Réquiem

Além dos óbvios, a morte do jornalista Ricardo Boechat tem mais um aspecto negativo: perdemos também um pedaço da tradição radiofônica brasileira — algo que seria levado a sério num país idem. Pode parecer estranho para muita gente, mas o rádio já teve influência semelhante à da internet nos dias de hoje; foi o nosso primeiro veículo de massa, a primeira mídia a unir esse país, tratá-lo como nação, criar ídolos, inflar torcidas, fomentar campanhas. Hoje tenta sobreviver em um mundo digital, já sem a relevância de que desfrutou outrora. Na contramão dessa decadência estava o Boechat, que apesar de ter jogado nas onze do jornalismo, conquistou no rádio a imensa popularidade que pudemos perceber na sua morte.

Eu não tinha mais o hábito de ouvi-lo pela manhã (mudanças na rotina, nenhuma decisão consciente e definitiva). Ainda assim, quando alguém falou na Dona Mercedes eu imediatamente lembrei que era a mãe dele, a quem ele se referia vez ou outra nas transmissões matinais. Eu já havia estabelecido com ele essa ligação estranhamente próxima e íntima que o rádio proporciona — sobretudo quando utilizado por alguém como o Boechat, que além de jornalista era um comunicador.

Não peguei a chamada Era de Ouro (que eu não sou tão vintage assim), mas eu ouvia o inconfessável Alberto Brizola ainda na Mundial AM; acompanhei a revolução que foi a rádio Cidade lá pelos anos 80 no Rio de Janeiro, com Jaguar, Sandoval e Luís Fernando Mansur; vi meu irmão empolgado com a Fluminense FM, a Maldita, sonhando com a Mylena Ciribelli. Depois eu me acostumei a acompanhar o Mengo com José Carlos Araújo, e ouvi a novidade que era uma “rádio que toca notícia” na voz sóbria mas cariocamente bem-humorada do Sidney Resende, na CBN. Que depois eu troquei pela BandNews do Boechat (se não me engano, por causa da demissão do Sidney).

O parágrafo anterior foi todo escrito sem ajuda do Google (exceto, claro, para escrever o nome da Mylena Ciribelli). Acessei só a memória afetiva das vozes que me acompanharam ao longo da vida em diferentes momentos, e vieram todas à superfície sem esforço. O Boechat faz parte dessa lista e da linhagem de, como ressaltei antes, comunicadores, profissionais capazes de estabelecer com o público um sentido de troca e interlocucção, que é a definição primeira da comunicação.

Talvez eu faça parte da última geração para qual o rádio teve alguma importância, a geração Radio Ga ga, anterior à Lady. E como esse não é um país sério, temo que essa história e sua importância se percam no tempo. Então fica aqui esse réquiem para o Ricardo e para o rádio – someone still loves you.

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Agoniza mas não morre

Assisti “Spotlight – segredos revelados” na Netflix, sobre o escândalo de padres católicos pedófilos em Boston. Bem filmado, com ótimas interpretações, conta uma história importante sem aquelas bobagens roiludianas de inventar romance e drama onde não existe. Quando o filme terminou fiquei pensando no papel do jornalismo e em como não podemos prescindir dele – que, não por acaso, já foi escolhido como inimigo do atual governo.

À parte minhas angústias pessoais, “Spotlight” reafirma que o jornalismo pode ir mal das pernas, mas sempre haverá espaço para a investigação criteriosa,  redação bem feita, supervisão e orientação editorial responsável e divulgação de material de verdadeira utilidade pública. E há várias iniciativas sérias do chamado jornalismo independente à disposição em diferentes plataformas e formatos – YouTube, podcasts, newsletters e sites. Gratuitos, dependentes de assinaturas e financiamento coletivos ou híbridos, essas frentes merecem cada vem mais nossa atenção, apoio e incentivo. Creio que não conseguiremos resultados diferentes utilizando os mesmos caminhos, como já ensinou vovô Einstein.

Acompanho a produção do Intercept, do canal Meio e do Nexo, que estou considerando assinar. Também ouvi falar bem da Apublica, mas conheço pouco. E vocês, o que acompanham ou sugerem? 

