Canções de guerra, quem sabe canções do mar

Depois de um longo período sem conseguir me concentrar em nada, nem mesmo no escapismo catártico da ficção, aos poucos estou voltando a consumir alimentos para o espírito. #alertadeclichê

Eu sempre fui devoradora de filmes, séries, livros, e, mais recentemente, podcasts. Por isso, me preocupava um pouco minha total incapacidade de assistir mais de 20 minutos de um filme, minha total falta de vontade de começar uma série por saber que não daria conta de ir adiante, e, claro, minha total falta de foco para ler mais de duas páginas de um livro. Acho que muita gente está assim também, e ter companhia me deu algum conforto, claro. Mas o que realmente me deixou satisfeita foi conseguir, aos poucos e sem explicação, voltar a encontrar prazer nas coisas que sempre amei.

Daí que nos últimos meses vi muita coisa interessante, li um livro lindo que ganhei de presente, maratonei séries, enfim, I’m back :)

Como gosto de anotar o que estou vendo e ouvindo, reparei que nas últimas semanas assisti vários filmes passados mais ou menos na época da II Guerra Mundial — um pouco antes, durante, um pouco depois. (Eu sempre fico impressionada com a capacidade da indústria cultural de produzir infinitas obras sobre os horrores do nazismo. Já houve uma moda de filmes sobre a Guerra do Vietnã, que aconteceu bem depois, e a fase passou. Mas a II Guerra continua rendendo assunto até hoje. E faz sentido: depois de ler Hannah Arendt eu entendi.)

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Antes de chegar a um conclusão, se é que chegarei, deixo o registro dos filmes que vi (e um que revi) nas últimas semanas sobre esse tema.

Operação Final: agentes do serviço secreto israelense vão à Argentina para capturar e retirar do país o criminoso de guerra Adolf Eichmann (cujo julgamento inspirou outra obra da Hannah Arendt que ainda não li). A operação é bastante questionável do ponto de vista do Direito Internacional (talvez flagrantemente irregular, mas sei lá eu). Mas seus resultados concretos e simbólicos são, esses sim, inquestionáveis.

O Fotógrafo de Mauthausen – espanhóis derrotados na Guerra Civil foram tornados apátridas pelo ditador Franco, e enviados ao campo de concentração de Mauthausen, na Alemanha. Lá, um deles se torna assistente do oficial nazista que fotografava as atrocidades cometidas. Conforme os prisioneiros percebem que o fim da guerra se aproximava, alguns deles se unem na tentativa de preservar os negativos que serviriam (e serviram) de provas nos tribunais do pós-guerra. O filme é baseado em acontecimentos reais, e algumas cenas reproduzem fielmente as fotos tiradas na época.

A Escavação – pouco antes da guerra começar (a Inglaterra já era sobrevoada por ameaçadores aviões alemães), uma viúva, proprietária de terras, decide escavar um terreno onde, segundo a lenda local, havia coisas antigas debaixo da terra. Ela contrata um arqueólogo amador, eles fazem uma descoberta muito importante e o resto é história (e História). A trama não é lá grande coisa, mas as imagens da escavação são sensacionais e valem o filme.

Lida Baarová – em meados da década de 1930, em plena ascensão do nazismo na Alemanha, uma atriz de cinema tcheca, já famosa em Praga, se muda para Berlim na tentativa de ser bem sucedida por lá. Na época, Berlim era um polo cinematográfico que competia com Hollywood — e para a qual perdeu talentos como Fritz Lang e Marlene Dietrich, fato citado em uma das cenas. (Aliás, eu só fiquei sabendo mais sobre essa era de ouro do cinema alemão quando visitei o Museu do Cinema berlinense.) Bom, pra variar, I digress. Voltando ao filme: a atriz Lida Baarová de fato consegue fazer sucesso na capital alemã, tanto que chama a atenção do Führer em pessoa e do poderoso ministro da Propaganda Joseph Goebbels, de quem torna-se amante. A história de Lida é uma história de decisões erradas.

A sociedade literária e a torta de casca de batata – logo após o fim da guerra, uma escritora londrina conhece, através de cartas, um grupo de amigos moradores da ilha de Guernsey, que chegou a ser ocupada pelo exército alemão. Deu vontade de rever um confort movie, escolhi esse. Apesar do tema de guerra, é uma história doce sobre como o amor e a amizade podem surgir em momentos (e por pessoas) que não se espera. O livro, um romance epistolar delicioso, já foi tema de post da Helê.

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Bom, depois dessa enxurrada de filmes mais ou menos sobre o mesmo tema, alguns mais delicados, outros bastante pesados, me peguei pensando por que será que estou tão interessada na II Guerra Mundial, que nem é um período histórico pelo qual eu tenha uma preferência especial.

E o mais estranho: a vida real está tão difícil, tão complicada, que eu deveria estar buscando conforto na ficção, eu acho. Em vez de assistir a coisas ainda mais horríveis.

Mas talvez seja isso: talvez, de algum forma, saber sobre coisas horríveis pelas quais a humanidade já passou, conhecer aquilo a que sobrevivemos, esteja me ajudando a lidar com nossos tempos duros. Eu ainda quero acreditar que nós somos ação, eles são reação. Eles passarão, nós passarinho.

-Monix-

Pastilhas Garota – edição Infinitena

O tempo do apartamento é tão fugaz (…)
me dá tua mão mascarada me leva daqui/ prum tempo que for qualquer tempo que for pra fora desse apartamento/que o tempo aprisionou

Foi totalmente por acaso, procurando um som pra me acompanhar no home office, que descobri o novo álbum do Marcos Sacramento, chamado “Crônicas do apartamento 20“. Deduzi que tratava-se de canções da pademia, sons da quatentena, e era exatamente isso. Sacramento fala de um tempo que não é mais tempo, que não sobra mais, de estradas sem caminhões e brisas sem aviões. Tempos duríssimos.

Estou tão só e demora esta solidão sobrehumana
Tão só, tão só que mesmo os gatos de casa/ mesmo deles emana
um torpor exageradamente solitário

Eu costumava ter certa desconfiança com obras artísticas que cujo tema fosse algo muito próximo. Quando vi, por exemplo, a Netflix anunciando uma série chamada “Distanciamento social“, torci o nariz. Achava que não é possível retratar tão bem algo sem alguma distância do que está em foco. Mas a curiosidade foi maior que o pré-concebido, e tive uma surpresa agradável e positiva com a série.

Os episódios são independentes, praticamente pequenos curtas e, como pode acontecer nesses casos, a qualidade varia entre eles. Mas de um modo geral, vale a pena assistir. Há algumas atuações excelentes, tramas ora divertidas, ora realmente dramáticas, e a sensação persistente de familiaridade. Quase todos nós vivenciamos em algum grau uma (ou muitas) daquelas situações. O pai que tem que cuidar da filha enquanto a mãe enfrenta a Covid isolada no quarto, a cerimônia funeral on line, adolescentes paquerando via web.

Distanciamento Social | Site Oficial Netflix

A familiaridade incomoda em vários momentos, pode ser reconfortante em outros; o fato é que não ficamos alheios à tela: também é mais difícil assistir se estamos envolvidos no enredo.   

A noite está parada, abalada, abalda parou.
A noite está fechada.
A vida foi travada
tudo é anormal

As crônicas cantadas de Sacramento despertam sentimentos semelhantes. Da varanda de seu apartamento em Santa Teresa, com um vista privilegiada e ampla do Centro do Rio, ele registra silêncios e sinais, angústias, reflexões, lembranças e desejos de alguém acostumado ao palco e à experiência coletiva da música obrigado a se isolar. Impossível não se identificar em vários momentos e versos. E, como todos já descobrimos, nem só de tristeza e melancolia se vive  uma pandemia. São vários os ritmos visitados por Sacramento, e é um samba (sempre ele!) que carrega os versos mais luminosos e esperançosos. Lembrando ser “um samba que já nasce em sacrifício – pois o vício de sambar é ancestral”, manda o recado, papo reto:

Gritam nebulosas do espaço
que a vida é infinta, que ela vai continuar!

Procurando as letras das canções para escrever o post, emcontrei o site do cantor e compositor e lá soube que ele fez também uam álbum visual, disponível no YouTube. Igualmente instigante, inteligente e bem feito. Marcos Sacramento fez uma margarita ótima desse limão azedíssimo que estamos tomando forçosamente há mais de um ano. Vale muito a pena provar.

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Uma outra iniciativa que é cria  direta da pands é o Museu do Isolamento, perfil no Instagram que publica trabalhos artísticos que abordam…isso tudo que tá aí. Tem humor, crítica, raiva, bom gosto, de tudo um pouco, e quase tudo muito intereressante, criativo e…familiar. De novo uma sensação de conexão com o outro que eu não sei quem é mas que está vivendo coisas muito intensas e parecidas. Também acho que vale a visita. 

Arte feita por Carol Yokota, para ver mais acesse @carolyart #museudoisolamento

Arte feita por Cecile Mendonça, para ver mais acesse @picortes_ 

Arte feita por Helena de Paula e Gabriela Bosco, para ver mais acesse @matracanossa #museudoisolamento

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E, desviando da minha propria pauta, a auto indisciplinada aqui tem mais duas dicas imperdíveis que surgiram durante a pandemia, sem ter compromisso com ela. O meu amigo Erasmo Car, não, péra. Meu amigo Renato Hermsdorff colocou no ar o The Renato Herms Show, um canal do YouTube  em que ele reparte seu vasto conhecimento e comprovada experiência de jornalismo especializado em audiovisual e  oferece informações, comentários e críticas sobre filmes, séries e quetais. Inteligência, conhecimento, humor e (por que não?) beleza te esperam no TRHS; confira. 

E a ideia esperta (e necessária) de falar com mulheres da minha Faixa Etária de Gaza, isto é, ao redor dos 50 anos, também com inteligência, leveza e acuidade não podia esperar a pandemia passar. Então a minha amiga Tina Lopes lançou o  @Fifitinah, saboroso já no título, que tem trazido informações relevantes, para além do coach (cruzcredo!) e demais obviedades rasas e promovendo lives que parecem bate papos no bar com as amigas – ou seja, algo muito mais legal que live. Novinhas e homens são aceitos e bem-vindos –  mas esqueçam os privilégios, por favor. Por enquatdo é um perfil no insta, mas se você vacilar a Tina Cérebro vai dominar o mundo! Eu, Pink, torço por isso.

Helê

Brasil, mostra tua cara

Daí que 1988 não é só outra época; talvez seja outro planeta.

