Avesso

Não, a cota infortúnios de 2016 ainda não tinha esgotado.

Meu primeiro contato com o acontecido foi na rua. Sabia que era grave porque vi  um estranho comentando com outro algo como “Viu que horror?” O tipo de reação provocada por tragédias. Provando que sou do século passado, fiz o quê? Liguei o rádio; ele sem demora falou sobre um acidente de avião: muitos mortos, o time da Chapecoense, alguns jornalistas.

Lamentei mas não me comovi, confesso.  Era terrível, claro, mas não me conectei de imediato. Há tragédias de todos os tamanhos acontecendo todos os dias, e o que as diferencia é precisamente o nosso grau de envolvimento. E naquele momento eu tinha pouco ou nenhum.

O futebol sempre me interessou mais pela mística, pelo ritual, as relações, metáforas e toda a complexidade de seu universo que pelo jogo propriamente. Nunca fui das que acompanham com regularidade, sabem de cor a escalação e discutem esquemas; de uns tempos pra cá, me afastei mais, sobretudo depois do inominável 7×1. Interessa-me apenas o Flamengo, e mesmo com ele sou desatenta e relapsa (como podemos ser com os amores definitivos).

Mesmo evitando os noticiários, que tendem ao senasacionalismo nessas ocasiões, fui obtendo informações aqui e ali. E foi exatamente pelo viés do futebol que fui me aproximando e me comovendo. Primeiro com o texto do Victor Belart, curto e certeiro, bem-escrito e emocionante, falando do futebol como essa liga entre pessoas, como uma chave de leitura do mundo. Depois começaram as manifestções de apoio mundo afora, de times, jogadores, dos mais célebre aos mais humildes. E então assisti ao vídeo com a torcida do Atlético Nacional cantando uma música feita por eles para a Chape. Um videozinho filmado com celular, som ruim, custei um pouco a entender o que eles cantavam e o que faziam. A compreensão se liquefez em lágrimas imediatamente: eles davam o título ao adversário abatido e prometiam nunca esquecê-lo. Aquele time do meu país que eu mal conhecia.

Depois, foi como se esse gesto se multiplicasse por mil, por muitos mil, naquela impressionante cerimônia  em que a solidariedade colombiana não coube no estádio – e se espalhou pelas ruas ao redor. Eu, sozinha em casa, diante da TV, me senti hipnotizada com aquela demonstração de afeto de uma população latino-americana por  nós, brasileiros. Justo nós, que esquecemos e quase desprezamos nossa condição de latinos. Fiquei mesmerizada com a força do futebol, esse universo/cultura/dimensão/chame como quiser, mas esporte parece pouco e pobre; é evidentemente bem  mais que isso.

Assisti a praticamente toda a cerimônia esperando, quase contando com o momento do constrangimento. Certa de que viria em uma fala exagerada, um puxa-saquismo fora de lugar, uma inadequação qualquer própria das solenidades.  Mas não houve; nem mesmo as autoridades, sempre propensas a estragar momentos de emoção e congraçamento, nem eles interromperam meu enlevo; alguns até colaboraram. Tudo soou genuíno, sincero, humano de um jeito que esquecemos que podemos ser.

Acompanhei tudo com um olho na missa e outro no gato – o gato, no caso, eram o twitter e o face. Para ter companhia (ou fazer de conta que tinha), para partilhar impressões, para observar como as minhas bolhas estavam reagindo. No começo o tuiter estava todo em Medellín enquanto  o Face olhava para Brasília, comentado as tenebrosas transações daquela noite; mas aos poucos a potência daquele momento alcançou também o FB.

A maioria estava tão impressionada quanto eu. Mas apareceram os que questionavam a nossa capacidade de solidariedade diante dos colombianos – se fosse aqui, faríamos algo assim? Ah, a nossa viralatice não conhece limites, até nisso a gente precisa provar que é pior! Isso e a nossa  tendência quintasseriana de competir com o coleguinha, medir  o imensurável – sua solidariedade é maior que a minha, você tem, eu não tenho, lálálálá. Faríamos o mesmo, não faríamos, que me importa isso no momento em que 100 mil pessoas nos oferecem um abraço coletivo ?