Helê

 

Polaridade invertida

Esse período de campanha eleitoral é chato, toda hora tem debate, entrevista de candidato, o malfadado “horário eleitoral gratuito” (pago pelos nossos impostos, ou seja, de gratuito não tem nada), etc.

É chato. Mas é importante pra caramba.

Este ano, particularmente, a campanha no Brasil está atraindo as atenções até mesmo de especialistas internacionais, porque graças a algumas mudanças (assunto chaaaato, não vou entrar em detalhes aqui) na dinâmica da coisa, a propaganda política via mídias sociais supostamente terá um peso maior na divulgação dos candidatos e propostas.

No entanto, há muita gente da área argumentando que a inclusão digital no Brasil ainda está engatinhando, e que não dá para desprezar a força da televisão – pelo menos não em 2018.

(Eu particularmente acho que as mídias sociais podem fazer uma certa diferença nas eleições proporcionais; nas majoritárias, estou meio cética.)

Enfim, tudo isso pra dizer que assisti às cinco entrevistas dos candidatos ao Jornal Nacional – não porque quisesse saber mais sobre cada um, mas por curiosidade jornalística. Entender como cada candidato se saiu na entrevista ao Bonner e à Renata é, de certa forma, entender o que pode acontecer nas próximas pesquisas de intenção de voto.

Não sei quem ganhou mais simpatia dos eleitores, mas posso dizer que na minha opinião quem perdeu, de novo, foi o jornalismo careta da Globo. A emissora continua toda-poderosa, disso não tenho dúvida; por quanto tempo é que é a questão. A impressão que dá é que, por mais que tentem inovar em cenários giratórios e repórteres falando “tá” em vez de “está”, as cabeças pensantes da Globo estão longe de entender a nova lógica que vai se consolidando nos corações e mentes das novas gerações.

A dinâmica das entrevistas é muito ruim. Os âncoras do JN confundem jornalismo “combativo” (seja lá o que isso signifique) com jornalismo “pegadinha”. É uma técnica de entrevista acusatória, em que eles pesquisam possíveis “cascas de banana” e jogam aos pés do/da candidato/a. Como se fazê-los escorregar fosse sinônimo de “revelar” as contradições em seu discurso.

O problema é que esse formato não ajuda o eleitor a decidir. Pelo contrário . Só reforça a sensação de que nenhum político presta – ou, em muitos casos, a ideia de que o candidato é perseguido pela grande imprensa porque “diz as verdades” (está aí a vitória de Trump que não me deixa mentir).

Ao nivelar todos os políticos por baixo, cria-se um clima de que não adianta votar porque o jogo já está dado. E isso, convenhamos, não contribui em nada com o processo eleitoral. A história recente tem montes de exemplos de niilismo levando ao fascismo.

Acho que os âncoras do JN prestariam um serviço jornalístico muito mais relevante se abandonassem o tom “nós contra eles ” e perguntassem sobre o que cada candidato/a pretende fazer, realçando as inconsistências nas propostas e, claro, explicitando as questões sobre as quais as campanhas não querem lançar luz, como envolvimento em casos de corrupção, tráfico de influência, etc. No entanto, isso precisa ser feito com a polaridade invertida – uma conversa (pro)positiva, e não negativa.

Apontar incoerências e malfeitos dos políticos é uma das principais funções do jornalismo, sem dúvida. Mas da forma como está sendo feita, tenho sérias dúvidas se está funcionando.

-Monix-

Lula lidera

O malabarismo da imprensa para não dizer que Lula lidera as intenções de voto com 37% – é, perdoem o meu francês, de cair o cu da bunda. Eu vi as primeiras páginas dos jornais nacionais e há alguns, como a Falha de S.P e o Abestado de Minas*, que sequer citam a pesquisa. Os que citam Lula, quase todos, o fazem em referência ao 2o colocado, que alguns veículos dizem liderar. Sim, o “segundo lidera”, vejam vocês. Em que pese a provável impugnação da candidatura Lula, ao que me consta 1) hoje ele é candidato, como todos os outros e 2) é fato jornalístico de grande relevância que um candidato preso, há quatro meses sem nenhuma aparição pública, tenha mais votos que os quatro candidatos atrás dele somados.

O que disparou meu alarme foi o comedido Canal Meio, cuja newsletter eu assino, sapecar a manchete “Bolsonaro tem 20%. Marina, 12%; Ciro, 9%”. E o Lula foi aonde?, meu pai?! Se o Meio tá assim…fui ver alternativas aos jornalões.  O Nexo publica uma matéria sobre como ler as pesquisa, o que me parece oportuno, e mantém a coerência com a linha editorial deles, mais analítica que factual. Nas fontes estrangeiras, que utilizo quando quero me informar, a BBC não repercute a pesquisa (mas ela não tem mesmo uma pegada noticiosa); a Deutch Weller é a única que faz o básico (Lula lidera intenções de voto); El país procura dar um cenário amplo, mas sem omitir o que não pode ser omitido (“Ibope: preso, Lula reforça liderança. Sem ele, Bolsonaro tem 20% e Haddad, 4%).

Se ainda for necessário embasamento para a importância jornalística da liderança do candidato petista, o G1 destrincha a pesquisa por sexo, idade, escolaridade, renda, região, religião e raça. Lula lidera com maior ou menor folga em quase todos – só tem um empate com o milico entre os eleitores com ensino superior. Mas ninguém destacou isso na primeira página dos jornais ou nas telas de desaque das homes; no contorcionismo da chamada do G1, Lula e o candidato com 18% de intenções de voto parecem mais próximos do que realmente estão; afirmam que Lula lidera em 3 regiões e empata tecnicamente em duas (que eu sinceramente não identifiquei quais seriam).

Quer dizer: de cair o cu da bunda.

Resultado de imagem para pesquisa ibope

Helê

*Contribuição sábia da leitora idem,  Vera Guimarães 😉 .

*Pideite: La Otra escreveu um ótimo artigo no Linkedin sobre temas correlatos, “A desinformação como efeito do novo ecossistema de informações“. Leia, vale a pena; entre outras coisas interessantes ela diz: “a única solução eficaz para combater a desinformação é educar o público para consumir informações de forma crítica“. É isso.

 

Carta aberta à Gazeta do Povo

Senta que lá vem textão.

Há uns 15 dias mais ou menos, a Gazeta do Povo, um dos importantes jornais do Paraná, publicou um texto —  que dificilmente poderia ser chamado de reportagem  —  atacando o que o redator chamou de “teses e dissertações pouco convencionais financiadas com dinheiro público”.

(Há muito a dizer sobre o assunto, mas antes quero explicar por que digo que o texto dificilmente poderia ser chamado de reportagem: é que, pelo menos até a última vez que eu chequei, reportagem é o relato de um fato, a partir da verificação presencial ou da escuta das partes envolvidas, sei lá, algo assim. O texto da Gazeta não mostra exatamente um fato, está mais para uma opinião mal fundamentada. E o pior: seu autor não parece ter consultado ninguém além do Google. O resultado foi uma uma colcha de retalhos feita de frases fora de contexto, apenas organizadas para produzir um efeito caricato.)

Uma das pesquisadoras citadas no texto escreveu uma resposta muito boa, muito acadêmica, explicando o porquê a pesquisa em Ciências Humanas é importante. A Gazeta publicou, mas continuou a polêmica, desta vez apresentando opiniões contra e a favor, mas em seguida elencando alguns dos supostos motivos pelos quais o dinheiro público deveria ser usado em coisas que o redator considera mais importantes que “pesquisas com pouco retorno visível à sociedade”, como as realizadas nos campos da Medicina, da Engenharia, etc.

Questã de opiniã. O texto segue tentado demonstrar, com muitos números e gráficos, que não faz sentido financiar as Ciências Sociais, as Ciências Humanas, essas coisas de quem faz um monte de coisas que não dá dinheiro.

Mais aí vem a ironia.

Ao acessar o site do jornal, a gente é obrigado a dispensar um pop-up (peloamor, quem ainda usa isso?) que tenta vender assinaturas do jornal com um argumento curioso: “não caia em fake news”.

 
Surpresa: os jornais também são feitos por gente de Humanas!

