Cuidado, spoilers

Nos últimos oito anos – mais ou menos, porque teve gente que chegou antes, gente que chegou depois – nós acompanhamos juntas a saga dos sete reinos de Westeros em busca de uma certa harmonia (a paz nunca existe, mas vale cada minuto da busca). Então, nosotras não poderíamos deixar de registar aqui algumas impressões sobre o final desse épico, nem que seja para lembrarmos, um dia, de como estávamos nos sentindo dois dias depois do fim da série que conseguiu, quando ninguém mais apostava nisso (exceto em eventos esportivos e coberturas jornalísticas) reunir o mundo inteiro na frente de uma tela, ao mesmo tempo.

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A Monix não liga para spoilers, a Helê fica brava quando leva um. Então, no espírito da conciliação, fizemos este post com um grande nariz-de-cera, assim quem quiser lê, quem não quiser vai fazer outra coisa e volta depois de assistir tudo.

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Antes de mais nada, a gente precisa dizer que de modo geral gostamos do final. Então se você está buscando um lugar para resmungar coletivamente, sorry, não é aqui 😉

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Acho que já enrolamos bem, né? Então vamos ao que interessa.

Impressões mui loquazes da Monix:

  • Começando pelo episódio anterior, eu tinha ficado meio chatiada com o final do Jaime Lannister, mas olhando em retrospecto, fez sentido. Eu achava que a história do Jaime era uma jornada em busca da honra, e que a tinham “estragado” mandando-o de volta para a Cersei. Se pelo menos ele tivesse ido matá-la, mas nem isso. Mas depois fiquei pensando que esse final foi bem roots. As Crônicas de Gelo e Fogo do George R. R. Martin não são sobre arcos de personagens, são sobre o fato de a vida não fazer sentido. As vidas acabam como e quando têm que acabar. E aí simplesmente o Jaime tentou superar a Cersei, mas não deu. Na hora que ele percebe que ela vai morrer – porque é claro que aquele exército vai ganhar -, e que nunca vai se render… ele precisa voltar. Achei bonito o jeito com a Brienne contou a história dele no Livro Branco da Guarda Real. (Só não gostei porque ficou registrado que o Tyrion mandou matar o Joffrey. Queria que ela passasse um Liquid Paper em cima. Mas pensando bem, a Brienne não sabe que a mandante do crime foi a Olenna Tyrell. Todos os que sabem estão mortos.)
  • Falando mais em geral, tem um monte de furos nos roteiros dessa temporada. Várias coisas estão ali só para a história poder seguir, mas não fazem sentido. Por exemplo, ontem vi em uma live da Omelete um comentário sobre o Sam: ele estava em Winterfell, a Gilly grávida, tinha abandonado a Patrulha da Noite, tinha abandonado a Cidadela. Daí de repente o cara me aparece na reunião dos “grandes lordes” de Westeros. Fazendo o quê lá? Representando a Casa Tarly? Tá, que seja. Aí meia dúzia de cenas depois ele vira arquimeistre! Mas e a Gilly? E os bebê tudo? Meistre pode ter filho? Fora que ele nem terminou o curso. Ficou parecendo o ministério de um certo presidente que nomeia gente que não tem experiência nenhuma só porque é amigo do amigo.
  • Sobre o novo rei, tenho que admitir que foi surpreendente (embora eu já tivesse lido teorias a respeito, achava um chute totalmente fora de cogitação). Minha primeira sensação não foi boa. Ele passou a temporada inteira dizendo que não era mais o Bran Stark. “I’m not him”, eu acho, era a frase. Aí de repente ele é indicado para o trono como Bran Stark e responde: por que você acha que eu vim até aqui? Estranho. Mas tá bem, entendi que a ideia era ter um rei neutro e deixar o conselho governar. No fim das contas, me incomodou menos do que eu pensei quando li as teorias de fãs. Talvez porque no fim das contas Bran, the Broken é um nome ótimo para o rei que vai reconstruir o reino. Gostei também do Podrick ser o empurrador do trono. Mas na prática ele não vai governar. Aquele conselho é que vai cuidar das paradas e ele vai ficar wargando por aí. Foi bacana também o rei passar a ser escolhido por um conselho, e não mais por direito hereditário. Já inventaram as eleições indiretas em Westeros. 😉
