Paralelas

Quem não se comunica se trumbica, já dizia o Velho Guerreiro. Isso lá pelos idos do século XX, aqui na nossa república de bananas. Os gringos lá do FBI e da CIA não conheceram o famoso bordão, e como resultado o mundo ocidental as we knew it se trumbicou.

poster minissérie The Looming Tower

Essa é a premissa da minissérie The Looming Tower, que terminei de assistir esses dias, baseada em fatos e pessoas reais. A história que se conta é a de que as duas agências governamentais norte-americanas investigavam em paralelo atividades suspeitas de pessoas ligadas à Al-Qaeda. Só que existe uma divisão de tarefas entre as duas, e, resumindo em poucas palavras, a CIA cuida dos assuntos internacionais e o FBI dos crimes em território nacional (no caso, o deles, ou seja, dentro dos Estados Unidos). Daí o FBI pedia informações para tentar achar os responsáveis por atos terroristas contra instalações norte-americanas mundo afora (as embaixadas no Quênia e na Tanzânia e um navio no Iêmen), mas a CIA negava, porque, afinal, foram crimes cometidos fora do território americano.

Quer dizer.

É meio impressionante – e bastante assustador – pensar que em grande medida a segurança do mundo dependia de umas pessoas que, no fundo, são gente como a gente. Que se apegaram a insignificâncias como “isso é meu”, “isso é seu”, em um mundo globalizado como esse em que vivemos. Que, em última instância, não entenderam que a comunicação é essencial para tomar decisões bem informadas. Que agiam como se fossem as duas torres que caíram: paralelas que só se encontraram no infinito.

***

Eu acho cá comigo – aliás, muita gente também deve achar – que o século XXI começou em 11 de setembro de 2001. Ou, dependendo do  ângulo que se vê, o século XX terminou ali. Espero que seja mais essa segunda opção. Seria bom acreditar que nossa nova época será menos mesquinha que a anterior. Tipo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera. Mas né? Acho que não. Aguardemus e oremus.

-Monix-

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O mundo, essa vila

Gostaria de agradecer publicamente ao príncipe Harry – que sempre foi meu favorito por motivo de ruivice e cara de levado – por ter nos proporcionado esse episódio extra de Game of Thrones. Todos nós já estávamos em crise de abstinência com a decisão leviana de apresentar a última (e curta) temporada em 2019, mas agora podemos aguentar até lá (não sem sofrimento).

Valeu, Ruivão!

Assim como o seriado baseado nos livros de G.G. Martim, o casamento de sábado foi daqueles momentos raros em que mundo volta a ser uma vila onde só se comenta um assunto. E eu adoro quando isso acontece por um bom motivo. No meu Facebook ou no Instagram da minha filha, no grupo seleto do WhatApp e no feed da ex-colega de trabalho, o assunto foi o casamento real durante todo fim de semana. Eu endosso todas as críticas ao espetáculo midiático e ao anacronismo da monarquia e tal e coisa  com um olho na tv e outro no celular. Porque a matéria prima desse enredo – o casamento de um menino que a gente viu crescer e conhecia a mãe – é demasiadamente humana pra gente não comentar.

Rev. Michael Curry arrasando no sermão e na presença

Ainda mais quando aparece um bróder pra fazer um sermão inspirado, citando Dr. King e os africanos escravizados do Sul dos Estados Unidos. Love is the way. Seguido de um coral majoritariamente negro cantando “Stand by me’. A melhor piada, postada, claro, no twitter, é que tinha mais negro na Capela Saint George que na novela da globo que se passa, teoricamente, na Bahia.

E essa mãe de noiva que podia ser a minha?! Maravilhosa e discreta, de piercing e trança (ou seriam dreads?)  .

Nem acho que valha a pena discutir se a Megan vai mudar ou não a família real (até porque futilidade tem limite, e falar da vida dos outros no fim de semana tudo bem, hoje eu tenho mais o que fazer). Já mudou né, a atriz-americana-mais-velha-divorciada-afrodescendente. E as imagens e o poder delas estão aí e seus efeitos estão em curso no imaginário coletivo. Como espetáculo achei bacana, uma mistura boa de inovação e tradição, boa trilha sonora, protagonizado por duas pessoas dando esse leap of  faith que é o casamento e, aparentemente, felizes de verdade.

Betinha  impecável de verde limão e roxo; os discretos ingleses e a extravagância permitida em chapéus e fascinators.

Aliás não foram poucas as comparações com casamentos anteriores e, olhando as fotos hoje, a gente pensa que tava na cara que Diana e Charles não ia vingar, né? A gente não vê nela o brilho e a alegria que notamos tanto na Megan quanto na Kate. Ou vai ver as pessoas parecem mais felizes nas TVs HD, vai saber… Eu percebo também a furiosa passagem ao tempo ao contabilizar o terceiro casamento real que assisto. Oh, lord!

E com esses gifs fofos encerramos nossas transmissões e divagações inúteis sobre o casamento real. Até o do George!

Helê

Irrelevância

Há um tempinho atrás a HBO lançou uma série de produção brasileira chamada Magnífica 70. Uma iniciativa ótima – produções brasileiras em grandes distribuidoras de conteúdos internacionais, quem não quer?
Assisiti, com muito esforço, metade da primeira temporada. Mesmo concedendo o mérito de ser uma série muito bem produzida, só com muito boa vontade dava para dizer que eu estava minimamente me divetindo – ou fruindo de alguma forma. Roteiro chaaato, direção arrastada, personagens risíveis, e uma interpretação tediosa do Marcos Winter, protagonista da série. O tema até era interessante, mas peloamor. Meu tempo de entetenimento podia ser (e foi) mais bem utilizado.
 
Magnifica70

Foto: Divulgação

Parece que estão rodando uma terceira temporada. Parabéns para eles. Mas convenhamos que “Magnífica 70” não fedeu nem cheirou e foi condenada à sua própria irrelevância.
 
***
 
Aí vem a Netflix e produz uma série tão chata quanto, tão mal dirigida quanto, com um Selton Mello quase pior que o Marcos Winter, e a gente vai e enche de azeitona essa empada.
Deixem O Mecanismo para lá. Como toda obra do José Padilha, essa também tem graves problemas. Mas as anteriores vinham com o agravante de serem boas obras audiovisuais. “O Mecanismo” não é.
Deixem a série ser condenada à sua própria irrelevância, mudemos de assunto.
-Monix-

Where you lead

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…I’ll follow you

Em homenagem ao programa do fim de semana, a reunion das Gilmore Girls (que eu só verei depois porque ainda estou na 6 temp.)

Um herói trágico

Um bom documentário é como uma boa biografia: não basta contar a vida de uma pessoa ou narrar um fato. É fundamental apresentar o retrato de uma época a partir da vida de uma pessoa ou da narrativa de um fato. Por isso é importante escolher bem o tema sobre o qual se irá falar, para que o contexto histórico seja tão interessante quanto.

A história do atleta/ator americano OJ Simpson é sem dúvida um dos exemplos em que a biografia de uma pessoa se confunde, em vários níveis, com um momento histórico rico de significados. Semana passada, a ESPN Brasil* exibiu a série documental “OJ Made In América“, em cinco episódios de quase duas horas cada. O programa explora de forma bastante competente os muitos aspectos em que a história de OJ se mistura com as transformações que a sociedade ocidental (particularmente os Estados Unidos, o líder sócio-político-econômico do bloco) vivenciou nas últimas décadas: a luta pelos direitos civis, os conflitos raciais, a criminalização da violência contra a mulher, o culto às celebridades.

OJ Simpson reacts with lawyers after court clerk announces not guilty verdict in his murder trial

OJ foi inocentado no julgamento pelos homicídios da mulher e do amigo que estava com ela. Foto: REUTERS/Myung J. Chun/Pool

 

Nos Estados Unidos, OJ Simpson era uma celebridade absoluta: além de ter sido um grande jogador de futebol americano, tornou-se um VIP, aceito em todos os ambientes que seriam (e eram) negados a um negro nascido em um project (o que por aqui chamamos de conjunto habitacional). Era tão famoso e tão querido que atingiu um status conferido a poucos naquela época: deixou de ser visto como negro. Simpson morava em uma mansão em Los Angeles, frequentava o clube de golfe, era amigo dos ricos e famosos – quase todos brancos.

Simpson se casou com uma moça muito mais nova e muito branca e loura, Nicole Brown, e a exibia como uma esposa-troféu. Nicole denunciou o marido por agressão diversas vezes, até finalmente pedir o divórcio e tentar refazer sua vida. Um dia foi encontrada morta em sua casa, acompanhada de um homem chamado Ron Goldman, um amigo que teve a má fortuna de estar no lugar errado na hora errada.

