assistir os documentários que vieram junto com o filme como conteúdo extra. E foi incrível. Toda aquela sensação incômoda que me perturbou enquanto assistia o filme foi explicada e analisada por professores, pesquisadores, especialistas. Ou seja, no século XXI não basta assistir às quatro horas de “…E O Vento Levou”, é preciso dedicar mais uma ou duas horas para a explicação sobre o que o filme representa e em quantos níveis ele está errado.

Se você ainda não viu, talvez seja melhor deixar pra lá ;)

***

Desde domingo venho acompanhando também a demolição de estátuas erguidas em homenagem a pessoas hoje vistas como deploráveis. Confesso que me entusiasmei ao ver as imagens de Bristol. A derrubada da estátua do traficante de escravos fez todo sentido, principalmente porque sua retirada vinha sendo pedida há tempos e ignorada pelas autoridades municipais.

Daí se seguiram movimentos semelhantes pelo mundo. Aqui no Brasil querem retirar a estátua de Borba Gato que fica em São Paulo. Hoje uma estátua de Cristóvão Colombo em Boston amanheceu decapitada. Outra, em Richmond, também foi parar no fundo do rio.

Acho que esses gestos são importantes para trazer à tona uma discussão que já deveria ter sido feita há décadas, séculos.

Alguns historiadores, no entanto, questionam a eliminação dos monumentos porque eles são, de certa forma, um registro do que já fomos. A escravidão de negros e indígenas faz parte de nossa história. O fato de os bandeirantes terem sido (e ainda serem, em larguíssima medida) tratados como heróis, também. Já vi sugestões de que essas estátuas — que, mantidas como estão, se constituem em homenagens — sejam realocadas para museus, onde se poderá explicar esse contexto e registrar que um dia fomos (somos) uma sociedade que enaltecia práticas vis.

Acho tudo válido, por contraditório que pareça: a fúria do momento, que leva à derrubada da estátua, tem um sentido. O debate que se segue, idem. As providências que tomaremos na direção da mudança são — têm que ser — a parte mais válida de todo esse processo.

Ate porque, e isso é muito importante, eu temo pelo limite. As manifestações da turba refletem, sim uma vontade popular. Mas não pode haver um tribunal da multidão para nada — nem para linchamentos reais, nem virtuais, nem para julgamentos históricos. As sentenças, sejam penais, morais ou históricas, têm que ser proferidas após argumentações de ambos os lados, após ponderação, amadurecimento de ideias. Senão, o que diremos quando derrubarem uma estátua de um dos “nossos”? Aí não pode? Quem traça o limite?

***

Voltando ao início, por isso gostei da medida da HBO Max de retirar o filme imediatamente, para mitigar o problema imediato, que é o constrangimento de exibir um filme que romantiza escravocratas. Mas o comunicado da emissora diz que em breve ele voltará, devidamente embalado em contexto. Espero que isso de fato aconteça.

-Monix-

* Detalhe curioso que vale um registro: a atriz Hattie McDaniel, que faz o papel de Mamie, foi a primeira atriz negra a vencer um Oscar, na categoria de atriz coadjuvante, vencendo inclusive outra atriz do filme, a super caucasiana Olivia De Havilland.

Representatividade importa

Então as manifestações antirracistas ganharam o mundo: o alvo não é mais apenas a polícia dos Estados Unidos, mas o racismo estrutural que molda as relações sociais no mundo ocidental há séculos. Parece que a ficha caiu: esse problema não está nem perto de ser resolvido.

Já houve várias ondas de protestos antes — na verdade, quantas vezes tivemos a sensação de estar de volta a 1968? —, mas desta vez a novidade é ver uma multidão de pessoas pretas e não-pretas marchando juntas, brigando juntas, exigindo juntas que o mundo seja mais igualitário. Tudo isso em meio a uma pandemia de uma doença mortal e tendo como pano de fundo a ascensão de uma extrema direita que ressuscitou discursos excludentes e supremacistas.

Minha mãe era professora de História, e ela costumava dizer que a História anda não em círculos, mas em espiral. A cada volta, a cada vez que parece que estamos retornando ao mesmo ponto, na verdade estamos uma dimensão acima. O que a morte de George Floyd nos ensinou foi que pessoas brancas não podem mais ficar caladas esperando que “eles que lutem”. Meu aprendizado com isso tudo foi: como pessoa de privilégio que sou, tenho a responsabilidade de usar minha voz para falar sobre essas tantas injustiças. E principalmente, preciso usar meus ouvidos para escutar o que os negros têm a dizer, respeitosamente, e mudar o que for preciso, em mim mesma, para ajudar a tornar este mundo melhor para todos e não só para alguns.

***

Essas reflexões me fizeram pensar que representatividade também importa. Sou da Comunicação, e para mim é impossível pensar em mudar o mundo se os conteúdos culturais e jornalísticos continuarem os mesmos.

Foi assim que nasceu este post. Eu estava assistindo uma minissérie na Netflix e de repente me veio uma lista praticamente completa de coisas que li e assisti e que tinham como protagonistas mulheres negras. É importante, sabe? Faz diferença. Quanto mais a gente vê mulheres negras como protagonistas, mais natural é a presença delas em lugares de destaque (já escrevi sobre como representação ajuda a criar uma ideia de mudança em outro contexto, mas também vale para essa reflexão aqui).

Então ficam as minhas dicas — que tal aproveitar o pouco tempo livre da quarentena para conhecer obras que não são protagonizadas por homens brancos, mas por mulheres negras? Nem todas são perfeitas, algumas são estilo cinema-é-a-maior-diversão, outras são profundas, ou belas, mas todas irão ajudar a expandir seus horizontes. Vai na fé.

A Vida e a História de Madam C. J. Walker (a minissérie que me fez pensar nesse post).

Madame C.J. Walker: liberdade contra o racismo
Madame C. J. Walker foi a primeira mulher negra a ficar milionária nos Estados Unidos

Lionheart e Harriet (um filme não tem nada a ver com o outro, mas eu escrevi sobre os dois nesse post aqui).

Toda e qualquer coisa sobre a Elza Soares.

O livro Um Defeito de Cor, obrigatório mesmo.

O livro Kindred – Laços de Sangue.

O documentário What Happened, Miss Simone?

O filme Pantera Negra, é claro.

A novela gráfica Aya de Yopougon (há anos procuro as continuações, mas até onde eu sei só dois dos seis volumes da série foram publicados no Brasil).

O livro e o documentário Minha História, de Michelle Obama, a maravilhosa.

O livro e o filme A Cor Púrpura.

E para encerrar essa lista (que está longe de ser definitiva), é preciso citar o Em Pauta que virou Globo Repórter reunindo pela primeira vez na bancada as jornalistas negras Maria Julia Coutinho, Aline Midlej, Zileide Silva, Flavia Oliveira e Lilia Ribeiro, junto com Heraldo Pereira, para debater o racismo no Brasil a partir dos protestos antirracistas nos Estados Unidos. E assim, terminamos voltando ao começo — espero que em espiral.

Agora é sua vez: se puder, deixe nos comentários suas sugestões.

-Monix-

Projeto

Para a nossa newsletter de ontem escrevi uma ou duas linhas boas que não quis deixar restrita aos assinantes. São daquelas muitas que surgem durante a escrita, num fluxo direto: cabeça, mãos, teclado e ôpa! de onde veio essa ideia que eu não tinha pensado antes? (Mais uma razão para receber a nossa news: somos pressionadas a escrever ao menos uma vez por semana pelo motor mor do jornalistmo, o prazo. E a pressão às vezes é uma boa editora).

Falamos na news sobre a pauta incontornável desde que o assassinato de George Floyd ganhou as redes sociais e a mídia: o racismo e o extermínio da população negra. A curva da nossa indignação atingiu seu pico e levou às ruas milhares de americanos e também outros cidadãos do mundo. Ainda vivemos todos ameaçados pelo novo coronavírus – em maior o menor grau, variando de acordo com a competência e obtusidade de cada chefe de estado -, mas não foi possível adiar. Diante da brutalidade policial exercida lenta e deliberadamente, sem um traço de constrangimento ou preocupação, a pandemia que vitimou mais de 100 mil americanos pareceu menos letal que a truculência repressiva do estado. Hoje, o resultado da autópsia de Mr. Floyd indicou que ele estava infectado com o vírus da Covid-19, mas nesse caso a doença foi uma comorbidade, entre tantas outras, para a causa mortis que adoece e mata há mais tempo: o racismo.

Foto: Nelson Almeida/GettyImages

O Brasil, que se esforça pra ser sempre o melhor pior, consegue tornar ainda mais dramática a questão com uma absurda lista de crianças e jovens negros assassinados pela ação do aparato policial militar. A quem, aliás, não se pode acusar de incoerência: foi constituído originalmente para proteger a propriedade e as elites, e se mantém fiel aos propósitos fundadores, utilizando em suas hostes membros das mesmas classes que são treinados a abater.

Photo by: Miami- Dade Corrections

Talvez por isso as cenas que mais têm me emocionado nas manifestações americanas são aquelas em que policiais demonstram apoio aos manifestantes. Os que se ajoelham, no gesto ressignificado por Kaepernick, os que ouvem as pessoas, os que garantem a segurança delas mais que as propriedades, os que abraçam. Aqueles que, mesmo que momentaneamente, rejeitam anos de treinamento, o privilégio da impunidade e da força e recuperam sua humanidade. Talvez seja preciso começar por aí a desarmar esse monstruoso mecanismo tão bem azeitado ao longo da história. Ou a gente vai continuar, como acertadamente definiu Emicida, “por nossa conta e risco nesse grande projeto de matar preto que é o Brasil”.

