Amizade que transcende

Os fridinhos no Rock in Rio

Hoje é dia de celebrar a Helê, e eu aproveito para celebrar nossa amizade.

Faz quase vinte anos que essa moça da risada fácil e das palavras bonitas entrou na minha vida pra ficar, e a gente não se largou nunca mais. Mudamos de empregos, moramos em outras casas, viajamos pelo mundo, tanta coisa se modificou ao longo desse tempo.

A gente tinha dois bebês que mal andavam e falavam, hoje entregamos pro mundo esses xóvens lindos que estão aí na foto. Que têm uma amizade própria, que anda sozinha e não depende da gente. Nesse seu aniversário, sócia, o presente que nós duas ganhamos é ver esses dois trilhando um caminho que a gente até ajudou a construir, mas que agora depende basicamente deles mesmos. A gente pode ser mothern, mas somos também mães do “casaquinho” e mães do “quem meu filho beija minha boca adoça”. Por isso escolhi pra este aniversário uma foto da sua Djubs, que eu vi crescer e que tem tanto de você nela.

Hoje é aniversário da Helê, a moça da risada fácil e das palavras bonitas, que veio ao mundo no dia dos Erês para espalhar alegria que bem querer por esse mundo afora. Salve ela!

-Monix-

Independência e vida

Desculpe aí, patriarcado, mas são duzentos anos de uma história contada pela metade, então hoje precisamos fazer uma correção importante. A independência do Brasil foi proclamada por uma mulher. É isso mesmo, repito para que não haja dúvidas:

A independência do Brasil foi proclamada por uma mulher. No dia 2 de setembro de 1822.

Essa mulher se chamava Maria Leopoldina, e hoje seu nome é mais reconhecido quando vem com um sufixo, no nome da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Duzentos anos atrás, ela era a princesa regente do Brasil, portanto quem tinha autoridade para tomar decisões e assinar documentos oficiais. E foi isso que ela fez naquele 2 de setembro. Portugal queria que D. Pedro voltasse à Europa. A corte brasileira pressionava pela independência do Brasil. A relação colonial já não fazia sentido. Mas o príncipe estava ausente (ué, um homem ausente na hora que mais se precisa dele, cê jura?). Quem botou o dito cujo na mesa foi a consorte de apenas 25 anos, que tinha sido preparada a vida inteira para cumprir com os deveres de Estado.

Nos dois episódios históricos de 1822, Leopoldina esteve em defesa da emancipação brasileira. Em 13 de agosto (…) D. Pedro viajou para São Paulo , e Leopoldina assumiu pela primeira vez a regência do país. Durante esse período, no dia 2 de setembro, presidiu a sessão do Conselho de Estado na qual deliberou a separação entre os dois reinos, fazendo registrar na ata a assinatura de todos os ministros. Documentos afirmam que a independência foi oficialmente decidida nessa ocasião, e alguns dias depois proclamada por D. Pedro às margens do Ipiranga.

(Trecho extraído do verbete sobre Leopoldina de Habsburgo-Lorena, do Dicionário Mulheres do Brasil)

Leopoldina comeu o pão que o diabo amassou no Brasil, mas amou este país até o final

A história oficial tende a apagar a participação feminina nos grandes eventos ao longo dos séculos, mas nunca é tarde para revisitar o cânone e dar crédito a quem merece. Além de Leopoldina, que atuou aqui na corte do Rio de Janeiro, o Brasil como o conhecemos hoje deve muito às heroínas da independência da Bahia: Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa. Essa história também merece ser contada, mas hoje, 2 de setembro, o que eu quero é propor que comemoremos a verdadeira data de independência do Brasil relembrando Leopoldina — por exemplo, você já leu o livro da Fal e da Suzi? E se não leu, o que está esperando?

