São Sebastião, padroeiro: salve!

"São Sebastião", serigrafia, 1997, Glauco Rodrigues.

“São Sebastião”, serigrafia, 1997, Glauco Rodrigues.

“São Sebastião, proteja essa cidade linda e seu povo que, mesmo sofrido, tem uma alegria genuína!
Infundi em nós a energia necessária para que cuidemos bem de nossa terra e o discernimento e a inteligência suficientes para escolher vereadores e prefeitos que não maltratem e vilipendiem ainda mais esses quase 7 milhões de pessoas!
O senhor é guerreiro e há de nos proteger nas batalhas cotidianas!
Livrai-nos desta guerra contra pretos e pobres, e que todos possamos seguir a vocação à felicidade!
Amém!”

Oração da pastora Lucia Helena Almeida, carioca de raiz, flor e frutos, com quem eu vivo encontrando na mui leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Quase sempre da maneira mais carioca possível: na rua, no samba, sem combinação,  com muita alegria e alguma cerveja. Ninguém mais habilitado para dizer uma reza para nosso padroeiro, nossa cidade, por todos nós.

Helê

Carolina entre os seus

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A 2ª Bienal do Livro de Brasília, que se encerrou nesta segunda-feira, homenageou vários escritores brasileiros e estrangeiros com grandes fotos exibidas em murais, ao lado de excertos de textos de suas autorias. Como o evento ocorreu na Esplanada dos Ministérios, cartão postal de Brasília, meca da política nacional e o principal centro de circulação de carros da cidade, foi um sinal de grande prestígio para o escritor ter seu nome, seu rosto e seus textos exibidos ali, em tamanho gigante, durante mais de uma semana. 

Fiquei muito feliz  ao ver o rosto da Carolina de Jesus estampado num mural enorme, que eu calculei em mais ou menos 5 m X 5m de dimensão, bem na entrada principal da Bienal. Era impossível não vê-la ao entrar na Bienal. Mais interessante ainda foi constatar que, ao lado de imagens de nomes consagrados como Eduardo Galeano, Ariano Suassuna, Ana Maria Machado, Naomi Wolff e Mia Couto, fulguravam o de Carolina e o da maior escritora de S. Tomé e Príncipe, Conceição Lima. Havia também outros escritores negros africanos e latino-americanos. Enfim, a negritude estava bem representada. Alvíssaras!

Christian Morais, jornalista, nosso leitor querido e  blogueiro convidado de hoje.

Cristo concreto

“Veja se estas fotos não se casam perfeitamente com o trecho da “Expresso 2222” que está aí embaixo. Viciado nos posts fotolegendados do Fridas, foi a primeira coisa em que pensei quando vi. “

Christian Morais, freguês de caderninho aqui no Dufas

“Nunca se chega no Cristo concreto
De matéria ou qualquer coisa real
Depois de 2001 e 2 e tempo afora
O Cristo é como quem foi visto subindo ao céu
Subindo ao céu
Num véu de nuvem brilhante subindo ao céu”

As imagens, de autoria de Marcos Estrella, foram publicadas no jornal O Globo e amplamente compartilhadas nas redes sociais. Mas só o Chris encontrou a trilha sonora perfeita para casar imagem e som.

Helê

Médici ou Gandhi?

Foto: Márcio José da Silva, disponível no site www.chicoalencar.com.br

Essa foto é incrível. Expressa perfeitamente um dos princípios mais caros da democracia, que é a convivência de contrários. E que contrários! O senhor da esquerda (na foto, apenas na foto!) é o deputado Jair Bolsonaro, de extremíssima direita. O da direita (apenas na foto, insisto!) é o deputado Chico Alencar, representante da esquerda democrática e libertária, considerado um dos melhroes parlamentares do país. Ambos são eleitos pelo Rio de Janeiro. Coincidiu de panfletarem no mesmo dia, no mesmo local – o calçadão de Copacabana –, usando camisas com personagens que, por motivos diferentes, marcaram seus nomes na História: um tornou-se símbolo do momento mais cruel da ditadura brasileira, redator daquela “página infeliz da nossa história” a que se refere (o grande) Chico Buarque, de tempos de medo e de tortura; outro é o símbolo mundial da resistência pacífica (e vitoriosa) a regimes antidemocráticos.