Eu senti necessidade de escrever aqui sobre isso, sobre o impacto desses vizinhos que falam outra língua, para os quais a gente não presta muita atenção, e que saíram de casa para ir a um estádio jogar flores no gramado onde haveria uma partida de futebol. Não acho que a humanidade está salva por isso – do mesmo modo que não acho que está condenada pela ganância  que, afinal, derrubou o avião. Ela é precisamente a soma de todas essas emoções e atitudes misturadas, indivisíveis às vezes. Mas quero lembrar daquela noite e daquele estádio; é o que quero reter: o avesso da dor, que dela nasce e a engole.

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#ForçaChape #GraciasColômbia

Helê

Tijucamérica

Lembro de quando conheci o livro, ou quando tomei conhecimento de sua existência. Foi numa noite memorável, em que saí à procura de alento e encontrei cerveja e celebração. Era o segundo turno da eleição presidencial do ano passado, e durante todo o dia o fogo cruzado de informações contraditórias, alarmistas e preocupantes deixou o meu sistema muito nervoso. Aí a Lôra disse que tava no bar com uma turma bacana e lá fui eu. Ângela foi me apresentando aos outros ansiosos eleitores da Dilma enquanto acompanhávamos a apuração. Depois de algum sofrimento, comemoramos como se fosse um campeonato – embora desde então a minha alegria fosse menos com a “nossa” vitória e mais pela derrota do outro. A turma foi crescendo até que alguém sugeriu: “Vamos pro Chico!”, e segui como se soubesse onde era. Já não importava o destino, eu havia sido incorporada ao grupo e era boa a companhia. Além 544913_826520687368508_4574069953765195040_nda Lôra e do Cláudio, gente interessante como o professor Luiz Antônio Simas e o jornalista José Trajano. Como defini mais tarde, estava entre a fina flor da esquerda tijucana, todos espontanea e momentaneamente irmanados — ainda que fosse possível perceber variados tons de vermelho entre nós. No rubro mais extremo, o do América, estava  o Trajano, que entre uma gelada e outra comentou sobre o livro que estava para lançar. Era uma história meio doida e divertida sobre craques revividos, que misturava inadivertidamente realidade e ficção.  


“Tijucamérica” foi lançado  em agosto no mesmo Bar do Chico. A Lôra me esperava com o meu exemplar, e consegui um autógrafo do autor, embebido em carinho e cerveja. Gentilíssimo, Trajano disse lembrar de mim e da noite da eleição; achei improvável, mas retribui a deferência escolhendo acreditar. Quando iniciei a leitura, uns dias depois,  não demorou para que eu fosse fisgada por esse  verdadeiro vaudeville carioca, ou seja lá qual for o  gênero em que caiba o enredo anárquico do Trajano. No livro, ele convoca uma seleção de religiosos pra lá de ecumênica e traz de volta grandes craques do seu Ameriquinha. Pretende reverter a decadência do clube e vê-lo campeão, levantando o moral da Tijuca lato sensu, aquela que começa nas imediações do Estácio e mistura fronteiras com a Muda, o Alto da Boa Vista, Grajaú e Vila Isabel, sem demarcações rígidas. Como um bom drible,  o livro finge que é sobre algo mas não é exatamente sobre aquilo  – ou é, mas não apenas. Parece que vai ser sobre o América mas vai além, contando saborosas histórias do futebol carioca e brasileiro. Esmiuça a história da Tijuca como eu nunca li antes, mas ultrapassa seus limites: também88128_gg  é sobre o Rio de Janeiro, sua gente, seus ídolos e ícones. Entretanto, em “Tijucamérica” os contornos da cidade não são delineados pela orla, mas pelo relevo dessa terra entre morros, banhada pelo rio Maracanã e coroada pelo estádio de mesmo nome. Há inúmeras estatísticas futebolísticas, escalações e placares, mas o futebol serve mesmo como lente através da qual Trajano olha para o Rio, o Brasil e também para a própria vida (desconfio que, no fundo no fundo, trata-se de um bem disfarçado livro de memórias). Essa ode irreverente à  Tijuca e ao subúrbio me divertiu, instruiu e comoveu – mais ou menos como aquele encontro com uma turma de sonhadores renitentes numa certa noite de outubro de 2014. O fecho de um  ciclo completo, redondo como deve descer uma cerveja gelada, encantador como uma tabela bem feita. Intensificou o sentimento pela minha aldeia, seus personagens e amigos como a Ângela: Tijucamor.

Helê

Copa(cabana) do Mundo

No dia da abertura da Copa do Mundo, indo para a casa de um amigo assistir o jogo do Brasil, torci o pé, rompi o ligamento do tornozelo (o diagnóstico é de lesão “grau 2”), e o resultado foi uma imobilização cuja consequência é uma licença médica que já entra na segunda semana. Repouso forçado é isso aí.
Sendo assim, em plena Copa das Copas estou eu trabalhando em home office e instalada na casa do namorado há quase dez dias. O filhote está de férias e botou pé na estrada (primeiro a colônia de férias, depois BH com o pai pra ver Copa do Mundo), e para não ficar sozinha em casa me aboletei por aqui.
Está sendo uma experiência interessante (para além das questões pessoais de morar junto, ainda que por tempo determinado e em circunstâncias especiais, com o moço que namoro há quase oito anos), essa de ficar confinada num momento em que todo mundo – e, digamos, todo O mundo – está nas ruas.
Mas o apartamento do namorado é em Copacabana – e Copacabana não engana.
Copacabana é a sede da Copa do Mundo. Eu que tenho visto o mundo pela janela (do apartamento ou do táxi, a caminho da fisioterapia), estou completamente absorvida pelos jovens moços que invadiram o bairro, a cidade, o país.
Aqui é uma rua pequena, ladeira de paralelepípedos, estreita, mas tem dois hostels. Já tivemos a onda dos argentinos, dos chilenos, teve um bando que falava uma língua estranha (teve jogo da Holanda aqui no Rio?), ontem foi uma turma de belgas e desde ontem à noite, incluindo esta manhã barulhenta, os chilenos voltaram. Ô povo animado!
A Fifa Fan Fest é aqui perto e eles chegam de noite alegríssimos, cantando e comemorando. E durante o dia são os grupos saindo para assistir o jogo. Às vezes ficam na calçada conversando e tomando cerveja. Uma festa bacana de ver.
Sempre compro briga com meus conterrâneos quando digo que os cariocas não são hospitaleiros – e as pessoas, de fato, não são; mas a cidade, com certeza, é.
E uma coisa que digo há anos é isso, que não sei explicar como, onde, nem por quê, mas o Rio realmente funciona bem em grandes eventos. No dia a dia é bem difícil morar aqui, mas se a proposta for produzir um show pra um milhão de pessoas na praia ou um carnaval na Rio Branco tudo sai às mil maravilhas. 🙂
Agora começou um corinho de “salve a seleção” aqui na rua. Acho que os brazucas moradores resolveram revidar.
Estar em Copa(cabana), mesmo que confinada no terceiro andar, numa rua sem movimento, nunca poderia ser sinônimo de perder o babado. Aqui, se a pessoa não vai até o babado, o babado vem até a pessoa.
Quer dizer, teve Copa, mesmo não tendo. Ou vice-versa.
-Monix-

#vaiterjogo?

Entre o estridente ôba-ôba  da rede globo, fifa e anunciantes e o engajado grito do #nãovaitercopa de Mídia Ninja, Rafuko e indígenas de boa mira, há algo que pelo que anseio: futebol. Ando saudosa de assistir bons jogos (além de envergonhada com a bolinha que meu time vem jogando). Espero que o juiz apite logo o início do jogo para que a gente se concentre no que realmente interessa – ou deveria interessar mais  – em uma Copa do Mundo: o bom e velho futebol,  bem jogado, emocionante, surpreendente, despido de todo tipo de mercadoria e discurso.

Impossível, né? A menos que os jogadores entrassem em campo literalmente despidos. E as laterais não tivessem placas de publicidade, e a tevê não enchesse de efeitos a tela em que as seleções deveriam figurar como elemento principal. Mas que, pelo menos entre um comercial e outro, haja bola rolando.

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Helê

Paixão nacional

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(Do Pinterest da Elis Marchioni – de onde eu já vi que vou gostar de muita coisa….)

Uma imagem encantadora pela qual me apaixonei à primeira vista, mesmo. Uma imagem, uma montão de palavras e outros tantos significados. Arrisque o seu 🙂 .

Helê

Salve São Judas Tadeu

Padroeiro das causas impossívei e, não por acaso, do meu Mengão!

Helê

Retificando

… a última linha do post anterior: ainda bem que eu sou Flamengo!

Eu fui. Com minha família rubro-negra. Não tem preço.

Helê

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