A bandeira da Copa

Seis ativistas e uma ideia simples e genial para denunciar a homofobia em um país onde você pode ser preso se portar a bandeira LGBT. Coragem e criatividade contra a ignorância e a truculência. Para mim, uma das imagens marcantes dessa Copa da Rússia.

Leia mais sobre a iniciativa no site The Hidden Flag.

Helê

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R.E.S.P.E.C.T

Já escrevi mentalmente várias anotações sobre a copa da Rússia mas esse vídeo de ontem não pode esperar: tem que ser exibido muitas e muitas vezes. Nele, a jornalista Júlia Guimarães se defende do assédio de um passante e revida, falando por si e por todas as mulheres:

 

 

A postura dela é absolutamente impecável; embora irritada e abalada com a postura do macho, Júlia retruca sem ofender (o que nem acho imprescindível, apenas impressionante que tenha conseguido). E ainda educa o cidadão – caso ele tenha a capacidade de aproveitar o ensinamento.

Na lenta  evolução das relações entre gêneros e no combate permanente ao machismo, depois de denunciar e expor talvez tenha chegado a hora de reagir e revidar. Ainda que isso me cause conflitos, dada minha índole pacifista e o caráter excessivamente belicoso que vivemos. Mas a imagem de uma mulher que além de se defender, também ataca –  armada apenas de inteligência e presença de espírito – tem um poder inegável.

É este tipo de imagem que precisa viralizar para denunciar o assédio – e não o assédio em si, captado em vídeos idiotas de brasileiros que insistem em nos envergonhar.

Aretha Franklin já mandou essa letra – inclusive soletrou – mas ainda é preciso ouvir a Júlia dizer o que queremos: respeito.

Helê

Violência institucional

Estava naquele estado impreciso e nebuloso, próprio das manhãs de ressaca e sono. Achei que tinha ouvido a televisão falar algo como “Geisel mandou executar, diz documento”, mas achei que tinha entendido errado. No caminho para o trabalho, horas depois, li no Meio a notícia e, imediatamente, fui olhar as capas dos jornais porque essa notícia era, para mim, uma manchete histórica com há muito não se via. Na verdade, como nunca se viu no tocante a esse assunto. O Globo deu o destaque que eu esperava, mas os outros nem tanto. Nas minhas redes sociais houve repercussão – maior no twitter que no FB –, mas achei pouco. Não entendi porque TODO MUNDO não está falando disso. Então vim aqui no blogue, subi no meu caixote pra falar do que acho importante e que geral não está dando a devida atenção.

Só os mileniais podem não saber (mas deveriam) sobre a tortura e as mortes ocorridas durante o regime militar. Nem os militares negam: o que fazem é tentar justificar. E muitas  pessoas, militares ou não (muitos cidadãos de bem, essa terrível entidade brasileira) acreditavam que excessos, se houve, foram isolados. Daí a importância de um documento oficial do Estado americano afirmando que um presidente da república foi oficialmente informado da execução de 104 pessoas, refletiu, e aprovou a continuidade da prática, desde que sob a supervisão do general que viria ser também comandante da nação, seu sucessor. Isso precisar ser escrito em negrito, se não em caixa alta, porque só não é mais assustador que a possibilidade dessa notícia ser esquecida na edição de amanhã. Derruba a versão que percebia excessos e exceções onde havia institucionalidade: o assassinato sistemático de pessoas autorizado pelo governo há 40, 50 anos – o que, em termos de história, acabou de acontecer. E o que nos iguala a regimes que execramos com suposta superioridade.

Decision by Brazilian President Ernesto Geisel To Continue the Summary Execution of Dangerous Subversives Under Certain Conditions (link para a transcrição do documento)

A precisão numérica também indica que o controle sobre essas mortes era maior do que as Forças Armadas sempre nos quiseram fazer crer. Tão óbvia quanto revoltante foi a reação do  Exército que, em nota, lembrou que os documentos sobre o período já não existem mais – como sempre se alega em todo período vergonhoso dessa nossa republiqueta que se pretende nação e não passa de uma terra de brutalidades. Essa manchete, dividindo espaço na primeira página do jornal com a reconstituição da execução da vereadora Marielle Franco, ontem no Rio de Janeiro, deixa a sombria impressão de que abater inimigos é prática arraigada e corrente nesses trópicos cada vez mais tristes e sempre cruéis.

Helê

 

Recado

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Nossa visão da manifestação em frente à Assembleia Legislativa do Rio, ontem.

Duas amigas deste blogue trabalham em comunidades aqui no Rio de Janeiro: uma em escola municipal na Favela da Maré; outra em projeto social no Jacaré.

Curiosas sobre a repercussão do assassinato da vereadora Marielle Franco, “cria da Maré”, como ela mesma se definia, descobrimos que o impacto dessa brutalidade foi menor do que imaginávamos. Segundo nossa amiga professora, pouco se fala sobre política na escola; as crianças não tiveram muita percepação sobre o que aconteceu; e no grupo dos mais velhos, só os que participam de projetos estão mais abalados com o caso. No Jacaré o cenário é semelhante.

Ontem lemos em algum lugar das internets que o recado que se queria passar com o assassinato de Marielle não era para a classe média branca, e sim para os negros da favela. Inicialmente questionamos essa leitura: não fazia sentido pensar sob a perspectiva do que nos separa, e sim do pouco que temos em comum. E mais: se a mensagem era essa, não teria sido ouvida por quem de direito.

Mas, à luz dos depoimentos dessas duas amigas queridas, talvez esse recado já esteja dado há muito tempo. O recado, mais do que assimilado, é que política não é coisa para favelado. “Não vamos nem nos dar ao trabalho de ensinar isso na escola.”

E a louca que tentou desafiar essa verdade óbvia, mataram.