Tais como Eros e Tânatos, os princípios e ideias representados por estes personagens continuam muito vivos na política brasileira e mundial. E não nos enganemos: não são poucos os que vestem a velha camiseta com a estampa do Médici por baixo do uniforme de democratas…

Christian Morais

Mais um participação de um de nossos top leitores, o Chris.

Em tempo 1: Chico é meu candidato a deputado federal (PSOL 5050).

Em tempo 2: La Otra, quando viu a foto, espantou-se: “Tem alguém que usa uma camisa do MÉDICI???? Mesmo sendo o Bolsonaro, cara, é inacreditável.”

Poizé.

Helê

Voto proporcional ou Como Judas se dá bem

O chamado “voto proporcional” é uma das maiores aberrações do sistema eleitoral brasileiro. Diferentemente do voto majoritário, no qual o candidato que obtiver mais votos está eleito, o voto proporcional utiliza um malabarismo numérico – uma espécie de equação – para calcular “proporcionalmente” quem foi eleito, tomando como referência a quantidade de votos válidos e a quantidade de votos recebidos pelos partidos e pelas coligações partidárias, redistribuindo-os internamente. Em outras palavras, você vota em Jesus, mas, por tabela, também elege Judas, que faz parte da mesma coligação ou partido do Crucificado e se beneficia com a “sobra” de votos dele. E o pior: se Jesus estiver num partido pequeno, mesmo que receba milhares de votos a mais do que Judas, que está num partido grande, corre o risco de não se eleger, porque seu partido não teria obtido o tal coeficiente eleitoral. É totalmente absurdo.

O sistema proporcional é usado na eleição de deputados federais e estaduais e vereadores. É por isso que, com frequência, a população não se reconhece nos parlamentares eleitos. É porque, na verdade, não votou neles. Quase ninguém lembra disso na hora de votar. E adivinhe por que ninguém divulga esta questão (nem o TSE!) ou toma alguma iniciativa para acabar com isto…

O cientista Jairo Nicolau explica bem melhor neste texto: Como votar para deputado.

Do sempre perspicaz Christian Morais, um de nossos top leitores. Por essas e outras.

Atenção no voto, pípol.

Helê

A respeito de gatos e tartarugas

Hoje visitei Dona Doida – como eu chamo carinhosamente a velha que cuida da minha memória. Fiquei remexendo o conteúdo de caixas do meu sótão sentimental, sem um objetivo claro, e esbarrei no texto que transcrevo abaixo. O autor, Jacinto, foi meu colega de trabalho anos atrás – na Idade Média – e dele guardo a lembrança de alguém carinhoso, talentoso, tímido e bem humorado – além de um delicado poeta. Um dia, num papo casual, falei da minha admiração pelos gatos, e ele me respondeu alguns dias depois com esse belo texto. Jamais me esqueci dele, mas não lembrava que havia sido dedicado a mim – Dona Doida faz escolhas estranhas. Por isso é bom de vez em quando ir ao sótão e checar pessoalmente nossas relíquias – seja para se desfazer das que o tempo tornou inútil, seja para lustrar as que a ele resistem e se mantém valiosas.

A respeito de gatos e tartarugas*

(À Helena Costa)

Eu que deveria gostar dos gatos, animar-me com a real possibilidade de legitimar a solidão altiva e elegante, acabei por preferir as tartarugas — tão a longo e aprendizado prazo. Também elas são prazerosamente solitárias, eu sei, e é essa a realidade lenta do tempo que me conquista: os gatos são espertos e rápidos demais.

