Amyr

Depois de muitos anos e livros, tive a oportunidade de assistir a uma palestra de Amyr Klink, esse agora senhor, saído diretamente da minha galeria de heróis (felizmente nem todos morreram de overdose). Fascinante estar pela primeira vez diante de alguém que, como comprovou a fala dele, eu já conhecia. Sabia muitas das histórias, lembrei de trechos dos livros, perrengues de viagem, uma singular intimidade que só o livro proporciona. Encontrei exatamente o Amyr que eu tinha na memória, ainda que tenha sido a primeira vez que o vi. Talvez mais engraçado, seguramente mais envelhecido – muito embora tenha remoçado visivelmente após 2 minutos de palestra. Aliás, impressionante como seu semblante passa de circunspecto a vibrante assim que assume a função de orador, falando por mais de hora e meia com entusiasmo. E imediatamente volta à introspecção ao final, quando volta a personificar o marinheiro tímido, satisfeito com o carinho da plateia mas claramente deslocado em meio a cumprimentos efusivos.

Comandante do seu destino, capitão dos seus desejos, esse cara que me ensinou a importância do planejamento e da perseverança, disse uma frase maravilhosa e surpreendente: “Um plano serve para a gente saber o quanto se afastou dele”. Também disse logo no início do encontro, com uma honestidade quase infantil, que morre de medo do mar. Sempre há algo novo a aprender com os mestres.

Amyr me ensinou muito mais do que posso enumerar, de grandiosos sucessos a retumbantes fracassos, igualmente didáticos e importantes. Pela segunda vez na vida que pedi um autógrafo para alguém que realmente admiro, com o coração disparado e tropeçando nas palavras. Saí feliz como uma criança, emocionada, segurando junto ao peito o livro que me conduziu a histórias nunca antes navegadas, a partir do qual desbravei outros mares, com o qual atravessei oceanos de conhecimento e prazer.

Helê

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Leituras

Acabei de ler a autobiografia de Eric Clapton, minha mais recente leve obsessão. O título poderia ser “Brutally honest”, porque o deus da guitarra expõe seus demônios e sombras de um modo implacável, talvez mais até que suas conquistas. Sem aspirações literárias, Clapton dispensa floreios e vai direto ao ponto – he cuts to the chase, para usar outra expressão americana bem precisa. Relata com detalhes tanto sua iniciação musical, os primeiros shows, ídolos e grupos quanto seu confuso histórico familiar, sua conflituosa vida amorosa e sua dependência química quase fatal. Ele é tão franco que, ao concluir o livro minha admiração pelo músico aumentou, mas não sei se gosto da pessoa, embora a respeite imenso. Em que pesem os estragos causados pelo alcoolismo, que o debilitou durante grande parte da vida, Clapton me pareceu em muitos momentos egocêntrico, imaturo, arrogante. Mas perceba que eu formei essa imagem a partir do que ele descreve sobre si mesmo, o que só reforça a franqueza incomum de seu relato.

Eu nem posso ser considerada uma fã, mas gosto muito do pouco que conheço e tenho uma clara noção de seu papel ímpar na música ocidental dos últimos 40 anos. Uma trajetória extraordinária, de fato, e tão rica que não consigo imaginar como foi possível escolher entre o que incluir ou o que deixar de fora numa vida que parece ser tido várias encarnações em uma só. Isso sem contar as companhias, que Seu Clapton não era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones: ele andava com os Beatles e os Rolling Stones numa daquelas épocas em que parece que todas as pessoas realmente interessantes no mundo estavam no mesmo lugar – ou o mundo era menor, ou era mais interessante, não tenho certeza. O fato é que a trajetória de Eric Clapton é uma aula incrível sobre blues e rock n’ roll, mas irresistível para qualquer admirador da boa música, além de um depoimento corajoso de alguém que conheceu céus e infernos e sobreviveu pra contar.

