Constrangimentos, vilanias, tribunais e contextos

O filme “E o Vento Levou” foi retirado da plataforma de streaming HBO Max ontem, no momento em que grandes protestos contra o racismo e a brutalidade policial, por conta da morte de George Floyd, levam os canais de televisão a revisar o conteúdo oferecido. O longa-metragem de 1939 sobre a Guerra Civil americana, que venceu oito estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme, continua sendo uma das maiores bilheterias de todos os tempos (quando são calculados os ajustes pela inflação), mas sua representação de escravos conformados e heroicos proprietários de escravos é alvo de críticas. (Fonte: UOL)

Eu vi “…E O Vento Levou” algumas vezes na vida. Uma delas enquanto esperava pacientemente o intervalo entre as contrações diminuir para que o trabalho de parto enfim começasse, há quase 18 anos.

Alguns meses atrás comprei o filme numa plataforma de conteúdo para assistir com o namorado, que nunca tinha visto. Junto com o filme vieram três ou quatro documentários, como conteúdo extra.

Esperei um domingo sem jogos importantes, afinal o filme é longo, e lá fui eu assisti-lo de novo junto com ele.

E me dei conta, com enorme constrangimento por nunca ter percebido isso antes, que “…E O Vento Levou” é um filme que enaltece os confederados. Sim, aqueles, os que perderam a guerra de secessão. Aqueles que defendiam a escravidão e que achavam que os ianques não podiam interferir no seu direito de possuir seres humanos. Aqueles que achavam que “salvar a economia” vale mais do que “preservar vidas humanas” (opa, que ano é hoje?).

Gone with the Wind removed from HBO Max - BBC News
Scarlett, além de mimada e frívola, era uma indesculpável escravocrata

E o pior: mesmo fazendo tudo isso, é um excelente filme, sob todos os outros aspectos. É um épico, tem um roteiro bem amarrado, a história é bem contada, o elenco é excelente*, os figurinos, lindíssimos, a fotografia impecável. Etc.

O fato de ser bom torna o filme ainda pior.

Porque a gente assiste, a gente gosta, e a gente não pensa sobre o absurdo que está sendo mostrado ali.

É como o caso do Tintim e do Monteiro Lobato: foram obras que envelheceram muito mal.

***

Daí fui assistir os documentários que vieram junto com o filme como conteúdo extra. E foi incrível. Toda aquela sensação incômoda que me perturbou enquanto assistia o filme foi explicada e analisada por professores, pesquisadores, especialistas. Ou seja, no século XXI não basta assistir às quatro horas de “…E O Vento Levou”, é preciso dedicar mais uma ou duas horas para a explicação sobre o que o filme representa e em quantos níveis ele está errado.

Se você ainda não viu, talvez seja melhor deixar pra lá ;)

***

Desde domingo venho acompanhando também a demolição de estátuas erguidas em homenagem a pessoas hoje vistas como deploráveis. Confesso que me entusiasmei ao ver as imagens de Bristol. A derrubada da estátua do traficante de escravos fez todo sentido, principalmente porque sua retirada vinha sendo pedida há tempos e ignorada pelas autoridades municipais.

Daí se seguiram movimentos semelhantes pelo mundo. Aqui no Brasil querem retirar a estátua de Borba Gato que fica em São Paulo. Hoje uma estátua de Cristóvão Colombo em Boston amanheceu decapitada. Outra, em Richmond, também foi parar no fundo do rio.

Acho que esses gestos são importantes para trazer à tona uma discussão que já deveria ter sido feita há décadas, séculos.

Alguns historiadores, no entanto, questionam a eliminação dos monumentos porque eles são, de certa forma, um registro do que já fomos. A escravidão de negros e indígenas faz parte de nossa história. O fato de os bandeirantes terem sido (e ainda serem, em larguíssima medida) tratados como heróis, também. Já vi sugestões de que essas estátuas — que, mantidas como estão, se constituem em homenagens — sejam realocadas para museus, onde se poderá explicar esse contexto e registrar que um dia fomos (somos) uma sociedade que enaltecia práticas vis.