Logo eu, tão agoniado e pronto pra tudo, deveria ser apaixonado por eles: identificar-me. Mas não. Dei pra tentar entender o segredo contido nas tartarugas, e a passar tardes vigiado docemente pela lua, reparando-as e procurando conter-me, já no ventre do mundo, com certo alívio e tranquilidade. Os gatos me olham e me cobram o imediatismo que também eu me exijo, e por isso mesmo me atrapalham. Basta que eu crucifique minha própria ansiedade. Sete vidas e sete fôlegos e sete elegâncias me parece mágico, mas pouco sustentável em mim. Os gatos levam, ocultado, algum segredo-chave do Humano e vivem como se desejando serem admirados. E impune e sabiamente são.
Também deve ser levado em conta o temor de minha vaidade de não conseguir aparentar a dos gatos: há de se ser elegante de corpo e de espírito, como o equilibrista que se descobre altivo diante da platéia e espera o aplauso – ainda que apenas no camarim, a sós, saboreará o prazer solitário da descoberta de sua altivez.

Já as tartarugas são de um tipo de solidão mais caseira, mais solta e, me parece, mais feliz. Donas de uma elegância difícil de ser acompanhada por olhos, concordo, mas tão facilmente aceita por mãos. Sempre me enchem os olhos e as mãos de companhia – posso tocá-las sem medo ou suspeita de não estar com a postura correta. As tartarugas são feitas de passos, e o segredo de sua devoção para com o mundo é a lição da casa: moram em si mesmas; habitam-se entre paredes e mistérios. Reclusão voluntária ao casco: questão de necessidade. E se deixam. E se amam. E se renovam sem mudanças visíveis. E envelhecem renovadas. Têm o tempo como aliado e suas ausências, enterradas na terra, garantem seu enorme poder de refazer as horas, de reciclar os lerdos movimentos rumo à aurora, que vêem e esquecem, que vêem e adormecem. As tartarugas, já no nome, pedem cumplicidade e voz baixa. Há de se gritar para atingir Deus? Elas, por opção, sussurram voz e gesto.

Mais sobre os gatos, o que sei peco. Pouco entendo quando os vejo de pelos eriçados e bigodes esticados prontos a se defenderem. Quem sabe, também na defesa, eles não exijam a postura intacta e inatingível? Possivelmente. É um bicho nobre, o gato. Ainda que eu lhes cobre uma popularidade de movimento, tenho que admitir que diariamente são eles que reinam entre esquinas, telhados e almofadas. Silêncio e soberania. Não cedem carinhos: negociam — mesmo que o que desejem seja troca pura e simples de carinhos. É um bicho forte, o gato. Não se intimidam com cemitérios ou padarias pouco refinadas: garantem-se na própria elegância de olhar estrelas, com o corpo absolutamente ereto, e de encontrá-las. No fundo, a independência dos gatos me assusta. Possuem o meu respeito.

Mas existe o ponto em comum entre os gatos e as tartarugas: ambos administram a fragilidade Humana como ninguém, ao fingirem precisar do alimento do home, do carinho do homem, da proteção do homem, da ignorância do homem, da generosidade do homem, da carência do homem, do perdão do homem. Quando, na verdade, foram criados tão somente para explicar – cada um a seu estilo – a existência inexplicável do tempo.

*Jacinto Fabio Corrêa, 25 de junho de 1992

Assunto

Outro dia estava em uma reunião e minha interlocutora tentou fazer uma comparação entre determinada situação de trabalho e uma propaganda da(o?) B*tic*rio. Aí eu tive que fazer aquela famosa cara de paisagem e dizer que não sabia do que ela estava falando, porque não assisto televisão.

Era uma reunião tensa, em que várias coisas difíceis foram ditas, mas este foi o único momento em que ela esboçou uma reação mais, digamos, intensa. Deu um pulo para trás na cadeira e perguntou: “Quem não assiste TV?” Eu devo ter feito uma cara meio ridícula, e ela, tentando consertar, emendou: “Que assunto têm essas pessoas?”

Bom, achei melhor não responder, mas vá lá: além de temas de interesse mais geral, tipo filmes, livros, política, restaurantes, viagens, notícias, eventualmente até fofocas de celebridades (ninguém é de ferro), na maior parte do tempo falo de coisas que aconteceram comigo, ué. Falo sobre meu filho, minha família, meu namorado, meu trabalho, sei lá. Falo da minha vida, e não da vida dos outros, eu acho. Nunca parei para medir (alguém sabe se já inventaram algum tipo de assuntômetro?), mas uma coisa eu garanto: falta de assunto é um mal de que eu definitivamente não padeço.

-Monix-

Update: contribuição das Organizações Drops para o debate
bom, veruca, vc vê. eu, que vejo televisão o dia todo faço a mais absoluta questão de não saber nada. Quando a minha boa mãe entra no meu quarto dizendo “você viu que…”, imediatamente eu começo a ouvir aquele som que o Homer Simpson ouve quando a Marge fala com ele, aquele nhomnhomnhomnhomnhom enquanto no cerebrinho dele a gente vê ele dançando tango com um macaco. Ao contrário da Monca que busca a informação, eu vivo aqui, nessa bolha suspensa, morreu, não sei, casou, ah?, ministro qual?, que terremoto?, foi? Leio os mesmo livros, ouço Chico-Bach-Paulinho da Viola-Premê-Vanzolini, vejo o mesmo Henrique V e só sei quando descobrem um dinossauro novo ou um templo novo no egito (cês viram aquele em alexandria que prova que os faraós da dinastia dos ptolomaicos seviam aos antigos deuses? do carááááleo), pq meu irmãozinho – que sabe bem o monte de estrume que eu sou – faz os mais divertidos clippings do universo, e me abastece. “Bi, o vaticano comprou outro telescópio, aqueles cornos”. E o pior, eu nem quero debater. Nas minha raras mesas de bar, começou aquele assuntinho “a visão do diretor”, “a viagem do lula pra cuba”, “a sociedade a nível de universo”, eu pego meu copo e vou pro balcão. Quer dizer, velha, chata, inútil e alienada, ainda por cima. E, pra piorar tudo, ainda roubo e-mails de vcs pro livro novo. É uma calhordice sem fim, minha mãe tem razão.
Fal

Contos de Fadas (pras Fridas)

Eu pedi com jeitinho e a Mani, que é uma moça obediente, atendeu rapidinho. Vejam como é que a Cinderela ajuda as crianças a lidarem com a dura realidade da vida…

Era uma vez uma menina que foi abandonada pelo pai, pela mãe e só tinha uma madrasta malvada que dava tudo pras irmãs dela e só fazia ela de escrava, obrigando ela a fazer o dever de casa, tomar banho, pentear o cabelo, desligar a televisão e até ir dormir SOZINHA! O que essa pobre menininha podia fazer? Bater na madrasta? Ela tão fraca e pequenininha? Chamar a polícia? Mas a polícia está do lado das madrastas! Fugir de casa? Mas na floresta tem Lobo Mau! (tá, essa saiu de outra história, mas a gente acumula experiências, né?) Bem, a Pobre Menininha (dá-lhe Luluzinha!) fez o que todas as crianças saudáveis fazem: leu a história de Cinderela, viu que tem pobres criancinhas que sofrem mais, viu que sempre dá pra lavar só embaixo do suvaco, ficar mais quinze minutinhos com o volume baixinho, responder sim e não em vez de dar aquelas explicações enooooormes que a professora quer e pedir pra ouvir história na cama. E que pode ser que seja até o papai, o príncipe encantado das menininhas que conte a história antes de dormir e dê um beijo de felizes para sempre. Porque ser proativa também é descobrir como fazer coisas chatas que a gente não pode evitar. Certo, dona Munique?

