OJ Simpson – para entender os EUA

I think that you find among black people a incredible amount of forgiviness for anybody living to the pain of being black in America”.

Walter Mosley, escritor, no documentário OJ made in America

OJ Simpson foi uma leve obsessão da qual só o carnaval me libertou. Volta e meia tenho uma, quando algo me arrebata por mais tempo que o esperado (a série Downton Abbey, a canção Elephant Gun, os livros da Ferrante). Na rotação acelerada dos dias que correm minha timeline já gritou “Next!” e nem fala mais nisso, mas ainda tenho uma ou duas coisas a dizer. Afinal, depois de dez episódios da série “People vs OJ Simpson” e das cinco partes de mais ou menos hora e meia do documentário “OJ Made in América”*,  ‘obsessão leve’ talvez tenha sido um eufemismo.

Eu me lembro muito bem do caso porque na época eu já trabalhava com relações raciais. Eram meus primeiros anos no Centro de Estudos Afro-Asiáticos, e eu editava junto com a Márcia Lima (beijo, Marcinha!) um clipping chamado Questões de Raça. Lembro da capa da revista Time, que empreteceu o Simpson, uma manipulação grosseira que gerou tamanho rebuliço que ecoou aqui. Na ficção esse episódio aparece rapidamente, no documentário nem isso, mas não porque tenha sido uma polêmica pequena. É que foram muitas e tantas que algumas, mesmo relevantes, não couberam nas narrativas posteriores. Além de um compêndio sobre relações raciais nos EUA, o julgamento de Simpson rende longos debates sobre sexismo, espetacularização da mídia, culto à celebridade, sistema jurídico americano, para citar alguns tópicos apenas.

Atualmente, na era da pós-verdade e do RIPjornalismo, é interessante comparar a série e o documentário e perceber a distinção entre ficção e informação. A série, mesmo fidedigna, é uma peça de entretenimento. Por isso cede espaço para tramas como um suposto caso entre os promotores Márcia Clark e Chris Darden. Isso não desmerece a série, apenas a difere do documentário . “OJ made in America” já enuncia no título a ambição de explicar as complexidades em torno do caso para além do julgamento, começando muito antes e terminando bem depois. Um trabalho de fôlego, em que o excesso de fontes e material deve ter sido mais um complicador que um facilitador.

O corte temporal distingue bastante os dois produtos: a série se concentra no crime e no julgamento enquanto o documentário vai e volta no tempo, mostrando de que maneira foi forjado esse herói americano, como ele foi reconhecido e aceito por todos enquanto personificou o negro excepcional e bem comportado – quase branco. E como, depois de acusado e rejeitado, foi resgatado pelos negros, um bode expiatório às avessas, cuja absolvição simbolizou uma revanche contra a sociedade e, particularmente, a polícia de Los Angeles.

Diante do enorme desafio de reencenar um dos acontecimentos mais registrados na história dos meios de comunicação, a série tem acertos e (em menor quantidade) falhas. John Travolta  errou na mão, fazendo uma caricatura exagerada do Shapiro que incomodou tanto quanto as falsas sobrancelhas. Já o David Shwimmer (aka Ross) conseguiu o improvável : me fez simpatizar com um Kardashian. Mais que isso: eu fiquei com pena dele porque  ele é o cara que chega dando voadora quando o amigo tá brigando, sem nem querer saber o motivo. E aos poucos conclui que o amigo foi desonesto com ele. O grande e imperdoável miscasting é Cuba Gooding Jr. – e não pelo talento, que eu até acho que ele tem. Mas lhe falta a beleza do Simpson, um  atributo fundamental para entender o personagem. Nos anos 60/70, OJ era um homem lindo, e a beleza tem superpoderes:  nos ilude, encanta e cega.

Além de belo, Simpson era carismático, simpático, charmoso e um atleta excepcional, com conquistas admiráveis.  Para nós, brasileiros, é difícil não pensar nele como culpado porque nunca tínhamos ouvido falar dele antes do processo criminal; ele já nos foi apresentado como um suspeito de assassinato, em fuga, com histórico de violência doméstica. Nada disso foge à verdade, mas ganha contornos diversos quando sabemos que ele era muito mais que isso, antes. Tinha o pacote completo, um conjunto de habilidades que fizeram dele um ícone por 20, 30 anos.

Paralelamente à trajetória do ex-jogador, “OJ made in America”  traça o histórico da relação sempre tensa e brutal entre a polícia de LA e os negros, em que Rodney King foi apenas mais um absurdo. Mostra como a população negra ocupou a cidade sem nunca ter sido por ela acolhida; lembra de outros atletas negros, como Muhhamad Ali que arriscaram suas carreiras em defesa dos direitos civis, enquanto OJ enriquecia mantendo distância de questões políticas e raciais. E, no entanto, foi a raça que o absolveu: o racismo atávico da polícia, que humilhou, condenou  e eliminou muitos negros antes dele provocou dúvidas razoáveis em uma condenação que parecia simples. Essa ironia amarga dividiu a América – e divide até hoje: pesquisa feita no ano passado atesta que ainda hoje negros e brancos divergem sobre a inocência do ex-jogador. O documentário, primoroso,  justifica cada um dos seus muitos minutos: ouve muitas pessoas, de diferentes opiniões e filiações, investiga diversas possibilidades, não recua nem busca saídas fáceis. A série é bacana, mas o documentário é uma oportunidade rara , se não de compreender, mas de conhecer melhor as entranhas de uma sociedade que muito nos influencia, fascina e intriga.

Ezra Edelman, diretor do documentário vencedor do Oscar

Helê

*”OJ made in America está sendo exibindo pela ESPN aos domingos, às 20h.

Obama out*

giphy

Escrevi sobre Barack Obama várias vezes aqui; também minha sócia comentou sobre esse presidente que primeiro capturou nossa atenção e, depois, conquistou nossa definitiva admiração. Por causa dele minha filha revelou seu feminismo precoce e autodidata; encontrei paralelos entre a trajetória dele e a minha, e não resisti a publicar Obama’s  pictures, série de posts com imagens de  uma coleção mais ampla. Ainda assim, hoje penso que foi pouco, que poderia ter falado mais ou melhor sobre seu imenso carisma e a sua natural habilidade midiática, bem aproveitada por um competente time de comunicação. Falo então agora, a pretexto de despedida e homenagem.

O fato de ser o presidente dos Estados Unidos ao mesmo tempo nos fascina e afasta, porque ele tem todos ou muitos dos vícios desses vizinhos que sentem senhorios do mundo, os donos da bola. Mas Obama não será lembrado por aquilo que o iguala aos seus antecessores, e sim pelo que o distingue – para além da cor da pele, mas também por causa dela.

Sentirei falta desse homem cuja figura e postura produziram efeitos tão impactantes  (ou mais) que suas palavras. Mesmo seus opositores não são imunes a sua imagem equilibrada, confiante e classuda. Sua elegância inegável e perene ultrapassa o vestuário ou as atitudes: tornou-se um jeito de estar no mundo, um modo Obama de ocupar os espaços conquistados, sem pretensão ou arrogância, mas com propriedade e segurança. E isso, mes amis, não é pouco; é para poucos.

14b782ce723ea0da0c18914e993fa4bfObserve  que na maioria dos registros do presidente – com a família, com crianças, em cerimônias ou pronunciamentos – ele está à vontade. Aparece quase sempre ereto, mas não rígido; flexível sem ser desajeitado; sensível mas nunca afetado. Obama parece confortable in his own skin – em sua black skin, é bom que se diga. Quantos de nós podem se sentir assim, independente de idade, peso, cor, gênero? E quem de nós, negras e negros, estando onde não nos esperam encontrar, consegue ficar realmente à vontade? As fotos carregam uma mensagem subliminar poderosa: Barack Obama mostrou não apenas que um negro pode ocupar cargos de importância e destaque, mas pode fazê-lo com a mais absoluta desenvoltura e naturalidade.

Se eu, sob tortura em Guantánamo, fosse obrigada a escolher apenas uma das memoráveis fotos de sua passagem pela Casa Branca, seria uma tirada ainda no início do primeiro mandato, ele e o menino no salão oval:

enhanced-32747-1446483241-7

Essa imagem ao mesmo tempo forte e amorosa, transgressora em so many levels, ainda me impressiona: o homem mais velho que se curva diante do erê; o poderoso capaz de se deixar tocar, e logo na cabeça (coroada). O menino não acredita que o chefe da nação seja tão parecido ele;  pergunta então se os penteados são iguais e Obama oferece o cabelo, esse forte signo da negritude (e também vetor do preconceito). Só estando muito confortável com sua própria posição você pode subverter a ordem e desprezar a liturgia do cargo sem perder a compostura. Acho que foi a partir desse momento que eu me rendi ao moço  – assim como ao talento do Pete Souza, fotógrafo capaz de tornar irresistível um trabalho chapa branca que tinha tudo para ser apenas burocrático**.