Acho tudo válido, por contraditório que pareça: a fúria do momento, que leva à derrubada da estátua, tem um sentido. O debate que se segue, idem. As providências que tomaremos na direção da mudança são — têm que ser — a parte mais válida de todo esse processo.

Ate porque, e isso é muito importante, eu temo pelo limite. As manifestações da turba refletem, sim uma vontade popular. Mas não pode haver um tribunal da multidão para nada — nem para linchamentos reais, nem virtuais, nem para julgamentos históricos. As sentenças, sejam penais, morais ou históricas, têm que ser proferidas após argumentações de ambos os lados, após ponderação, amadurecimento de ideias. Senão, o que diremos quando derrubarem uma estátua de um dos “nossos”? Aí não pode? Quem traça o limite?

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Voltando ao início, por isso gostei da medida da HBO Max de retirar o filme imediatamente, para mitigar o problema imediato, que é o constrangimento de exibir um filme que romantiza escravocratas. Mas o comunicado da emissora diz que em breve ele voltará, devidamente embalado em contexto. Espero que isso de fato aconteça.

-Monix-

* Detalhe curioso que vale um registro: a atriz Hattie McDaniel, que faz o papel de Mamie, foi a primeira atriz negra a vencer um Oscar, na categoria de atriz coadjuvante, vencendo inclusive outra atriz do filme, a super caucasiana Olivia De Havilland.

Representatividade importa

Então as manifestações antirracistas ganharam o mundo: o alvo não é mais apenas a polícia dos Estados Unidos, mas o racismo estrutural que molda as relações sociais no mundo ocidental há séculos. Parece que a ficha caiu: esse problema não está nem perto de ser resolvido.

Já houve várias ondas de protestos antes — na verdade, quantas vezes tivemos a sensação de estar de volta a 1968? —, mas desta vez a novidade é ver uma multidão de pessoas pretas e não-pretas marchando juntas, brigando juntas, exigindo juntas que o mundo seja mais igualitário. Tudo isso em meio a uma pandemia de uma doença mortal e tendo como pano de fundo a ascensão de uma extrema direita que ressuscitou discursos excludentes e supremacistas.

Minha mãe era professora de História, e ela costumava dizer que a História anda não em círculos, mas em espiral. A cada volta, a cada vez que parece que estamos retornando ao mesmo ponto, na verdade estamos uma dimensão acima. O que a morte de George Floyd nos ensinou foi que pessoas brancas não podem mais ficar caladas esperando que “eles que lutem”. Meu aprendizado com isso tudo foi: como pessoa de privilégio que sou, tenho a responsabilidade de usar minha voz para falar sobre essas tantas injustiças. E principalmente, preciso usar meus ouvidos para escutar o que os negros têm a dizer, respeitosamente, e mudar o que for preciso, em mim mesma, para ajudar a tornar este mundo melhor para todos e não só para alguns.

***

Essas reflexões me fizeram pensar que representatividade também importa. Sou da Comunicação, e para mim é impossível pensar em mudar o mundo se os conteúdos culturais e jornalísticos continuarem os mesmos.

Foi assim que nasceu este post. Eu estava assistindo uma minissérie na Netflix e de repente me veio uma lista praticamente completa de coisas que li e assisti e que tinham como protagonistas mulheres negras. É importante, sabe? Faz diferença. Quanto mais a gente vê mulheres negras como protagonistas, mais natural é a presença delas em lugares de destaque (já escrevi sobre como representação ajuda a criar uma ideia de mudança em outro contexto, mas também vale para essa reflexão aqui).

Então ficam as minhas dicas — que tal aproveitar o pouco tempo livre da quarentena para conhecer obras que não são protagonizadas por homens brancos, mas por mulheres negras? Nem todas são perfeitas, algumas são estilo cinema-é-a-maior-diversão, outras são profundas, ou belas, mas todas irão ajudar a expandir seus horizontes. Vai na fé.