Olha quem já leu… Só falta você rsrsrs (a foto é montagem, mas fica a dica como inspiração)

A independência contada da perspectiva masculina tem cavalos, uma espada meio fálica (ops) e um grito que fala em morte. O que eu quero é uma independência que fale de vida, e a Imperatriz Leopoldina, com toda sua dignidade perante o sofrimento, sua habilidade para construir alianças e sua vocação para os negócios de Estado me parece uma representante muito melhor do espírito que devemos buscar para a nação brasileira.

-Monix-

23 de agosto

Omar ibn Said

Se há leis que pegam e outras não, também há datas que não conseguem se fixar no calendário de eventos. Eu descobri ainda há pouco que hoje é o Dia Internacional da Recordação do Tráfico Negreiro e da sua Abolição, de acordo com a UNESCO, que celebra a data desde 1998. Em 23 de agosto de 1791 aconteceu no Haiti a primeira rebelião de independência nas Américas liderada pelos africanos escravizados. Como eu aprendi com o Projeto Querino (escuta absolutamente indispensável), essa revolução passou a ser o terror das elites dominantes, que temiam que os negros escravizados de outras colônias fizessem o mesmo. Séculos se passaram e ainda há o que temer, visto que no país que recebeu cerca de um terço de todas as pessoas traficadas no período das colônias, na cidade que recebeu um milhão dessas pessoas, ninguém fala sobre o Dia Internacional da Recordação do Tráfico Negreiro e da sua Abolição. Talvez porque a data fale explicitamente sobre recordar, e todo o esforço nacional foi o de esquecer, abafar e sepultar a escravidão e suas sequelas. Em vão: estamos aqui para recordar, repetir e elaborar*.

PS: Soube da data por um fio no tuíter (em inglês) falando sobre Omar ibn Said, um estudioso muçulmano que foi escravizado nos Estados Unidos e escreveu em árabe sua autobiografia.

*Eu não li o texto do Freud, mas só o título eu já acho poderosíssimo e certeiro.

Helê

São Jorge, carnaval

Eu já reclamei no twitter (onde mais, né?) desse calendário doido em que o carnaval vem depois da Páscoa – e nem católica eu sou, veja você!… Botei a culpa do meu desconforto no ascendente em virgem, mas esse moço definiu melhor:

Tentando abotoar essa camisa existencial e retomar os preceitos fundamentais da vida, lá fui eu no dia 23 para a Igreja de São Jorge, vestida de melindrosa. Porque também era sábado de carnaval, a roupa é vermelha, achei que o Santo entenderia. Em sinal de respeito, tirei a pena da cabeça, na hora da reza.

Foi um reencontro comovido, como têm sido todos na Retomada. Eu, que já choro nessas ocasiões porque a fé me emociona demais, chorei dobrado esses dois anos de ausência, perdas e lutas, em que, apesar de tudo, as roupas e as armas de Jorge protegeram não só a mim, mas também os meus. Salve, Jorge! Sempre! Ogunhê!

São Jorge Ogun no desfile da campeã Império Serrano

Como faço todos os anos, saí da igreja com planos vagos, disposta a andar um pouco pelas redondezas, observando o movimento dos fiéis, disponível para o que a rua oferecesse. Sempre, desde que instaurei pra mim essa tradição de ir à Igreja no dia de Jorge, coisas surprendentes e felizes acontecem: já encontrei rodas de samba memoráveis, já comi feijoada de graça, encontrei amigos, vi apresentações de choro, celebração de umbanda no Campo de Santana, já fui parar na quadra da Estácio de Sá… Desta vez achei que nada aconteceria já que o movimento foi muito menor, mas ao longe ouvi um batuque, fui me aproximando e era um maracatu que veio ao meu encontro. Vinha lindo e potente o Baque Mulher, com sua magnética rainha à frente, e eu fui acompanhando o cortejo, lembrando imediatamente dos passos, como se não fizesse dois anos que eu não dançava. E para que o recado não passasse despercebido, minha mestra no Tambores de Olokun me encontrou no meio do povo, e num abraço esfuziante me convocou: “Volta!”.

Surpreendentes e felizes, eu disse.