Helê

Máxima

Orgulho desta regra que há anos orienta este blogue, gerido por duas jornalistas:

 

calabocajámorreuquemmandanaminhabocasoueu

 

Helê

À luz

Eu não assisto BBB há umas 19 edições. Entre vários motivos, porque acho chato mesmo. Então, pelas minhas próprias regras, não deveria falar sobre algo que não conheço. Entretanto falarei, amparada em uma das regras magnas desse blogue (a do calaalabocajámorreu), e porque muito pouca gente nesse país quarentenado ficou alheia aos desdobramentos do programa esse ano. Minha filha, que nunca havia assistido antes, pegou o bonde no meio e foi com ele até o final; ontem soltou a frase que definiu seu envolvimento: “Ainda bem que acabou, não aguentava mais gostar de BBB”.

Se bem que não é exatamente sobre o programa que quero falar. Acontece que a popularidade incontestável do Babu e a surpreendente vitória da Thelma me fizeram lembrar uma teoria que elaborei há algum tempo, defendida na Universidade Mesa de Bar, sobre o que eu chamava de “negritude difusa”, uma propensão popular a torcer e apoiar negros ou aspectos a eles relacionados, em certas situações – embora sem explicitar que era a etnia que estava em jogo.

A primeira vez que pensei sobre isso foi na Copa de 90, quando o Brasil se encantou com a seleção de Camarões de Roger Milla. Eu sei que você não era nascido, bebê, então deixa eu te contar: eliminados pela Argentina, os brasileiros adotaram a seleção camaronesa. Passamos a acompanhar e torcer de verdade, de juntar no bar ou fazer churrasco pra vê-los jogar. Lembro de ter ido assistir ao jogo definitivo na casa de amigos e, no trajeto que fiz entre Vila Valqueire e Laranjeiras – que é praticamente cruzar a cidade -, vi várias janelas com bandeiras improvisadas de Camarões, feitas com qualquer pano que tivesse as cores do país. E na hora do jogo, os gritos e comemorações foram semelhantes àqueles ouvidos nos jogos do Brasil. Um fenômeno desses é difícil de explicar; contribuiram para isso o futebol solto e ingênuo dos africanos, a simpatia de Milla, a possibilidade improvável de vitória de um underdog. Mas também torcíamos por irmãos africanos, pelos negros – embora essa correlação nunca fosse explicitada.

Muitos anos depois, um amigo trabalhou diretamente com o então ministro do Supremo Tribunal de Federal, Joaquim Barbosa. Acompanhou-o em seu momento de maior visibilidade e tensão. Esse amigo me contou sobre as pressões sofridas, os constrangimentos discriminatórios (dos quais um negro nesse país não escapa nem mesmo sendo presidente do STF), várias histórias. Mas as mais impressionantes e comoventes vinham das camadas mais humildes da população, que viam Joaquim com um misto de orgulho, respeito e esperança. Uma relato inesquecível diz respeito a uma visita do então ministro a um presídio no norte do país. Em um ambiente hostil por natureza, especialmente para autoridades, Joaquim Barbosa foi tratado com reverência, como “o cara”, como aquele que, apesar da origem humilde, “deu certo”, ascendeu honestamente. Também nesse caso, vários fatores podem justificar a popularidade de Joaquim, mas a classe, sozinha, não inspiraria a mesma admiração sem o componente racial. Nesse episódio da cadeia, os detentos ofereciam as mãos para serem tocados pelo ministro, e diziam coisas como: “O senhor colocou branco rico na cadeia, antes a tranca era só pra gente”. Barbosa era – e talvez ainda seja – visto como um “negro que deu certo”, e além disso foi destemido no enfrentamento aos poderosos (que nesse país é também um sinônimo para brancos).

Tudo isso é digressão de botequim, como avisei de início, não há ciência alguma no que digo. É só uma Teoria de Mesa de Bar que talvez não se sustente depois da 20ª edição do BBB. Porque não há nada de difuso na popularidade do Babu (tecnicamente, o 4º colocado, mas reconhecidamente o vencedor dessa disputa) e na inesperada vitória da Thelma. Raça e racismo estiveram em pauta ao longo de boa parte do programa (que, a propósito, no ano passado premiou uma pessoa identificada por grande parte da audiência como racista). As redes sociais hoje estão repletas de pessoas comemorando a vitória de uma mulher negra, e embora o BBB tenha destacado a “narrativa das mulheres” (um jeito que a globo inventou de falar de feminismo sem ousar dizer o nome), foi a raça ocupou um lugar inédito nos corações e mentes dos espectadores, e sobretudo na fala, deixando a clandestinidade, o lugar do implícito e do subentendido.