Em poucas horas de investigação a polícia de Los Angeles apontou o olimpiano ex-marido como o principal suspeito do crime. Polícia esta que vinha sendo alvo de uma chuva de críticas pelo tratamento dispensado à comunidade negra da região – o caso OJ Simpson aconteceu três anos depois do brutal espancamento do negro Rodney King. O que se seguiu foi uma intrincada trama que mistura questões raciais e o papel da mídia na definição da “agenda” da sociedade. No momento em que virou réu, OJ voltou a ser negro.

A fuga de OJ, a perseguição policial e sua rendição foram transmitidos em tempo real, ao vivo, para todo o planeta, mostrando, pela primeira vez em grande escala, a força que as TVs all news ganhavam naquele momento. O julgamento, que durou quase um ano, foi cercado de polêmicas e sua absolvição escancarou a fratura racial que ainda existia (e existe) na democrática América: os negros comemoraram, os brancos se revoltaram. Uma das juradas entrevistada no documentário admite que OJ provavelmente deveria ter sido condenado, mas que sua absolvição, por um júri predominantemente negro, foi uma espécie de revanche por todas as vezes em que o sistema absolveu brancos injustamente (entre eles os policias que espancaram Rodney King).**

Já um pastor de uma paróquia local, também negro, diz no documentário que a absolvição não foi uma conquista da comunidade negra, e sim “a vitória de um cara rico chamado OJ Simpson”. Me pareceu a pessoa mais lúcida dentre todos os envolvidos.

OJ Simpson é um herói trágico – por definição, alguém que sempre tenta ultrapassar os próprios limites – e como tal, não escapou ao seu destino. No momento ele cumpre pena em uma penitenciária em Nevada, condenado por roubo e tentativa de sequestro – um desdobramento estúpido de uma sequência de erros cometidos por um homem que já tinha conseguido escapar da prisão. Em minha modesta opinião, a Justiça errou com OJ duas vezes: ao absolvê-lo e ao condená-lo.

-Monix-

* A ESPN é boa de documentário – eles provam que tudo, até o esporte, é política.
** Ao responder uma crítica sobre a excessiva brutalidade com que os negros eram tratados, o chefe da polícia respondeu que isso só acontecia porque eles não reagiam “como as pessoas normais” ao serem abordados por policiais.

 

 

 

 

As duas faces de Eva

Sou de uma geração que não assistiu Xuxa porque as manhãs eram ocupadas pela TV Mulher da Marília Gabriela, da Xênia, da Marta Suplicy, do Henfil, do Clodovil e do Ney Gonçalves Dias.

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A volta da TV Mulher mostra que a história se repete, não em círculos, mas em espiral.

Durante muito tempo, sentia que fazer parte daquele momento era algo meio revolucionário. E de certa forma era mesmo: depois de duas décadas de censura, ver um programa matinal sobre direitos das mulheres, sexualidade, humor, era uma inovação considerável. (Se pensarmos nos programas matinais que existem hoje, 30 anos depois, talvez constatemos que aquela TV Mulher seria considerada ousada demais para nossa década de 10).
Por outro lado, como dizia o poeta e ativista norte-americano Gil-Scott Heron, “a revolução não será televisionada”. Quer dizer, se uma mudança de paradigma chegou à televisão, é porque o paradigma já mudou. Por sua própria natureza, a TV não é um meio que facilite a transformação social.
A história vai se repetindo em espiral, e não em círculos, e eis que a TV Mulher está de volta. Ainda é feminista, mas de um feminismo com roupagem contemporânea. O formato está muito mais pasteurizado, como pede a comunicação de massa do século XXI. Os quadros fixos tentam emular os da primeira versão do programa e são um pastiche involuntário dos colunistas que os inspiraram. Mas o mais curioso é que de um programa diário, matutino, exibido em TV aberta (até porque não existia TV paga no Brasil naquela época), o TV Mulher se tornou um programa semanal, noturno e exibido na TV por assinatura. Sintomas de que, mesmo que a revolução nunca tenha sido televisionada, há momentos em que a televisão pede para fazer parte dela, para se manter relevante. Em outros momentos, ela perde o trem e fica vendo a história passar, da plataforma da estação.
(Texto publicado originalmente no meu blogue profissional.)
-Monix-

Downton Abbey – mais atual do que você pensa

article-2207935-0B562A83000005DC-581_634x409Lembro claramente da Monix fazendo uma correlação entre a mudança na legislação do emprego doméstico e as mudanças sociais retratadas em Downton Abbey. Eu jurava que ela tinha escrito isso em um post, mas depois de procurar aqui no blogue acho que ela deixou passar a oportunidade, infelizmente. Deve ter sido dito nos nossos posts vividos, em algum almoço ou mesa de bar (sim, são ótimos esses, mas nem sempre podem ser convertidos em texto).

Na época, como eu ainda não havia chegado a Downton, achei um exagero, mesmo sem entender completamente; hoje acho que era só inveja de uma série que não era a minha e da perspicácia da Sócia. Desde o primeiro capítulo eu lembro dessa observação da Monix e penso no quanto ela foi sagaz. Guardadas todas as muitas proporções, era do que se tratava na série: mudanças de costume, sociais, políticas, tudo junto. E as conquistas dos empregados domésticos no Brasil em 2013 também provocaram mudanças em diferentes esferas da vida cotidiana de certa classe média. Quem viveu intensamente uma e assistiu simultaneamente a outra pode facilmente concordar com a comparação.

210451-downton-abbey-downton-abbey-posterAgora, depois da minha estadia em Downton, fiz o meu próprio paralelo melancólico. Demorou um pouco a cair a ficha, mas a situação do mordomo que procura um emprego que não existe mais me pareceu estranhamente familiar. Numa entrevista, ele é informado que precisa ser também chofer, valete, criado e jardineiro, acumulando muitas funções pelo salário de um funcionário. As habilidades de mordomo, que ele possui com larga experiência, são apenas parcialmente desejadas; precisa-se de alguém que faça razoavelmente um pouco de cada coisa. Mais ou menos como um jornalista neste início de século, de quem nem se espera que escreva com correção e brilho e apure com diligência. Isso até tem alguma utilidade, mas ela ou ele também deve saber gerenciar redes sociais, criar anúncios e entender sobre plano de negócios. E isto por um salário que seria risível se não dependêssemos dele para viver. Pode ser um exagero; só o tempo dirá se nós, jornalistas, seremos de fato extintos, como dinossauros e mordomos.

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Essa é uma das muitas qualidades de Downton Abbey: ser sobre o passado e sobre hoje de manhã, porque o tempo não para, mas também se repete  –  como farsa, maldição ou burrice, vai saber. Uma rica e sedutora aula de história que revela origens, curiosidades e surpreendentes semelhanças.

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Há também as intrigas, segredos, amores, traições, todos os ingredientes de um bom folhetim em que a eletricidade, o telefone, rádio e carro são apresentados como o que já foram um dia: novidade. Era o mundo moderno começando, esse que hoje vemos desaparecer ou pelo menos mudar irreversivelmente. Se nada disso for suficiente para despertar seu interesse, vale a pena assistir Maggie Smith lacrando durante as seis temporadas, sem perder a oportunidade de tornar memoráveis cenas que, feitas por outra atriz, seriam apenas boas.

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Minha librianice ficou absolutamente deslumbrada com a classe, a pompa, os rituais e toda a arquitetura social daquele mundo. Mesmo incomodada com a desigualdade de classes, com o moralismo vazio e opressor, não pude deixar de me encantar com os vestidos deslumbrantes e acessórios charmosíssimos (ah, as luvas acima do cotovelo, os chapéus, usar penas na cabeça sem ser carnaval!). Tudo absolutamente fino e glamouroso. No entanto, eu desconfio que artigo mais luxuoso em Downton Abbey, de fato invejável, seja o tempo. Claro que este valor também era mais farto entre os nobres, mas o mundo vivia numa outra rotação. As pessoas escreviam cartas e bilhetes, pensavam por semanas antes de resolver um problema, esperavam dias por uma resposta. Não sei se viveria bem naquela época, mas gostaria de desfrutar daquele tempo.

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Para Geide, que me deixou nervosa dizendo que esperava por esse texto, mas me pautou, e uma velha jornalista não resiste a isso. Espero que tenha valido a pena 😉 .

Helê

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