  • Sobre o final trágico de Jon e Danaerys, estava na cara que ele ia ter que matá-la. Sendo assim, gostei que ela não ficou louca, apenas intensificou características de personalidade que sempre teve. Aquela estética nazi do início do episódio eu amei. Aliás, toda a parte visual foi incrível.
    Tirando o fato de não ter sentido nenhum ela estar sozinha na sala do trono, achei bacana o Jon dando um oi pro Drogon e entrando pra levar um papo com a mamãe. Mas no geral, o Jon foi totalmente filho do Ned Stark (adotivo, eu sei) nesse final. Relutando em enxergar o que tem que ser feito, escravo da honra e zero pragmatismo político. Mas quando finalmente ele vê que a Danaerys é aquilo mesmo, que Targaryens são fogo e sangue, ele entende que quem dá a sentença tem que segurar a espada.
    Tenho que dizer que amei o Drogon queimando o trono. Tá, é um dragão filósofo, com raciocínio simbólico, mas é daí? Foi uma simbologia poderosa. E a única cena que vibrei.
  • (Eu gostei que nessa temporada final eles voltaram a dar importância para as tramas políticas. Aquela guerrinha contra os zumbis estava enchendo o saco.)
  • Quanto ao final do Jon, eu interpretei de uma forma positiva. Acho que talvez seja o único que teve um destino realmente grandioso (e feliz, na medida do possível).
    Eu não acho que ele foi para o exílio. Acho que ele foi ser o rei-pra-lá-da-muralha. O novo Mance Rayder. O Jon nunca ia ser feliz no trono, nem no Sul, nem em Porto Real. Ele é um filho do Norte. E acho que o momento que ele viveu algo mais próximo da felicidade foi quando estava com os selvagens.
    Achei genial terminar o episódio com ele atravessando a muralha e ignorando a ordem de ir para a Patrulha. Que mané patrulha? Não tem mais inimigos do lado de lá. Vai ficar fazendo nada o resto da vida? Melhor não. Foi embora com o povo livre e deu uma banana para os sete reinos.
  • Adorei o final das irmãs Stark. Sansa fez por merecer. Vai entrar para a história com a primeira rainha do Norte, aquela que conquistou a independência de novo para os nortenhos. Não se ajoelhou e se livrou dos dragões com a arma mais feminina possível (#estereotipodegenero): a fofoca. E a Arya, minha queridinha, meu xodó desde o primeiro livro, virou Américo Vespúcio e vai provar que o planeta é redondo. Uma alma de viking.
  • Senti falta de explicações melhores sobre o que aconteceu com os castelos. Por exemplo: o Tyrion agora é o Lorde de Rochedo Casterly? O Rob Arryn é o Lorde do Ninho da Águia, senhor dos lordes do Vale? Por que o sor Royce estava ao lado dele? Como conselheiro ou como vassalo? E o Sam é meistre ou é Lorde Tarly, afinal? O Edmure voltou para Corerrio? Ainda existe a Casa Frey? Talvez essas questões na série não tenham tanta importância, acho que é mais uma coisa dos livros.

Impressões breves da Helê:

  • O que mais me chamou atenção foi a redenção da História — e da literatura, por extensão. As Humanas foram redimidas! No discurso do Tyrion (“nada mais poderoso que a História, nada nos liga mais que a História”), na escolha do Bran, na cena da Brienne alterando a Wikepedia deles, opa, o registro da história do Jaime. Senti a alma lavada nesse aspecto.
  • Gostei que o episódio deslegitimou a teoria da loucura da Dany.
  • Também vi furos, mas overall, achei tudo muito coerente. A dor é mesmo pelo fim. A internet ama odiar. E procurar copo de Starbucks.