A Vida e a História de Madam C. J. Walker (a minissérie que me fez pensar nesse post).

Madame C.J. Walker: liberdade contra o racismo
Madame C. J. Walker foi a primeira mulher negra a ficar milionária nos Estados Unidos

Lionheart e Harriet (um filme não tem nada a ver com o outro, mas eu escrevi sobre os dois nesse post aqui).

Toda e qualquer coisa sobre a Elza Soares.

O livro Um Defeito de Cor, obrigatório mesmo.

O livro Kindred – Laços de Sangue.

O documentário What Happened, Miss Simone?

O filme Pantera Negra, é claro.

A novela gráfica Aya de Yopougon (há anos procuro as continuações, mas até onde eu sei só dois dos seis volumes da série foram publicados no Brasil).

O livro e o documentário Minha História, de Michelle Obama, a maravilhosa.

O livro e o filme A Cor Púrpura.

E para encerrar essa lista (que está longe de ser definitiva), é preciso citar o Em Pauta que virou Globo Repórter reunindo pela primeira vez na bancada as jornalistas negras Maria Julia Coutinho, Aline Midlej, Zileide Silva, Flavia Oliveira e Lilia Ribeiro, junto com Heraldo Pereira, para debater o racismo no Brasil a partir dos protestos antirracistas nos Estados Unidos. E assim, terminamos voltando ao começo — espero que em espiral.

Agora é sua vez: se puder, deixe nos comentários suas sugestões.

-Monix-

Projeto

Para a nossa newsletter de ontem escrevi uma ou duas linhas boas que não quis deixar restrita aos assinantes. São daquelas muitas que surgem durante a escrita, num fluxo direto: cabeça, mãos, teclado e ôpa! de onde veio essa ideia que eu não tinha pensado antes? (Mais uma razão para receber a nossa news: somos pressionadas a escrever ao menos uma vez por semana pelo motor mor do jornalistmo, o prazo. E a pressão às vezes é uma boa editora).

Falamos na news sobre a pauta incontornável desde que o assassinato de George Floyd ganhou as redes sociais e a mídia: o racismo e o extermínio da população negra. A curva da nossa indignação atingiu seu pico e levou às ruas milhares de americanos e também outros cidadãos do mundo. Ainda vivemos todos ameaçados pelo novo coronavírus – em maior o menor grau, variando de acordo com a competência e obtusidade de cada chefe de estado -, mas não foi possível adiar. Diante da brutalidade policial exercida lenta e deliberadamente, sem um traço de constrangimento ou preocupação, a pandemia que vitimou mais de 100 mil americanos pareceu menos letal que a truculência repressiva do estado. Hoje, o resultado da autópsia de Mr. Floyd indicou que ele estava infectado com o vírus da Covid-19, mas nesse caso a doença foi uma comorbidade, entre tantas outras, para a causa mortis que adoece e mata há mais tempo: o racismo.

Foto: Nelson Almeida/GettyImages

O Brasil, que se esforça pra ser sempre o melhor pior, consegue tornar ainda mais dramática a questão com uma absurda lista de crianças e jovens negros assassinados pela ação do aparato policial militar. A quem, aliás, não se pode acusar de incoerência: foi constituído originalmente para proteger a propriedade e as elites, e se mantém fiel aos propósitos fundadores, utilizando em suas hostes membros das mesmas classes que são treinados a abater.

Photo by: Miami- Dade Corrections

Talvez por isso as cenas que mais têm me emocionado nas manifestações americanas são aquelas em que policiais demonstram apoio aos manifestantes. Os que se ajoelham, no gesto ressignificado por Kaepernick, os que ouvem as pessoas, os que garantem a segurança delas mais que as propriedades, os que abraçam. Aqueles que, mesmo que momentaneamente, rejeitam anos de treinamento, o privilégio da impunidade e da força e recuperam sua humanidade. Talvez seja preciso começar por aí a desarmar esse monstruoso mecanismo tão bem azeitado ao longo da história. Ou a gente vai continuar, como acertadamente definiu Emicida, “por nossa conta e risco nesse grande projeto de matar preto que é o Brasil”.