***

“Dias de abandono” é um livro angustiante, tenso, que não te dá refresco nem consolo, te deixa em suspenso, torcendo e morrendo de medo de estar no lado fadado ao fracasso. Não há leveza, parece um mergulho do qual você não consegue voltar antes que seja absolutamente necessário, sem atalho nem truque. Tudo isso só prova o quanto é incrivelmente bem escrito, porque provoca uma gama de emoções vasta e funda, quer você queira ou não. Todo mundo que já viveu  dias de abandono – horas, semanas, meses – revisita essas dores e cantos escuros. Li com o coração na mão. Difícil, mas belíssimo e poderoso – um autêntico Ferrante.

Ah, e assim como na tetralogia napolitana, a capa brasileira é anos-luz superior às das edições italiana e americana.

Helê

Na minha pele 

Fiquei esperando pelo livro do Lázaro Ramos na fila, por assim dizer; ansiosa, procurei antes de chegar às livrarias e comprei na semana de lançamento. Gosto dele, acho um excelente ator, um entrevistador responsável, dedicado; gosto de sua postura serena, firme e ao mesmo tempo relaxada, de seu humor. Era o que esperava encontrar em “Na minha pele”, uma perspectiva ao mesmo tempo séria e leve  —  coisas que, em geral, não encontro nas leituras sobre raça, sempre necessárias mas em geral pesadas e dolorosas.  Evidentemente, também há dor na trajetória de Lázaro – nunca conheci um entre nós negros que dela tenha escapado. Mas na narrativa de Lazinho sobressaem a doçura, a ausência de ressentimento, a franqueza; há também leveza e humor. É um livro honesto, de alguém que pergunta junto com o leitor,  ri de si mesmo, e não traz verdades, pelo contrário: desconfia delas. O estilo não se destaca nem compromete, mas essa nunca foi sua preocupação, ele esclarece desde o início. Buscava expor o que, em sua trajetória, poderia ser útil para o leitor, e em ‘útil’ estão contidos outros adjetivos: solidário, inspirador, provocativo. Missão cumprida, Lázaro.

Para mim, o grande mérito de “Na minha pele” é essa abordagem do racismo de um ponto de vista pessoal, íntimo – que inevitavelmente acaba reverberando no coletivo. Porque a tônica da discussão sobre o tema recai sobre a discriminação no mercado de trabalho, a coerção policial e o preterimento na escola — para citar apenas alguns efeitos em massa das desigualdades raciais no Brasil. Mas pouco se fala – ou se falava, até algum tempo –, da sensação esmagadora que sente um adolescente rejeitado, que acha que ninguém nunca vai se interessar por ele – e, principalmente,  sobre como esse adolescente enfrenta a situação. Cobramos – e cobraremos sempre – ações do Estado e da sociedade, mas é no varejo do dia a dia que o racismo mostra suas garras e aprendemos a afiar as nossas – não sem cicatrizes.   E me interessa esse viés, as ações pessoais, as resistências diárias e os rastros que deixam; o que fazemos (ou deixamos de fazer) com as sequelas da luta, muitas vezes brutal e brutalizante que negras e negros enfrentam em função de sua aparência. O depoimento de Lázaro contribui também para esse olhar privado sobre o problema, além de expor, novamente com sinceridade e destemor, de que maneira ele se move na vida considerando o racismo mas sem se deixar pautar pelos racistas.

Das variadas reflexões do livro, uma frase que não sai da minha cabeça desde que li: “afeto é potência”. Ela ainda reverbera na minha cabeça e no meu coração, semanas depois de terminada a leitura; ainda não esgotei seus significados. É o que faz um bom livro: permanece em você mesmo depois de lido.

Helê

 

Helê

Ler para aprender

Lembrando da época em que os memes nasciam (e prosperavam) nos blogs (blog? whaaat?, pergunta um incauto que lê isso no Facebook), imaginamos uma lista de livros “Ler para”, livros de ficção que, além da qualidade literária, podem ser usados com um objetivo bem específico, como se didáticos fossem. A Helê teve essa ideia quando identificou claramente dois que serviriam a este papel – número suficiente para iniciar uma lista, principalmente com a colaboração das leitoras e leitores (can I get an amem here?). Se te ocorrer um livro que se enquadre na definição, indique nos comentários, sifazfavoire.

