8 de março

Helê

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Papo de Fridas

Outro dia nosotras nos encontramos, com um petit comité de amigos/as-leitores/as na casa da Monix sob o pretexto de (não) assistir um filme enquanto bebíamos e conversávamos sobre outras coisas. Como o objetivo de beber e conversar era mais premente que o de assistir um filme, escolhemos um que já praticamente sabemos de cor: Harry e Sally – Feitos um para o Outro (que inclusive já assistimos juntas). Para brindar o primeiro encontro do ano, nada como um bom confort movie.

Mas você já sabe que quando as Fridas se encontram nada nunca é só o que era pra ser. A gente adora complicar e botar caraminholas nas nossas próprias cabeças. Então, uns dias depois, tivemos mais ou menos a conversa abaixo por WhatsApp (que aqui segue editada e ampliada, que nós somos dessas). Foi, em suma, um papo sem compromisso, bem pingue-pongue mesmo, mas que rendeu um bom fio de pensamento e que quisemos dividir com vocês.

Helê: Fiquei pensando depois que não tem um casal negro naquelas entrevistas de Harry e Sally.
Monix: Verdade. Outro dia eu Estava revendo Friends e pensei a mesma coisa, não tem personagens negros na série inteira.
Helê: Pensando bem, preto, no filme (Harry e Sally), só garçom, staff em geral. E aí eu fiquei pensando que ficou tão ok falar mal do politicamente correto, mas isso hoje não aconteceria.
Monix: Sem dúvida
Helê: [A maior presença de negros nos elencos] tem a ver com um ativismo maior? Sim. Mas com o politicamente correto também. E o que veio primeiro, quem puxou quem?
Monix: Acho inclusive que tem algum tipo de regulação nos EUA (não sei se governo ou autorregulação) que exige diversidade nos elencos. #pesquisar [A pesquisa não nos trouxe conclusões definitivas, mas este artigo leva a crer que não há regras nesse sentido, apenas uma discussão bastante rica e ainda em curso sobre a passagem do colorblind para o color-conscious.]
Monix: Representation matters !
Helê: Sim. Dá uma tristezinha admitir isso porque a gente ama o filme, né?
Monix: Mas não acho que isso diminua o valor do filme. Era o contexto da época.
Helê: Não, mas é como admitir defeito em amigo
Monix: Não dá pra julgar uma obra de 30 (?!) anos atrás com o raciocínio de hoje. A não ser coisas escandalosas, tipo o filme do Griffith que defendia a Ku Klux Klan. [O filme é O Nascimento de uma Nação.]
Helê: Entendo. Claro que eu não posso cobrar feminismo do Mario Lago e a sua Amélia. Mas como a gente gosta muito, preferia não tivesse esse defeito de cor, hahaha!
Monix: Hahahah verdade. Aliás, ótimo exemplo esse da Amélia.
Monix: Nem contei do problema que foi assistir 7 Noivas para 7 Irmãos no telão com o Fridinho. Ele ficou incomodadíssimo com o rapto.
Helê: Caramba! Nunca tínhamos visto desse jeito! Cárcere privado.
Monix: Lá pelas tantas ele disse que se no final as moças casassem com os sequestradores, ia ficar muito p*to. Quase mandei ele dormir 😬

E vocês, o que acham? Como assistir obras de arte criadas em outros contextos, com tudo o que sabemos hoje? Dá pra gostar, levar em consideração o contexto, ou fica difícil? Dividam seus pensamentos com a gente. A discussão é boa.

Las Dos Fridas

Mulherio

Digamos que, além da solidariedade de  classe, eu tenho um carinho especial pelas mães argentinas porque me lembro das Loucas da Praça de Maio. Renovei esse afeto ao ver a entrevista  de D. Mercedes, que eu já havia citado aqui, a mãe do Boechat.

Antes de explicar o porquê, preciso dizer que me mantive distante do noticiário e só assisti ao vídeo porque foi enviado por uma amiga. Sendo ainda mais sincera, fui ver até com certa má vontade porque uma frase dita por d. Mercedes sobre o ateísmo do filho já tinha sido cansativamente debatida no tribunal da internet.

Mas A. mandou para o nosso grupo que é a fina flor do uatizápi (sorry, periferia), onde raramente circula algo que não seja relevante, emocionante ou engraçado pra cacete. Então eu comecei a assistir e em segundos estava chorando as lágrimas que eu economizei porque vi uma senhora de 86 anos lembrando do seu filho quando nasceu, depois com dois meses, depois com quatro, cinco, anos. Comovi imediatamente com essa constatação de que a gente não deixa nunca de ser mãe, sempre vai vê-los como os bebês que foram, no matter what. Que ternura.

Segui acompanhando essa mãe falando orgulhosa de seu filho, surpresa com o tamanho da sua popularidade e satisfeita com o caixão simples adornado com o bigurrilho do táxi, que para ela comprovava a simplicidade do Boechat e tal e coisa. Aí ela começa a se exaltar, falando a favor do povo e contra os poderosos, da mesma maneira genérica e colérica que seu filho morto. Quase um comício ou um editorial, de que se esperava só sofrimento e contenção. O vídeo, tocante e divertido, realmente atendia aos requisitos para estar no nosso grupo do whats.

*

E como acontece com frequência, eu aprendo muito quando escrevo: fui tirar a dúvida sobre o nome do grupo de mulheres. Eu tinha essa lembrança bem antiga, talvez da minha infância, de serem conhecidas como “As Loucas da Praça de Maio”. E a memória não me traiu: esse foi o primeiro nome pelo qual mães e avós de desaparecidos políticos argentinos ficaram conhecidas. Não exatamente pela bravura, mas porque, como sabemos, qualquer manifestação feminina fora do que espera o patriarcado — como desejo ou coragem —  recebe imediatamente o selo da loucura. Há poucos anos elas voltaram às manchetes quando conseguiram localizar netos desses militantes assassinados pelo regime que foram separados das famílias.  Se você não conhece a incrível história dessas mulheres latino-americanas, leia esse artigo da Sylvia Colombo, que dá uma boa ideia da importância delas para a sociedade argentina, capaz de enfrentar os terrores de sua ditadura  punindo militares e prestando conta de seus desaparecidos.

Ainda falando de mulheres f*da e voltando ao assunto Boechat, impossível não falar da Leilaine Silva, a mulher que ajudou a salvar o caminhoneiro envolvido no acidente. Em que pese ela ter agido por impulso, contrariando regras de salvamento, prefiro louvar o impulso de alguém que salta de uma moto para socorrer um ferido do que o grupo de imbecis cujo impulso foi sacar o celular e filmar. Nessa matéria, veja a ilustração de Angelo France que viralizou, enaltecendo o gesto de Leilaine.

Helê

Deus é Mulher

Na segunda-feira de manhã recebi no Facebook um convite para um grupo chamado “Mulheres Unidas contra o Bolsonaro“. Fui dar uma olhada, por curiosidade, e vi que já havia 150.000 membr(a)s. Fiquei impressionada com o número (mal sabia eu) e acabei ficando. Em 24 horas acho que o número já tinha quadruplicado, sei lá. Só sei que hoje éramos mais de 2 milhões de mulheres nesse grupo – surpreendentemente, apesar de obviamente a dinâmica da interação ser caótica, a convivência é até bem pacífica e civilizada. Há mulheres de todos os espectros políticos, cis e trans, e alguns eventos já estão sendo articulados.*

Só que o crescimento exponencial do grupo virou notícia, chamou a atenção, e o grupo está sob ataque de hackers desde quinta-feira. Mudaram o nome, invadiram os perfis das administradoras, mandaram ameaças. Uma amostra grátis do que nos espera logo ali na curva da frente. 😦

Tudo isso é muito triste e, principalmente, preocupante. Ainda faltam 20 dias para o primeiro turno das eleições, e depois teremos toda a campanha do segundo turno pela frente, e a cada dia parece que o fundo do poço é um novo alçapão.

Mas. Sempre tem um mas. E eu sou aquela pessoa do copo meio cheio. Estou aqui para manter elevado o moral das tropas. De nada.

Então queria dizer a vocês que isso aí que está acontecendo não é ação, é reação.

Porque eu acabei de chegar do teatro, e eu vi Elza, e a Elza de verdade é incrível, mas o elenco é quase tão incrível quanto, e a plateia é mais incrível ainda. A plateia é uma celebração da diversidade, no sentido mais bonito que essa palavra possa ter. A plateia é pura potência.

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Corre que ainda dá tempo!

Aí a gente sai do teatro acreditando de novo que há uma mudança importante em curso, e que, não custa repetir, a gente é ação, eles são reação. Ou, como disse a Mary, eles perderam. Vamos vencer com classe.

A arte é a nossa salvação. Vamos fruir a arte, vamos prestigiar a arte, vamos ensinar nossos filhos a ver arte e, principalmente, a viver de uma forma artística. Não precisa ser artista para fazer isso. Basta aprender a lição de Oscar Wilde e saber que a vida imita a arte (e não o contrário).

 

 

Sejamos ação. Sigamos com a nossa turma, que essa é, e sempre será, a melhor turma.

-Monix-

* Enquanto eu escrevia este post, o grupo foi apagado. Há várias informações chegando ao mesmo tempo, parece que as administradoras estão prestando queixa na delegacia de crimes digitais. Vamos acompanhando.

Feminismo pra quê?

Hoje na news do Canal Meio estava essa matéria inacreditável, feita a partir de uma notícia do Globo:

A Universidade de Medicina de Tóquio manipulou, deliberadamente, as notas de mulheres candidatas ao vestibular. Por ao menos uma década. Pois é. As notas dos homens, incluindo os que falharam uma ou duas vezes, eram aumentadas artificialmente, enquanto as notas de todas as mulheres e dos homens que falharam três ou mais vezes não recebiam o mesmo tratamento. A investigação concluiu que os resultados foram manipulados para reduzir o número de mulheres admitidas. Os diretores da universidade acreditavam que futuras médicas estariam mais propensas a abandonar a profissão para cuidar dos filhos. (Globo)

Você entenderam? Uma universidade dificultando o ingresso de mulheres sistematicamente durante pelo menos 10 anos! Ao ler, me ocorreu imediatamente a pergunta teórico-sarcástica, “Feminismo pra quê, né?”. E logo depois eu lembrei da nota de ontem, no mesmo informativo:

Nos Estados Unidos, as mulheres são menos propensas que os homens a sobreviver nos anos após um ataque cardíaco. E de acordo com um novo estudo, isso se deve em parte à maneira como as mulheres são tratadas, mas também ao gênero dos médicos que as tratam. Pois é. Pesquisadores americanos constataram que as mulheres vítimas de ataques cardíacos têm mais chance de sobreviver se forem tratadas por médicas. E mais: as taxas de mortalidade das pacientes atendidas por homens diminui conforme eles tratam de mais mulheres, e especialmente se trabalham em hospitais com mais médicas. Pode ser que isso aconteça porque as mulheres se sintam mais à vontade para explicar seus sintomas a elas, que, por sua vez, são mais propensas a conectar esses sintomas a ataques cardíacos. É que eles se manifestam de maneiras diferentes nas mulheres, que acabam demorando mais para procurar ajuda e, muitas vezes, são dispensadas sem diagnóstico.

Ou seja: precisamos do feminismo para ser médicas e para ser medicadas. E até para ter médicos melhores e pacientes mais bem atendidos, também os homens. E tudo isso me lembrou uma das minhas feministas favoritas, Miranda Bailey, diagnosticando seu problema cardíaco e lembrando que para mulheres negras o buraco ainda é mais embaixo:

Ainda não descobri pra quê não precisa de feminismo (feminismo negro included)

Helê

R.E.S.P.E.C.T

Já escrevi mentalmente várias anotações sobre a copa da Rússia mas esse vídeo de ontem não pode esperar: tem que ser exibido muitas e muitas vezes. Nele, a jornalista Júlia Guimarães se defende do assédio de um passante e revida, falando por si e por todas as mulheres:

 

 

A postura dela é absolutamente impecável; embora irritada e abalada com a postura do macho, Júlia retruca sem ofender (o que nem acho imprescindível, apenas impressionante que tenha conseguido). E ainda educa o cidadão – caso ele tenha a capacidade de aproveitar o ensinamento.

Na lenta  evolução das relações entre gêneros e no combate permanente ao machismo, depois de denunciar e expor talvez tenha chegado a hora de reagir e revidar. Ainda que isso me cause conflitos, dada minha índole pacifista e o caráter excessivamente belicoso que vivemos. Mas a imagem de uma mulher que além de se defender, também ataca –  armada apenas de inteligência e presença de espírito – tem um poder inegável.

É este tipo de imagem que precisa viralizar para denunciar o assédio – e não o assédio em si, captado em vídeos idiotas de brasileiros que insistem em nos envergonhar.

Aretha Franklin já mandou essa letra – inclusive soletrou – mas ainda é preciso ouvir a Júlia dizer o que queremos: respeito.

Helê

Representatividade

(Because of  them we can; photo credit: Ben Hines; cc: mom, @_jessisee )

Todos negros 😉

Helê

PS: Michelle fez o quê? Foi conhecer a menina.

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