Helê

Máxima

Orgulho desta regra que há anos orienta este blogue, gerido por duas jornalistas:

 

calabocajámorreuquemmandanaminhabocasoueu

 

Helê

À luz

Eu não assisto BBB há umas 19 edições. Entre vários motivos, porque acho chato mesmo. Então, pelas minhas próprias regras, não deveria falar sobre algo que não conheço. Entretanto falarei, amparada em uma das regras magnas desse blogue (a do calaalabocajámorreu), e porque muito pouca gente nesse país quarentenado ficou alheia aos desdobramentos do programa esse ano. Minha filha, que nunca havia assistido antes, pegou o bonde no meio e foi com ele até o final; ontem soltou a frase que definiu seu envolvimento: “Ainda bem que acabou, não aguentava mais gostar de BBB”.

Se bem que não é exatamente sobre o programa que quero falar. Acontece que a popularidade incontestável do Babu e a surpreendente vitória da Thelma me fizeram lembrar uma teoria que elaborei há algum tempo, defendida na Universidade Mesa de Bar, sobre o que eu chamava de “negritude difusa”, uma propensão popular a torcer e apoiar negros ou aspectos a eles relacionados, em certas situações – embora sem explicitar que era a etnia que estava em jogo.

A primeira vez que pensei sobre isso foi na Copa de 90, quando o Brasil se encantou com a seleção de Camarões de Roger Milla. Eu sei que você não era nascido, bebê, então deixa eu te contar: eliminados pela Argentina, os brasileiros adotaram a seleção camaronesa. Passamos a acompanhar e torcer de verdade, de juntar no bar ou fazer churrasco pra vê-los jogar. Lembro de ter ido assistir ao jogo definitivo na casa de amigos e, no trajeto que fiz entre Vila Valqueire e Laranjeiras – que é praticamente cruzar a cidade -, vi várias janelas com bandeiras improvisadas de Camarões, feitas com qualquer pano que tivesse as cores do país. E na hora do jogo, os gritos e comemorações foram semelhantes àqueles ouvidos nos jogos do Brasil. Um fenômeno desses é difícil de explicar; contribuiram para isso o futebol solto e ingênuo dos africanos, a simpatia de Milla, a possibilidade improvável de vitória de um underdog. Mas também torcíamos por irmãos africanos, pelos negros – embora essa correlação nunca fosse explicitada.

Muitos anos depois, um amigo trabalhou diretamente com o então ministro do Supremo Tribunal de Federal, Joaquim Barbosa. Acompanhou-o em seu momento de maior visibilidade e tensão. Esse amigo me contou sobre as pressões sofridas, os constrangimentos discriminatórios (dos quais um negro nesse país não escapa nem mesmo sendo presidente do STF), várias histórias. Mas as mais impressionantes e comoventes vinham das camadas mais humildes da população, que viam Joaquim com um misto de orgulho, respeito e esperança. Uma relato inesquecível diz respeito a uma visita do então ministro a um presídio no norte do país. Em um ambiente hostil por natureza, especialmente para autoridades, Joaquim Barbosa foi tratado com reverência, como “o cara”, como aquele que, apesar da origem humilde, “deu certo”, ascendeu honestamente. Também nesse caso, vários fatores podem justificar a popularidade de Joaquim, mas a classe, sozinha, não inspiraria a mesma admiração sem o componente racial. Nesse episódio da cadeia, os detentos ofereciam as mãos para serem tocados pelo ministro, e diziam coisas como: “O senhor colocou branco rico na cadeia, antes a tranca era só pra gente”. Barbosa era – e talvez ainda seja – visto como um “negro que deu certo”, e além disso foi destemido no enfrentamento aos poderosos (que nesse país é também um sinônimo para brancos).