Rever uma novela tão emblemática como Vale Tudo é, antes de qualquer coisa, uma experiência no mundo bizarro. No plano material, cada cena é um mergulho em uma indagação sobre como vivíamos “sem” tal coisa, ou “com” tal coisa. Telefones de fio (em um dos cenários o telefone tem o fio todo enrolado, coisa que deixava meu pai maluco), videocassetes, disc-lasers (era assim que chamávamos os moderníssmos CDs no final dos anos 80, crianças), computadores grandalhões e disquetes, máquinas de telex (!), até os eletrodomésticos pesadões e quadradões, tudo me espanta. Os carros, meu Deus, os carros. 1988 foi antes do Collor dizer que os carros brasileiros eram todos umas carroças, ofendendo a indústria automobilística nacional e os defensores da reserva de mercado (é, crianças, pesquisem). Spoiler alert: eram mesmo. (Voltarei ao Collor daqui a pouco.) 1988 foi antes de o fax chegar a Brasil. E não me façam começar a falar de roupas e penteados, porque né?

figurino solange vale tudo - Pesquisa Google | Figurino, Moda, Solange
Ombreiras, minha gente, isso já existiu.

Não sei se na época era claro para mim, mas Vale Tudo parte de uma premissa (e tudo na novela gira em torno dela): a desonestidade estrutural da sociedade brasileira. A trama central se baseia nas interpretações diferentes que Raquel (a mãe) e Fátima (a filha) fazem dessa constatação inicial. Raquel acha que se todos são desonestos, cabe a ela (e a todos que a cercam) corrigir isso por meio de ações estritamente éticas. Já Fátima entende que se todo mundo torce as regras para se dar bem, a solução é abandonar qualquer senso ético como única forma de sobreviver nesse mundo cruel.

A música-tema tem um dos versos mais contundentes do rock nacional, de autoria de Cazuza: “o meu cartão de crédito é uma navalha”…

Assistir a esse dilema tendo como pano de fundo a conjuntura de 2020 dá margem a muitas reflexões.

Primeira: a novela acabou em janeiro de 1989. Em novembro, tivemos a primeira eleição direta para presidente em 29 anos. E elegemos (opa, nós quem, cara-pálida?) Fernando Collor de Mello, que baseou sua campanha na ideia de caçar “marajás”, funcionários públicos que ganhavam super salários sem trabalhar. Fala-se muito da influência das novelas da época sobre a mentalidade nacional que resultou em sua vitória, especialmente as exibidas nos meses da campanha, como O Salvador da Pátria e Que Rei Sou Eu?, mas a ideia de uma “faxina ética” direcionada apenas (ou principalmente) à classe política, olhando em retrospectiva, parece ter sido uma simplificação tremenda.

Segunda: em Vale Tudo, a corrupção está em todas as instâncias da sociedade brasileira, e ali são retratadas principalmente as mais cotidianas, com um foco especial na corrupção no setor privado: um dos vilões se dedica a desviar recursos da empresa familiar. Mais de trinta anos depois, parece que nosso foco se desviou para o “andar de cima”, a política partidária e institucional, e aquele papo sobre como a corrupção começa com quem molha a mão do guarda (que, diga-se de passagem, é outra simplificação besta, mas enfim, é um ponto de partida) foi praticamente esquecido.

Terceira: a parte da novela que fala de crise econômica e desemprego, tirando as questões ligadas à inflação, é tristemente atual. No entanto, um detalhe me chamou a atenção. A moeda era o cruzado, e tudo custava milhares de. Mas, para conseguir acompanhar os valores das coisas, percebi que tirando um zero de cada preço eu chegaria mais ou menos ao tanto que elas custariam hoje. As únicas exceções foram a diária da faxineira, que pela minha equivalência tabajara hoje vale 3 vezes mais (alvíssaras!), e o câmbio do dólar, que hoje, bizarramente, mesmo com a taxa absurdamente alta, seria seis vezes mais caro, se fosse mantida a proporção da época em relação aos preços das outras coisas.

Quarta: a exemplo de boa parte das obras de ficção, e não só as brasileiras, os vilões são pessoas muito mais interessantes. Até aí, nada de novo. Acho essa questão bem problemática, e isso talvez seja assunto para outro post. Mas em Vale Tudo os mocinhos de modo geral são muito chatos, e a suposta heroína, Raquel, é insuportável na sua unidimensionalidade — seus chiliques e suas lições de moral parecem, vistos de hoje, um ensaio canastrão para sua meteórica e constrangedora passagem pelo governo federal. Parece que Regina Duarte acreditou na personagem que interpretou três décadas atrás, e comprou aquele discurso fajuto de “vamos moralizar o país”. Raquel, a chata, com certeza seria uma bolsomonion (e pior, uma “tia do zap”) em 2020.

Quinta: há, no entanto, honrosas exceções a esse padrão de mocinhos unidimensionais, e elas se encontram principalmente nas personagens que encarnam os temas “polêmicos” que toda novela que se preza precisa abordar. A Heleninha Roitman que vejo hoje me parece bem mais interessante (na época eu a achava chata, provavelmente por conta da interpretação excessivamente dramatizada de Renata Sorrah, que eu não curto). A relação de Laís e Cecília marcou época, mas é engraçado ver como elas eram apresentadas como “amigas” e ninguém falava diretamente sobre o fato de obviamente serem um casal — até que uma delas morre e a questão da herança entra no meio. Tem sido interessante lembrar que estávamos saindo de um longo período em que produtos culturais e artísticos sofriam censura prévia, e que de repente se podia falar de certos assuntos. No Brasil de Damares, não sabemos até quando.

Há outra muitas reflexões possíveis, claro. Se quiser, deixe as suas nos comentários. Eu por aqui fico pensando que na verdade, fora cenários e figurinos, o Brasil de 2020 é de novo tristemente parecido com o de 1988.

-Monix-

Válter e eu

“Breaking Bad” estreou em 2008 e terminou em 2013; suspeito que não há nada sobre a série que não tenha sido dito. Apesar disso, escrevo – para registrar as impressões que causou em mim, para trocar figurinha com outros que viram, e também para tentar me despedir de Válter (como eu chamo Walter White/Heisenberg desde o início, nem sei porque). Terminei a série há semanas mas essa história ainda reverbera em mim. Algo me capturou de maneira irremediável no percurso desse homem que no meio da vida faz um desvio radical. As condições de temperatura e pressão capazes de provocar, acelerar ou impedir essa mudança; a perseguição de um desejo que, afinal, não era genuíno; a felicidade num lugar diferente de onde a procuramos, tudo isso (e mais) me incluiu entre os entusiastas da série.

Tinha tentado ver BrBa antes e achei o primeiro episódio chato e arrastado (o que me parece totalmente incompreensível agora). A quarentena me pareceu a ocasião perfeita para tentar novamente. Minha conversão se deu aos poucos. No começo eu dizia que só queria saber como Válter perdeu as calças. Porque tudo começa com a dita cuja voando e a intrigante cena desse homem de cuecas numa paisagem árida gravando um vídeo de despedida para a família. Um começo que condensa muito do trágico, patético, engraçado, tenso e dramático que viria a seguir.

O episódio começa pelo fim; após essa cena bizarra nós somos apresentados a esse cidadão mediano e sua vida medíocre que, aos 50 anos, é presenteado com um câncer de pulmão em estágio avançado e decide prover sua família nos meses que lhe restam produzindo a melhor metanfetamina do mercado. (Como é que eu não me interessei por isso antes?) Nos primeiros episódios parece que tudo que pode dar errado dá, e segui movida pela curiosidade em ver quando esse cara ia se dar mal, o que parecia inevitável e iminente.

Aos poucos fui pegando gosto pela história, pelos personagens, locações (eu tenho um fraco por desertos). Aliás, o fato de ser ambientada no Novo México confere tons especiais à narrativa. Uma paleta de cores terrosas domina a paisagem e a vida das pessoas, compondo uma atmosfera peculiar: esta não é a América glamurosa e idealizada que a gente costuma ver na tevê. Pelo contrário, é uma quase esquecida, perto demais do incômodo e subdesenvolvido vizinho latino. Mas nem por isso é menos América. 

Vale dizer que a escolha do local foi um dos vários aspectos não programados da série – e eles são muitos e surpreendentes. As filmagens, que seriam na Califórnia, mudaram para o Novo México por detalhes técnicos. O personagem Jesse Pinkman duraria apenas alguns episódios da primeira temporada, mas a interpretação visceral de Aaron Paul fez Jesse sobreviver — inclusive à série. E várias outras pequenas histórias como essa se acumulam nas muitas entrevistas e reportagens disponíveis sobre BrBa . A produção soube tirar vantagens do acaso e se adaptar bem aos imprevistos naturais de uma produção do tipo.

Um ponto alto de Breaking Bad está no aspecto visual — não tenho certeza se “direção de fotografia” dá conta de tudo a que me refiro; se sim, ela é primorosa. Há engenho na escolha dos enquadramentos, nos objetos de cena, no movimento da câmera — nada é por acaso, e quase tudo tem um significado. Eles fazem “rimas visuais”, como alguém nomeou: uma cena que faz lembrar outra sem que sejam iguais. São detalhes que perdem a força e até mesmo o sentido se descritos, precisam ser vistos. A história de Válter é contada por diálogos e silêncios, planos, contraplanos, uma ótima trilha sonora e tudo mais que carateriza um bom produto audiovisual.

Nada disso se sustentaria sem excelentes interpretações, sendo Brian Cranston o destaque absoluto. Salvo ignorância minha, ele fez de BrBa o que Válter fez com o câncer: uma oportunidade para fazer algo grandioso em uma carreira até ali mediana. Sua interpretação arrebatadora, sob todos os aspectos memorável, foi capaz de nos manter interessados nesse personagem que desprezamos muitas vezes, pelo qual torcemos para que se foda tantas outras, mas com quem estabelecemos uma ligação incontestável. E que também despertou nossa empatia e compaixão.

Válter não é um personagem agradável. Em determinado ponto da trama eu me dei conta de que não gostava dele, mas podia compreendê-lo e até torcer a favor dele, aqui e ali. Gostar a gente gosta do Pinkman, a irresistível empatia pelo adolescente perdido que todo mundo foi um dia, em certa medida. Mas Válter, não: é um adulto que utiliza a doença terminal como passe para jogar fora seu compasso moral com a desculpa mais nobre  – pelo bem da família. Alguém contraditório, perdido, corajoso, confuso , culpado e até mesmo piedoso, embora a sua imagem violenta, egoísta e cruel tenha prevalecido.