Mani

O que será que foi aquilo?

por Christian Morais

Alguém aí saberia definir o que foi isto que ocorreu ontem à noite no Maracanã?
Desavisadamente, liguei a televisão e, a princípio, me pareceu um jogo de futebol. Aos poucos, deu para perceber que não era. Futebol é um jogo onde ocorrem passes, dribles, lançamentos, tabelas, cruzamentos, cobranças de faltas e de escanteios e defesas de goleiros. Não consegui identificar nada disso em campo, embora houvesse uma porção de gente uniformizada correndo para lá e para cá e uma bola no meio deles. A princípio, também pareceu que era um jogo entre Flamengo e Fluminense, o que antigamente se definia como um clássico, o maior do futebol brasileiro. Evidentemente que não era, apesar de os dois bandos vestirem as camisas dos clubes. Flamengo e Fluminense eram grandes times de futebol não só do Rio de Janeiro, mas do Brasil. E, sendo times de futebol, sabiam fazer aquilo que os (bons) times de futebol fazem: acertar passes, dar dribles, lançamentos, etc. Nenhum destes dois bandos conseguia fazer isto direito.
Também havia uns sujeitos de uniforme amarelo, um com um apito, correndo para lá e para cá, e outros dois com bandeiras nas mãos. Se fosse um jogo de futebol, chamaríamos isto de trio de arbitragem. Mas, percebendo bem, dava para ver que não eram. Isto porque, obviamente, árbitros conhecem futebol, sabem as regras e aplicam-nas. Aqueles senhores de amarelo pareciam não saber de nada.
Na verdade o que vi foi o  bando de preto e vermelho muito agitado, ansioso, com alguns garotos correndo para todo lado e não passando a bola para ninguém. Não conseguiam chegar ao campo do outro bando, de verde e grená, nem chutar ao gol do adversário. No esforço de jogar um arremedo de futebol, na hora de tomar a bola do bando verde e grená, os de vermelho e preto se atrapalhavam todos. Boa parte deles parecia muito nova, e aparentava nunca ter jogado junto antes. Apesar disso, o bando de grená e verde, que não era tão jovem nem deveria ser tão despreparado quanto o de preto e vermelho, não conseguia fazer nada muito diferente do outro bando. Todo mundo esbarrava com todo mundo em campo. Parecia que o gramado estava muito apertado e não havia espaço suficiente para todos.
Como estava tudo muito chato, lá pelas tantas o senhor de amarelo soprou seu apito e inventou um negócio que, se fosse futebol o que estivessem jogando, seria um pênalti. Mas, engraçado, o rapaz do bando verde e grená que “cavou” o que seria um pênalti em futebol se futebol de verdade estivesse sendo jogado, no lance anterior segurou, empurrou e puxou um outro rapaz do bando de preto e vermelho que estava ao seu lado, fazendo o que em futebol, se futebol fosse, seria chamado de “marcação”. O senhor de amarelo fez que não viu e não usou seu apito. Se fosse um jogo de futebol – e não era –, haveria uma pessoa chamada árbitro que marcaria uma coisa chamada “falta”, que é quando o adversário usa um recurso ilegal para obter vantagem no jogo. Mas como não era jogo de futebol, não havia juiz de futebol em campo. Até porque se houvesse juiz de futebol, logo no começo do jogo um jogador do bando grená e verde empurrou um outro, do bando preto e vermelho, dentro da área. Se fosse futebol, isto sim, seria pênalti, que seria marcado, é claro, se houvesse um juiz de futebol em campo.
Mas um rapaz careca do bando grená e verde chutou a bola no “pênalti” e ela entrou naquele lugar que, se fosse um jogo de futebol, chamaríamos de gol. Aí, no que seria o placar, apareceu o número 1 do lado do nome do bando de grená e ficou o zero do lado do vermelho e preto. Quando voltaram para o que seria o segundo tempo num jogo de futebol, o bando de grená, obedecendo ordens de alguém que poderia ser confundido com um técnico de futebol, ficou esperando o tempo passar, apesar de o bando de vermelho e preto ser composto, como já disse, de um monte de garotos atrapalhados, embora esforçados. Um destes esforçados num certo momento pegou a bola, saiu correndo, passou por três adversários, e chutou totalmente errado. A bola ia para fora, mas aí bateu sem querer num rapaz do bando de grená, e depois num outro do bando vermelho e preto, passou por cima do que seria um goleiro, se fosse no futebol, e entrou no que seria o gol, se fosse um jogo de futebol. Aí ficou o que se chama em futebol de jogo empatado. Como não era um jogo de futebol, os jogadores do bando verde e grená começaram a ficar muito entediados com aquilo tudo e, seguindo a orientação do pseudotécnico começaram a deitar no chão a cada vez que seriam substituídos. Todos, pelo jeito, estavam muito cansados, porque futebol cansa muito, mas este jogo que eles inventaram e que parece futebol, mas não é, cansa muito mais. Especialmente a quem está assistindo.
A cada vez que um deles deitava (e foram uns três deitões), entrava um carrinho para remover. O senhor de amarelo ficou um pouco chateado com isto e decidiu que o jogo não ia acabar tão cedo, e  inventou que agora seriam seis minutos a mais de tempo, só de pirraça. O bando de preto e vermelho continuou se estrumbicando em campo, enquanto o de grená e verde corria para todos os lados e chutava para onde apontava o nariz, tão desesperado estava – apesar de o bando de vermelho e preto ter perdido dois jogadores, expulsos pelo senhor de amarelo.
No final, nem o bando de grená e verde nem o bando de vermelho e preto ganhou nada. O bando grená e verde achou o resultado bom, apesar de não vencer o outro há quase dois anos e de estar arriscado a retornar para um lugar ruim, humilhante até, que em futebol se chama segunda divisão. O bando de preto e vermelho também já esteve ameaçado de ir para este lugar várias vezes. Quando acabou o jogo, alguns jogadores do vermelho e preto reclamaram do senhor de amarelo com o apito, e classificaram sua atuação como de muita luta e de muita correria. Eu concordei com eles. Houve, de fato, luta e correria naquele estranho e desconhecido jogo que passou na televisão. Mas o que eu queria mesmo era assistir futebol. Um grande jogo de futebol. Tipo um Fla X Flu, sabe?

