Lançando filhos, criando foguetes

Raising a kid is like sending a rocket ship to the moon. You spend the early years in constant contact, and then one day, around the teenage years, they go around the dark side and they’re gone. And all you can do is wait for that faint signal that says they’re coming back.

Modern Family, Claire citando Phill Dumphy

Eu amo essa fala desde a primeira vez que ouvi. Considero um ótimo exemplo da qualidade do texto de Modern Family, e também da sua capacidade única de nos fazer rir com os olhos cheios d’água. É engraçado, divertido, e incomodamente verdadeiro. A gente começa a ler rindo, e termina apenas concordando – e torcendo pelo sinal. (Acho o texto tão bem escrito que não quis bulir nele traduzindo, o Google Tradutor pode ajudar, se preciso.)

Claro que existem variações de tons dentro do quadro pintado com essas imagens. Nem todas as crianças que conheço viraram ogros distantes na adolescência (na verdade, bem poucos). E ‘dark side’ pode incluir um leque variado de significados. Mas acho acho muito preciso o conceito geral, a ideia de criar filhos sendo desde sempre a preparação para uma separação, um lançamento; e o contato, inevitavemente se perderá. A conexão precisará ser refeita em outros termos, com o filho desenhando a sua própria órbita.

Não é fácil – mas ninguém disse que seria. Pode acontecer na adolescência, pode ser adiado para um pouco depois, mas também pode acontecer aos poucos, com a entrada na faculdade, a estreia excitada, titubeante e assustada no desejado mundo dos adultos. Nada impede que chegue muito antes da chamada Síndrome do Ninho Vazio. A certa altura, os filhos vão pedindo espaço e estabelecendo distâncias, com maior ou menor suavidade. Sentimos a movimentação das placas tectônicas dos afetos, atenções, prioridades. Deixar de ocupar o lugar de privilégio afetivo e fazer a transição para um outro, ainda a ser estruturado, traz um sentimento de perda inevitável e pode ser bastante assustador. Mas a experiência de educar filho é toda alicerçada no paradoxo de cuidar de alguém tão bem que ele não precise mais de você.

Assim, as placas tectônicas se movem e se acomodam, enquanto a gente torce para que o magma do amor nos mantenha aquecidos e conectados.

Helê, que só outro dia ouviu Wild Word na primeira pessoa.

Julice 1.7

Minha filha pediu para receber os amigos em casa sozinha, no aniversário de 17 anos. Pensei, pensei e não encontrei motivos para negar – poucas pessoas, pouco tempo, conheço a maioria… Repeti muitas vezes as mesmas recomendações – no sex, no alcool, no bagunça no elevador e nada de danificar a propriedade (que nem própria é) – e permiti.

Fiquei fazendo hora no shopping, pensando se fiz certo ou não – afinal, mãe sem culpa e dúvida nem mãe é. De vez em quando mandava uma mensagem investigativa: “Tudo bem?” “Jesus tá no controle?” Respostas relativamente rápidas, positivas e plenas de rsrsrs.

Cheguei e a casa estava de pé – ufa. Como ainda havia convidados, fui para o meu quarto, pra não atrapalhar. Sem perceber adormeci; acordei com a aniversariante me dando um beijo, boa noite e dizendo: “Mãe, obrigada por confiar em mim.”

Dormimos felizes.

African mother and daughter having a great time together | premium image by rawpixel.com

Helê

 

Eterno retorno

2019, gente. E ainda tem homem que não sai com mulher que tem filho? Sério?! Que desânimo, viu. Aí a gente entende porque chegamos nesse ponto e elegemos isso que taí…

Foi Lord Cláudio Luiz quem nos pautou, mostrando matéria publicada no Uol sobre gente que não sai com quem tem filhos. Eles tentaram falar assim, nesses termos igualitários, mas desde o título o enfoque recai sobre quem? Claro, as mulheres sendo preteridas por terem filhos e “como encarar melhor essa rejeição que é bem comum…” Será que a gente não faria melhor desencorajando essa rejeição? Ou tentando saber se o inverso acontece, se os homens também são preteridos por serem pais? Não seria melhor falar sobre isso que publicar notícia que naturaliza preconceitos? (Na minha [estéril] experiência em aplicativos de paquera, com frequência os homens posam com filhos ou sobrinhos, parece que ‘pega bem’ no mercado amoroso. Mas suspeito que o mesmo não se dá nos perfis femininos, digam aí os rapazes usuários desses apps )