3204ce313273efa9e82f1303cdcfd940Mas há ainda um ensinamento que aprendi com Obama, fruto de outro ganho simbólico a destacar dos Obama’s years, que é a relação dele com a esposa. Como já disse antes aqui, enaltecer a família e seus valores está no capítulo 1 do livro da política, mas Obama foi além: enalteceu o casal, valorizando a parceria ao mesmo tempo em que dava espaço para a brilhante personalidade de sua mulher. Não perdeu oportunidade de reconhecer e homenagear a inteligência e habilidades de Michelle, e nem de declarar seu amor. No discurso de despedida em Chicago, na semana passada, ele a chama pelo nome completo, para depois identificá-la carinhosamente como “the girl from the south side”, numa referência ao início do namoro, ocorrido naquela cidade. É um momento terno, bacana, mas o mais eloquente aconteceu segundos antes: quando ele fala “Michelle” e olha para ela. Pronto, já está tudo dito. Ela sorri, visivelmente emocionada; ele faz uma pausa, enxuga uma lágrima, igualmente emocionado, e o público explode em ovação (aqui o vídeo). Eu, daqui, com um cisco no olho,  aprendi a lição: namore alguém que te olhe como o Obama olha pra Michelle.

Helê

*Esse artigo, em inglês, explica o significado por trás do gesto divertido de Obama, o drop the mic no último jantar com os correspondentes estrangeiros.

**Neste link você pode ver a seleção anual de fotos feita por Souza.

What’s wrong with being confident?

tumblr_o4b8ukEzSE1tiaa92o4_500

(Via Evolution of a Queen)

O título é de uma canção da Demi Lovato – porque o pop também pode ensinar valiosas lições.

Helê

Escárnio

Eu não estou dando conta, gente. Tudo o que sei sobre o assassinato de cinco jovens negros e pobres, na tarde de sábado no Rio de Janeiro, sem nenhum motivo, foi em segunda mão, porque eu não aguento ler ou assistir a nada sobre o assunto sem me sentir numa queda vertiginosa num lugar onde só há dor e espanto. Falando com minha filha ontem, caí no choro na segunda frase, eu não consegui. Cinco rapazes negros assassinados na Avenida Martin Luther King. Cento e onze tiros, como 111 foram os mortos na chacina do Carandiru (“quase todos pretos, ou quase brancos – ninguém é cidadão”). Caiu em desuso a expressão ironia do destino: o que temos aqui é deboche, o escárnio do destino brasileiro, que repete seus horrores, com requintes de crueldade. Aterrador viver em um lugar onde cinco garotos são abatidos pela polícia e a família precisa explicar que eles não fizeram nada de errado. A mesma polícia que matou com um tiro de fuzil na cabeça um menino de 10 anos, cujos envolvidos não foram sequer indiciados porque o inquérito concluiu que agiram em legítima defesa. Polícia chefiada por um governador que declara que vai cobrar apuração dos fatos, quando ele deveria ir à Costa Barros e pedir desculpas à família e à comunidade, como fazem governantes que tem o mínimo de dignidade. Eu não dou e não quero dar conta disso, gente.

17797830

(Christophe Simon/AFP)

 

Helê

♥ Viola

 

Pode me chamar de Viola Davis“, eu disse aqui neste blogue, no post sobre o Oscar deste ano.  Lembrei disso ontem com um orgulho danado depois de assistir a esse vídeo que me comoveu até a raiz dos cabelos. Um discurso absolutamente irretocável, desde o olhar dela para a plateia antes de falar até os aplausos emocionados das sisters ao final. Difícil destacar um trecho; fosse um livro meu seria um grande parágrafo sublinhado com exclamações nas margens. Ele é perfeito inclusive como peça de comunicação: tem a duração ideal, começa de maneira inesperada, possui a medida certa de emoção e racionalidade. Para ver e rever muitas vezes. Viola me represeta.

Helê

PS: Esse post inaugura a categoria “I’m black and I’m proud’, que reúne os textos que tratam de relações raciais, racismo e afins. Já falamos sobre o tema muitas vezes aqui, mas só agora tive essa inspiração de utilizar a canção de Mr. Dynamite para nomear a categoria.