Depois disso, fui até a Praça da Harmonia, onde novamente encontrei São Jorge e uma mistura indelével de fiéis e foliões. No caminho, fui abordada por um “frei” (“ô, melindrosa, sabe que horas sai o bloco?”), fiz duas amigas (“Oi, eu sou a Vanessa, ela é a Michele, tá indo pra praça também?”) e ouvi alguém reclamando sozinho pela rua: “É São Jorge, é carnaval, é jogo do Flamengo, assim não dá! Vai ter que ter um auxílio emergencial de mil reais! E quando o Lula for eleito, vai ter outro carnaval!”. Ou seja, puro suco de Rio de Janeiro, só um pouco mais bagunçado que o habitual.

Fora essa rápida saída sacro-profana, o carnaval de abril não me capturou, e nem sei explicar bem o porquê. Só não bateu, simples assim. Acabei curtindo pela tevê, e mesmo assim, só algumas escolas. A Mangueira, belíssima, me fez chorar em camadas com a comissão de frente: o surgimento dos três homenageados, as rosas brotando, a homenagem a Seu Nelson Sargento. É realmente uma lástima que não tenhamos nova oportunidade de vê-la, assim como o magnífico carro em que Seu Delegado bailava etéreo sobre uma caixa de música, bailarino exímio que foi (tive a honra de vê-lo de perto e cumprimentar, juntamente com D. Mocinha, em uma apresentação na Uerj, garbo e elegância inesquecíveis). Não consegui uma boa foto desse carro, o que me fez pensar que o desfile tem uma volatilidade desconcertante. Todos os anos vemos alas refinadas, fantasias primorosas, carros estonteantes por alguns minutos – e isso dentre aquilo que a transmissão monopolizada, precária e parcial decide mostrar, que ainda é apenas uma parte o espetáculo real. A gente não pode normalizar algo tão improvável e espetacular, e deveríamos manter um registro cuidadoso dessa expressão ímpar e magnífica que é o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Que mesmo acontecendo meio fora de lugar no calendário, foi fundamental para restabelecer laços, crenças e esperanças. Além de marcar o tempo: é preciso o carnaval, ou pelo menos o desfile, sua raiz profunda, para que a gente acerte os botões da camisa – ou desista dela de uma vez e vista um collant de lamê.

Quem sabe agora, com Exu devidamente reconhecido e celebrado – ele que deve ser o primeiro a ser servido – não possamos nós, de fato, recomeçar? Laroyê! E que a gente cumpra a obrigação ancestral de ser feliz.
Helê

Monix Day!

Mesmo de volta à vida normal, depois de um carnaval extemporâneo, ainda há motivos para felicidade: hoje é dia dela, a minha sócia, a nossa Monix, Hermione carioca, a melhor anfitriã dessa cidade, e mil outras qualidades que vocês podem lembrar ali embaixo, nos comentários. Vamos para mais uma dose de alegria para celebrar o presente que é tê-la nas nossas vidas, virtual ou digitalmente. Venha festejar e deixe pegadas!

Helê

O não-carnaval

Se a guerra for declarada
Em pleno domingo de carnaval
Verás que um filho não foge à luta
Brasil, recruta
O teu pessoal

Se a terra anda ameaçada
De se acabar numa explosão de sal
Se aliste, meu camarada
A gente vai salvar o nosso carnaval

Alguém sugeriu que, já que vai ter guerra mesmo, deviam então liberar o carnaval (foi no tuíter, claro, aquele repositório de sabedoria e bobagens). Desde então eu não tiro da cabeça essa marchinha deliciosa do Chico, na qual a tropa do general da banda dança o samba em Berlim, a melindrosa manda bala e a rajada é de tamborim.

Caminhando para o terceiro ano de pandemia temos novamente o carnaval cancelado – mas se pagar, pode. Suspensos o desfile das escolas e o esparramar dos blocos, multiplicam-se programações pagas pela cidade, porque o coranavírus, como se sabe, só funciona em eventos gratuitos. Surgem também, aqui e ali, uns subversivos que insistem em ir às ruas, e assim o carnaval popular carioca entra na clandestinidade – algo que eu nunca pensei que veria.