Livros da Helê

Para compreender a formação do Brasil: Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves

Tenho uma dívida enorme com esse livro e com a Ana porque nunca falei dele aqui no blog. Não que isso vá fazer alguma diferença para ele ou para ela, mas é que eu me sinto em falta, já que escrevi sobre outros que me causaram menos comoção. Demorei muito a ler, fiquei achando que perdi o timing do post. Mas quando tive a ideia desta lista, nenhum outro poderia encabeçá-la. Porque eu indico aos amigos dizendo que pode substituir sem perda Raízes do Brasil, Casa Grande e Senzala, e quetais (como se eu tivesse lido todos esses, abafa). Mas é disso que trata esse romance épico, narrativa cheia de sangue, suor e lágrimas sobre a fundação dessa bagaça do ponto de vista de uma mulher africana escravizada, tornada brasileira pela liberdade alcançada para voltar de onde não se retorna. Clássico incontestável, a história de Kehinde me antecede e me acompanha, e pela primeira vez na vida olhei para África com um sentimento de pertencimento. Tive a oportunidade de dizer isso à Ana, numa cachaçaria na Lapa, muitos anos atrás, onde ela me ensinou a comer pimenta biquinho. Ou seja, uma mulher que vi duas vezes na vida e que só me trouxe ensinamentos valiosos.

Para entender a (não) elite carioca: Leite Derramado, Chico Buarque
Também li muito depois de todo mundo, e foi até aqui o livro dele que mais gostei. Na verdade já tinha simpatia e curiosidade pelo livro por causa da canção que o originou, “O velho Francisco”, dolorosa e delicada. Mas aquilo que parece uma biografia desafortunada na letra da música ganha contornos mais amplos nas páginas; salta aos olhos uma elite que já nasce decadente, cuja riqueza não se produziu em bens como terra e indústrias, mas principalmente nas relações mais ou menos espúrias com o Estado e com quem mais pudesse apresentar benefícios. Uma elite deslumbrada e sem poder, que só tardiamente se dá conta da sua desimportância.

Livros da Monix

Para entender a passagem do Brasil rural para o Brasil que se quer urbano: O Tempo e o Vento, Érico Veríssimo

Aprendi a amar Érico Veríssimo (além de tantas outras coisas) graças à Fal. É uma saga de fôlego, mas fundamental. Através de várias gerações da família Terra/Cambará a gente acompanha o surgimento das primeiras povoações, ainda na época da colônia, as guerras, revoluções e outros (e)ventos que foram, ao longo de décadas e séculos, ajudando a moldar isso que hoje chamamos de Brasil. Mas também espiamos pela fresta da porta da História, e ficamos sabendo um pouco de como viviam as pessoas comuns, como eram criados os filhos, como se nascia e morria no Brasil de antigamente. O Tempo e o Vento é o Rio Grande do Sul, mas é o país inteiro.

Para conhecer onde e quando tudo começou: Onde Vais, Isabel, de Maria Helena Ventura

É um livro difícil: de encontrar e de ler. Parece ter sido escrito de forma que a gente mergulhe na alma medieval – toda a musicalidade, todo o ritmo do livro nos levam a um lugar diferente. Essa é a beleza da história da Rainha Santa Isabel de Portugal, que nos ensina sobre a fundação da cidade de Coimbra, sobre a vida na corte do século XIII, sobre uma época em que a religião ocupava o lugar que hoje damos à ciência, sobre tecnologias que não enxergamos como tal. A lição mais interessante que tirei dessa leitura foi sobre o visionário Dom Dinis, rei de Portugal e marido de Isabel. É ele que prepara o Portugal do futuro, da expansão marítima, que conquistará os oceanos e colonizará nosso Brasil. Uma das coisas que Portugal deve a Dom Dinis é a plantação de imensos bosques de pinheiros, para que a madeira fosse utilizada na construção dos navios que se lançaram para o além-mar. A história de Isabel tem ainda um toque de realismo fantástico avant la lettre, com a bela lenda do milagre das rosas. Como entender o Brasil sem, antes, passar por Portugal?