A desigualdade para os negros em geral e para as mulheres negras em particular amanheceu igualzinha, não tenho dúvidas. Mas talvez tenhamos ganhado uns pontos nas trincheiras do discurso. E uma batalha fica mais franca e justa quando podemos nomear com precisão quem são nossos inimigos e nossos aliados, e porque fazemos nossas escolhas.

Helê

Notas da quarentena

**Na newsletter que enviamos no dia 11 de março eu comentei rapidamente sobre o abraço do Dr. Dráuzio e suas repercussões: a onda de solidariedade, num primeiro momento e, em seguida, uma tsunami de ira e indignação. Na despedida, desejei a todas e todos muitos abraços e nenhuma tsunami.

Mas ela veio.

E varreu, além da normalidade, a possibilidade de abraços.

Rio de Janeiro, RJ
Foto: Ana Carolina Fernandes @culafernandes para o coletivo @covidlatam. Grafite @nogenta_ e @contraconsciencia

** Impressionante como esse episódio do Dráuzio, que mobilizou tanto e sobre o qual eu escrevi menos de um mês atrás, parece agora algo muito distante. Deve haver até mesmo os que não lembravam. Talvez a mudança mais imediata e radical que estamos experimentando seja nossa relação com o tempo.

** Como os marcos cotidianos estão suspensos ou alterados – trabalho, escola, lazer – todo mundo confunde se hoje é segunda ou quinta, todo dia é um tal de “Comassim, meio-dia?!” e “Mas já é nove da noite?” Os dias se arrastam mas as horas voam, as semanas se misturam e a tarefa de contar o tempo perdeu os referenciais coletivos.

** O tempo também se altera em função do espaço. Dizem que estamos a uma ou duas semanas de viver o que aconteceu com a Itália — estamos, portanto, no passado deles. Alguém nos Estados Unidos alerta: “Lembre-se que estou duas semanas à frente de vocês, em termos de pandemia”, como se mandasse um recado do futuro.

** Certo está o tuíte que disse: só existem três dias na semana: ontem, hoje e amanhã.

** Participo de pouquíssimos grupos de whatsApp. Meu favorito eu admiro, entre outras coisas, porque só fala quando necessário — por necessário entenda-se desde unha lascada até crise na Gávea, o nosso conceito de necessário. Que exclui ‘bom dia, grupo’ e memes e textões que todo mundo já viu. Pois bem, nesse grupo agora conversamos todos os dias, às vezes em vídeo, sobre as coisas mais comezinhas. “Hoje a máquina quebrou”, “Meu marido cozinhou feijão no dia errado”, “Fiz frango e deu certo”. Numa situação extraordinária fortalecemos nossos laços reforçando normal, o cotidiano.

**Falo com minha mãe por vídeo quase todos os dias, faço a ronda dos amigos, como mensagens periódicas para saber se estão todos bem, seguros. Não consigo terminar um e-mail, telefonema ou zap sem dizer no final: se cuida. E o coração aperta.

**Da série banalidades: eu agradeço sempre que pandemia caiu depois do carnaval. E que eu faço aniversário no segundo semestre.

** Eu, que sempre apreciei os momentos que em que o mundo parece uma vila – olimpíadas, casamento real , final de Game of Thrones – percorro o noticiário internacional entre angustiada e curiosa, querendo compreender de que maneira pessoas distantes estão vivendo a mesma ameaça (ainda que em “fusos” diferentes). Observo a política (e as politicagens), as inflexões culturais, e as histórias gentis. Guardei com carinho a delicadeza dessa: no auge da crise em Wuhan, o Japão doou para a China centenas de máscaras de proteção; nas caixas havia um verso em chinês: “Embora em lugares diferentes, estamos sob o mesmo céu”.

**Não sei se nos salva da extinção, mas ao menos uma sobrevida o jornalismo ganha com essa pandemia. Arrisco dizer que, nas atuais circunstâncias, os jornalistas só perdem em importância para os profissionais de saúde.

**Lembre: você não está trabalhando de casa. Você está em casa durante uma crise tentando trabalhar.

Rainha Elizabeth II fala sobre a pandemia de coronavírus: "Dias ...

**A fragilidade dos velhos e o susto dos mais novos me fincou na posição de adulta. Aí quando vi Betinha dizendo que tudo, tudo, tudo vai dar pé eu me emocionei. Tá, eu sei que não era comigo, nem súdita dela eu sou. Mas eu, que desde o começo busquei tranquilizar os meus, ainda não tinha ouvido aquilo que disse mais com esperança do que convicção. Foi reconfortante ouvir de alguém mais velho e experiente, uma vó, que vamos superar. Foi bom, por alguns instantes, não ser o adulto.

** Quando é que a gente vai se abraçar novamente?

Helê

 

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