Representatividade

(Because of  them we can; photo credit: Ben Hines; cc: mom, @_jessisee )

Todos negros 😉

Helê

PS: Michelle fez o quê? Foi conhecer a menina.

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A Pantera é negra

Demorei a escrever sobre o filme Pantera Negra porque queria que meus amigos vissem sem muita expectativa, mais ou menos como cheguei ao cinema junto com minha filha. A esta altura do campeonato acho que todo mundo já viu. E da arte de fazer amigos e influenciar pessoas eu sei um pouco só da primeira parte. Também queria escrever algo, se não tão bacana quanto o filme, pelo menos digno de Wakanda. Vou tentar.

Pantera Negra começou a me encantar, antes de tudo, pela beleza – que eu sou militante pela igualdade racial, feminista e tal e coisa, mas sou também libriana: estética me arrebata, e a do filme é absolutamente estonteante. E me pareceu construída a partir de diferentes referências, texturas e padrões africanos, uma representação diversificada de um continente idem, ao contrário do que acredita o senso comum. (Impressão confirmada em várias matérias, como esta do Buzzfeed e este vídeo do NYT)

Também chamou atenção e agradou de cara o inglês não americano dos personagens. Pode parecer um detalhe, mas faz toda a diferença para tornar verossímil aquela fantasia exuberante que matém um pé na vida real. Percebo agora, ao escrever, que o filme conquistou meus sentidos antes que meu coração e mente (que se renderiam pouco depois). Um bom começo, já que é o que se procura no cinema, ser levado pelos sentidos para outras realidades.

O filme do jovem diretor Ryan Coogler tem tudo o que se espera de um filme do gênero: cenas de ação e luta, efeitos tecnológicos, queda e redenção, sem esquecer algum sentimentalismo. Mas tudo feito de uma maneira competentíssima e bem dosada – além de linda, como eu já disse. E escapa, sempre que pode, das obviedades: estão lá as mulheres empoderadíssimas, tanto e tão imprescindíveis à trama que nem precisam ser protagonistas. E, como disse uma espectadora sagaz, elas não são fortes porque sofreram, porque precisaram superar obstáculos etc., elas são fortes apenas porque são.

Pantera tem outras sutilezas, além do sotaque dos personagens, que contribuem para o acerto do filme, várias pequenas subversões cativantes: um herói que “congela” diante da mulher que ama, um vilão que, quando morre, a gente lamenta, porque era divertidíssimo; um branco que até ajuda mas não salva a pátria nem mocinha alguma; inimigos que acolhem, amigos que fazem escolhas equivocadas. O roteiro desvia de muitas cascas de banana em que podia tombar feio, seja escorregando na militância panfletária ou caindo nas soluções pré-fabricadas de filme-pop-de-HQ – dos quais, afinal, ninguém espera mais do que diversão. Mas Pantera Negra entrega mais, diverte com inteligência e humor. E entretém de fato: passei duas horas na sala escura sem lembrar de boletos e demais aporrinhações.

Para mim, a maior ousadia do filme foi colocar na boca do antagonista a fala mais contundente: uma referência aos antepassados que preferiram a morte ao cativeiro. Forte, comovente e carregada de significados, o mais evidente deles a existência de múltiplas formas de resistência e de ser negro.

Ah, sim, eu mencionei que o elenco é composto de 90% de atores negros, assim como o diretor? Não? Pois o filme também não alardeia sua negritude: ela está lá, plena como deveria, majoritária como nunca, provocando variados efeitos na audiência, difíceis de mensurar mas indeléveis (tipo Obama na presidência). Sendo negra, o filme tem para mim valor e importância únicos, que a plateia branca pode (e deve) imaginar a extensão. Eu o vejo de outro lugar – como no culto da igreja no Harlem, onde nós ficamos em assentos diferentes (e melhores que) os dos turistas.

Eu chorei ao final de Pantera Negra pelo conjunto da obra, por estar vendo ao lado da minha filha, pelo que ele representa ou pode representar para as novas gerações, e por ter esperado quase 50 anos para ver um filme assim.