Mas o Francis Hime, parceiro de Chico, perguntou há tempo atrás, numa canção repleta de absurdos, “e se o carnaval cair em abril?” , e é para este mês que foi transferido o desfile na Sapucaí. E não podemos esquecer que o Botafogo foi campeão (da segunda divisão, mas o Francis não especificou). Então eu já não duvido de mais nada, e torço pro meu amor gostar, então, de mim.

Não consigo evitar a melancolia desses dias, um banzo orgânico e incontornável. Não julgo quem vai pra folia, pagando ou escondido; condeno o poder público, incapaz de exercer a autoridade concedida pela população para protegê-la. Para mim não funciona esse carnaval meia boca, fantasia é muito diferente de disfarce. Eu quero ver cada paralelepípedo dessa cidade se arrepiar, quero botar o bloco na rua, festejar o teu sofrer, o teu penar, ser rainha no meio de uma gente tão modesta. Na rua e sem medo.

Pretendo encontrar uns poucos amigos, tomar algumas cervejas e dar um grito de Carnaval (só um, pra não espantar a clientela do bar). Vou aproveitar para discuitr com outro foliões desterrados nomes de não-blocos, como Náufragos da Alegria, Se melhorar eu volto, Abstêmios da Folia, Órfãos de Momo, Me beija que eu tô vacinada, Sambistas da Saudade. Uma brincadeira melancólica, mas é o que temos para hoje.

Sigo torcendo para que em 2023 a gente volte pra rua com alegria e fervor. Até lá, vou continuar me guardando pra quando o carnaval chegar.

Helê

Yemanjá, a rainha do mar

Do Pinterest

Odo Yá!

Helê

Ao (s) Leo (s)

Para fazer jus ao auto-concedido título de Guardiã das Tradições Recentes – embora esta já nem seja tão recente assim…- vai aqui minha homenagem aos leoninos e leoninas todos que povoam meu habitat emocional, incluídos aí leitoras e leitores mais ou menos anônimos. Feliz aniversário, o sol de vocês também me ilumina e aquece.

Helê

The Xereca Olimpics

Estou morando nas Olimpíadas e não quero voltar. Num relacionamento sério com os Jogos Olímpicos de Tóquio, começo a sofrer por antecipação sabendo do fim. Era pra ser só um casinho sem consequências, uma distração pra parar de passar raiva com esse país truculento e arcaico. Mas aí encontrei um bando de gente simpática, talentosa, amorosa, muitas mulheres, pretas e pretos, nordestinos, lésbicas e as gueis, moleques e molecas que me fizeram torcer por eles. E torço por que? Porque nasceram no mesmo pedaço de terra que eu, falam como eu, e tornam-se campeões apesar disso. Eu num disse que tinha conflitos com patriotismo?

Quem escreve os roteiros do Brasil, precisamos admitir, não é lá muito criativo. Em geral a gente nunca ouviu falar do cara (ou da cara), aí pinta um medalha: viva! brasil! e tal, e aí vamos saber que a cara (ou o cara) não tem patrocício, surfou no isopor, nadou no açude, treinou no terreno baldio etc. E dá-lhe musiquinha triste e elogio à meritocracia. Vendo as histórias de superação de nove em cada 10 atletas brasileiros fiquei imaginando como seria ganhar sem drama, sem ter que lutar para sobreviver AND para treinar. Aí vi as moças que ganharam na vela, Martine e Kaena, e descobri que também pode ser bonito e emocionante. A gente não precisa sofrer tanto pra ser feliz. Ainda mais no esporte, que já tem naturalmente uma intensa carga dramática, baseado que é na superação – do corpo, do tempo, do outro.