Tudo isso é digressão de botequim, como avisei de início, não há ciência alguma no que digo. É só uma Teoria de Mesa de Bar que talvez não se sustente depois da 20ª edição do BBB. Porque não há nada de difuso na popularidade do Babu (tecnicamente, o 4º colocado, mas reconhecidamente o vencedor dessa disputa) e na inesperada vitória da Thelma. Raça e racismo estiveram em pauta ao longo de boa parte do programa (que, a propósito, no ano passado premiou uma pessoa identificada por grande parte da audiência como racista). As redes sociais hoje estão repletas de pessoas comemorando a vitória de uma mulher negra, e embora o BBB tenha destacado a “narrativa das mulheres” (um jeito que a globo inventou de falar de feminismo sem ousar dizer o nome), foi a raça ocupou um lugar inédito nos corações e mentes dos espectadores, e sobretudo na fala, deixando a clandestinidade, o lugar do implícito e do subentendido.

A desigualdade para os negros em geral e para as mulheres negras em particular amanheceu igualzinha, não tenho dúvidas. Mas talvez tenhamos ganhado uns pontos nas trincheiras do discurso. E uma batalha fica mais franca e justa quando podemos nomear com precisão quem são nossos inimigos e nossos aliados, e porque fazemos nossas escolhas.

Helê

Notas da quarentena

**Na newsletter que enviamos no dia 11 de março eu comentei rapidamente sobre o abraço do Dr. Dráuzio e suas repercussões: a onda de solidariedade, num primeiro momento e, em seguida, uma tsunami de ira e indignação. Na despedida, desejei a todas e todos muitos abraços e nenhuma tsunami.

Mas ela veio.

E varreu, além da normalidade, a possibilidade de abraços.

Rio de Janeiro, RJ
Foto: Ana Carolina Fernandes @culafernandes para o coletivo @covidlatam. Grafite @nogenta_ e @contraconsciencia

** Impressionante como esse episódio do Dráuzio, que mobilizou tanto e sobre o qual eu escrevi menos de um mês atrás, parece agora algo muito distante. Deve haver até mesmo os que não lembravam. Talvez a mudança mais imediata e radical que estamos experimentando seja nossa relação com o tempo.

** Como os marcos cotidianos estão suspensos ou alterados – trabalho, escola, lazer – todo mundo confunde se hoje é segunda ou quinta, todo dia é um tal de “Comassim, meio-dia?!” e “Mas já é nove da noite?” Os dias se arrastam mas as horas voam, as semanas se misturam e a tarefa de contar o tempo perdeu os referenciais coletivos.

** O tempo também se altera em função do espaço. Dizem que estamos a uma ou duas semanas de viver o que aconteceu com a Itália — estamos, portanto, no passado deles. Alguém nos Estados Unidos alerta: “Lembre-se que estou duas semanas à frente de vocês, em termos de pandemia”, como se mandasse um recado do futuro.

** Certo está o tuíte que disse: só existem três dias na semana: ontem, hoje e amanhã.

** Participo de pouquíssimos grupos de whatsApp. Meu favorito eu admiro, entre outras coisas, porque só fala quando necessário — por necessário entenda-se desde unha lascada até crise na Gávea, o nosso conceito de necessário. Que exclui ‘bom dia, grupo’ e memes e textões que todo mundo já viu. Pois bem, nesse grupo agora conversamos todos os dias, às vezes em vídeo, sobre as coisas mais comezinhas. “Hoje a máquina quebrou”, “Meu marido cozinhou feijão no dia errado”, “Fiz frango e deu certo”. Numa situação extraordinária fortalecemos nossos laços reforçando normal, o cotidiano.

**Falo com minha mãe por vídeo quase todos os dias, faço a ronda dos amigos, como mensagens periódicas para saber se estão todos bem, seguros. Não consigo terminar um e-mail, telefonema ou zap sem dizer no final: se cuida. E o coração aperta.