Helê

Festa na favela ou A alegria de ser (rubro) negro  

Há tempos quero escrever sobre isso, mas não achava o timing certo. Não podia ser depois de  um título, goleada ou vexame; tinha que ser num momento em que o Flamengo não estivesse nem rondando as últimas posições da tabela nem no G4. Status raro para um clube que não sabe viver sem sobressaltos, e passa de favorito a condenado em uma rodada. Minha amiga Ângela inclusive instituiu a expressão “Crise na Gávea” para os momentos tensos da vida cotidiana, porque carrega a dose exata de drama e gravidade.

Mas o que quero contar aqui tem a ver com o Flamengo, mas não só; relaciona-se com o futebol, mas não apenas; é ainda mais importante que essas entidades excepcionais. Falo do nascimento, ou seria melhor dizer, da construção da minha identidade flamenguista – ou deveria dizer minha nacionalidade rubro-negra. De cara eu devo dizer foi uma escolha, das primeiras que fiz na vida e, provavelmente, uma das mais determinantes. Eu decidi ser Flamengo.

Final dos anos 70, começo dos 80, eu cursava o primário (o atual fundamental), na escola Debret, em Vila Valqueire. Na minha família ninguém era muito ligado em futebol, só descobri o time dos meus pais quando perguntei. Mas naquela época não era possível ficar alheia ao esporte; soube logo que o Flamengo tinha um timaço, se não me engano havia ganhado um tricampeonato. Lembro-me do Zico, no início do que viria a ser sua canonização, e de outros craques como Adílio e Júnior. Comecei a dizer que torcia pelo time, comecei a ser Flamengo. E nas acaloradas e fundamentadas discussões que temos aos 10 anos de idade, os adversários debocharam de mim dizendo que o Flamengo é time de favelado, de preto, de pobre – isso numa escola pública do subúrbio, onde a maioria poderia se enquadrar nessa classificação.

Lembro com uma clareza assustadora e surpreendente de ter refletido sobre aquelas acusações. Eu não gostei de ser chamada de favelada –  talvez apenas porque não fosse, não tenho certeza. Preta e pobre eu era mesmo; por que então aquilo era um xingamento? Não fazia sentido. E, mais importante, o Flamengo era campeão e, naquele momento, o melhor time do Rio de Janeiro. Então, talvez, ser preto, pobre (e até favelado) só fosse um xingamento por despeito de quem não podia ser tão bom quanto nós. E ainda tinha esse “nós”: estar entre os melhores vinha com um sentido de coletividade e pertencimento, eu não estava só porque, afinal, o Flamengo é uma nação. Aos 10 anos fiz, sozinha, minha primeira desconstrução, desmontando o que me jogaram como ofensa e costurando como elogio – o que é o exercício 1 do primeiro livro de como ser negro nesse país (talvez no mundo). É sobre isso o orgulho negro que alguns têm tanta dificuldade (e/ou má vontade) de entender.

Voltando para a infância: depois dessa elucubração solitária, na primeira disputa em que a filiação clubista entrou em questão e que me acusaram de ser de um time de preto, pobre e favelado, eu devolvi cheia de propriedade e autoafirmação (embora desconhecesse essas palavras) e com a mão nas cadeiras: “E daí?!” Tá, eu reconheço que não fui muito eloquente, mas foi uma libertação, talvez a primeira de muitas. E por isso eu tenho com meu clube uma relação especial, profunda, e uma enorme gratidão. Porque foi aquele time vencedor,  e aquela torcida apaixonada e enlouquecida – que chegou até mim sem que houvesse uma figura dedicada a me converter, mas que me influenciou com sua força magnética – que concederam minha primeira identidade. Ser Flamengo, para mim, está intimamente ligado a ser negra e de origem pobre, e foi o Flamengo quem primeiro me ensinou a ter orgulho disso. Só por isso não perco a oportunidade de cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro negra.

 

Helê

Na minha pele 

Fiquei esperando pelo livro do Lázaro Ramos na fila, por assim dizer; ansiosa, procurei antes de chegar às livrarias e comprei na semana de lançamento. Gosto dele, acho um excelente ator, um entrevistador responsável, dedicado; gosto de sua postura serena, firme e ao mesmo tempo relaxada, de seu humor. Era o que esperava encontrar em “Na minha pele”, uma perspectiva ao mesmo tempo séria e leve  —  coisas que, em geral, não encontro nas leituras sobre raça, sempre necessárias mas em geral pesadas e dolorosas.  Evidentemente, também há dor na trajetória de Lázaro – nunca conheci um entre nós negros que dela tenha escapado. Mas na narrativa de Lazinho sobressaem a doçura, a ausência de ressentimento, a franqueza; há também leveza e humor. É um livro honesto, de alguém que pergunta junto com o leitor,  ri de si mesmo, e não traz verdades, pelo contrário: desconfia delas. O estilo não se destaca nem compromete, mas essa nunca foi sua preocupação, ele esclarece desde o início. Buscava expor o que, em sua trajetória, poderia ser útil para o leitor, e em ‘útil’ estão contidos outros adjetivos: solidário, inspirador, provocativo. Missão cumprida, Lázaro.