A imperatriz do blues

generic-bio-15-1024

Vendo o John Gostoso Legend naTV dia desses pensei que, se não conseguir o papel de lead singer na próxima encadernação, eu poderia ser bem feliz fazendo backing vocals. Ser uma daquelas mulheres charmosas e afinadérrimas, num vestido lindo e sexy, cantando horrores e fazendo coreografias discretas porém notáveis. Se ainda por cima tivesse aquele momento solo, em que o astro me convidaria a brilhar um bocadinho, uau, estaria realizada. Na sequência desse pensamento uma vozinha (ego, super ego, baixo ego, you name it) me soprou que era eu de novo fazendo por menos. Mas viver de música, rodeada por e parte dela não me parece pouco sob nenhum ângulo.

10BESSIE3-articleLarge

Aí ontem eu assisti “Bessie”, na HBO, e, man, eu quis ser a Bessie Smith! Nada de backing, quero ali, na beirada do palco, soltando o vozeirão e vendo os efeitos na platéia extasiada. Que mulher f*da, que história! E que filme bem-feito, com um elenco impecável, reconstituição de época primorosa. E o figurino? Os vestidos, Geide, o estilo melindrosa, Sócia! Ao narrar a singular trajetória dessa pioneira super star negra, bissexual , independente, destemida  e bem-sucedida o filme oferece também uma panorâmica dos Estados Unidos no início do século passado, as relações e tensões raciais, a depressão econômica , tudo ao som de impecável trilha sonora. Não deixe de ver, se tiver oportunidade. Ainda não sei What happened, Miss Simone? – o comentado documentário da Netflix–, mas antes ou depois você precisa saber quem foi Bessie Smith.

Helê

b9dde661c6467e74210f47c0afd99805

Se depois de assistir, você ficar curioso como eu, veja  esta mini bio num site que me pareceu honesto.

Neste link você confronta o filme com fatos reais (ideia que tenho há anos e alguém colocou em prática).

Domingo no Harlem

Visitar o Harlem era para mim tão óbvio quanto ver a Estátua da Liberdade ou correr no Central Park.  Na verdade, estranhei que entre as muitas sugestões que recebi poucas fizessem referência ao bairro. Tenho um fascínio reverencial por esse lugar mítico, o bairro negro do Teatro Apollo, de Malcom X, dos filmes e dos cultos evangélicos com a melhor música ever. Admito e aviso: sei menos do que sinto; tenho mais percepções e intuições do que conhecimento cabal da história negra americana. Mas todo o debate sobre relações raciais no Brasil me parece diretamente influenciado pelas figuras e correntes americanas – Dr. King, movimento de direitos civis, Rosa Parks, Panteras Negras, Angela Davis, Black Power, Rap. As tramas e trilhas da minha negritude passam por muitos caminhos, entre eles os EUA, Nova York, Harlem. Um destino natural para qualquer um que queira vislumbrar uma parte importante da cultura americana. Eu tinha que ir ao Harlem como um muçulmano precisa ir à Meca ao menos uma vez na vida: peregrinar e “bater cabeça” para reverenciar uma história que me toca, e por isso também me pertence. Naquele lugar a palavra ‘diáspora’ finalmente assumiu um sentido familiar para mim.

Essas explicações e justificativas sociopolíticas consigo fazer agora, semanas depois, na carpintaria do texto. Não pensava em nada disso naquele domingo em que acordei cedo e escolhi a roupa adequada para ir ao culto, cuidando também para chegar cedo e pegar o serviço desde o começo. Para quem não sabe, algumas igrejas reservam uma parte dos assentos para visitantes, assegurando assim lugar para os membros da congregação. Isso gera filas nas igrejas mais disputadas, e não raro algum desentendimento porque há quem tenha muita dificuldade em entender por que, for Christ’s sake, não pode assistir a um culto de bermuda. Ou por que tem que esperar numa fila enquanto outros se acomodam sem dificuldade. Achando que jamais deixaria de ser o que de fato era, uma turista, tentei ser do melhor tipo: o respeitoso, atento aos códigos do lugar, como deve ser um bom visitante.

Meu primeiro desafio foi encontrar a igreja, não por falta, mas por excesso. Considerei que a Abyssinian, mais famosa, seria mais concorrida, então segui a dica imprecisa de uma amiga, que me falou de “uma na 116 St”. Foi como se ela tivesse falado de “uma barraca na praia”: são inúmeras as igrejas, algumas coladas umas nas outras. A longa fila da Canaan Baptist Church of Christ me fez decidir por ela. Então eu, que tenho vergonha passar a frente até quando meu nome está na porta, respirei fundo e apenas entrei. Haviam me dito que eu simplesmente entrasse por onde entravam as pessoas da comunidade, já que, sendo negra, ninguém saberia que eu era uma forasteira. Passar a frente de todos aqueles brancos, ter preferência sobre eles foi algo novo e um tanto desconcertante.