**Da série banalidades: eu agradeço sempre que pandemia caiu depois do carnaval. E que eu faço aniversário no segundo semestre.

** Eu, que sempre apreciei os momentos que em que o mundo parece uma vila – olimpíadas, casamento real , final de Game of Thrones – percorro o noticiário internacional entre angustiada e curiosa, querendo compreender de que maneira pessoas distantes estão vivendo a mesma ameaça (ainda que em “fusos” diferentes). Observo a política (e as politicagens), as inflexões culturais, e as histórias gentis. Guardei com carinho a delicadeza dessa: no auge da crise em Wuhan, o Japão doou para a China centenas de máscaras de proteção; nas caixas havia um verso em chinês: “Embora em lugares diferentes, estamos sob o mesmo céu”.

**Não sei se nos salva da extinção, mas ao menos uma sobrevida o jornalismo ganha com essa pandemia. Arrisco dizer que, nas atuais circunstâncias, os jornalistas só perdem em importância para os profissionais de saúde.

**Lembre: você não está trabalhando de casa. Você está em casa durante uma crise tentando trabalhar.

Rainha Elizabeth II fala sobre a pandemia de coronavírus: "Dias ...

**A fragilidade dos velhos e o susto dos mais novos me fincou na posição de adulta. Aí quando vi Betinha dizendo que tudo, tudo, tudo vai dar pé eu me emocionei. Tá, eu sei que não era comigo, nem súdita dela eu sou. Mas eu, que desde o começo busquei tranquilizar os meus, ainda não tinha ouvido aquilo que disse mais com esperança do que convicção. Foi reconfortante ouvir de alguém mais velho e experiente, uma vó, que vamos superar. Foi bom, por alguns instantes, não ser o adulto.

** Quando é que a gente vai se abraçar novamente?

Helê

 

A Grande Ficha

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Bem, parece que aos poucos a Grande Ficha vai caindo, exceto para nosso irresponsável Pesadelo Eleito.

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É chegada a hora de ficar em casa e esperar. Paciência, algo que desaprendemos a ter, é o que a humanidade mais precisará nos próximos meses.

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Este é um evento de uma magnitude que a gente ainda nem consegue dimensionar. Não é como o pós-11 de setembro. Não é como a queda do Muro de Berlim. Talvez se compare à invasão da Polônia pelo exército nazista. A conferir.

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Teorias da conspiração: não passem adiante, por mais engraçadas que sejam. Há todo tipo de maluco, as pessoas acreditam em piadas.

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Mas se fosse para acreditar em alguma conspiração, acho que seria a natureza finalmente se cansando da espécie humana e mandando um recado, digamos, mais enfático.

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É hora de ver nossos privilégios como eles realmente são. Ver o valor de pequenas coisas, como ter a benção de passar a quarentena com pessoas que você ama, ou juntos, em casa, ou se aproveitando dos recursos que a tecnologia nos permite usar. Imaginem na época da gripe espanhola, ficar confinada bordando.

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Desde semana passada não consigo parar de pensar em como sairemos dessa crise global. Nesses momentos, o melhor e o pior da humanidade se apresentam. Prefiro focar no melhor. Iniciativas de apoio, coletivos, ajuda material, arte espontânea, tenho visto muita coisa bonita. Profissionais de várias categorias pensando em formas de ajudar — psicólogos fazendo atendimentos virtuais, nutricionistas compartilhando receitas, jornalistas ajudando a identificar o que é fato e o que é boato, isso sem falar no médicos e todos os profissionais de saúde, e em uma turma meio invisível que é fundamental: os técnicos que mantêm os servidores de internet no ar, os funcionários das companhias de água e energia, etc.

Penso muito nas categorias de trabalhadores não especializados, que serão essenciais para todos nós — por exemplo, funcionários de supermercados, entregadores, cozinheiras de restaurantes. Merecem aplausos na janela, também.