Para mim, o grande mérito de “Na minha pele” é essa abordagem do racismo de um ponto de vista pessoal, íntimo – que inevitavelmente acaba reverberando no coletivo. Porque a tônica da discussão sobre o tema recai sobre a discriminação no mercado de trabalho, a coerção policial e o preterimento na escola — para citar apenas alguns efeitos em massa das desigualdades raciais no Brasil. Mas pouco se fala – ou se falava, até algum tempo –, da sensação esmagadora que sente um adolescente rejeitado, que acha que ninguém nunca vai se interessar por ele – e, principalmente,  sobre como esse adolescente enfrenta a situação. Cobramos – e cobraremos sempre – ações do Estado e da sociedade, mas é no varejo do dia a dia que o racismo mostra suas garras e aprendemos a afiar as nossas – não sem cicatrizes.   E me interessa esse viés, as ações pessoais, as resistências diárias e os rastros que deixam; o que fazemos (ou deixamos de fazer) com as sequelas da luta, muitas vezes brutal e brutalizante que negras e negros enfrentam em função de sua aparência. O depoimento de Lázaro contribui também para esse olhar privado sobre o problema, além de expor, novamente com sinceridade e destemor, de que maneira ele se move na vida considerando o racismo mas sem se deixar pautar pelos racistas.

Das variadas reflexões do livro, uma frase que não sai da minha cabeça desde que li: “afeto é potência”. Ela ainda reverbera na minha cabeça e no meu coração, semanas depois de terminada a leitura; ainda não esgotei seus significados. É o que faz um bom livro: permanece em você mesmo depois de lido.

Helê

 

Helê

OJ Simpson – para entender os EUA

I think that you find among black people a incredible amount of forgiviness for anybody living to the pain of being black in America”.

Walter Mosley, escritor, no documentário OJ made in America

OJ Simpson foi uma leve obsessão da qual só o carnaval me libertou. Volta e meia tenho uma, quando algo me arrebata por mais tempo que o esperado (a série Downton Abbey, a canção Elephant Gun, os livros da Ferrante). Na rotação acelerada dos dias que correm minha timeline já gritou “Next!” e nem fala mais nisso, mas ainda tenho uma ou duas coisas a dizer. Afinal, depois de dez episódios da série “People vs OJ Simpson” e das cinco partes de mais ou menos hora e meia do documentário “OJ Made in América”*,  ‘obsessão leve’ talvez tenha sido um eufemismo.

Eu me lembro muito bem do caso porque na época eu já trabalhava com relações raciais. Eram meus primeiros anos no Centro de Estudos Afro-Asiáticos, e eu editava junto com a Márcia Lima (beijo, Marcinha!) um clipping chamado Questões de Raça. Lembro da capa da revista Time, que empreteceu o Simpson, uma manipulação grosseira que gerou tamanho rebuliço que ecoou aqui. Na ficção esse episódio aparece rapidamente, no documentário nem isso, mas não porque tenha sido uma polêmica pequena. É que foram muitas e tantas que algumas, mesmo relevantes, não couberam nas narrativas posteriores. Além de um compêndio sobre relações raciais nos EUA, o julgamento de Simpson rende longos debates sobre sexismo, espetacularização da mídia, culto à celebridade, sistema jurídico americano, para citar alguns tópicos apenas.

Atualmente, na era da pós-verdade e do RIPjornalismo, é interessante comparar a série e o documentário e perceber a distinção entre ficção e informação. A série, mesmo fidedigna, é uma peça de entretenimento. Por isso cede espaço para tramas como um suposto caso entre os promotores Márcia Clark e Chris Darden. Isso não desmerece a série, apenas a difere do documentário . “OJ made in America” já enuncia no título a ambição de explicar as complexidades em torno do caso para além do julgamento, começando muito antes e terminando bem depois. Um trabalho de fôlego, em que o excesso de fontes e material deve ter sido mais um complicador que um facilitador.