 

Isso, aliás, me incomoda um pouco no fandom de Breaking Bad. A série tem em torno de si uma aura de veneração: há uma legião de apaixonados capaz de discutir teorias, contestar falas e produzir artes incríveis, mesmo anos depois do fim. Mas percebo um viés equivocado em ver Válter quase como um super herói. É como se não tivessem reparado que, o tempo todo, era de ambivalência e ambiguidade que falavam Vince Guillian ( o criador da série) e Cranston em sua interpretação multidimensional. Mesmo nas temporadas finais, quando Válter fica mais Heinsenberg, não desaparece a sombra do medo, da dúvida e da dor em sua face. (Não por acaso, num momento de vitória absoluta, ele tem um curativo no meio da cara, uma lembrança incômoda de sua fragilidade).

Suspeito que essa mesma galera que enaltece o Heinsenberg é a mesma que hostiliza sua esposa, Skyler, creditando a ela a responsabilidade pela infelicidade do Válter, a mulher controladora que o mantém cerceado nos limites de um casamento opressivo. Acho essa uma visão simplista e machista (desculpem a redundância). No casamento, é preciso dois para fracassar ou ser feliz, a culpa nunca é apenas de uma pessoa (eu sei, I’ve been there, e voltei pra contar). Skyler ama Válter profundamente e isso fica claro muito mais por suas ações que pelas palavras. Tenta compreendê-lo e ficar ao seu lado mesmo quando descobre suas atividades. É ela que faz Válter confrontar suas reais motivações quando lhe pregunta “quanto é suficiente”. Enquanto Válter encarna o macho típico na falta de contato com as próprias emoções, no desconhecimento de seus desejos verdadeiros e na ontológica inabilidade de comunicação.

Apesar disso, não o considero um monstro. As circunstâncias e suas escolhas o levaram a fazer coisas monstruosas, mas Válter me parece tão humano quanto eu e você, e é isso que o torna assustador, terrível, e também sedutor. Um mentiroso contumaz cujas mentiras mais graves foram contadas para si mesmo. Valter é ao mesmo tempo seu próprio herói e algoz, na busca por se redimir da sua mediocridade.

Poderia falar muitas outras coisas sobre BrBa, mas a ideia é se despedir, não falar sem parar. Quero destacar apenas mais dois aspectos: Breaking Bad não mima nem subestima a audiência. Os personagens não ficam justificando seus atos, explicando suas razões; muito pelo contrário. Você tira suas conclusões e ao longo da história vai comprovando teorias ou descobrindo mal-entendidos. Talvez por isso até hoje desperte debates apaixonados internet afora.

E por fim, mas não menos importante, Breaking Bad não sucumbiu ao erro comum do universo das séries, que é ser vítima do próprio sucesso. Seu público foi crescendo aos poucos, ao longo das temporadas, mas ali entre a terceira e a quarta já havia quem questionasse o plano do genial Vince Gilligan, de parar na 5ª temporada. Ele se manteve fiel a sua fórmula, sabendo que, como na Química, qualquer alteração muda o resultado final. Vince soube, ao contrário de Válter, a hora certa de parar.

Helê

Uma volta pela África

Dia desses eu descobri essa série, África 360°, e fiquei levemente obcecada, vi quase toda num fim de semana.

Antes, porém, preciso dizer que a descoberta foi um acaso total, porque o programa é exibido pelo Canal Off, que eu nunca assisto por muito tempo. O Off é uma espécie de distopia, um universo paralelo onde as pessoas nunca trabalham, não votam, não se preocupam com a previdência. Estão sempre em lugares incríveis que a gente não sabe direito onde é, fazendo um esporte que não entendemos bem como funciona, e faz sol o ano todo, até nas montanhas mais geladas. Poderia funcionar como um alívio da realidade, mas depois de um tempo eu começo a me incomodar com aquela gente esmagadoramente branca e aparentemente rica que parece não ter outra razão de viver a não ser se divertir. Aí, o que era relax vira raiva e mudo de canal.

Mas África 360º foge desse roteiro, a começar pelo local em que se passa e também pela proposta, que é percorrer todo o litoral do continente africano. Captaram minha atenção por isso, e fui ficando, assistindo um episódio atrás do outro, porque o surfe (que eu gosto mas não domino) é apenas um pretexto para a viagem. Os irmãos argentinos Joaquin e Julian Azulay a se interessam pelas culturas com as quais têm contato, se mostram abertos e respeitosos com as oportunidades de conhecer melhor as cidades por onde passam e os povos que visitam. Viajando num caminhão alemão reformado e equipado por eles, que serve de veículo e casa, eles encontram personagens interessantes e procuram oferecer, em legendas breves, informações básicas sobre os países e locais que visitam.

 

   
Mizu Mission: Senegal with The Gauchos Del Mar

Fiquei um pouco irritada pensando no privilégio macho – uma viagem dessas feita por quatro mulheres é praticamente inviável por questões de segurança, pela ameaça de um tipo de violência específico ao qual só nós estamos sujeitas. Mas a indignação não é com eles, e sim com o mundo patriarcal e machista em que vivemos.

O projeto ainda não está completo, nesta primeira temporada eles chegaram até a Costa do Marfim. Mas vale apena conferir para conhecer a África realmente sob uma perspectiva incomum, sem o foco nos problemas e conflitos, um continente diverso, surpreendente, com personagens incríveis. E locações espetaculares. Dignas de Canal Off.

(Ah, e a trilha sonora é um bônus .)