E nesta edição ainda foi preciso superar um micróbio FDP e governos idem (nessa modalidade somos ouro, mas não estamos sós), o que provavelmente explica um clima de companherismo inédito nos Jogos. No começo parecia que era coisa da galera do skate, melhor em tudo, total relaxada e parça. Mas depois reparei na ginástica, que sempre teve uma vibe mega tensa, no judô, no atletismo, vários gestos de atletas que iam além da gentileza educada. Imagino que há uma mistura de alegria e celebração por terem conseguido chegar até ali. Desta vez, de um modo inédito, todo mundo enfrentou um adversário comum.

Nós brasileiros começamos festejando a vitória da menina de 13 anos mas também comentando a conjugação do inusitado verbo xerecar (v. intransitivo) no skate (sempre ele). Depois, Rebeca Andrade ganhou duas medalhas (e disse o tuiter que não trouxe a terceira pra evitar excesso de bagagem). Mayra Aguiar conquistou o terceiro bronze olímpico da carreira. Já temos encaminhada uma medalha no boxe feminino e no vôlei de quadra só as mulheres ainda podem trazer ouro ou prata. Além das já citadas velejadoras, conhecemos, torcemos e vibramos, mais ou menos nesse espaço de tempo, Ana Marcela – que quase acabou com meu fôlego, mesmo ela lá e eu no sofá. E que dedicou a medalha à namorada. Fora a menção do Alison, do vôlei de praia, ao pedir gentilmente mais tranquilidade pro parceiro (“Calma, buceta!”). São ou não the Xereca Olimpics?

Se, como ensina Angela Davis, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”, imagina o que acontece quando ela voa, como graciosamente fez a Rebeca. Minha torcida por ela continua e se intensifica agora, que ela passa a ter um imenso holofote a acompanhá-la. Por mais resiliente que tenha se mostrado, nada prepara totalmente alguém para isso, tá aí a Simone Biles que não me deixa mentir. Uma mulher incomoda muita gente. Uma mulher negra bem-sucedida incomoda muito mais. Li que Biles usou em seu collant uma cabra de strass [em inglês, goat – great of all times, o maior de todos os tempos, uma gíria do esporte comum entre machos como Neymar e Cristiano Ronaldo]. Na prova em que ousou usar o desenho pela primeira vez, mesmo fazendo um exercício nunca feito por uma mulher na história da ginástica, ficou com uma pontuação 6.6. É com esse tipo de coisa, que um atleta branco jamais enfrenta, que Biles tem que lidar, além de todas as outras de qualquer atleta de excelência. Rebeca Andrade, apesar do jeito sorridente e terno, deu algumas respostas que fogem um pouco da esquema gratidão religiosa submissa (ainda bem!). Dizer “eu agradeço por ter tido inteligência de aproveitar as oportunidades” é mais elaborado e consciente do que apenas jogar tudo na conta do Senhor. Tem capacidade para não ser manipulada pelos insaciáveis interesses que se moverão em sua direção, mas nem todos em seu benefício. Permaneço, portanto, na torcida!

E acho que foi a mãe da Mary W. que comentou esse feito incrível, mudar a imagem da ginástica artística. Os da minha idade se acostumaram a ver um esporte de gente branca de nome difícil, de lugares muito distantes, e sisudos. E primeiro a Daiane dos Santos, e agora a Rebeca alteraram a referência no imaginário de algumas gerações para um esporte de mulheres negras, sorridentes e felizes. E fodas. Isso não tem preço. (Péra que entrou um cisco aqui) Se você , como eu, também achava que a Daiane era medalhista olímpica, deve ser por coisas como esse vídeo aqui, do qual eu não lembrava, mas que a laureou para sempre no meu registro:

Mamãe, agora sem as mãos. Agora sem música!

Ah, o skate trouxe mesmo um frescor para os jogos que nem sei se estávamos preparados – nós, público, acho que sim, mas os comitês/confederações eu não sei, me pareciam sempre um pouco assustados na hora do pódio, com medo de receber um abraço indevido ou hangloose mais expansivo. Foi ótimo ver essa galera xóvem e diversa, totalmente à vontade numa coisa que todo mundo estava jogando uma megaexpectativa. Faz pensar o que é próprio da modalidade e o que se deve à estreia – teriam os outros esportes sido também mais soltos nos seus primórdios? O skate apresentou outras formas de ser profissional, de competir, de se concentrar. E de se divertir, que afinal era o objetivo inicial da coisa toda, não?

Helê

Sobre patriotismos — e algumas notas olímpicas

Os japoneses são tão organizados que calcularam direitinho pra olimpíada cair bem no intervalo da CPI da Pandemia, garantindo o entretenimento dos brasileiros.

E a gente estava mesmo precisando de uma diversão que não fosse apenas passar raiva juntos.

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Eu sou aquela que só gosta de futebol na Copa do Mundo. E dos demais esportes, quando os ventos favorecem, só mesmo em alguns Jogos Olímpicos. Em 2016 eu dei uma surtada com os Jogos no Rio e assisti um monte de eventos. Foi a última vez que minha cidade, que tanto amo, me fez realmente feliz.

Ano passado, quando adiaram os Jogos de Tóquio, eu estava mais preocupada com a crise global da pandemia. Não dediquei mais que dez segundos pensando “ah, fizeram bem”, e segui dando banho nas compras (a gente ainda estava nessa fase, lembram?). Mas desde semana passada, quando me caiu a ficha de que mesmo com a pandemia ainda nos ameaçando aí fora haveria, sim, olimpíada, convivo com um misto de sentimentos. O primeiro deles foi a saudade imensa do Rio olímpico, do alto astral daqueles dias. Revi vídeos e ri até das coisas que reclamei rabugentamente na época, como a zoeira exagerada da torcida carioca em esportes tradicionalmente mais “comportados”.

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Pouco antes de começar a olimpíada, fiquei meio na dúvida se era certo assistir, afinal, pandemia né? Durante outros dez segundos fiquei pensando se era incoerente acompanhar os Jogos depois de criticar a vinda da Copa América para o Brasil*, tempo suficiente para concluir: eles que lutem.

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O esporte é uma forma genial de canalizar o patriotismo das pessoas, construir um senso de nacionalidade, sem precisar levar todo mundo para a guerra. Assistir EUA X China no vôlei é um microcosmo de tensões geopolíticas que terminam quando o juiz dá o último apito. Este ano eu lembrei que adoro vôlei (sei lá por que tinha esquecido disso), e fico catando partidas nos inúmeros canais sem locução disponíveis no meu pacote. Mas não consigo assistir sem torcer, então escolho um país. Normalmente vou pela proximidade ou afinidade cultural: entre Irã e Venezuela, fiquei com nossos vizinhos. Perderam. Na partida entre americanas e chinesas, tentei de verdade torcer pelas representantes do nosso continente, Mas elas eram tão antipáticas, e as asiáticas, por outro lado, tinham tanta alegria (davam gritinhos a cada ponto), que mudei com cinco minutos de jogo.

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E obviamente há o Brasil. No Twitter o que mais vejo são negociações sobre para qual atleta podemos torcer, quem é ou não bolsominion, se é melhor focar nos esportes individuais e escolher os mais confiáveis ou se nos coletivos para diluir o risco. Sinceramente? Estou zero preocupada com isso. Torço mesmo. O esporte, como eu disse, é uma forma de emoldurar nosso conceito de nação — e curiosamente ao mesmo tempo é mostrado como um instrumento de superação pessoal de dificuldades, etc. Paradoxos.

Mas enfim, digressões à parte, há alguns anos, principalmente a partir de 2013, me sinto um pouco lesada no meu direito de pertencer ao Brasil, de ser brasileira, de me ver representada por símbolos nacionais (os piores casos são a bandeira e a camisa da seleção de futebol, que foram roubados de nós pelos extremistas de direita e hoje causam desconforto na maioria das pessoas da minha turma). Por isso, tem sido bom aproveitar os Jogos Olímpicos para me reencontrar com o sentimento de brasilidade. De saber que ser brasileira, mais do que vergonha internacional, é fazer parte de um povo alegre, apaixonado e apaixonante, intenso de todas as formas (às vezes a ponto, sim, de ser vergonhoso, mas por motivos mais inofensivos do que destruir a Amazônia ou deixar a pandemia fora de controle para lucrar com vacinas superfaturadas e garantir popularidade no ano de eleições).