O corte temporal distingue bastante os dois produtos: a série se concentra no crime e no julgamento enquanto o documentário vai e volta no tempo, mostrando de que maneira foi forjado esse herói americano, como ele foi reconhecido e aceito por todos enquanto personificou o negro excepcional e bem comportado – quase branco. E como, depois de acusado e rejeitado, foi resgatado pelos negros, um bode expiatório às avessas, cuja absolvição simbolizou uma revanche contra a sociedade e, particularmente, a polícia de Los Angeles.

Diante do enorme desafio de reencenar um dos acontecimentos mais registrados na história dos meios de comunicação, a série tem acertos e (em menor quantidade) falhas. John Travolta  errou na mão, fazendo uma caricatura exagerada do Shapiro que incomodou tanto quanto as falsas sobrancelhas. Já o David Shwimmer (aka Ross) conseguiu o improvável : me fez simpatizar com um Kardashian. Mais que isso: eu fiquei com pena dele porque  ele é o cara que chega dando voadora quando o amigo tá brigando, sem nem querer saber o motivo. E aos poucos conclui que o amigo foi desonesto com ele. O grande e imperdoável miscasting é Cuba Gooding Jr. – e não pelo talento, que eu até acho que ele tem. Mas lhe falta a beleza do Simpson, um  atributo fundamental para entender o personagem. Nos anos 60/70, OJ era um homem lindo, e a beleza tem superpoderes:  nos ilude, encanta e cega.

Além de belo, Simpson era carismático, simpático, charmoso e um atleta excepcional, com conquistas admiráveis.  Para nós, brasileiros, é difícil não pensar nele como culpado porque nunca tínhamos ouvido falar dele antes do processo criminal; ele já nos foi apresentado como um suspeito de assassinato, em fuga, com histórico de violência doméstica. Nada disso foge à verdade, mas ganha contornos diversos quando sabemos que ele era muito mais que isso, antes. Tinha o pacote completo, um conjunto de habilidades que fizeram dele um ícone por 20, 30 anos.

Paralelamente à trajetória do ex-jogador, “OJ made in America”  traça o histórico da relação sempre tensa e brutal entre a polícia de LA e os negros, em que Rodney King foi apenas mais um absurdo. Mostra como a população negra ocupou a cidade sem nunca ter sido por ela acolhida; lembra de outros atletas negros, como Muhhamad Ali que arriscaram suas carreiras em defesa dos direitos civis, enquanto OJ enriquecia mantendo distância de questões políticas e raciais. E, no entanto, foi a raça que o absolveu: o racismo atávico da polícia, que humilhou, condenou  e eliminou muitos negros antes dele provocou dúvidas razoáveis em uma condenação que parecia simples. Essa ironia amarga dividiu a América – e divide até hoje: pesquisa feita no ano passado atesta que ainda hoje negros e brancos divergem sobre a inocência do ex-jogador. O documentário, primoroso,  justifica cada um dos seus muitos minutos: ouve muitas pessoas, de diferentes opiniões e filiações, investiga diversas possibilidades, não recua nem busca saídas fáceis. A série é bacana, mas o documentário é uma oportunidade rara , se não de compreender, mas de conhecer melhor as entranhas de uma sociedade que muito nos influencia, fascina e intriga.

Ezra Edelman, diretor do documentário vencedor do Oscar

Helê

*”OJ made in America está sendo exibindo pela ESPN aos domingos, às 20h.

Obama out*

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Escrevi sobre Barack Obama várias vezes aqui; também minha sócia comentou sobre esse presidente que primeiro capturou nossa atenção e, depois, conquistou nossa definitiva admiração. Por causa dele minha filha revelou seu feminismo precoce e autodidata; encontrei paralelos entre a trajetória dele e a minha, e não resisti a publicar Obama’s  pictures, série de posts com imagens de  uma coleção mais ampla. Ainda assim, hoje penso que foi pouco, que poderia ter falado mais ou melhor sobre seu imenso carisma e a sua natural habilidade midiática, bem aproveitada por um competente time de comunicação. Falo então agora, a pretexto de despedida e homenagem.