***

Eu continuo trabalhando normalmente, e acumulando tarefas domésticas, então não tenho muitas dicas sobre o que fazer na quarentena. Sugiro que visitem as categorias do blogue sobre livros, filmes e afins e se distraiam com os posts antigos para se inspirar.

Ah, e enquanto nossa sanidade mental permitir, continuaremos mandando a newsletter toda quarta, tentando reciclar posts sobre belezuras e assuntos um pouco mais leves, para ajudar a enfrentar o que vem por aí.

***

Cuidem-se. Lavem as mãos. Fiquem em casa.

-Monix-

Pastilhas Garota* (de meia idade)

O carioca é mesmo um ser muito desbocado. Criou uma alternativa xrated para o etcétera, que é, como se sabe, oscaralho. Pode denotar um sentido coletivo (“Ele levou pai, mãe, filho e oscaralho); ou intensidade (Vai desfilar em três escolas, nos blocos e oscaralho). Mas se a intensidade for muita, utilizamos o superlativo ocaralhoaquatro. Um fino, o carioca.

*

Tem certas palavras ou expressões que se auto denunciam como falsas. Adquiriram uma reputação tão ruim que, mesmo quando usadas legitimamente, inspiram desconfiança. Coisas como “não é que eu seja….” – já era, irmão, pra mim você é o que quer que venha depois. Ou quando o sujeito fala que “não é de esquerda nem direita” – direitoba, certamente. Em mim já dá vontade de centralizar um soco, pro cabra parar de tentar me enganar.

*

Quando eu tinha uns 10 anos, meu pai me disse algo que me chocou: “tudo é política, todo ato é político”. Tentei o que me parecia mais impossível: “Até um beijo?” Ele, convicto: “Até um beijo”. Não foi na hora, mas logo depois eu entendi o que ele quis dizer, e hoje agradeço a ele essa lição precoce, porque me poupa de certos vexames. Como um juiz federal dizer que a greve dos petroleiros é política. O que não é, moço?

*

Não quero me acostumar com a vida de desempregada. O horário é bom, mas paga muito mal.

*

E atenção, recrutadores: vamo combiná que pretensão salarial num pais com 13% desempregados é uma cretinice brutal, não? Joga o candidato um dilema terrível, porque ele não deve pedir alto demais, tão pouco se desvalorizar, mas nos dias atuais a grande pretensão tem sido conseguir um emprego. Tenho vontade de devolver a bola para o empregador em forma de enigma: minha pretensão é receber três vezes mais o que eu aceitaria. Ele que lute pra saber quanto é isso.

*

Trudia tava zanzando pelo YouTube e comecei a assistir uma entrevista do Paulo Coelho. Ele metia o pau no Pesadelo Eleito®, estarrecido com as declarações, os ministros e oscaralho. Aí quando o cabra pergunta: “O que ainda te dá orgulho no Brasil”, o mago responde: “o povo”. E eu: “Hã?! O mesmo que elegeu esse imbecil?” Vamos parar de romantizar o Brasil?

Avenida Paulista, São Paulo
Photo by Lucas Martins @lucasport01
everydaybrasil

Helê

*Porque Drops, só da Fal

®Tina Lopes, que se não inventou essa expressão precisa, foi quem me ensinou

Um retrato do Brasil

Severino bordando, na porta de sua casa, a gola de caboclo que ele vai usar no Carnaval. Tracunhaém, mata norte de Pernambuco.
Do twitter da Fabiana Moraes

Reza a lenda (urbana) que João Gilberto teria dito, ao ver uma mulher negra descendo o morro, “Olha o Brasil descendo a ladeira!”. A partir dessa “exclamação poética”, Moares Moreira escreveu sua conhecida canção. Pois eu tive reação semelhante ao ver essa foto hoje: de estar vendo o Brasil – ao menos aquele que me interessa, instiga e inspira. Um ao qual eu pertenço e em que me reconheço: tudo nessa foto soa familiar, embora eu não nunca estado em Tracunhaém e tão pouco tenha visto um Caboclo de Lança ao vivo. Não queria morar nessa foto: sinto que, de algum modo, eu vivo ali. 

Helê

Great power, great responsibilities

Um amigo meu tem uma teoria que seria cômica se não fosse trágica: após o quinto gol da Alemanha (vocês sabem qual era o jogo), o Brasil entrou no mundo paralelo e não conseguiu mais sair.

Faz sentido. Pensa bem: o Brasil perder de 4 X 0 para a Alemanha numa Copa do Mundo seria humilhante? Seria. Mas seria algo como um portal para o mundo bizarro? Não. O 7 X 1 nos transportou para uma dimensão tipo twilight zone e eu realmente me pego perguntando se um dia conseguiremos sair dela.

Mas há quem diga que não, que na verdade o que aconteceu foi que os maias (não confundir com os Maias) tinham razão e o mundo acabou em 2012. Não dá para dizer que os fatos não sustentam essa teoria… afinal, de lá para cá tivemos as jornadas de junho, a ascensão ao poder de figuras bizarras no mundo todo, enfim, muitas coisas estranhas aconteceram. E além disso 2012 foi o ano em que Barack Obama foi reeleito para seu segundo e último mandato na Casa Branca. Realmente, olhando em retrospecto, parece que de lá para cá o mundo só desceu a ladeira.

***

Essas reflexões me vieram à cabeça porque estou lendo a autobiografia de Michelle Obama, ex-primeira dama dos EUA. Cá entre nós, faz tempo que eu suspeito que a família Obama na verdade não existe – são atores contratados por Hollywood para encenar um grupo de pessoas maravilhosas e fazer o mundo parecer um grande comercial de margarina.

Tá, digamos que Michelle existe. Claro que numa autobiografia a pessoa seleciona os melhores aspectos de si mesma, faz uma edição do lado obscuro da vida,especialmente da política, e mostra só os fatos que servem para compor um bom retrato de si mesma.

Mas isso não vem ao caso para falar sobre o que me impactou no livro.

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Porque um livro como este, com potencial para alcançar milhões de pessoas no mundo todo, carrega a força de uma mensagem. E a mensagem de Michelle é a de que o poder não é um fim em si, é um meio para causar impacto positivo na vida das pessoas. Com todas as suas limitações, o poder pode (ou deve) ser usado com responsabilidade sobre aqueles que o concederam – os eleitores, no caso de um representante eleito democraticamente.

E por isso, não importa se sinceras ou não, as palavras de Michelle mostram o poder não como algo fascinante, mas algo que a família encarava com grande seriedade. Fiquei comovida com diversos trechos da narrativa em que essa sensibilidade se revelou, mas especialmente neste parágrafo em que ela conta como se sentiu após passar uma noite passeando com o marido em Nova York, em um jantar seguido de teatro, algo que milhões de pessoas fazem, em milhares de cidades ao redor do mundo, corriqueiramente.

Era como se, com nossa noite a dois, Barack e eu tivéssemos testado uma teoria e provado tanto a melhor quanto a pior parte de uma longa suspeita. A parte boa era que podíamos sair de cena para uma noite romântica, como costumávamos fazer, anos antes, quando a vida política dele ainda não tinha assumido o controle. (…) A parte ruim era ver o egoísmo inerente a fazer isso, sabendo que nosso programa havia exigido horas de reuniões entre as equipes de segurança e a polícia local. Acarretara trabalho extra para nossos funcionários, para o teatro, para os garçons do restaurante, para as pessoas cujos carros haviam sido desviados da Sixth Avenue, para os policias na rua. Era parte do peso que nos acompanhava agora. Era muita gente envolvida, muita gente afetada, para qualquer coisa ser leve.

Neste mundo bizarro/pós-apocalíptico em que vivemos, é um sopro de alento vislumbrar uma visão tão consciente sobre o quanto nossos atos afetam os outros.

-Monix-

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