Depois que até o papa ensinou o óbvio, que “mãe não é estado civil”, achei que a nossa campanha poderia ser arquivada para sempre, mas pelo jeito não. Foi no longínquo 2005 – portanto, fucking catorze anos atrás! -, que aderimos à campanha “Namore uma mãe solteira”, que tinha, claro, algo de humor e muito de verdade (e sabe-se, à boca pequena, que funcionou bem para umas e outras…). No universo paralelo que ora vivemos, onde quanto mais se caminha menos se avança, retiramos do baú as razões pelas quais namorar uma mulher com filho(s) é muito interessante:

Campanha Namore uma Mãe Solteira

1) Nós não temos pressa de casar, porque já temos filho
2) Nós não temos pressa de ter filho, porque já temos filho
3) Nós não temos tempo de grudar no seu pé, porque já temos filho
4) Se você quiser ter um filho, tudo bem, porque já temos filho
5) Se você não quiser ter filho, tudo bem também, porque nós já temos filho

Helê

Auge

Quando fiz 15 anos, recebi um telegrama de uma tia muito jovem – naquela época telegramas serviam como uma mensagem de “zap” em ocasiões alegres ou tristes – que dizia o seguinte: “15 anos. Auge. Aproveite.”

***

Eu e Helena nos conhecemos por causa das crias. Em vez de “mães da pracinha”, fomos “mães do boteco virtual”, aquele chamado Mothern. Nossos fridinhos eram pequeninos. Acompanhamos o crescimento de uma e de outro – os primeiros passos, as gracinhas, as dancinhas, os aprendizados, as leituras, as palhaçadas, as fantasias, enfim, vimos a infância passar por eles, tornar-se pré-adolescência e, enfim, tranformá-los nos incríveis adolescentes que eles são.

Estão mesmo no auge, de uma certa forma. Porque a potência que atingimos aos 15 anos é algo que não se repete aos 18, nem aos 21, nem muito menos aos 30 ou 40. Saber que a vida toda está à nossa frente, e que podemos fazer o que quisermos dela, é uma sensação que só se tem nessa idade.

Julia e Vítor fizeram 15 anos em 2017, nesta época louca em que cada vez mais nos parece que tudo o que é sólido desmancha no ar. Eles nos enchem de orgulho e esperança – se toda a geração deles tiver seu entusiasmo, sua confiança, sua criatividade, estamos feitos.

Fridas e fridinhos

Nossos fridinhos já não são mais “inhos”…

 

Hoje é dia dessa menina linda que, posso dizer, vi crescer. Como uma de suas fadas-madrinhas, Juju, te desejo todos os dons do mundo. Use-os bem. :)

-Monix-

 

Amélia 2.0

Cresci nos anos 1970 e 1980, numa família de classe média, na Zona Sul do Rio. Isso significa que tínhamos empregada em casa, dormindo no emprego de segunda a sábado. Mamãe era professora, papai funcionário público – não éramos ricos. Essa não era uma rotina de luxo.

Durante meus anos de mãe trabalhadora, repliquei esse esquema, com algumas adaptações aos novos tempos – folgas durante a semana para a empregada doméstica, fins de semana sem ajudante, etc. Mas, no geral, para manter a rotina de trabalho em horário integral, com direito a viagens pela empresa ou de férias, morando sozinha com uma criança pequena, nunca consegui encontrar outra fórmula que não fosse essa da exploração da mulher pela mulher.

Agora meu filho está adolescente e não só ficou bastante autônomo como passou a assumir algumas tarefas domésticas. Há coisa de um ano, passei a morar com minha irmã e os dois sobrinhos pequenos, e no meio desse furacão de mudanças, resolvi encarar o sonho antigo de trabalhar em home office (querendo contratar meus serviços, tamos aí). Mais tempo em casa, menos grana na conta, menos necessidade de alguém para fazer as tarefas de casa, e a PEC das Domésticas, lei justíssima que tornou a empregada-que-dorme um serviço de luxo, tudo isso somado e o resultado foi que reduzimos ao mínimo a atuação das diaristas (uma para a arrumação da casa e outra para cozinhar para nossa família de cinco).

Daí que agora passo mais tempo do meu dia dedicada a cuidar da casa. Não estou achando necessariamente ruim. Descobri que não posso avaliar os serviços domésticos em termos de “gosto” ou “não gosto”, e sim em termos de quais tenho mais ou menos preguiça de começar. Pôr a roupa na máquina, varrer, cozinhar – pouca preguiça. Estender a roupa para secar, lavar a louça, passar roupa – muita preguiça. São apenas tarefas do meu dia, assim como no dia a dia do escritório havia várias que também não me agradavam particularmente. Estou aprendendo a olhar para essa parte da rotina sem demérito nem glamour, apenas como o que é: uma rotina.

Essa “volta ao lar” é um fenômeno já mapeado por quem estuda as novas relações de trabalho. Disse Domenico de Masi, em seu emblemático “O Ócio Criativo”:

Também o número de pessoas ligadas ao trabalho doméstico e aos cuidados pessoais diminuiu: babás, governantas ou enfermeiras. Como o horário de trabalho se reduz, aumenta o tempo livre e, assim, as pessoas têm menos necessidade de contratar alguém para cuidar do filho ou dos pais idosos, ou ainda para fazer a faxina doméstica. A limpeza da casa passará a ser feita por cada um de nós, com o auxílio de eletrodomésticos sempre mais eficazes, inteligentes e flexíveis.

Sempre tive a preocupação de ensinar meu filho – desde pequeno – a participar dos cuidados com a casa. Dizia que a geração dele não terá empregada para fazer tudo em casa. A mudança chegou mais cedo do que se pensava, e essa já é uma realidade. Aqui os meninos não “ajudam” – eles têm obrigações, tanto quanto as mulheres “donas de casa”. São tarefas adequadas à idade de cada um, mas é responsabilidade deles cumpri-las. Nossa casa sobrevive bem. Sem a neurose de estar permanentemente impecável, mas, devo reconhecer, no geral bastante bem arrumada e funcional.

Nenhuma saudade da Amélia – agora sim é que seremos homens e mulheres de verdade.

-Monix-

Sob o sol de Libra

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fe4a4d263dd559b5b9bc397c6e9edbd6 (Encontrado em choklatte-shoppe-4u.tumblr.com)


Sobre esse lugar in between, privilegiado e  kinda angustiante, der ser mãe e filha e de estar mais ou menos no meio da vida. A proto adolescente, como sempre falando 17 assuntos por minuto,  comenta, naquela zona nebulosa e brilhante entre o sério e o divertido, que  uma das maravilhas de crescer vai ser não ter que contar pros pais que tirou nota baixa. Porque,  tipo, se não conseguir, assim, entregar um relatório no trabalho, quando eu for adulta, qualquer coisa assim, não vou  precisar contar pra pai e mãe, que é tipo, uma parada mega tensa!. E concluiu com a seguinte frase: “Porque é muito ruim precisar da aprovação de pai e mãe, cara!!!”

Entendi o que ela disse com o coração, que chegou a pesar, dividido feito uma laranja. Minha reação foi pegá-la no colo – ou o mais próximo disso que ainda consigo -, e responder como filha, como quem entrega um segredo: “O problema é que a gente passa a vida toda esperando a aprovação dos pais”. Ela arregalhou os olhos: “Sééério???” E seguiu direta e reta, como de costume: “E você procura aprovação do seu pai até hoje?!?!” Desviei como quem esquiva de um golpe de capoeira e completei a resposta anterior, agora como mãe, fazendo um cafuné: “Acontece que vocês são muito bobinhos que não sabem que a gente sempre aprova vocês em tudo!”. Risadas, carinhos  e logo 27 novos assuntos inundaram a sala. Embora eu siga até agora librianamente dividida e tocada por essa conversa despretensiosa de uma segunda-feira idem.

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(por valeriahernan em Flickr)

Helê

Mothernidade 2.0 ou What’s up: como usar

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Helê, mãe – mas pode me chamar de Google

Espelho

Filha veio encontrar comigo no trabalho,  no fim do expediente. Saindo de casa, manda um what’s up:

– Tô saindo.

E eu:

– Traz um casaquinho.

Nos encontramos, entramos no ônibus e eu ligo pra minha mãe:

– Oi, mãe. É que eu tô indo jantar com uns amigos, queria saber se tá tudo bem…

E ela:

– Leva um casaco.

Me senti dentro de uma matrioska.

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Helê

Plano

Então eu estou gribada, como já disse alhures. Nada grave, só muito atchim!, saúde, brigada. E moleza no corpo, sem correr :-(  e com mais carência que a média diária permitida por lei. E começam os muitos compromissos nessa época do ano, os inescapáveis, os ininputáveis, os que caem no seu colo e você nem sabe como; providências, caixinhas, decorações precoces como ejaculações, a primavera virando verão, esse mormaço horroroso, coisas que me deixam um tanto atarantada, em resumo. Daí que eu tinha hoje que ir a um “show de talentos” na escola da filha.  Que se apresentaria – mas ela não quis adiantar nada sobre o número. Tá, vou tentar sair mais cedo (do trabalho), chegar mais tarde (no show), comprar o quilo-não-perecível no caminho, saúde, atchim!, obrigada, não necessariamente nessa ordem. Confesso que não me preocupei até que comentei com alguém no trabalho, que fez uma cara de o-que- é-que-essa-menina-vai-aprontar? Minha filha pré-adole criativa e desinibida poderia fazer qualquer coisa, indeed.  Não chegava a ser caso pra ficar nervosa – nem dava tempo. Deu, claro, para alguma culpa (sempre!), e rápido debate mental inconclusivo (“Como assim eu não sei? Devia ter insistido pra saber. Ou não, né, dar liberdade e confiar, não é assim que faz?). Ok, me internem (na ala das mothens, please). Mas nessas horas o que me salva é o meu senso prático: ao invés de me perder em elocubrações eu adoto uma política de redução de danos. Preciso de um plano, e logo que formulo um, relaxo. Seja lá o que for que essa criança inventar, se nada der certo, o que eu faço? Subo no palco com ela, como em “Little Miss Sunshine”. Pronto. Atchim!, saúde, brigada.

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Helê

PS: Nem foi preciso ;-)  .

Guarda compartilhada

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Tá,  não é padrão,  embora já não seja raridade. Eu, na verdade, tenho alguma dificuldade de entender como fazer de outro jeito; a essa altura do campeonato, nas C.N.T.P., deveria ser comum entre pessoas que têm filhos e deixam de viver juntas a busca por equilibrar a convivência, os cuidados e a criação das crianças. Gente, século 21, mães e pais igualmente presentes, blábláblá…Mas opinião é como bunda, cada um tem a sua – e não é porque você tem que precisa oferecer.

Acontece que o cerumano, em especial o da espécie brasilis, pergunta, no matter what. Com maior ou menor cuidado, tendo ou não liberdade para isso. E opina, sendo ou não solicitado. No começo eu até achava bacana falar sobre, porque ajuda a naturalizar o assunto. Só que percebi que as pessoas perguntam para julgar, e em geral condenam, antes até de refletir sobre a resposta.  A primeira pergunta que fazem é: “Dá certo?” O Saraiva que em mim habita (aquele personagem que tem tolerância zero pra pergunta idiota)  se contorce para não dizer “Não, dá errado, insisto porque eu gosto de sofrer”. O vivente muitas vezes segue avaliando a minha vida: “É, não sei se é o melhor…” Como se eu tivesse perguntado. Há quem avalie que “é uma boa opção quando possível”, como se tivesse sido fácil ou simples. Não foi, ninguém disse que seria. Nunca é facil compartilhar o que quer seja após uma separação, é preciso criar condições onde não há. Arar em terra arrasada, mas com determinação e paciência, querendo que dê certo. Com algum esforço acaba dando. Não há condição favorável a priori: é a decisão que torna possível guardar junto o que não se pode apartar.

Mas a pergunta realmente cretina que, por incrível que pareça, eu ouvi várias vezes é: “Mas e a cabecinha da criança, como fica?” O Saraiva começa a babar porque não pode responder: “ Olha, fica mal, porque você sabe, bom mesmo é ver o pai ou a mãe uma vez por semana. Nossa, como eles ficam felizes!!!”. Em todas as vezes que me perguntaram isso o tom não era de curiosidade franca, mas de mal-disfarçada condenação – sobre algo que nem deveria ser de escrutínio público, e sobre o que não pedi opinião nem ajuda.

Se há desconhecimento sincero e legítima estranheza, há também  quem ataque para se defender, conscientemente ou não.  O fato é que eu me vi  algumas vezes na desagradável posição de ser julgada quando achei que poderia contribuir para que a guarda compartilhada deixe de ser vista como uma extravagância e possa ser considerada uma possibilidade de família, num mundo em que tudo que é sólido já sabemos onde vai parar.

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Esse post começou a ser escrito meses atrás, num dia em que estava particularmente brava porque novamente tinha esbarrado com um desses sem-noção supracitados. Percebo agora que não tem acontecido ultimamente. Não sei se hoje perguntam menos ou se o Saraiva tomou posse e encerra logo o assunto quando aparece, para manter a sanidade e pressão arterial. Fica aqui a minha contribição para quem, sinceramente, quiser refletir sobre o assunto.

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Helê

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