O fato de ser o presidente dos Estados Unidos ao mesmo tempo nos fascina e afasta, porque ele tem todos ou muitos dos vícios desses vizinhos que sentem senhorios do mundo, os donos da bola. Mas Obama não será lembrado por aquilo que o iguala aos seus antecessores, e sim pelo que o distingue – para além da cor da pele, mas também por causa dela.

Sentirei falta desse homem cuja figura e postura produziram efeitos tão impactantes  (ou mais) que suas palavras. Mesmo seus opositores não são imunes a sua imagem equilibrada, confiante e classuda. Sua elegância inegável e perene ultrapassa o vestuário ou as atitudes: tornou-se um jeito de estar no mundo, um modo Obama de ocupar os espaços conquistados, sem pretensão ou arrogância, mas com propriedade e segurança. E isso, mes amis, não é pouco; é para poucos.

14b782ce723ea0da0c18914e993fa4bfObserve  que na maioria dos registros do presidente – com a família, com crianças, em cerimônias ou pronunciamentos – ele está à vontade. Aparece quase sempre ereto, mas não rígido; flexível sem ser desajeitado; sensível mas nunca afetado. Obama parece confortable in his own skin – em sua black skin, é bom que se diga. Quantos de nós podem se sentir assim, independente de idade, peso, cor, gênero? E quem de nós, negras e negros, estando onde não nos esperam encontrar, consegue ficar realmente à vontade? As fotos carregam uma mensagem subliminar poderosa: Barack Obama mostrou não apenas que um negro pode ocupar cargos de importância e destaque, mas pode fazê-lo com a mais absoluta desenvoltura e naturalidade.

Se eu, sob tortura em Guantánamo, fosse obrigada a escolher apenas uma das memoráveis fotos de sua passagem pela Casa Branca, seria uma tirada ainda no início do primeiro mandato, ele e o menino no salão oval:

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Essa imagem ao mesmo tempo forte e amorosa, transgressora em so many levels, ainda me impressiona: o homem mais velho que se curva diante do erê; o poderoso capaz de se deixar tocar, e logo na cabeça (coroada). O menino não acredita que o chefe da nação seja tão parecido ele;  pergunta então se os penteados são iguais e Obama oferece o cabelo, esse forte signo da negritude (e também vetor do preconceito). Só estando muito confortável com sua própria posição você pode subverter a ordem e desprezar a liturgia do cargo sem perder a compostura. Acho que foi a partir desse momento que eu me rendi ao moço  – assim como ao talento do Pete Souza, fotógrafo capaz de tornar irresistível um trabalho chapa branca que tinha tudo para ser apenas burocrático**.

3204ce313273efa9e82f1303cdcfd940Mas há ainda um ensinamento que aprendi com Obama, fruto de outro ganho simbólico a destacar dos Obama’s years, que é a relação dele com a esposa. Como já disse antes aqui, enaltecer a família e seus valores está no capítulo 1 do livro da política, mas Obama foi além: enalteceu o casal, valorizando a parceria ao mesmo tempo em que dava espaço para a brilhante personalidade de sua mulher. Não perdeu oportunidade de reconhecer e homenagear a inteligência e habilidades de Michelle, e nem de declarar seu amor. No discurso de despedida em Chicago, na semana passada, ele a chama pelo nome completo, para depois identificá-la carinhosamente como “the girl from the south side”, numa referência ao início do namoro, ocorrido naquela cidade. É um momento terno, bacana, mas o mais eloquente aconteceu segundos antes: quando ele fala “Michelle” e olha para ela. Pronto, já está tudo dito. Ela sorri, visivelmente emocionada; ele faz uma pausa, enxuga uma lágrima, igualmente emocionado, e o público explode em ovação (aqui o vídeo). Eu, daqui, com um cisco no olho,  aprendi a lição: namore alguém que te olhe como o Obama olha pra Michelle.

Helê

*Esse artigo, em inglês, explica o significado por trás do gesto divertido de Obama, o drop the mic no último jantar com os correspondentes estrangeiros.

**Neste link você pode ver a seleção anual de fotos feita por Souza.

What’s wrong with being confident?

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(Via Evolution of a Queen)

O título é de uma canção da Demi Lovato – porque o pop também pode ensinar valiosas lições.

Helê

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