As Duas Fridas

Um país sufocado

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Quando eu era criança, nas décadas de 70, 80, Biafra era sinônimo de fome e pobreza. Servia de apelido para qualquer magricela, em referência aos meninos negros esquálidos  que víamos na TV, lá na distante e triste África.

Depois Biafra passou a ser apenas um cantor de relativo sucesso (que ganhou o apelido exatamente pela magreza, apesar de branco e de classe média). Biafra lugar, onde quer que fosse, sumiu do noticiário – como sumirá a Síria daqui a algum tempo, como sumiu a Somália, o Haiti…

Reencontrei o lugar por acaso, lendo “Meio do Sol Amarelo”, da Chimamanda  Adichie*, de quem quero ler tudo o que puder depois do empolgante “Americanah”.  Nesse premiado segundo romance, aprendi que Biafra foi uma tentativa separatista de uma região da Nigéria, uma guerra tão curta quanto terrível, que em menos de três anos matou mais de um milhão de pessoas, civis incluídos. Um sonho de nação igbo (uma das muitas etnias nigerianas) violentamente sufocado.

Mas isso eu poderia ter lido em qualquer livro de História, ou só na Wikipedia se tivesse preguiça. É preciso ler Chimamanda para entender que a Nigéria – e por extensão, a África – não é uma terra fadada à desgraça e à pobreza por maldade divina ou falta de sorte. É um país em busca de caminhos, identidades, pactos sociais, como qualquer outro no mundo. Um grupo de personagens ricamente construído estabelece uma trama de relacionamentos com os quais nós rapidamente nos identificamos, em maior ou menor medida. De um modo muito sutil e mais eficiente que discursos militantes, a autora vai minando estereótipos e ideias pré-concebidas, nos aproximando daquela realidade, em que terminamos por nos reconhecer. Estão lá as crianças famélicas, no pior momento da guerra, mas fazem parte de um vasto mosaico que constitui aquela história, também composta por uma elite econômica, por camponeses, pela classe média nigeriana e pela intelectualidade acadêmica. Uma sociedade complexa e múltipla, um espectro bem mais amplo do que qualquer menção à África evoca, ainda hoje.

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Terminei a leitura novamente impressionada com o talento de Chimamanda, com o quão pouco sabermos sobre a África e seus países, e impactada com a crueldade da guerra, sua imensa capacidade desumanizadora e desagregadora, as chagas e cicatrizes que grava nas pessoas e nas sociedades. Ia quase me permitindo um suspiro de alívio ao pensar que desse mal não padecemos no Brasil. Mas fui interrompida por uma mensagem de what’s app que pedia notícias de uma amiga que é professora no Complexo da Maré.

O suspiro virou soluço.

Helê

PS: Escrevi esse post às vésperas do carnaval. Achei que não ornava com a atmosfera e guardei pra depois.

Agora, escrevendo sob intervenção militar, combina muito mais do que eu gostaria.

*Chimamanda forma hoje a santíssima trindade das minhas autoras preferidas, junto com Elena Ferrante e Isabel Allende. Bem, tem a Fal, mas ela é hors concurs. Ah, e a Lionel Shriver tá correndo por fora, com grandes chances de transformar a tríade em quadratura. 🙂

 

Para não esquecer

Porque eu me recuso a contribuir para o Museu do Esquecimento (como bem disse meu amigo Paulo Magalhães®), vou lembrar que há três anos Cláudia Silva Ferreira foi assassinada pela PM do Rio de Janeiro e até hoje não houve julgamento. E os policiais que participaram da ação estão trabalhando normalmente. Podem parar seu carro e pedir seus documentos. Podem atirar num suspeito perto de onde você está. Podem te colocar na caçamba.
Cláudia não pode mais nada. 

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Imagens do projeto  “Mais 100 vezes Cláudia”, da mulherada porreta do Think Olga.

Helê

Resistência

Em tempos de crise uns choram, outros vendem lenço.

Outros tantos resistem, de muitas maneiras:

– O Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, trocou algumas de obras de seu acervo por trabalhos de artistas dos sete países afetados pela ordem executiva do presidente Trump referente à imigração. Trabalhos de artistas como Picasso e Matisse deram lugar a outros de Ibrahim El-Salahi e Parviz Tanavoli, por exemplo, acompanhados de um texto do Museu, explicitando suas intenções: “This work is by an artist from a nation whose citizens are being denied entry into the United States, according to a presidential executive order issued on January 27, 2017. This is one of several such artworks from the Museum’s collection installed throughout the fifth-floor galleries to affirm the ideals of welcome and freedom as vital to this Museum, as they are to the United States.
(Com informações do Hypeallergic, via Canal Meio)

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Parviz Tanavoli, “The Prophet” (1964) (photo by Robert Gerhardt)

– Uma mesquita no Texas sofreu um incêndio, de causas ainda não esclarecidas, no dia 28 de janeiro – apenas algumas horas depois da ordem de Trump, que neste momento em que escrevo, está suspensa por um juiz federal. Uma petição on line para a reconstrução do templo atingiu o valor necessário em menos de três dias. E a ajuda veio também de outras formas:
Some people have offered to perform carpentry work, lend their trucking services and knit new prayer rugs, while churches and a synagogue have offered space to Muslim members to pray and hold meetings, according to Dr. Hashmi and the fund-raising page.
“Jewish community members walked into my home and gave me a key to the synagogue,” he said. “Churches came and prayed with us, and people brought cash and checks.” (New York Times)

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 (Mohammad Khursheed/Reuters)

É isso, gente, é preciso estar atento e forte. De novo e sempre.
Só quero saber do que pode dar certo.

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 (Dylan Miner, Métis)

Helê, querendo resistir mas sem saber direito como.

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