 

Embora eu não tenha trabalhado muito em redações, passei nelas tempo suficiente para saber que — pelo menos naquelas onde estive  — há uma firme separação entre as equipes editorial e comercial. Isso talvez explique a esquizofrenia da situação. Quer dizer, o mesmo jornal que inicia uma campanha inexplicável contra a pesquisa em Ciências Sociais, destacando trechos descontextualizados de pesquisas sobre cujas conclusões pouco podemos inferir apenas pelo título, pretende que seu público adquira milagrosamente o senso crítico necessário para distinguir as notícias “fake” das “verdadeiras”. (A propósito, há pesquisadores em Comunicação Social que não concordam com o termo “fake news”, pois… se são fake… não podem ser chamadas de notícia. Uma filigrana inútil, que não contribui muito para o progresso da sociedade, mas acho que a Gazeta do Povo deveria dar importância pelo menos a este tipo de pesquisa, não é?)

É duro trabalhar com um objeto de estudo que não tem uma materialidade concreta e facilmente identificável, seja criada pela natureza ou construída por seres humanos: a“sociedade”, este ente indefinível, que nos condiciona a todos, e a “cultura”, essa fôrma que nos modela e que tem tantas definições que quando a gente fala dela é sempre bom explicar qual significado estamos adotando. São coisas abstratas, que aparentemente existem por si mesmas e que não precisam ser estudadas para continuarem funcionando.

Só que não.

Ouso dizer que nunca precisamos tanto dos cientistas sociais quanto agora. A sociedade brasileira está visivelmente se reinventando, a um custo altíssimo. A cultura brasileira está em xeque — o “jeitinho”, que nos parecia quase uma travessura nacional, se revela como um alicerce para uma estrutura corrompida, de alto a baixo. Se não houver quem reflita sobre o que estamos vivendo, se, como diz irresponsavelmente a Gazeta do Povo, “o financiamento integral e indiscriminado de pesquisas com pouco retorno” for considerado irrelevante, bem, quem irá apontar os caminhos do país que queremos construir? Engenheiros constroem pontes de concreto: quem construirá as pontes metafóricas de que o Brasil tanto precisa?

Estudar Mr. Catra, os LGBTs e os youtubers é colocar pequenos tijolos nessas pontes metafóricas: falar desses assuntos deveria servir para aproximar pessoas de diferentes classes sociais, sexualidades, e até mesmo filhos de pais (quem tem adolescente em casa e não vive reclamando que “esse menino passa o dia assistindo vídeo, não entendo isso” levanta a mão).

O pessoal da Gazeta do Povo deveria saber que a imprensa tem um papel social fundamental. E que num momento como este é muito mais importante construir tolerância que cultivar polêmicas inúteis. O pessoal da Gazeta do Povo devia assumir que eles, também, são “gente de humanas”, ou então ir construir uns edifícios, fazer umas cirurgias, contribuir para a sociedade com essas coisas que eles consideram tão mais relevantes que escrever umas palavras para os outros lerem.

-Monix-

(Texto publicado originamente no meu outro blogue, onde escrevo sobre assuntos mais profissionais, e trazido para cá pois acho que o assunto é tão importante que quanto mais pessoas lerem, melhor. Se você curtiu e quer saber mais do meu blablabla sobre jornalismo / comunicação, dá um pulo na minha página e fica à vontade.)

Um herói trágico

Um bom documentário é como uma boa biografia: não basta contar a vida de uma pessoa ou narrar um fato. É fundamental apresentar o retrato de uma época a partir da vida de uma pessoa ou da narrativa de um fato. Por isso é importante escolher bem o tema sobre o qual se irá falar, para que o contexto histórico seja tão interessante quanto.

A história do atleta/ator americano OJ Simpson é sem dúvida um dos exemplos em que a biografia de uma pessoa se confunde, em vários níveis, com um momento histórico rico de significados. Semana passada, a ESPN Brasil* exibiu a série documental “OJ Made In América“, em cinco episódios de quase duas horas cada. O programa explora de forma bastante competente os muitos aspectos em que a história de OJ se mistura com as transformações que a sociedade ocidental (particularmente os Estados Unidos, o líder sócio-político-econômico do bloco) vivenciou nas últimas décadas: a luta pelos direitos civis, os conflitos raciais, a criminalização da violência contra a mulher, o culto às celebridades.

OJ Simpson reacts with lawyers after court clerk announces not guilty verdict in his murder trial

OJ foi inocentado no julgamento pelos homicídios da mulher e do amigo que estava com ela. Foto: REUTERS/Myung J. Chun/Pool

 

Nos Estados Unidos, OJ Simpson era uma celebridade absoluta: além de ter sido um grande jogador de futebol americano, tornou-se um VIP, aceito em todos os ambientes que seriam (e eram) negados a um negro nascido em um project (o que por aqui chamamos de conjunto habitacional). Era tão famoso e tão querido que atingiu um status conferido a poucos naquela época: deixou de ser visto como negro. Simpson morava em uma mansão em Los Angeles, frequentava o clube de golfe, era amigo dos ricos e famosos – quase todos brancos.

Simpson se casou com uma moça muito mais nova e muito branca e loura, Nicole Brown, e a exibia como uma esposa-troféu. Nicole denunciou o marido por agressão diversas vezes, até finalmente pedir o divórcio e tentar refazer sua vida. Um dia foi encontrada morta em sua casa, acompanhada de um homem chamado Ron Goldman, um amigo que teve a má fortuna de estar no lugar errado na hora errada.

Em poucas horas de investigação a polícia de Los Angeles apontou o olimpiano ex-marido como o principal suspeito do crime. Polícia esta que vinha sendo alvo de uma chuva de críticas pelo tratamento dispensado à comunidade negra da região – o caso OJ Simpson aconteceu três anos depois do brutal espancamento do negro Rodney King. O que se seguiu foi uma intrincada trama que mistura questões raciais e o papel da mídia na definição da “agenda” da sociedade. No momento em que virou réu, OJ voltou a ser negro.

A fuga de OJ, a perseguição policial e sua rendição foram transmitidos em tempo real, ao vivo, para todo o planeta, mostrando, pela primeira vez em grande escala, a força que as TVs all news ganhavam naquele momento. O julgamento, que durou quase um ano, foi cercado de polêmicas e sua absolvição escancarou a fratura racial que ainda existia (e existe) na democrática América: os negros comemoraram, os brancos se revoltaram. Uma das juradas entrevistada no documentário admite que OJ provavelmente deveria ter sido condenado, mas que sua absolvição, por um júri predominantemente negro, foi uma espécie de revanche por todas as vezes em que o sistema absolveu brancos injustamente (entre eles os policias que espancaram Rodney King).**

Já um pastor de uma paróquia local, também negro, diz no documentário que a absolvição não foi uma conquista da comunidade negra, e sim “a vitória de um cara rico chamado OJ Simpson”. Me pareceu a pessoa mais lúcida dentre todos os envolvidos.

OJ Simpson é um herói trágico – por definição, alguém que sempre tenta ultrapassar os próprios limites – e como tal, não escapou ao seu destino. No momento ele cumpre pena em uma penitenciária em Nevada, condenado por roubo e tentativa de sequestro – um desdobramento estúpido de uma sequência de erros cometidos por um homem que já tinha conseguido escapar da prisão. Em minha modesta opinião, a Justiça errou com OJ duas vezes: ao absolvê-lo e ao condená-lo.

-Monix-

* A ESPN é boa de documentário – eles provam que tudo, até o esporte, é política.
** Ao responder uma crítica sobre a excessiva brutalidade com que os negros eram tratados, o chefe da polícia respondeu que isso só acontecia porque eles não reagiam “como as pessoas normais” ao serem abordados por policiais.

 

 

 

 

Durma-se com um barulho desses

Tenho observado uma fúria um pouco mais exaltada que o normal de meus amigos em relação à Veja e à grande imprensa de maneira geral. Não gosto do estilo da revista, e não a leio há décadas, mas como jornalista é impossível não enxergar o exagero das críticas, que vêm se intensificando a cada semana, a cada mês.

Por se tratar de uma revista semanal, a Veja se dá ao direito de publicar textos que considera analíticos, incorporando aos fatos uma visão muito própria, que teria por objetivo acrescentar ao leitor o “ponto de vista da revista”, que obviamente vem a ser o ponto de vista de seus editores, já que a “revista” não é uma entidade com vida própria. O caso é que depois de 10 anos de governos de esquerda (ou centro-esquerda, ou progressistas, enfim, chamem como queiram), esse tal ponto de vista precisa ser cada vez mais ideológico para poder marcar a oposição da revista ao governo. Só que o liberalismo não costuma acreditar em ideologias. E esta oposição acaba sendo marcada por um pragmatismo que eu chamaria de beligerante. Isso vem se traduzindo em textos cada vez mais raivosos e menos argumentativos; pelo menos é o que parece pelo pouco que leio de vez em quando.

Ontem fomos brindados com o obituário de Oscar Niemeyer, arquiteto polêmico tanto por sua obra quanto por suas posições ideológicas, mas que inegavelmente foi um brasileiro excepcional e deixou um legado importantíssimo ao país e ao mundo – ao relembrar a vida desta figura, o destaque da notícia é para o fato de o morto ter sido stalinista, como bem previu o Serbon minutos antes. O texto chega a ser de uma infantilidade raivosa em alguns trechos.

Dinossauro – A tenacidade com que Niemeyer  se aferrou aos seus cânones arquitetônicos só é comparável ao seu apego a uma ideologia inimiga dos homens. O arquiteto se tornou um dinossauro da esquerda, e morreu fiel ao comunismo e admirador de Josef Stálin, um dos maiores genocidas da história, que considerava “um estadista fantástico”.

Site da Revista Veja

 

Me parece que a agressividade da revista pode ser uma explicação para a intolerância de seus não-leitores para com ela. É um dos veículos de comunicação mais importante do país, sem dúvida, mas escolheu um caminho estranho, que não me parece ser bom no longo prazo: ofender a parcela da sociedade que não concorda 100% com seu ponto de vista editorial. Isso se reflete claramente nos blogues de colunistas, onde não apenas é praxe deletar comentários (coisa que qualquer bê-a-bá da blogosfera mostra que é totalmente inadequado, a não ser em casos de ofensas graves), como também os próprios colunistas batem boca com seus críticos, inclusive os que não têm educação ou razão, contrariando a regra de ouro de Millôr Fernandes: “não se amplia a voz dos imbecis”.

Reinaldo Azevedo se deu ao trabalho de escrever um post rebatendo as críticas que recebeu por ter falado mal do comunista Niemeyer. Refere-se aos comentários de leitores como “zurros” e os destaca, rebatendo um a um com uma agressividade que beira o inacreditável – aliás, só não é inacreditável porque não é primeira vez que o colunista faz isso.

Ontem Ricardo Setti publicou um pedido de desculpas por ter postado uma montagem grosseira de uma foto de Lula ao lado de uma suposta namorada. (No meu tempo, aprendi que bom jornalismo se faz assim: quando não temos provas, ou antes de condenação judicial, todo mundo é “acusado” ou “suposto”, mas parece que essa prática caiu em desuso.) Enfim, Setti pediu desculpas e os simpatizantes de Lula – que, convenhamos, são muitos – caíram de pau. O que fez o colunista/blogueiro? Partiu para o contra-ataque, numa roda-viva que me lembra as discussões que tinha com minha irmã, aos 10 anos de idade, tipo “mãe, foi ela que começou… não, mas ela falou primeiro…” Olha, constrangedor define. Parece que retiraram do ar todos os comentários, e infelizmente não cheguei a copiar a tela para mostrar uma imagem a vocês. Quem leu ontem pode confirmar que não estou exagerando.

A grande imprensa tem poder sobre o discurso que prevalece na comunicação de massa. Não faz sentido o poderoso entrar em disputas territoriais mesquinhas com o pequeno, o insignificante. Não entendo, não mesmo, essa linha que a Veja escolheu. Nesse ponto, acho mais graça no site do Globo Online, onde os maiores absurdos são postados e ficam lá para qualquer um ler. Se o jornal optou por disponibilizar espaço para os leitores comentarem, que os deixe comentar.

Ou então, mes amis, se não sabem brincar, recolham as panelinhas.

-Monix-

 

 

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