As Duas Fridas

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Rabugices & implicâncias

Pode ser que a idade esteja me deixando mais ranzinza ou apenas removendo meus filtros (estágio da vida também conhecido com Síndrome de Dercy Gonçalves, quando você acha que a idade é salvo conduto para sua personalidade. Perigoso ou divertido, depende da narrativa). Mas a verdade é que me sinto cada vez mais sem paciência para certas coisas, e reviro os olhos tão forte que me doem as órbitas. São várias pequenas coisas, entre as quais agora me lembro dessas:

 
– a expressão apreender menor, para falar da prisão de infratores crianças ou adolescentes. Não, apenas não. Você apreende cocaína, carro roubado, 15 quilos de ecstasy, você não apreende uma pessoa. (E quase se esquece do que se trata – pessoa – usando apenas um adjetivo que determina que ela é menos que… qualquer um, um menor). Inventaram isso de “apreender”  de uns tempos pra cá e deve ter alguma razão, mas nunca me apresentaram nenhuma e como eu gosto das palavras, defendo suas funções e significados. Se a prisão de um menor de idade é diferente da de um adulto, ele não pode ser detido, recluso, internado, até recolhido (que também não me agrada), no melhor dos mundos, acolhido? Apreendido é droga, arma e bicho – é disso mesmo que estamos falando?


– Profissão: criativo. Puta.que.pariu. Desculpaí, mas eu não consigo ler ou ouvir isso sem uma reação intensa, que varia entre um palavrão e uma gargalhada. Porque pra mim situa-se entre a arrogância e a completa falta de noção. “O que você faz?” “Sou criativo.” Eu tenho vontade de responder: “eu sou honesta. Eu queria mesmo ser bonita, mas a relação candidato/vaga…”. Imagina se os médicos resolverem agora  que se chamam salvadores. Então você nomeia a sua função com a qualidade mais apreciada na sua profissão? Isso me parece uma jogada publicitária…ruim, muito ruim.

– o que me leva a outra roll my eye balls muito forte: propagandas de entidades assistenciais. São todas dolorosamente deprimentes e eu tiro do canal todas as vezes que elas começam. As músicas são tristes, as imagens pavorosas, são sempre loooongas demais e quando o controle some e você não consegue tirar do canal, esses comerciais só conseguem me provocar pena e culpa por não estar querendo ver aquilo. Nunca vi um sequer que tenha me motivado a fazer uma doação, e todas essas instituições fazem trabalhos inquestionavelmente importantes: Médicos sem Fronteiras, Action Aid, Unicef, todas elas vão a lugares onde governos não chegam e realizam o trabalho que ninguém quer fazer. Mas a propaganda que fazem é péssima porque não estabelece empatia com o público, e causa incômodo. Até nós, consumidores, já descobrimos que a propaganda lida com emoções. Vender tênis e cerveja: ok; engajar pessoas em doações humanitárias está na coluna de desafios. Eu não sei como fazer , mas eu fiz jornalismo e não publicidade – cadê o criativo quando a gente precisa dele?

Helê

PS: Amanhã é aniversário da Monix, depois não vale dizer que não comprou presente porque não sabia….

Breviário Dufas

Somos, como se sabe,  duas senhoras. Juntas, somamos quase cem anos… de conexão. Tão senhoras que usamos a palavra breviário (!). Em quase 15 anos de blogagem,  cunhamos algumas máximas (e outras tantas mínimas). Aceitamos contribuições que nós porventura tenhamos esquecido:

  • Antes tarde do que mais tarde ainda.
  • calabocajámorreuquemmandanomeubloguesoueu.
  • Não me peça de graça a única coisa pela qual eu posso cobrar.
  • Escrever, essa arte de fazer pessoas e influenciar amigos. Ou vice versa.
  • Não se amplia a voz dos imbecis.
  • Servimos melhor para servir sempre. 
  • Coerência: não trabalhamos.

Las Dos Fridas

Cartas de amor aos livros

O fim do ano está chegando, e ao mesmo tempo em que refletimos sobre o que passou, começamos a nos programar para as festas e celebrações, que eu, particularmente, pretendo aproveitar como há muito tempo não aproveitava – afinal, não estamos todos precisando de luz, amor, paz e rabanadas?

Nesse clima meio-retrospectiva-meio-compras-de-Natal, quero aproveitar o espaço aqui do blogue para divulgar a carta aberta do Luiz Schwarcz, editor do grupo Companhia das Letras, a todos os amantes dos livros. (Os grifos são meus.)
-Monix-

Foto: Daniel Alvarez, via Unsplash

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O livro no Brasil vive seus dias mais difíceis. Nas últimas semanas, as duas principais cadeias de lojas do país entraram em recuperação judicial, deixando um passivo enorme de pagamentos em suspenso. Mesmo com medidas sérias de gestão, elas podem ter dificuldades consideráveis de solução a médio prazo. O efeito cascata dessa crise é ainda incalculável, mas já assustador. O que acontece por aqui vai na maré contrária do mundo. Ninguém mais precisa salvar os livros de seu apocalipse, como se pensava em passado recente. O livro é a única mídia que resistiu globalmente a um processo de disrupção grave. Mas no Brasil de hoje a história é outra. Muitas cidades brasileiras ficarão sem livrarias e as editoras terão dificuldades de escoar seus livros e de fazer frente a um significativo prejuízo acumulado.

As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcionários em todas as áreas. Com a recuperação judicial da Cultura e da Saraiva, dezenas de lojas foram fechadas, centenas de livreiros foram despedidos, e as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos— gerando um rombo que oferece riscos graves para o mercado editorial no Brasil.

Na Companhia das Letras sentimos tudo isto na pele, já que as maiores editoras são, naturalmente, as grandes credoras das livrarias, e, nesse sentido, foram muito prejudicadas financeiramente. Mas temos como superar a crise: os sócios dessas editoras têm capacidade financeira pessoal de investir em suas empresas, e muitos de nós não só queremos salvar nossos empreendimentos como somos também idealistas e, mais que tudo, guardamos profundo senso de proteção para com nossos autores e leitores.

Passei por um dos piores momentos da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive que demitir seis funcionários que faziam parte da Companhia há tempos e contribuíam com sua energia para o que construímos no nosso dia a dia. A editora que sempre foi capaz de entender as pessoas em sua diversidade, olhar para o melhor em cada um e apostar mais no sentimento de harmonia comum que na mensuração da produtividade individual, teve que medir de maneira diversa seus custos, ou simplesmente cortar despesas. Numa reunião para prestar esclarecimentos sobre aquele triste e inédito acontecimento, uma funcionária me perguntou se as demissões se limitariam àquelas seis. Com sinceridade e a voz embargada, disse que não tinha como garantir.

Sem querer julgar publicamente erros de terceiros, mas disposto a uma honesta autocrítica da categoria em geral, escrevo mais esta carta aberta para pedir que todos nós, editores, livreiros e autores, procuremos soluções criativas e idealistas neste momento. As redes de solidariedade que se formaram, de lado a lado, durante a campanha eleitoral talvez sejam um bom exemplo do que se pode fazer pelo livro hoje. Cartas, zaps, e-mails, posts nas mídias sociais e vídeos, feitos de coração aberto, nos quais a sinceridade prevaleça, buscando apoiar os parceiros do livro, com especial atenção a seus protagonistas mais frágeis, são mais que bem-vindos: são necessários. O que precisamos agora, entre outras coisas, é de cartas de amor aos livros.

Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise, cumprindo com seus compromissos, e também nas livrarias que estão em dificuldades, mas que precisam de nossa ajuda para se reerguer. Divulguem livros com especialíssima atenção ao editor pequeno que precisa da venda imediata para continuar existindo, pensem no editor humanista que defende a diversidade, não só entre raças, gêneros, credos e ideais, mas também a diversidade entre os livros de ambição comercial discreta e os de ambição de venda mais ampla. Todos os tipos de livro precisam sobreviver. Pensem em como será nossa vida sem os livros minoritários, não só no número de exemplares, mas nas causas que defendem, tão importantes quanto os de larga divulgação. Pensem nos editores que, com poucos recursos, continuam neste ramo que exige tanto de nós e que podem não estar conosco em breve. Cada editora e livraria que fechar suas portas fechará múltiplas outras em nossa vida intelectual e afetiva.

Presentear com livros hoje representa não só a valorização de um instrumento fundamental da sociedade para lutar por um mundo mais justo como a sobrevivência de um pequeno editor ou o emprego de um bom funcionário em uma editora de porte maior; representa uma grande ajuda à continuidade de muitas livrarias e um pequeno ato de amor a quem tanto nos deu, desde cedo: o livro.

Luiz Schwarcz

Desistir/insistir

Tenho dificuldade em deixar coisas pelo caminho, unfinished business me assombram. Essa característica, na maioria das vezes positiva, tem um lado desagradável, que é me manter presa ao que não me dá prazer. Oscilo entre a curiosidade sobre onde aquilo vai dar e a obrigação muitas vezes auto imposta de ir até o fim. Há situações em que pagar pra ver vale a pena; em outras o preço pode ser alto.

Foi o caso da última temporada de House of Cards, por exemplo, oito episódios de desperdício de dinheiro e bons atores. Na verdade, a série já tinha perdido a mão lá pela 3ª ou 4ª temporada, e o Kevin Spacey dificultou a vida dos roteiristas sendo um cretino em sua própria. Então essa 6ª temporada foi como certos relacionamentos: tinha tudo pra dar errado — e deu. Insisti porque tinha a sensação de que perderia algo se não fosse até o fim. Acabei perdendo: meu tempo. 

Minha amiga C. abalou minha conduta ao advogar exatamente contra a perda de tempo. Ela diz que larga um livro sem piedade quando ele não diz logo a que veio (eu tenho pressa e tanta coisa me interessa toca na Rádio Cabeça).  C. me disse isso justo quando eu estava lendo um livro que não estava agradando. Pensei em parar mas quando vi que estava na metade, decidi ir adiante. E que decisão acertada!

A história de Okonkwo, guerreiro de uma sociedade africana pré-colonial, patriarcal e religiosa era apenas interessante, não conseguia me envolver. Até a chegada do homem branco. De uma maneira sorrateira e rápida, tendo a religião como instrumento, acontece uma transformação profunda e definitiva naquela sociedade. Nunca um título foi tão adequado quanto esse “O mundo se despedaça”. E só no contraste produzido pelo choque entre as culturas percebi a riqueza dessa história que se passa na África antes de ser África — essa invenção de invasores –, e do ponto de vista de quem já estava lá. Nesse caso, ir até o fim foi necessário e recompensador, a narrativa só se revela plenamente ao final.

(Aí na semana passada, quando li a notícia sobre o suposto missionário que foi morto a flechadas ao tentar fazer contato com um povo que há séculos vive isolado, só pude sentir simpatia pelos nativos.)

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Diante desses episódios recentes, sigo librianamente indecisa sobre ir adiante com o que não parece promissor. Should I stay or should I go?

Helê 

O demônio do meio-dia

Já disse aqui algumas vezes: eu não resisto a um bom título. Menos ainda se vier acompanhado de uma boa capa. Por isso eu lembro bem da forte impressão que me causou o livro de Andrew Solomon assim que vi.  O nome,  estampado sobre a “Noite Estrelada”, de Van Gogh, me atraiu de imediato — e o subtítulo não diminuiu o interesse. Entrou logo na minha lista de desejos, mas só foi comprado numa promoção, em março deste ano. 

O “demônio” permaneceu na estante aguardando sua vez. Quando finalmente decidi abri-lo, seguiram-se semanas de leitura empolgada e pertubação alheia — no caso eu perturbando os outros, como faço sempre quando fico levemente obcecada por algo que considero inegavelmente interessante, original, revelador. O “demônio” se enquadra em todas essas categorias e outras mais.

Comecei a leitura no dia em que questionei os limites entre tristeza e depressão, mas não esperava resposta rápida de um livro de mais de 500 páginas. Para minha surpresa, encontrei uma boa definição logo de início:

“Talvez a depressão possa ser descrita como o sofrimento emocional que se impõe sobre nós contra a nossa vontade e depois se livra de suas circunstâncias exteriores.”

 Não é única nem definitiva, muitas outras definições se sucedem. Acontece que Solomon não perde tempo nem se prende a rigores acadêmicos: de cara ele identifica o objeto, desafia alguns pressupostos (como a demonização dos medicamentos) e faz  sugestões de tratamento.  No primeiro capítulo. Isso não faz do livro algo superficial, há outras muitas páginas para aprofundar esses tópicos e esquadrinhar teorias. Apenas deixa claro a intenção do autor de ser realmente útil para deprimidos e os que com eles convivem – ou seja, quase todo mundo.

Solomon mostra-se  um pesquisador dedicado e incansável, praticante da melhor tradição do jornalismo investigativo que persegue um assunto como quem procura não apenas prender um criminoso, mas desmantelar o cartel. Olha o tema sob vários ângulos possíveis, revirando-o muitas vezes, como quando tentamos solucionar o Cubo Mágico. Transita entre ciências diversas e não despreza pistas, por mais improváveis e exóticas que pareçam. Tem a invejável capacidade de reconhecer valor naquilo em que não acredita – como a fé religiosa, por exemplo -, qualidade rara porém imprescindível a um investigador honesto. Embora escreva na primeira pessoa muitas vezes durante toda a narrativa, esforça-se sinceramente para tentar compreender os contornos específicos da depressão para negros e negras, para populações pobres, em países não-ocidentais. A condição de homem branco bem-sucedido, fruto de uma família estável, Solomon utiliza para provar que a doença pode alcançar mesmo quem, à primeira vista, pode parecer imune a ela.  

Diz-se com frequência que a depressão é algo que acomete uma classe privilegiada numa sociedade desenvolvida; na verdade, é uma coisa que uma certa classe tem o luxo de comunicar e articular. (…) A depressão — sua urgência, seus sintomas e modos de sair dela — é determinada por forças muito fora de nossa bioquímica individual, por quem somos, onde nascemos, em que acreditamos e como vivemos.”

Acrescido a tudo isso, Solomon escreve muitíssimo bem – condição sem a qual sua obra ainda seria importante, porém chatíssima. Sua prosa evita termos técnicos desnecessários, possui fluidez e humor. Ele costura com maestria a pesquisa vasta e séria com sua própria trajetória como deprimido, nos aproximando dele e do tema, humanizando a  frieza dos dados e das estatísticas. Outros personagens e suas lutas são descritos com respeito e afeto, o que provoca uma leitura solidária, que desperta no leitor empatia — um sentimento tão escasso quanto necessário, seja qual for sua relação com a depressão. 

“O demônio do meio-dia” foi para mim, desde o início, tanto um tratado minucioso quanto uma narrativa intimista, que me fez sentir acolhida. Mergulhar numa “anatomia da depressão” pode ser uma tarefa incômoda, para dizer o mínimo: encontrei várias pessoas que desistiram do livro, outras que sequer começaram, apesar de interessadas; uma pessoa desencorajou a leitura enfaticamente. Encarar demônios nos deixa vulneráveis a seus efeitos, é verdade; mas também é a única maneira de nos fortalecer contra eles e, eventualmente, vencê-los. 

Helê

 

 

 

História de livro

M. é uma bibliófila – eu ia dizer como eu, mas não tenho esse direito, ela me supera em muito. O amor aos livros era uma das coisas que nos unia, assim como uma grande amiga em comum e um emprego. Bom, esse também nos separava porque tínhamos cargos hierarquicamente desiguais. Mas para efeito dessa história valem nossas afinidades, e compartilhávamos o prazer da leitura com entusiasmo: podíamos falar por bastante tempo sobre o que estávamos lendo ou o que pretendíamos ler – fila que, estranhamente, nunca diminui.

Então, quando ela me pediu “Sonhei que a neve fervia” emprestei com gosto, porque nada agrada mais um leitor do que proporcionar boa leitura para outro. Sou generosa mas ciumenta com meus livros (anoto numa listinha os empréstimos). Especialmente os de gente que eu amo, como esse. Mas nem anotei quando emprestei o “Sonhei” para M., ninguém poderia ter mais cuidado com um livro do que ela.

No trabalho, vez ou outra eu perguntava se ela estava gostando, mas muito rapidamente porque não queria pressioná-la – nada mais arriscado do que jogar sua expectativa sobre os outros. Passou pela minha cabeça que M. estava demorando um pouco, já que costumava ser bem rápida, mas não me preocupei. Até que um dia ela trouxe de volta o livro, mas com o constrangimento de quem o tinha perdido. E começou a contar a história de como, de fato, o perdeu e depois recuperou.

Ela contava a história aflita, chegou a ficar vermelha algumas vezes. Sua angústia se devia ao fato de considerar que não se tratava apenas de um livro: além da dedicatória para mim e para minha filha, havia sublinhados, exclamações, comentários que nunca seriam recuperados; isso a atormentou por dias. (E devo dizer que foi exatamente a Fal que me libertou de certa reverência com o livro: com o aval dela passei a me sentir mais à vontade para imprimir minhas marcas, especialmente nos dela.) O que afligia M. era o mesmo que me consolava: a importância que dava àquele exemplar. Só alguém que realmente ama os livros e sabe do valor que eles têm sente tamanho pesar por deixar escapar um objeto que, afinal, poderia ser reposto. Isso a livrava de qualquer culpa, se houvesse alguma. Mas não havia: o meu livro, devidamente rabiscado, estava nas minhas mãos. Como?

Inconsolável com a perda, M. providenciou um novo e contatou a Fal, através da nossa amiga em comum (que vem a ser minha sócia nesse blogue), para que ele ao menos pudesse ter também uma dedicatória. Com o que a Fal concordou prontamente. Então, num inesperado plot twist (como devem ser todos), alguém entrou em contato com a Fal, via e-mail, avisando que tinha encontrado um livro dela, num banco 24 horas no Rio de Janeiro (onde M. havia voltado e procurado em vão). Lendo a orelha do livro descobriu o blogue da Fal e entrou em contato porque, como estava autografado, ela poderia conhecer a dona. Também imaginou que deveria ser importante, e então mais uma pessoa entrou nessa ciranda e trouxe de volta para mim o “Sonhei”, que agora carrega entre suas páginas também essa história de mulheres, cuidado e livros.

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O “Sonhei” acomodado na minha estante, com seus irmãos e a companhia de Rosa, Isabel e Joel, entre outros.

Isso aconteceu já há alguns anos, mas só hoje, depois de assistir à “A sociedade literária e a torta de casca de batatas” (um bom filme baseado num livro incrível), me ocorreu contar aqui; o post veio quase completo assim que pensei em escrevê-lo. Acho que foi minha maneira de reverenciar os livros e seus poderes mágicos. E de pensar que às vezes a gente perde – livros, pessoas – mas as histórias e o afeto permanecem. O que te pertence volta pra você – ou nunca te abandona de fato.

Helê

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