Dentro da igreja, apurei ao máximo meu inglês, tentando não perder nada e fazer o esperado, seguindo a liturgia. Como eu imaginava, o culto é dinâmico, vibrante, sem monotonia. Há movimentação constante dos integrantes do coral, que entram e saem algumas vezes; havia vários oradores e logo descobri que aquele era um dia especial, o 82º aniversário da congregação. Exatamente como vi nos filmes, as pessoas dizem “Amem!” e “Aleluia!” quando concordam ou enfatizam algo que foi dito. Todos muito bem vestidos, predominando o vermelho e o preto, que pareciam ser as cores da congregação (ô sorte!). Um dos pastores, especialmente querido pela audiência, fez muitas piadas e numa parte do sermão, pude entender bem, fez referência a dons especiais citando apenas personalidades negras: “Claro que não posso cantar como Beyoncé, não posso jogar tênis como Serena, não posso fazer rap como Jay Z”. A música está presente o tempo todo, mesmo uma fala breve do pastor é sublinhada por um órgão suave ao fundo. Meus olhos encheram d’água com o coro, que esbanjava talento e fervor: vozes  incríveis, afinação impecável. Se Nietzsche não acredita em um Deus que não dança, no Harlem um que não canta está fora de questão.

Tive a impressão de que quase todos se conheciam, pela maneira amistosa com que se tratavam – como de costume em comunidades religiosas.  O que me impressionou foi a maneira como eu fui tratada. Nunca na minha vida fui tão bem recebida em um lugar em que eu era uma estranha. Sem nenhum exagero, fui cumprimentada (e cumprimentei) quase todas as pessoas com quem fiz contato visual. As saudações variavam desde um simples menear de cabeça, um leve sorriso, até um “Como vai você?” e “Bom dia!” – assim mesmo, com exclamação. Uma senhora mais animada fez tudo isso e ainda me tascou um abraço; outra passou por mim e comentou: “Love your hair!”. Conclui que não apenas tinha conseguido me misturar, mas estava sendo confundida com alguém. Até o momento em que foi pedido para que os visitantes levantassem para serem abençoados. Pensei: “Pronto, é agora, vou ser desmascarada”. Quando levantei, o senhor ao meu lado, que já havia me saudado cordialmente, perguntou se eu era mesmo visitante, como se quisesse conferir se eu tinha entendido. Confirmei quase me desculpando, e ele, em reposta, quis saber de onde eu era, até quando ficaria, se a viagem estava indo bem. Ao se despedir renovou os votos de uma boa viagem e retorno breve. No fim do culto, imitando os fiéis, fui cumprimentar os pastores e, para a minha total surpresa, um deles e três ou quatro pessoas no caminho me desejaram uma boa viagem. Não era um lugar propriamente pequeno; achei que passaria despercebida e no entanto as pessoas me notaram e me acolheram: também havia um lugar para mim naquela celebração.

Minha mente hiperativa e descrente insiste em encontrar atenuantes para minha empolgação e esse inesperado sentimento de pertencimento. Era uma data festiva, eu estava predisposta a participar e meu inglês deve ter me poupado de partes chatas. Não consigo evitar pensar que num grupo tão coeso há muito controle, como em qualquer grupo, sobretudo os religiosos. E provavelmente se crescesse ali, obrigada a dedicar todas as manhãs de domingo a louvar o Senhor eu acharia tudo muito menos interessante. Mas essas considerações perdem relevância diante das lembranças marcantes daquele domingo.  Além da música incrível, a beleza do culto repousa também na interação entre os membros e no ambiente amoroso ali estabelecido. Naquela igreja, em que vivi o sentido literal da palavra congregação, não me senti uma turista: fui recebida como uma sister, sem ter me esforçado para isso. Pensei em muitos amigos que eu gostaria que vivessem essa experiência e em outros que jamais poderão. Saí de lá não convertida, mas comovida, certamente abençoada; caminhei pelas ruas largas do Harlem descortinando sua história, observando as pessoas, sentindo suas vibrações. Com um profundo sentimento de gratidão pela oportunidade de estar ali. Amem!.

2014-05-18 14.03.49   2014-05-18 15.21.072014-05-18 14.17.52

Helê

%d bloggers like this: