Dentro do coração

I’ll be there for you / ‘Cause you’re there for me too. 
The Rembrandts

Lá pelo final dos anos 1990 (e início dos 2000), a gente parava toda semana* – talvez às quintas-feiras? – para assistir Friends, uma série que, como o nome já diz, contava as aventuras e desventuras de seis amigos naquele momento da vida em que a faculdade já terminou mas sua “vida de adulto” ainda não começou. (Ao longo das dez temporadas isso foi evoluindo, claro, mas enfim. Quem lê esse blogue tem idade suficiente para ter assistido à série na época, eu acho.) 

Lembro de ter lido, em algum momento dos muitos anos em que acompanhei a série, um artigo que tentava explicar seu sucesso. E era alguma coisa que tinha a ver com o fato de aqueles personagens retratarem uma característica típica da (nossa) geração: a importância que damos aos amigos e amigas.

Devem haver outras explicações, mas gosto muito dessa. Não sei quais são as causas sociológicas para isso, mas tenho mesmo essa sensação de que a relação que tenho com meus amigos é muito diferente da que meus pais tiveram, ou, sei lá, meus avós. Não é que eles não tivessem grandes amizades que atravessaram décadas – eles as tiveram. Mas não posso imaginar minha mãe chegando na casa de uma amiga e abrindo a geladeira para pegar uma água. Talvez seja uma coisa de classe e não de geração. Mas o ponto é que minha casa sempre foi aberta a amigos/amigas. Foi o lugar onde a turma dormia quando ficava tarde demais para pegar o ônibus, onde a gente se reunia para jogar e beber cerveja quando a grana ficava curta, onde a gente assistia filmes (saudoso Cinemonix) quando as crianças eram pequenas, e por aí vai. Da mesma forma, sempre me senti à vontade na casa deles/delas. Aquele entra-e-sai dos apartamentos das “meninas” e dos “meninos” na série é uma bela metáfora para essa relação confortável que temos com os espaços uns dos outros.

E não é só nas casas da gente que essas coisas acontecem. Nas nossas vidas, também existe esse entra-e-sai de amigos/amigas. Eu conto com eles, eles contam contam comigo. Perdi a conta de quantas mudanças ajudei a desencaixotar – e, claro de quantas pessoas me ajudaram a desencaixotar as minhas mudanças. Tudo o que não sei e preciso saber, pergunto a um amigo/amiga. Quando meu filho era pequeno, a gente ria disso – ele fazia perguntas doidas sobre o espaço sideral ou sobre tubarões, e eu dizia: não sei, mas tenho uma amiga que sabe. 🙂

Um dos planos mirabolantes que tenho com minhas amigas é o do asilo grandmothern, um lugar meio utópico em que nos reuniremos quando formos velhinhas, para cuidar umas das outras, reclamar dos filhos, babar os netos e paquerar os enfermeiros. Só não pode faltar o wi-fi, o resto a gente resolve.

Há um tempo atrás a atriz Jennifer Aniston, que interpretava Rachel, brincou dizendo que se Friends fosse feita hoje, a série seria um fracasso, pois os seis ficariam sentados no sofá olhando para seus iPhones. Talvez. Prefiro pensar que não.

Fim de ano é época de festas de família. Mas eu queria dizer aos meus amigos e amigas (vocês sabem quem são): vocês também são família para mim.

-Monix-

*  Naquela época, tínhamos que esperar longos sete dias para assistir 22 minutos de um episódio. 

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Paralelas

Quem não se comunica se trumbica, já dizia o Velho Guerreiro. Isso lá pelos idos do século XX, aqui na nossa república de bananas. Os gringos lá do FBI e da CIA não conheceram o famoso bordão, e como resultado o mundo ocidental as we knew it se trumbicou.

poster minissérie The Looming Tower

Essa é a premissa da minissérie The Looming Tower, que terminei de assistir esses dias, baseada em fatos e pessoas reais. A história que se conta é a de que as duas agências governamentais norte-americanas investigavam em paralelo atividades suspeitas de pessoas ligadas à Al-Qaeda. Só que existe uma divisão de tarefas entre as duas, e, resumindo em poucas palavras, a CIA cuida dos assuntos internacionais e o FBI dos crimes em território nacional (no caso, o deles, ou seja, dentro dos Estados Unidos). Daí o FBI pedia informações para tentar achar os responsáveis por atos terroristas contra instalações norte-americanas mundo afora (as embaixadas no Quênia e na Tanzânia e um navio no Iêmen), mas a CIA negava, porque, afinal, foram crimes cometidos fora do território americano.

Quer dizer.

É meio impressionante – e bastante assustador – pensar que em grande medida a segurança do mundo dependia de umas pessoas que, no fundo, são gente como a gente. Que se apegaram a insignificâncias como “isso é meu”, “isso é seu”, em um mundo globalizado como esse em que vivemos. Que, em última instância, não entenderam que a comunicação é essencial para tomar decisões bem informadas. Que agiam como se fossem as duas torres que caíram: paralelas que só se encontraram no infinito.

***

Eu acho cá comigo – aliás, muita gente também deve achar – que o século XXI começou em 11 de setembro de 2001. Ou, dependendo do  ângulo que se vê, o século XX terminou ali. Espero que seja mais essa segunda opção. Seria bom acreditar que nossa nova época será menos mesquinha que a anterior. Tipo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera. Mas né? Acho que não. Aguardemus e oremus.

-Monix-

O mundo, essa vila

Gostaria de agradecer publicamente ao príncipe Harry – que sempre foi meu favorito por motivo de ruivice e cara de levado – por ter nos proporcionado esse episódio extra de Game of Thrones. Todos nós já estávamos em crise de abstinência com a decisão leviana de apresentar a última (e curta) temporada em 2019, mas agora podemos aguentar até lá (não sem sofrimento).

Valeu, Ruivão!

Assim como o seriado baseado nos livros de G.G. Martim, o casamento de sábado foi daqueles momentos raros em que mundo volta a ser uma vila onde só se comenta um assunto. E eu adoro quando isso acontece por um bom motivo. No meu Facebook ou no Instagram da minha filha, no grupo seleto do WhatApp e no feed da ex-colega de trabalho, o assunto foi o casamento real durante todo fim de semana. Eu endosso todas as críticas ao espetáculo midiático e ao anacronismo da monarquia e tal e coisa  com um olho na tv e outro no celular. Porque a matéria prima desse enredo – o casamento de um menino que a gente viu crescer e conhecia a mãe – é demasiadamente humana pra gente não comentar.

Rev. Michael Curry arrasando no sermão e na presença

Ainda mais quando aparece um bróder pra fazer um sermão inspirado, citando Dr. King e os africanos escravizados do Sul dos Estados Unidos. Love is the way. Seguido de um coral majoritariamente negro cantando “Stand by me’. A melhor piada, postada, claro, no twitter, é que tinha mais negro na Capela Saint George que na novela da globo que se passa, teoricamente, na Bahia.

E essa mãe de noiva que podia ser a minha?! Maravilhosa e discreta, de piercing e trança (ou seriam dreads?)  .

Nem acho que valha a pena discutir se a Megan vai mudar ou não a família real (até porque futilidade tem limite, e falar da vida dos outros no fim de semana tudo bem, hoje eu tenho mais o que fazer). Já mudou né, a atriz-americana-mais-velha-divorciada-afrodescendente. E as imagens e o poder delas estão aí e seus efeitos estão em curso no imaginário coletivo. Como espetáculo achei bacana, uma mistura boa de inovação e tradição, boa trilha sonora, protagonizado por duas pessoas dando esse leap of  faith que é o casamento e, aparentemente, felizes de verdade.

Betinha  impecável de verde limão e roxo; os discretos ingleses e a extravagância permitida em chapéus e fascinators.

Aliás não foram poucas as comparações com casamentos anteriores e, olhando as fotos hoje, a gente pensa que tava na cara que Diana e Charles não ia vingar, né? A gente não vê nela o brilho e a alegria que notamos tanto na Megan quanto na Kate. Ou vai ver as pessoas parecem mais felizes nas TVs HD, vai saber… Eu percebo também a furiosa passagem ao tempo ao contabilizar o terceiro casamento real que assisto. Oh, lord!