Outros livros que são aulas: O Nome da Rosa; Anarquistas Graças a Deus; a trilogia Os Subterrâneos da Liberdade; A Casa dos Espíritos e Inés de minha alma, de Isabel Allende, para conhecer o Chile e essa América que é nossa mas não parece; enfim, são muitos… conta para nós qual é o seu.

As Duas Fridas

Diarices e leituras

Sem correr há semanas, não ando bem. Bússolas eu perco ou esqueço, mas a corrida me dá um caminho, ou vários. Agora, que tenho um tempo que não pedi, me sobram faltas.

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E o entorno não ajuda: o mal-estar deixou de ser interino e as novas que chegam nunca são boas.

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Em tempos difíceis, back to basics – lição que aprendi nessa fonte inesgotável de sabedoria ocidental, os seriados americanos. Fui cuidar do corpo para tratar da alma; a moça que tem doce e beleza no nome, calor na ponta dos dedos, mandou cuidar da comida, do sono, do que entra e do que sai – do básico, em resumo.

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4c9987fed38c659e24a8ac6209163aa0Menos digital e mais analógico. Mergulhei na ficção dos livros, nadei braçadas vigorosas e terminei ofegante, claro. Elena Ferrante me inquieta demais, coloca uma lupa implacável nas minhas relações, pra não falar em mim mesma. Uma leitura que revira cantos propositalmente esquecidos, arranca cascas de feridas mal saradas, me expõe. Brilhante, mas perturbador. Doloroso, mas bom. Feito terapia.

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No intervalo forçado entre o segundo e o terceiro livro, fui conhecer A vida no campo e ahhh!, ali sim, estou encontrando acolhida, descanso, proteção. Crônicas de gentileza e sensibilidade, algum humor, outras belezas. Também é fundo, mas não machuca: é leitura que abre as janelas, passa um café e senta com você na varanda (ainda que você more no 8o andar de uma rua barulhenta). Ficarei por lá enquanto puder, antes de voltar a Nápoles.

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Ler o “Arquipélago” atravessando a Baía de Guanabara soava mais que adequado: era quase um complemento à leitura. Mas ontem, enquanto lia “A vida do Campo” no metrô, perdi a estação em que deveria descer. O que também tem lá a sua poesia, você há de convir.

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Para amansar um sono sempre indócil, experimentei dormir sem luz alguma. Para minha grande surpresa, descobri que a escuridão era bem menos intensa do que pensava.

Guardei a metáfora, pode ser útil.

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54ff983a23b47-books-cooley-de“Só o que é íntimo me interessa”, diz o Joel a certa altura. A ideia me agrada imenso, e além do mais admiro quem formula assim uma preferência, com certeza e destemor. Sou incapaz de frases definitivas – o que lamento muitíssimo, a vida parece mais leve para quem duvida menos. Se a frase fosse minha, eu diria que só o íntimo têm me interessado ultimamente. O superficial tem me parecido vão – e quase tudo tem me soado muito superficial nos tempos que correm.

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Então me lembro do que me respondeu Isabel Duarte Soares para um comentário meu em seu blogue primoroso (quando eu ainda tinha coragem de comentar lá). Ela me ensinou algo sobre a introversão como a centralidade do mundo interior ou algo assim. Volto lá para conferir. Procuro um pouco (já faz algumas semanas que li), esbarro em um post em que ela fala do Joel e penso “que coincidência!”. Até encontrar o post que procurava e ver que o título é “Talvez me falte a corrida...”. Então acho que o ciclo se completou e que encontrei um desfecho para este post.