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O maior símbolo do Brasil que eu quero e preciso resgatar no meu coração é a fadinha Rayssa Leal. O sorriso no rosto dessa menina, a leveza em cima do skate (e o próprio fato de o skate se tornar esporte olímpico), tudo isso me representa.

Aos 13 anos, Rayssa Leal, a Fadinha, conquistou a medalha de prata no skate stre
Valeu, garota :)

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Ainda nesse quesito “reflexões sobre o patriotismo nos esportes”, chama a atenção a situação dos atletas russos. O país foi banido de competições internacionais, porque o governo estava dopando todo mundo pra conseguir os melhores resultados (resumindo em poucas palavras uma situação obviamente mais complexa que isso).

Esse caso da Rússia leva ao limite o argumento de que o esporte é uma forma de sublimar as guerras, de levar as tensões geopolíticas para dentro das quadras e pistas e etc. Hoje é século XXI, galera. O soft power é tão importante quanto qualquer outro, se não for mais.

Enfim, quando vi a bandeira olímpica e a a sigla ROC indicando que os atletas estão competindo pelo Comitê Olímpico Russo, e não pelo país, achei estranho e meio que como trocar seis por meia dúzia. Se são as mesmas pessoas, que diferença faz? Não é uma hipocrisia danada permitir isso?

Claro que há interesses comerciais que não podem ser contrariados. Um atleta de alta performance fora de uma olimpíada causa um prejuízo enorme para as marcas que investiram nele. Uma delegação inteira, ainda mais uma do porte da russa, seria incalculável.

Mas, negócios à parte, realmente não é a mesma coisa que competir sob a bandeira do país. Subir ao pódio e não ter o hino executado é um golpe no sentimento de patriotismo que vem junto com a vitória no esporte. Ainda mais quando se sabe que isso acontece porque o governo do seu país foi punido.

Além disso, na prática a medida significa que os atletas estão reunidos sob o Comitê Olímpico Russo, um órgão que o Comitê Olímpico Internacional consegue controlar.

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Um silêncio veemente que se escuta é o do presidente Jair. Políticos e artistas que entendem essa relação umbilical entre os esportes e o conceito de nação estão parabenizando os atletas, vibrando com cada conquista, e na medida em que adjetivam e qualificam cada acontecimento, ajudando a emoldurar a ideia que fazemos de Brasil. O Brasil é o sorriso da Rayssa? É o choro emocionado do Ítalo? É a persistência dos caras do vôlei que viraram um jogo suado contra a Argentina? Sim. Somos um pouco de tudo isso. E o presidente? Soltou uma nota burocrática parabenizando os skatistas e aproveitando para falar de isenção de impostos para skates, como se alguém estivesse pensando nisso na hora de comemorar medalhas. Francamente. Fora isso, nada mais. É quase como se estivesse aproveitando que todos mundo está olhando pro outro lado para entregar de vez o governo ao fisiologismo.

Ou vai ver que ele só consegue mesmo se pronunciar quando é pra atacar a ideia de Brasil que esses atletas representam. Por isso, quando eles triunfam, não consegue dizer é nada.

***

Voltando ao começo, semana que vem a CPI recomeça e desconfio que o recreio vai acabar — ou seja, será o fim desse intervalo maravilhoso em que foi possível esquecer do Brasil sombrio de 2021 e acreditar que podemos ser muito, muito melhores que isso.

-Monix-

* Refletindo melhor, concluí que não, não é a mesma coisa. O Japão está há mais de um ano planejando e pensando em formas de realizar um evento deste porte em condições minimamente seguras para todos. O Brasil atravessou a rua para escorregar numa casca de banana que nem era nossa, e abrigou uma competição internacional com dias de antecedência, seguindo a lógica sanitária do salve-se quem puder.

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