E com esses gifs fofos encerramos nossas transmissões e divagações inúteis sobre o casamento real. Até o do George!

Helê

Irrelevância

Há um tempinho atrás a HBO lançou uma série de produção brasileira chamada Magnífica 70. Uma iniciativa ótima – produções brasileiras em grandes distribuidoras de conteúdos internacionais, quem não quer?
Assisiti, com muito esforço, metade da primeira temporada. Mesmo concedendo o mérito de ser uma série muito bem produzida, só com muito boa vontade dava para dizer que eu estava minimamente me divetindo – ou fruindo de alguma forma. Roteiro chaaato, direção arrastada, personagens risíveis, e uma interpretação tediosa do Marcos Winter, protagonista da série. O tema até era interessante, mas peloamor. Meu tempo de entetenimento podia ser (e foi) mais bem utilizado.
 

Magnifica70

Foto: Divulgação

Parece que estão rodando uma terceira temporada. Parabéns para eles. Mas convenhamos que “Magnífica 70” não fedeu nem cheirou e foi condenada à sua própria irrelevância.
 
***
 
Aí vem a Netflix e produz uma série tão chata quanto, tão mal dirigida quanto, com um Selton Mello quase pior que o Marcos Winter, e a gente vai e enche de azeitona essa empada.
Deixem O Mecanismo para lá. Como toda obra do José Padilha, essa também tem graves problemas. Mas as anteriores vinham com o agravante de serem boas obras audiovisuais. “O Mecanismo” não é.
Deixem a série ser condenada à sua própria irrelevância, mudemos de assunto.
-Monix-

Where you lead

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…I’ll follow you

Em homenagem ao programa do fim de semana, a reunion das Gilmore Girls (que eu só verei depois porque ainda estou na 6 temp.)

Um herói trágico

Um bom documentário é como uma boa biografia: não basta contar a vida de uma pessoa ou narrar um fato. É fundamental apresentar o retrato de uma época a partir da vida de uma pessoa ou da narrativa de um fato. Por isso é importante escolher bem o tema sobre o qual se irá falar, para que o contexto histórico seja tão interessante quanto.

A história do atleta/ator americano OJ Simpson é sem dúvida um dos exemplos em que a biografia de uma pessoa se confunde, em vários níveis, com um momento histórico rico de significados. Semana passada, a ESPN Brasil* exibiu a série documental “OJ Made In América“, em cinco episódios de quase duas horas cada. O programa explora de forma bastante competente os muitos aspectos em que a história de OJ se mistura com as transformações que a sociedade ocidental (particularmente os Estados Unidos, o líder sócio-político-econômico do bloco) vivenciou nas últimas décadas: a luta pelos direitos civis, os conflitos raciais, a criminalização da violência contra a mulher, o culto às celebridades.

OJ Simpson reacts with lawyers after court clerk announces not guilty verdict in his murder trial

OJ foi inocentado no julgamento pelos homicídios da mulher e do amigo que estava com ela. Foto: REUTERS/Myung J. Chun/Pool

 

Nos Estados Unidos, OJ Simpson era uma celebridade absoluta: além de ter sido um grande jogador de futebol americano, tornou-se um VIP, aceito em todos os ambientes que seriam (e eram) negados a um negro nascido em um project (o que por aqui chamamos de conjunto habitacional). Era tão famoso e tão querido que atingiu um status conferido a poucos naquela época: deixou de ser visto como negro. Simpson morava em uma mansão em Los Angeles, frequentava o clube de golfe, era amigo dos ricos e famosos – quase todos brancos.

Simpson se casou com uma moça muito mais nova e muito branca e loura, Nicole Brown, e a exibia como uma esposa-troféu. Nicole denunciou o marido por agressão diversas vezes, até finalmente pedir o divórcio e tentar refazer sua vida. Um dia foi encontrada morta em sua casa, acompanhada de um homem chamado Ron Goldman, um amigo que teve a má fortuna de estar no lugar errado na hora errada.

Em poucas horas de investigação a polícia de Los Angeles apontou o olimpiano ex-marido como o principal suspeito do crime. Polícia esta que vinha sendo alvo de uma chuva de críticas pelo tratamento dispensado à comunidade negra da região – o caso OJ Simpson aconteceu três anos depois do brutal espancamento do negro Rodney King. O que se seguiu foi uma intrincada trama que mistura questões raciais e o papel da mídia na definição da “agenda” da sociedade. No momento em que virou réu, OJ voltou a ser negro.

A fuga de OJ, a perseguição policial e sua rendição foram transmitidos em tempo real, ao vivo, para todo o planeta, mostrando, pela primeira vez em grande escala, a força que as TVs all news ganhavam naquele momento. O julgamento, que durou quase um ano, foi cercado de polêmicas e sua absolvição escancarou a fratura racial que ainda existia (e existe) na democrática América: os negros comemoraram, os brancos se revoltaram. Uma das juradas entrevistada no documentário admite que OJ provavelmente deveria ter sido condenado, mas que sua absolvição, por um júri predominantemente negro, foi uma espécie de revanche por todas as vezes em que o sistema absolveu brancos injustamente (entre eles os policias que espancaram Rodney King).**

Já um pastor de uma paróquia local, também negro, diz no documentário que a absolvição não foi uma conquista da comunidade negra, e sim “a vitória de um cara rico chamado OJ Simpson”. Me pareceu a pessoa mais lúcida dentre todos os envolvidos.

OJ Simpson é um herói trágico – por definição, alguém que sempre tenta ultrapassar os próprios limites – e como tal, não escapou ao seu destino. No momento ele cumpre pena em uma penitenciária em Nevada, condenado por roubo e tentativa de sequestro – um desdobramento estúpido de uma sequência de erros cometidos por um homem que já tinha conseguido escapar da prisão. Em minha modesta opinião, a Justiça errou com OJ duas vezes: ao absolvê-lo e ao condená-lo.

-Monix-

* A ESPN é boa de documentário – eles provam que tudo, até o esporte, é política.
** Ao responder uma crítica sobre a excessiva brutalidade com que os negros eram tratados, o chefe da polícia respondeu que isso só acontecia porque eles não reagiam “como as pessoas normais” ao serem abordados por policiais.

 

 

 

 

As duas faces de Eva

Sou de uma geração que não assistiu Xuxa porque as manhãs eram ocupadas pela TV Mulher da Marília Gabriela, da Xênia, da Marta Suplicy, do Henfil, do Clodovil e do Ney Gonçalves Dias.

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A volta da TV Mulher mostra que a história se repete, não em círculos, mas em espiral.

Durante muito tempo, sentia que fazer parte daquele momento era algo meio revolucionário. E de certa forma era mesmo: depois de duas décadas de censura, ver um programa matinal sobre direitos das mulheres, sexualidade, humor, era uma inovação considerável. (Se pensarmos nos programas matinais que existem hoje, 30 anos depois, talvez constatemos que aquela TV Mulher seria considerada ousada demais para nossa década de 10).
Por outro lado, como dizia o poeta e ativista norte-americano Gil-Scott Heron, “a revolução não será televisionada”. Quer dizer, se uma mudança de paradigma chegou à televisão, é porque o paradigma já mudou. Por sua própria natureza, a TV não é um meio que facilite a transformação social.
A história vai se repetindo em espiral, e não em círculos, e eis que a TV Mulher está de volta. Ainda é feminista, mas de um feminismo com roupagem contemporânea. O formato está muito mais pasteurizado, como pede a comunicação de massa do século XXI. Os quadros fixos tentam emular os da primeira versão do programa e são um pastiche involuntário dos colunistas que os inspiraram. Mas o mais curioso é que de um programa diário, matutino, exibido em TV aberta (até porque não existia TV paga no Brasil naquela época), o TV Mulher se tornou um programa semanal, noturno e exibido na TV por assinatura. Sintomas de que, mesmo que a revolução nunca tenha sido televisionada, há momentos em que a televisão pede para fazer parte dela, para se manter relevante. Em outros momentos, ela perde o trem e fica vendo a história passar, da plataforma da estação.
(Texto publicado originalmente no meu blogue profissional.)
-Monix-
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