Machado Negão

No aniversário de 180 anos de Machado de Assis, o reconhecimento de seu pertencimento étnico ainda gera discórdia. A foto colorizada para reproduzir seu tom de pele mais próximo da realidade agradou à militância, mas houve reações, como a de um colunista (branco) que escreveu que não devemos acorrentar Machado à cor da sua pele; ele é um escritor humano. Típico argumento racista sacado sempre que os pretos estão em posição de vantagem ou superior aos brancos: imediatamente lembram da nossa “humanidade” e desvalorizam a importância da cor da nossa pele. Não vou dar o crédito ao racista da ocasião, prefiro mantê-lo acorrentado a sua ignorância e irrelevância. Vou festejar Machado de Assis, considerado o maior escritor brasileiro, e sublinhar sua negritude sim porque representatividade só não importa para privilegiados e ignorantes.

Helê

Anúncios

Cabelo, cabeleira, cabeluda

Three on One by Annie Lee

Hoje pela manhã li sobre a defesa da tese “Esse boom é nosso?”, orientada pela queridíssima Laura Guimarães (da dupla inventora do Mothern). Fiquei curiosa para ler o trabalho, lembrei de Ângela Figueiredo, minha ex-colega de trabalho no Afro-asiáticos, a primeira acadêmica que vi escrevendo sobre cabelos e seu significado para afrodescendentes, mais de 20 anos atrás, e pensei no quanto caminhamos até aqui, no quanto a mudança de alguns paradigmas para negros passou pela cabeça das mulheres negras.

Eu gostaria de usar uma palavra mais enfática como revolução, mas nem tanto, mestre, nem tanto. Se houve uma revolução dos cachos ela se restringe ao mercado de produtos capilares. No Brasil nunca houve oferta tão farta de produtos para cabelos crespos e ondulados – na real, há 30 anos não havia nenhuma, at all. Mas isso significa, na vida real dos pretos, no máximo, uma mudança de paradigma, como eu disse acima. Já não é tão difícil usar o cabelo sem alisamento but, ainda levanta muitas sobrancelhas, e o padrão branco liso moveu-se poucos centímetros do seu local de centralidade e idealização. Somos agora mais toleradas — em parte como uma tendência fashion, apenas.

Como consumidora, eu me beneficio das muitas opções a meu dispor, e boicoto sistemática e ferozmente as marcas tradicionais do mercado que, durantes décadas, me fizeram sentir inadequada por não tem um cabelo de seda, liso (e muitas vezes louro) como mostravam seus rótulos. Essas mesmas marcas agora aparecem oferecendo linhas inteiras para cachos e crespos, prometendo definição, brilho, volume… Não, obrigada, eu sei o que você fez no verão passado. Por isso faço questão de comparar marcas que sempre trabalharam com esse público, de preferência nacionais, de preferência gerida por pretos, porque acredito no conceito de black money: se não me vejo, não compro.

Helê

 

Fogo nos racistas

A frase é um mote de Yuri Marçal. Sabe quem é? Não? Pois é…

Esse menino (tem 25 anos) é um talentoso humorista que no domingo passado lotou o Vivo Rio, uma das maiores casas de espetáculos do Rio de Janeiro, fazendo um show solo. Contou com a divulgação de suas mídias sociais (basicamente YouTube e Instagram). Ele não tem contrato com a Vênus Platinada, ele não ganhou um milhão de reais investindo em ações, não participou de nenhum reality show. Não é filho do Chico Anysio nem afilhado do Jô Soares, nem faz parte de um grupo de cassetas ou de portas. Ele faz stand up, um gênero bem popular nos EUA mas sem tradição aqui; Yuri segurou uma plateia de 2 mil pessoas durante mais de hora e meia só com o microfone e um banquinho, apenas. Sem apelação, sem comédia física (que também tem seu valor e lugar), sem se fixar em estereótipos. Ah, a propósito: criado em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro,  ele é de origem pobre e, advinha? negro. Fala sobre racismo e relações raciais como ninguém antes falou no entretenimento brasileiro. Reuniu num domingo de fim de mês (quem sabe o que isso representa vai entender a referência) centenas de pessoas – a grande maioria de negras e negros – ansiosos por diversão mas também por afirmação, identificação, celebração e pertencimento. Foi lindo de ver, foi emocionante de participar, foi histórico.

Não deu no jornal, não saiu no portal, mas eu estava lá e vim aqui contar pra vocês.

De nada.

Yuri, Ícaro e D. Márcia Marçal

#FogonosRacistas

Helê

PAREM DE MATAR OS PRETOS!

O Estado não tem passe livre para matar nenhuma pessoa (ainda que suspeita de cometer um ato ilícito). Portanto, La Otra tem toda a razão e o direito de também exigir não tornar uma vítima da violência policial-militar.

Eu, quando digo parem de nos matar, evidentemente estou falando como uma mulher negra de origem classe média baixa, alguém mais suscetível à violência institucional e mais imune às raras políticas compensatórias estatais. 

Olhem para Evaldo dos Santos Rosa, fuzilado pelo exército, numa rua de Guadalupe. Olhe para rua e os que fazem parte da cena, entre familiares, passantes e curiosos. Você imagina a vítima com um sobrenome Werner, de pele clara e cabeleira loura, e o trânsito interrompido numa esquina do Leblon? E não uma, mas OITENTA balas perdidas?

Ou a gente discute racismo ou ele matará todos nós, de um jeito ou de outro.