Helê

Genial Ferrante

Começando a subir as belas escadarias de madeira do Centro Cultural dos Correios, a ascensorista me chamou: “Não quer vir de elevador? Ou quer fazer exercício?” Um pouco sem graça aceito a oferta, e ela, durante a viagem de dois andares, fala com desenvoltura sobre a história do prédio, num entusiasmo surpreendente – que foi uma escola, que é de 1821, etc, etc. Na descida, me olhou de cima a baixo e elogiou sem nenhum pudor: “Você é bem estilosa, gostei. Muito bem!” E ainda fez nova propaganda do Centro: “Já viu a [peça] Chica da Silva?” Saí pensando que talvez ela devesse ficar na recepção, recebendo os visitantes, e não ali dentro, naquela viagem curta em que mal consegue contar tudo o que sabe sobre o local. Será que a peguei bem-humorada, apenas, ou há ali um talento subaproveitado? Simpatia, habilidade e conhecimento sobre o local de trabalho além do necessário para a função. Tivesse tido oportunidade – que eu estou levianamente deduzindo que faltou –, estaria ela conduzindo um elevador, apenas?

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a_amiga_genial__-_ferrante_2015_okQuando estou vendo muitos episódios seguidos de uma série, ou quando estou lendo um livro marcante, eu mentalmente mimetizo o narrador ou algum personagem. Fico sob a influência daquele estilo, daquele modo de estar no mundo. Por alguns dias ou semanas eu penso a partir daquela perspectiva, ou imagino como o autor (ou personagem) pensaria sobre. Agora estou under influence de Elena Ferrante, minha quase xará (e também das Gilmore Girls, mas esse é outro post). Acabei de ler o primeiro livro da tetralogia e me sinto imersa no universo desse livro incrivelmente bem escrito, que vai mostrando sua qualidade aos poucos e no final te torna refém; você pensa, aliviada: “Ufa, ainda bem que tem mais três!”. Para mim está tendo um efeito quase terapêutico (qual bom livro não tem?): voltei a fatos e pessoas da minha vida que pensei esquecidos. Mas também entrei em contato com emoções e sensações que talvez não quisesse lembrar. Ferrante, além de observadora sagaz, encontra quase sempre le mot juste, descrevendo com clareza o que vivenciamos com imprecisão. E realiza, com muita perspicácia, esse truque de prestidigitação literária, que consiste em: contar uma história que parece muito distante de você – duas meninas beirando a miséria na Itália do pós-guerra – e de repente, tá-rá! É sobre você. E sobre suas escolhas, sombras, sentimentos inconfessos, desejos sufocados, aquela parte com a qual a gente não gosta de lidar nem com luvas: mesquinhez, vergonha, inveja, derrota, maldade, fraqueza. E o mais alarmante: o livro mostra como essa matéria também constitui nossa relação com aqueles que a gente ama e quer bem, não só com rivais ou vilões de ocasião. E ainda constata que sentimentos ruins ou pouco nobres podem impulsionar conquistas. Portanto, em “A amiga genial” aquela sensação agradável de se reconhecer no que o outro escreve vem misturada com um desconforto irreprimível em muitos momentos; pode ser assustador. Ou revelador. Ou ambos.

Pode ser também que eu esteja projetando demais, admito. Li algumas resenhas “isentonas”, sempre observando o outro: elas, as meninas; a Nápoles e seus pobres, os anos 1950, tudo lááá longe. Para mim tudo aquilo foi ficando cada vez mais familiar com o passar das páginas; mesmo a violência entre pais e filhos, que não vivi, nunca esteve fora do meu radar (talvez apenas duas ruas ou casas depois). Quase todas as matérias e resenhas sobre o livro, assim como a orelha e a contracapa, repetem adjetivos como brutal e violento para descrever a história ou o estilo de Elena Ferrante. Mas talvez violento mesmo seja o choque ao se reconhecer tanto numa história tão íntima e singular.

“A amiga genial” também é sobre gênero, classes sociais e os esforços, mais ou menos desesperados, para achar uma saída da pobreza; é sobre caminhos, tropeços e atalhos para fugir do que parece inexorável. Como escapar de condições estabelecidas muito antes de você e que parecem fadadas a permanecer, no matter what. Condições, claro, mais dramáticas para as mulheres. Não consigo evitar a frustração ao pensar em gerações de mulheres talentosas, inteligentes, criativas que foram perdidas pelo atraso do mundo, calibrado pelo machismo castrador, inseguro e burro. E em tantas outras que até hoje ficam pelo caminho, em postos aquém de sua capacidade, mesmo prenhes de potencial. Under influence, eu avisei.

Helê

Arquipélago

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Estou naquele hiato entre um livro e o próximo, um não-lugar entre mundos, sem conseguir desapegar completamente dos personagens e paisagens açorianos, habitantes do livro de Joel Neto. Tudo sobre esse “Arquipélago” foi sempre cercado de encanto, desde a alegria com que foi saudado pelos leitores até a maneira como chegou a mim, atravessando um oceano de amizade e continentes de carinho, em um momento tenso de naufrágio. Deve ser por isso que não consigo me despedir.

Foi um enamoramento gradual: primeiro, caí de amores pelos Açores. Logo tive ganas de correr para a internet atrás de fotos e informação, mas me contive para não atrapalhar o ritmo da leitura e para pintar minhas próprias aquarelas com as palavras do autor. Através delas conheci uma cultura rica, um povo singular: interiorano no meio do mar (quase um sertão no meio do Atlântico), ao mesmo tempo distante e familiar. Um lugar “descoberto”, como dizem que nós fomos, mas com registros mais antigos que os seus supostos descobridores, cheio de (con)tradições e camadas – de tempo, de história, de vida.

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Arquipélago” também possui o charme do português de Portugal, língua que é mãe da que praticamos por aqui, tão semelhante e diferente, com seu tom formal e melódico, as ênclises, mesóclises e próclises usadas sem pedantismo. E a poesia involuntária de expressões, construções e dos nomes – ah, os nomes! Só pode ser mágico um lugar que se chama Terra Chã (“que de chã não tem nada“). Ou Angra do Heroísmo. E, meu deus, como é possível viver em Dois Caminhos? A mim já bastava um para seguir…

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Mas não só de paisagem e poesia é composto o “Arquipélago”; para além das vistas panorâmicas há também cenas intimistas e closes, sobretudo de José Artur, com quem não me identifiquei de imediato, mas por quem torci nas páginas finais com a respiração suspensa. Esse homem que, na metade da vida, retorna a terra da infância em busca de algo que ainda não sabe exatamente o que é; muito duro consigo mesmo, tão capaz de amar quando incapaz de expressar esse sentimento, se parece muito com alguns que conheço. Às vezes tinha a impressão de estar lendo o diário de um homem maduro (ou amadurecendo); nesse aspecto, trata-se de um livro bastante masculino, e entendê-lo dessa forma o torna ainda mais interessante.

phpThumbAssim, Arquipélago é tudo isso: um romance intimista, uma trama de suspense e história, uma ode sincera aos Açores. Uma lente que se aproxima e se afasta com maestria, realizando o truque próprio da boa literatura: desloca o leitor de sua realidade, retira-o de sua zona (que é sempre de conforto) ao mesmo tempo em que faz com que se identifique com lugares em que nunca esteve e com pessoas que jamais encontrou ou encontrará.

Eu não conheço Joel Neto pessoalmente e talvez custe a encontrá-lo, dado que ele mora na Ilha Terceira, nos Açores, no meio do Atlântico Norte, enquanto eu me quedo aqui, bem ao sul do Equador, na mui leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. No entanto, eu tenho com esse moço uma dívida inestimável, posto que já me deu dois presentes valiosíssimos: um amigo e um livro. Agradecer publicamente por ambos é mesmo o mínimo que posso fazer: muito obrigada, Joel. Recebe meu abraço caloroso e carioca. E um beijo para o Pedro, esse amigo que você, sem saber, me trouxe d’além mar e permanece comigo, a despeito das latitudes, longitudes e das intempéries.

Helê

 

 

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