Inaugurando a categoria Be my guest, o texto mordaz e afiado do Chris, freguês de caderninho aqui do Dufas, excelente jornalista, grande amigo.

Helê

Como enfiar sua vida no nariz

Chegou na minha inbox. A autora não será identificada, porque combinado é combinado, e nunca é caro nem barato.

Esta não é uma história de ficção. É vida real. Sejam gentis nos comentários, do outro lado da tela também bate um coração.
Para esta amiga de carne e osso eu tiro o meu chapéu, sempre.

Como enfiar sua vida no nariz (pra ser educada)
Deixe todos os seus amigos de lado.
Não vá ao baile de formatura de sua melhor amiga e dê tchau a uma amizade que vinha desde o pré.
Deixe que ele decida a roupa que você vai usar, pra onde você pode olhar e até o ar que você vai respirar.
Não faça o curso que você gostaria de fazer porque ele não pode te controlar de tão longe.
Na Faculdade, se isole, não cumprimente nenhum homem, muito menos converse e nunca vá a qualquer comemoração, mesmo que acompanhada dele.
No trabalho idem, e não se atreva a pegar carona.
Responda o interrogatório no final da noite: falou oi pra algum homem? Por quê? Conversou? Por quê?
Chore toda vez que ouvir um grito, um xingamento ou quando algum objeto é jogado longe.
Se case, mesmo assim.
Aos sábados, enquanto ele joga bola, limpe a casa, lave a roupa e quando ele voltar, esteja de banho tomado, linda, disposta e ainda coloque meias e faixas de molho, e arrume o restante da bolsa de futebol.
Seja babá/empregada o tempo todo, nunca tenha tempo pra você, seja pra descansar, pra malhar, pra ficar com a sua família.
Invente desculpas para protegê-lo.

Monix, fã das mulheres de verdade

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