Helê

PS: Jão das Neves

Eu não li os livros, mas talvez Jon Snow tenha sido o personagem que mais sofreu com a transposição para a tela e a popularidade da série. Sua ressuscitação foi um baque na trama do qual muitos não se recuperaram: houve quem deixasse de ver a série ali; muitos outros simplesmente pegaram ranço, mas gente, a culpa não foi dele.

“Ainnn, mas no fim das contas não adiantou de nada ele ser Targeryan…” Porque no fim das contas importa mais o que você faz com o que tem do que de onde você vem.

“Ainn, porque o arco do personagem o levou para o mesmo lugar onde começou…”. Primeiro começo a implicar com “arco do personagem” porque ninguém consegue comentar mais nenhuma série/livro/samba enredo sem usar essa expressão (não se aplica a você , Sócia). Segundo: o tal arco não é onde você chega, mas a trajetória que você faz. E por fim, Jaime Lennister também terminou onde começou, nos braços da Cersei. Só que ele era mais bonito, viril e contraditório. E dele o povo não pegou ranço.

Eu só queria reforçar um ponto das mui sagazes observações de mi sócia: eu gostei muito do final do Jão. After all, foi ele que “break the wheel”, pelo menos a roda do próprio destino, ao escolher se unir àqueles chamados tanto de ‘selvagens’ quanto de ‘homens livres’ – o que eu sempre achei bem desconcertante.

Helê

Cuidado, spoilers

Nos últimos oito anos – mais ou menos, porque teve gente que chegou antes, gente que chegou depois – nós acompanhamos juntas a saga dos sete reinos de Westeros em busca de uma certa harmonia (a paz nunca existe, mas vale cada minuto da busca). Então, nosotras não poderíamos deixar de registar aqui algumas impressões sobre o final desse épico, nem que seja para lembrarmos, um dia, de como estávamos nos sentindo dois dias depois do fim da série que conseguiu, quando ninguém mais apostava nisso (exceto em eventos esportivos e coberturas jornalísticas) reunir o mundo inteiro na frente de uma tela, ao mesmo tempo.

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A Monix não liga para spoilers, a Helê fica brava quando leva um. Então, no espírito da conciliação, fizemos este post com um grande nariz-de-cera, assim quem quiser lê, quem não quiser vai fazer outra coisa e volta depois de assistir tudo.

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Antes de mais nada, a gente precisa dizer que de modo geral gostamos do final. Então se você está buscando um lugar para resmungar coletivamente, sorry, não é aqui ;)

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Acho que já enrolamos bem, né? Então vamos ao que interessa.

Impressões mui loquazes da Monix:

  • Começando pelo episódio anterior, eu tinha ficado meio chatiada com o final do Jaime Lannister, mas olhando em retrospecto, fez sentido. Eu achava que a história do Jaime era uma jornada em busca da honra, e que a tinham “estragado” mandando-o de volta para a Cersei. Se pelo menos ele tivesse ido matá-la, mas nem isso. Mas depois fiquei pensando que esse final foi bem roots. As Crônicas de Gelo e Fogo do George R. R. Martin não são sobre arcos de personagens, são sobre o fato de a vida não fazer sentido. As vidas acabam como e quando têm que acabar. E aí simplesmente o Jaime tentou superar a Cersei, mas não deu. Na hora que ele percebe que ela vai morrer – porque é claro que aquele exército vai ganhar -, e que nunca vai se render… ele precisa voltar. Achei bonito o jeito com a Brienne contou a história dele no Livro Branco da Guarda Real. (Só não gostei porque ficou registrado que o Tyrion mandou matar o Joffrey. Queria que ela passasse um Liquid Paper em cima. Mas pensando bem, a Brienne não sabe que a mandante do crime foi a Olenna Tyrell. Todos os que sabem estão mortos.)
  • Falando mais em geral, tem um monte de furos nos roteiros dessa temporada. Várias coisas estão ali só para a história poder seguir, mas não fazem sentido. Por exemplo, ontem vi em uma live da Omelete um comentário sobre o Sam: ele estava em Winterfell, a Gilly grávida, tinha abandonado a Patrulha da Noite, tinha abandonado a Cidadela. Daí de repente o cara me aparece na reunião dos “grandes lordes” de Westeros. Fazendo o quê lá? Representando a Casa Tarly? Tá, que seja. Aí meia dúzia de cenas depois ele vira arquimeistre! Mas e a Gilly? E os bebê tudo? Meistre pode ter filho? Fora que ele nem terminou o curso. Ficou parecendo o ministério de um certo presidente que nomeia gente que não tem experiência nenhuma só porque é amigo do amigo.
  • Sobre o novo rei, tenho que admitir que foi surpreendente (embora eu já tivesse lido teorias a respeito, achava um chute totalmente fora de cogitação). Minha primeira sensação não foi boa. Ele passou a temporada inteira dizendo que não era mais o Bran Stark. “I’m not him”, eu acho, era a frase. Aí de repente ele é indicado para o trono como Bran Stark e responde: por que você acha que eu vim até aqui? Estranho. Mas tá bem, entendi que a ideia era ter um rei neutro e deixar o conselho governar. No fim das contas, me incomodou menos do que eu pensei quando li as teorias de fãs. Talvez porque no fim das contas Bran, the Broken é um nome ótimo para o rei que vai reconstruir o reino. Gostei também do Podrick ser o empurrador do trono. Mas na prática ele não vai governar. Aquele conselho é que vai cuidar das paradas e ele vai ficar wargando por aí. Foi bacana também o rei passar a ser escolhido por um conselho, e não mais por direito hereditário. Já inventaram as eleições indiretas em Westeros. ;)
  • Sobre o final trágico de Jon e Danaerys, estava na cara que ele ia ter que matá-la. Sendo assim, gostei que ela não ficou louca, apenas intensificou características de personalidade que sempre teve. Aquela estética nazi do início do episódio eu amei. Aliás, toda a parte visual foi incrível.
    Tirando o fato de não ter sentido nenhum ela estar sozinha na sala do trono, achei bacana o Jon dando um oi pro Drogon e entrando pra levar um papo com a mamãe. Mas no geral, o Jon foi totalmente filho do Ned Stark (adotivo, eu sei) nesse final. Relutando em enxergar o que tem que ser feito, escravo da honra e zero pragmatismo político. Mas quando finalmente ele vê que a Danaerys é aquilo mesmo, que Targaryens são fogo e sangue, ele entende que quem dá a sentença tem que segurar a espada.
    Tenho que dizer que amei o Drogon queimando o trono. Tá, é um dragão filósofo, com raciocínio simbólico, mas é daí? Foi uma simbologia poderosa. E a única cena que vibrei.
  • (Eu gostei que nessa temporada final eles voltaram a dar importância para as tramas políticas. Aquela guerrinha contra os zumbis estava enchendo o saco.)
  • Quanto ao final do Jon, eu interpretei de uma forma positiva. Acho que talvez seja o único que teve um destino realmente grandioso (e feliz, na medida do possível).
    Eu não acho que ele foi para o exílio. Acho que ele foi ser o rei-pra-lá-da-muralha. O novo Mance Rayder. O Jon nunca ia ser feliz no trono, nem no Sul, nem em Porto Real. Ele é um filho do Norte. E acho que o momento que ele viveu algo mais próximo da felicidade foi quando estava com os selvagens.
    Achei genial terminar o episódio com ele atravessando a muralha e ignorando a ordem de ir para a Patrulha. Que mané patrulha? Não tem mais inimigos do lado de lá. Vai ficar fazendo nada o resto da vida? Melhor não. Foi embora com o povo livre e deu uma banana para os sete reinos.
  • Adorei o final das irmãs Stark. Sansa fez por merecer. Vai entrar para a história com a primeira rainha do Norte, aquela que conquistou a independência de novo para os nortenhos. Não se ajoelhou e se livrou dos dragões com a arma mais feminina possível (#estereotipodegenero): a fofoca. E a Arya, minha queridinha, meu xodó desde o primeiro livro, virou Américo Vespúcio e vai provar que o planeta é redondo. Uma alma de viking.
  • Senti falta de explicações melhores sobre o que aconteceu com os castelos. Por exemplo: o Tyrion agora é o Lorde de Rochedo Casterly? O Rob Arryn é o Lorde do Ninho da Águia, senhor dos lordes do Vale? Por que o sor Royce estava ao lado dele? Como conselheiro ou como vassalo? E o Sam é meistre ou é Lorde Tarly, afinal? O Edmure voltou para Corerrio? Ainda existe a Casa Frey? Talvez essas questões na série não tenham tanta importância, acho que é mais uma coisa dos livros.

Impressões breves da Helê:

  • O que mais me chamou atenção foi a redenção da História — e da literatura, por extensão. As Humanas foram redimidas! No discurso do Tyrion (“nada mais poderoso que a História, nada nos liga mais que a História”), na escolha do Bran, na cena da Brienne alterando a Wikepedia deles, opa, o registro da história do Jaime. Senti a alma lavada nesse aspecto.
  • Gostei que o episódio deslegitimou a teoria da loucura da Dany.
  • Também vi furos, mas overall, achei tudo muito coerente. A dor é mesmo pelo fim. A internet ama odiar. E procurar copo de Starbucks.

As Duas Fridas

Coltrane

Cheguei até “Chasing Trane” porque precisava de conforto e digitei na pesquisa da Netflix: ‘Denzel Washington’ (desculpa, Idris, mas nessas horas eu preciso de algo mais sólido, de uma relação longa e estável na minha vida). Além dos filmes que vejo e revejo tanto quanto crianças veem Frozen, tem um ou dois clássicos dele que não vi pra economizar pra um momento de necessidade. E apareceu esse documentário sobre o saxofonista John Coltrane, que eu comecei a ver curiosa pra saber se Denzel apareceria dando algum depoimento. Logo vi que não: ele é a voz de Coltrane nos momentos em que são lidos pensamentos, trechos de entrevistas e poemas do músico que tocou com lendas e tornou-se, ele mesmo, uma delas. Denzel Washington foi apenas uma isca para mim (e para vocês, neste texto): o documentário é um primor, não deixe de ver se tiver oportunidade. John teve uma vida injustamente breve (dsclp o spoiler), porém incrivelmente plena, e os depoimentos ao longo do filme não deixam dúvida sobre sua importância para a música. Você não precisa ser entendedor nem amante de jazz – eu não sou -, basta gostar de música e de boas histórias. Terminei de ver emocionada às lágrimas, catando discos do Coltrane no Spotify e ligeiramente apaixonada por ele. (Volúvel, não: generosa).

Helê

Coisa mais negra

Eu reconheço a importância do audiovisual para a sociedade, tanto do ponto de vista cultural, simbólico, quanto econômico. Sei também que outros já sacaram isso muito antes de nós e trataram de dominar o mercado e sufocar indústrias que pudessem remotamente ameaçar seu poderio (malditos ianques). Com isso em mente, segue aqui uma crítica e uma sugestão:

  • Não dá, em 2019, pra escolher um elenco em que predomina gente bonita, pessoal. Isso simplesmente non ecziste, é irreal , a vida não é assim nem em Ipanema. Eu sei, já fui lá. Tem gente feia até em Paris, a cidade mais linda do mundo. Quando eu começo a ver filme, série, novela e começa a aparecer esse monte de rostinho global já vai me dando um desinteresse …no mínimo, perde a credibilidade, porque, como já disse, não encontra amparo na realidade.
  • Aproveitando a popularização das discussões sobre descolonização do pensamento e afins: quem é que vai contar a história da música brasileira tendo o samba como protagonista e não como um coadjuvante que dá “molho”, “ritmo”, “gingado” à MPB? No conto das três raças da música — que no caso só tem duas — tem uma MPB feita em algum lugar, oficial, cheirosa, penteada, bem-vestida, branca mas meio insossa, que encontra com o samba, suado, mal-vestido, alegre, envolvente e preto, e volta mais interessante. Mas ele, o samba, fica lá, e a dona MPB volta melhorada. Sério, gente, em 2019?! Depois do desfile da Mangueira desse ano alguém ainda tem coragem de contar essa história? Bem, eu não tenho interesse em ouvir, eu quero saber quem vai contar, de preferência na tela, a história da música brasileira contada pela perspectiva do seu protagonista desde sempre, o povo negro, a Música Preta Brasileira, como chama Sandra de Sá, uma de suas rainhas. Certamente que será uma história riquíssima e abrangente, na qual não serão omitidas participações especiais de brancos incríveis como Noel Rosa, Tom Jobim, Chico Buarque e suas enormes contribuições.

Ilustração de Marcos Arthur 

Helê

 

Dentro do coração

I’ll be there for you / ‘Cause you’re there for me too. 
The Rembrandts

Lá pelo final dos anos 1990 (e início dos 2000), a gente parava toda semana* – talvez às quintas-feiras? – para assistir Friends, uma série que, como o nome já diz, contava as aventuras e desventuras de seis amigos naquele momento da vida em que a faculdade já terminou mas sua “vida de adulto” ainda não começou. (Ao longo das dez temporadas isso foi evoluindo, claro, mas enfim. Quem lê esse blogue tem idade suficiente para ter assistido à série na época, eu acho.) 

Lembro de ter lido, em algum momento dos muitos anos em que acompanhei a série, um artigo que tentava explicar seu sucesso. E era alguma coisa que tinha a ver com o fato de aqueles personagens retratarem uma característica típica da (nossa) geração: a importância que damos aos amigos e amigas.

Devem haver outras explicações, mas gosto muito dessa. Não sei quais são as causas sociológicas para isso, mas tenho mesmo essa sensação de que a relação que tenho com meus amigos é muito diferente da que meus pais tiveram, ou, sei lá, meus avós. Não é que eles não tivessem grandes amizades que atravessaram décadas – eles as tiveram. Mas não posso imaginar minha mãe chegando na casa de uma amiga e abrindo a geladeira para pegar uma água. Talvez seja uma coisa de classe e não de geração. Mas o ponto é que minha casa sempre foi aberta a amigos/amigas. Foi o lugar onde a turma dormia quando ficava tarde demais para pegar o ônibus, onde a gente se reunia para jogar e beber cerveja quando a grana ficava curta, onde a gente assistia filmes (saudoso Cinemonix) quando as crianças eram pequenas, e por aí vai. Da mesma forma, sempre me senti à vontade na casa deles/delas. Aquele entra-e-sai dos apartamentos das “meninas” e dos “meninos” na série é uma bela metáfora para essa relação confortável que temos com os espaços uns dos outros.

E não é só nas casas da gente que essas coisas acontecem. Nas nossas vidas, também existe esse entra-e-sai de amigos/amigas. Eu conto com eles, eles contam contam comigo. Perdi a conta de quantas mudanças ajudei a desencaixotar – e, claro de quantas pessoas me ajudaram a desencaixotar as minhas mudanças. Tudo o que não sei e preciso saber, pergunto a um amigo/amiga. Quando meu filho era pequeno, a gente ria disso – ele fazia perguntas doidas sobre o espaço sideral ou sobre tubarões, e eu dizia: não sei, mas tenho uma amiga que sabe. :)

Um dos planos mirabolantes que tenho com minhas amigas é o do asilo grandmothern, um lugar meio utópico em que nos reuniremos quando formos velhinhas, para cuidar umas das outras, reclamar dos filhos, babar os netos e paquerar os enfermeiros. Só não pode faltar o wi-fi, o resto a gente resolve.

Há um tempo atrás a atriz Jennifer Aniston, que interpretava Rachel, brincou dizendo que se Friends fosse feita hoje, a série seria um fracasso, pois os seis ficariam sentados no sofá olhando para seus iPhones. Talvez. Prefiro pensar que não.

Fim de ano é época de festas de família. Mas eu queria dizer aos meus amigos e amigas (vocês sabem quem são): vocês também são família para mim.

-Monix-

*  Naquela época, tínhamos que esperar longos sete dias para assistir 22 minutos de um episódio. 

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