Helê

 

Coisa mais negra

Eu reconheço a importância do audiovisual para a sociedade, tanto do ponto de vista cultural, simbólico, quanto econômico. Sei também que outros já sacaram isso muito antes de nós e trataram de dominar o mercado e sufocar indústrias que pudessem remotamente ameaçar seu poderio (malditos ianques). Com isso em mente, segue aqui uma crítica e uma sugestão:

  • Não dá, em 2019, pra escolher um elenco em que predomina gente bonita, pessoal. Isso simplesmente non ecziste, é irreal , a vida não é assim nem em Ipanema. Eu sei, já fui lá. Tem gente feia até em Paris, a cidade mais linda do mundo. Quando eu começo a ver filme, série, novela e começa a aparecer esse monte de rostinho global já vai me dando um desinteresse …no mínimo, perde a credibilidade, porque, como já disse, não encontra amparo na realidade.
  • Aproveitando a popularização das discussões sobre descolonização do pensamento e afins: quem é que vai contar a história da música brasileira tendo o samba como protagonista e não como um coadjuvante que dá “molho”, “ritmo”, “gingado” à MPB? No conto das três raças da música — que no caso só tem duas — tem uma MPB feita em algum lugar, oficial, cheirosa, penteada, bem-vestida, branca mas meio insossa, que encontra com o samba, suado, mal-vestido, alegre, envolvente e preto, e volta mais interessante. Mas ele, o samba, fica lá, e a dona MPB volta melhorada. Sério, gente, em 2019?! Depois do desfile da Mangueira desse ano alguém ainda tem coragem de contar essa história? Bem, eu não tenho interesse em ouvir, eu quero saber quem vai contar, de preferência na tela, a história da música brasileira contada pela perspectiva do seu protagonista desde sempre, o povo negro, a Música Preta Brasileira, como chama Sandra de Sá, uma de suas rainhas. Certamente que será uma história riquíssima e abrangente, na qual não serão omitidas participações especiais de brancos incríveis como Noel Rosa, Tom Jobim, Chico Buarque e suas enormes contribuições.

Ilustração de Marcos Arthur 

Helê

 

Papo de Fridas

Outro dia nosotras nos encontramos, com um petit comité de amigos/as-leitores/as na casa da Monix sob o pretexto de (não) assistir um filme enquanto bebíamos e conversávamos sobre outras coisas. Como o objetivo de beber e conversar era mais premente que o de assistir um filme, escolhemos um que já praticamente sabemos de cor: Harry e Sally – Feitos um para o Outro (que inclusive já assistimos juntas). Para brindar o primeiro encontro do ano, nada como um bom confort movie.

Mas você já sabe que quando as Fridas se encontram nada nunca é só o que era pra ser. A gente adora complicar e botar caraminholas nas nossas próprias cabeças. Então, uns dias depois, tivemos mais ou menos a conversa abaixo por WhatsApp (que aqui segue editada e ampliada, que nós somos dessas). Foi, em suma, um papo sem compromisso, bem pingue-pongue mesmo, mas que rendeu um bom fio de pensamento e que quisemos dividir com vocês.

Helê: Fiquei pensando depois que não tem um casal negro naquelas entrevistas de Harry e Sally.
Monix: Verdade. Outro dia eu Estava revendo Friends e pensei a mesma coisa, não tem personagens negros na série inteira.
Helê: Pensando bem, preto, no filme (Harry e Sally), só garçom, staff em geral. E aí eu fiquei pensando que ficou tão ok falar mal do politicamente correto, mas isso hoje não aconteceria.
Monix: Sem dúvida
Helê: [A maior presença de negros nos elencos] tem a ver com um ativismo maior? Sim. Mas com o politicamente correto também. E o que veio primeiro, quem puxou quem?
Monix: Acho inclusive que tem algum tipo de regulação nos EUA (não sei se governo ou autorregulação) que exige diversidade nos elencos. #pesquisar [A pesquisa não nos trouxe conclusões definitivas, mas este artigo leva a crer que não há regras nesse sentido, apenas uma discussão bastante rica e ainda em curso sobre a passagem do colorblind para o color-conscious.]
Monix: Representation matters !
Helê: Sim. Dá uma tristezinha admitir isso porque a gente ama o filme, né?
Monix: Mas não acho que isso diminua o valor do filme. Era o contexto da época.
Helê: Não, mas é como admitir defeito em amigo
Monix: Não dá pra julgar uma obra de 30 (?!) anos atrás com o raciocínio de hoje. A não ser coisas escandalosas, tipo o filme do Griffith que defendia a Ku Klux Klan. [O filme é O Nascimento de uma Nação.]
Helê: Entendo. Claro que eu não posso cobrar feminismo do Mario Lago e a sua Amélia. Mas como a gente gosta muito, preferia não tivesse esse defeito de cor, hahaha!
Monix: Hahahah verdade. Aliás, ótimo exemplo esse da Amélia.
Monix: Nem contei do problema que foi assistir 7 Noivas para 7 Irmãos no telão com o Fridinho. Ele ficou incomodadíssimo com o rapto.
Helê: Caramba! Nunca tínhamos visto desse jeito! Cárcere privado.
Monix: Lá pelas tantas ele disse que se no final as moças casassem com os sequestradores, ia ficar muito p*to. Quase mandei ele dormir 😬

E vocês, o que acham? Como assistir obras de arte criadas em outros contextos, com tudo o que sabemos hoje? Dá pra gostar, levar em consideração o contexto, ou fica difícil? Dividam seus pensamentos com a gente. A discussão é boa.

Las Dos Fridas

Dia da Consciência Negra

“Suportar é a lei da minha raça, tá ligado?”
Lázaro Ramos e Wagner Moura em Ó paí, ó, de Monique Gardenberg (2007).

Helê

%d bloggers like this: