Foward to the past

(do Insta @mrchristopherlloyd) 

Christopher Loyd e Michael J. Fox, uma imagem que derreteu meu coração logo cedo (entendedores entenderão, mas só para os da minha faixa etária de gaza…)

Helê

Histórias negras

Comecei meu sábado meio desanimada (aliás, a semana toda tinha sido assim) e resolvi ticar alguns itens da minha lista na Netflix. (Parênteses: uma vez eu li em algum lugar que a Netflix tinha contratado o Adam Sandler – faz tempo, isso, né? – pra fazer alguns filmes para a plataforma. Isso porque eles perceberam que as pessoas incluem vários filmes interessantes, filmes de arte, filmes dramáticos, etc, na lista, mas o que de fato é assistido são as comédias leves. Tipo assim: eu quero ver filmes significativos, mas não agora. Enfim. Fim do parênteses.)

Nessa linha dos “filmes significativos mas não agora” minha lista incluía uma sugestão do algoritmo, um filme chamado Lionheart. É o primeiro filme nigeriano com distribuição mundial pela Netflix. Eu já tinha ouvido falar na chamada Nollywood, a prolífica indústria cinematográfica da Nigéria, mas nunca tinha tido a oportunidade de assistir uma de suas produções. Fico feliz por minha primeira experiência já ser de cara um filme de que gostei tanto. Fica aí o agradecimento à Netflix por suas contribuições ao globalismo cultural (disclaimer para eventuais paraquedistas de palavra-chave: não existe globalismo cultural e eu estou sendo irônica, talkey?).

Assistir um filme nigeriano é por si só uma experiência impactante. Se nós aqui deste país pseudo-ocidental, em que predominam produtos culturais estrelados por gente branca, comemoramos o elenco predominantemente negro em um filme de super-herói, imagine um filme cujo elenco inteiro é de pessoas negras. E elas não vivem em uma realidade fantástica, um país mítico, um mundo de super poderes. Elas são pessoas comuns, algumas ricas, outras mais ricas ainda. O filme tem uma trama corporativa – uma empresa de ônibus que corre o risco de fechar ou ser comprada por um empresário inescrupuloso. E aí vem a cereja do bolo: a protagonista, a heroína que chega para salvar o dia, é uma mulher. Quer dizer, por sua trama, Lionheart é um filme que poderia se passar em Chicago, estrelado por homens brancos norte-americanos, mas não: ele é um filme muito nigeriano, ele mostra questões étnicas, questões sociais, mostra uma estética diferente da que estamos acostumados a ver, mas além disso ele conta uma história bem contada, protagonizada por pessoas que normalmente nós só vemos como exóticas – ou não vemos at all.

***

O sábado começou bem, e resolvi continuar no clima da maratona de filmes. Há poucos dias tive acesso a alguns lançamentos recentes, digamos assim, por meios não-oficiais. Vi Judy, com a Renne Zellweger (sei lá como escreve) e achei no máximo passável. Aí resolvi encerrar com Harriet, que tinha chamado minha atenção quando recebeu duas indicações ao Oscar.

A história de Harriet Tubman é, por si só, impressionante. Ela nasceu escravizada, fugiu, conseguiu atravessar 160 quilômetros a pé, desde uma fazenda em Maryland até a Filadélfia, onde já não havia escravidão. Não satisfeita em conquistar a própria liberdade, ela se uniu a uma organização de negros abolicionistas e fez inúmeras viagens, correndo riscos altíssimos, para resgatar seus pais, irmãos, amigos e muitas outras pessoas escravizadas. Segundo consta nos registros históricos, Harriet foi responsável pela libertação de mais de 300 pessoas – ela as resgatava nas fazendas e guiava por trilhas secretas que ficaram conhecidas como “a ferrovia subterrânea”, ligando os estados sulistas ao norte dos EUA e ao Canadá.

É claro que uma vida como essa tem tudo para dar um ótimo filme. E deu. Mas o aspecto mais interessante é que em Harriet (o filme) nós vemos de fato uma história de protagonismo negro. Não há um branco heroico que aparece no final para salvar todo mundo ou para “endossar” a luta dos negros. No filme, os brancos são coadjuvantes – ou vilões. É uma perspectiva importante, mas mais do que isso, é um filme bom. E não há nada mais pedagógico do que uma história bem contada.

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Não escolhi ver esse dois filmes em modo combo de propósito, mas lá pela metade de Harriet me dei conta de que estava tendo um sábado mais ou menos temático. Foi bastante inspirador.

Monix (há! pensou que era a Helê? Te peguei.)

Cinemices

Faz tempo que não escrevo uma retrospectiva aqui no Dufas (a última que encontrei foi a de 2013 – a de 2014 já teve um outro clima, de revisão pessoal). Então seguindo nossa consagrada filosofia calabocajámorreuquemmandanomeubloguesoueu, por que não revisitar essa antiga tradição sete anos depois, só que mudando tudo?

É que apesar da crise (risos) sempre dá pra ver uns filmes legais, né? Aproveitando que ainda estamos no começo do ano (até o Carnaval ainda é limbo), preparei uma lista subdivida em duas que se sobrepõem, em ordem alfabética e não de preferência, para minha querida meia dúzia de leitores e leitoras. Digam aí se concordam e o que faltou.

Melhores de 2019

Bacurau – Há! Pensou que eu ia começar sendo original e única? Pensou errado! :D E aí, já viu Bacurau?

Downton Abbey – Ah, é uma bobagem, mas é a nossa bobagem do coração, né? Como não amar o reencontro dos Crawleys e toda aquela empáfia decadente dos empregados da mansão? Adoro.

Yesterday – A premissa é louca: imagine um acidente inexplicado que faz o mundo inteiro cair numa realidade paralela em que os Beatles nunca existiram – e só uma pessoa lembra da banda. Até quem não é muito fã dos Beatles (essas pessoas existem, acreditem) tá dizendo que gostou.

Academy Award - Oscar
Quem vai levar esse moço dourado pra casa? Saberemos em breve ;)

Oscar 2020

Este é mais um ano em que temos vários bons filmes concorrendo, que provavelmente dividirão os prêmios das principais categorias – acho difícil rolar um “arrastão” tipo Titanic e alguém levar um monte de estatuetas. Então listo aí abaixo os filmes indicados a categorias importantes que eu já vi e gostei. Na maioria dos casos ainda dá tempo de assistir (muitos estão em plataformas de streaming, fica a dica).

1917 – Minha irmã definiu bem: é um filme que mostra o quanto a guerra é uma coisa sem sentido. E faz isso abusando da técnica cinematográfica, em uma montagem que simula um único plano-sequência. Mesmo com uma narração visual no estilo videogame (os personagens vão “passando de fase” o tempo todo, andando sempre para frente e abandonando as tramas secundárias à medida em que avançam), ainda assim é um filmão. Minha diversão nos últimos dias tem sido procurar making-of s no YouTube.

Coringa – Uma visão perturbadora e nada estereotipada sobre as origens do antagonista do Batman. Esqueça a estética e o ritmo dos filmes de super-herói, isso aqui é outra coisa.

Democracia em Vertigem – O documentário conta uma história que conhecemos bem – a política brasileira e o mundo bizarro em que entramos após 2016 – por um ponto de vista absolutamente pessoal. Valeu como registro emocional, mesmo quando não me identificava totalmente com a interpretação da diretora sobre os fatos.

Dois Papas – É um filme bem feito sobre uma ótima história, com duas excelentes interpretações. Se não viu, veja. Até os ateus estão curtindo ;)

Era uma Vez… em Hollywood – Mais uma vez Tarantino apresenta uma releitura de um fato histórico, e mais uma vez dá certo. Leo Di Caprio e Brad Pitt entregam ótimas atuações, além de continuarem lindos, as always.

Indústria Americana – Esse é o primeiro fruto da parceria do casal Obama com a Netflix, e provavelmente vai derrotar o representante brasileiro na categoria Melhor Documentário, porque embora seja um filme bem mais careta, fala de um assunto muito caro aos americanos: as dificuldades da classe operária americana na era pós-industrial.

O Irlandês – Muita gente está comentando que achou o filme longo, chato… mas é um Scorcese estrelado por De Niro, Al Pacino e Joe Pesci, que ainda tem o Ray Romano de brinde, jura que vocês não gostaram? Bando de incréus.

Klaus – Já passou o Natal, inclusive já passou da época de gostar de desenho animado (#velharabugenta), mas gente, que filme fofo. Sem ser fofo, se é que me entendem. Enfim, vejam. Vi também Toy Story 4, que é muito divertido e bem feito, e parece que tem outra animação muito legal da Netflix entre os indicados, então a briga por Melhor Animação vai ser animada…

Parasita – Sabe o meme explique seu filme preferido de forma tosca? Então, Parasita é basicamente o seguinte: família pobre tenta enganar família rica e se mete em altas confusões. Mas não é só isso. Com direção, roteiro, montagem, elenco e fotografia impecáveis, trata-se de um filme de primeira linha, que vale a pena ser visto.

Ainda pretendo assistir mais alguns antes da cerimônia de entrega, dia 9 de fevereiro. Se vocês comentarem bastante, de repente me animo e faço aqui uns updates ;)

-Monix-

Cuidado, spoilers

Nos últimos oito anos – mais ou menos, porque teve gente que chegou antes, gente que chegou depois – nós acompanhamos juntas a saga dos sete reinos de Westeros em busca de uma certa harmonia (a paz nunca existe, mas vale cada minuto da busca). Então, nosotras não poderíamos deixar de registar aqui algumas impressões sobre o final desse épico, nem que seja para lembrarmos, um dia, de como estávamos nos sentindo dois dias depois do fim da série que conseguiu, quando ninguém mais apostava nisso (exceto em eventos esportivos e coberturas jornalísticas) reunir o mundo inteiro na frente de uma tela, ao mesmo tempo.

***

A Monix não liga para spoilers, a Helê fica brava quando leva um. Então, no espírito da conciliação, fizemos este post com um grande nariz-de-cera, assim quem quiser lê, quem não quiser vai fazer outra coisa e volta depois de assistir tudo.

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Antes de mais nada, a gente precisa dizer que de modo geral gostamos do final. Então se você está buscando um lugar para resmungar coletivamente, sorry, não é aqui ;)

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Acho que já enrolamos bem, né? Então vamos ao que interessa.

Impressões mui loquazes da Monix:

  • Começando pelo episódio anterior, eu tinha ficado meio chatiada com o final do Jaime Lannister, mas olhando em retrospecto, fez sentido. Eu achava que a história do Jaime era uma jornada em busca da honra, e que a tinham “estragado” mandando-o de volta para a Cersei. Se pelo menos ele tivesse ido matá-la, mas nem isso. Mas depois fiquei pensando que esse final foi bem roots. As Crônicas de Gelo e Fogo do George R. R. Martin não são sobre arcos de personagens, são sobre o fato de a vida não fazer sentido. As vidas acabam como e quando têm que acabar. E aí simplesmente o Jaime tentou superar a Cersei, mas não deu. Na hora que ele percebe que ela vai morrer – porque é claro que aquele exército vai ganhar -, e que nunca vai se render… ele precisa voltar. Achei bonito o jeito com a Brienne contou a história dele no Livro Branco da Guarda Real. (Só não gostei porque ficou registrado que o Tyrion mandou matar o Joffrey. Queria que ela passasse um Liquid Paper em cima. Mas pensando bem, a Brienne não sabe que a mandante do crime foi a Olenna Tyrell. Todos os que sabem estão mortos.)
  • Falando mais em geral, tem um monte de furos nos roteiros dessa temporada. Várias coisas estão ali só para a história poder seguir, mas não fazem sentido. Por exemplo, ontem vi em uma live da Omelete um comentário sobre o Sam: ele estava em Winterfell, a Gilly grávida, tinha abandonado a Patrulha da Noite, tinha abandonado a Cidadela. Daí de repente o cara me aparece na reunião dos “grandes lordes” de Westeros. Fazendo o quê lá? Representando a Casa Tarly? Tá, que seja. Aí meia dúzia de cenas depois ele vira arquimeistre! Mas e a Gilly? E os bebê tudo? Meistre pode ter filho? Fora que ele nem terminou o curso. Ficou parecendo o ministério de um certo presidente que nomeia gente que não tem experiência nenhuma só porque é amigo do amigo.
  • Sobre o novo rei, tenho que admitir que foi surpreendente (embora eu já tivesse lido teorias a respeito, achava um chute totalmente fora de cogitação). Minha primeira sensação não foi boa. Ele passou a temporada inteira dizendo que não era mais o Bran Stark. “I’m not him”, eu acho, era a frase. Aí de repente ele é indicado para o trono como Bran Stark e responde: por que você acha que eu vim até aqui? Estranho. Mas tá bem, entendi que a ideia era ter um rei neutro e deixar o conselho governar. No fim das contas, me incomodou menos do que eu pensei quando li as teorias de fãs. Talvez porque no fim das contas Bran, the Broken é um nome ótimo para o rei que vai reconstruir o reino. Gostei também do Podrick ser o empurrador do trono. Mas na prática ele não vai governar. Aquele conselho é que vai cuidar das paradas e ele vai ficar wargando por aí. Foi bacana também o rei passar a ser escolhido por um conselho, e não mais por direito hereditário. Já inventaram as eleições indiretas em Westeros. ;)
  • Sobre o final trágico de Jon e Danaerys, estava na cara que ele ia ter que matá-la. Sendo assim, gostei que ela não ficou louca, apenas intensificou características de personalidade que sempre teve. Aquela estética nazi do início do episódio eu amei. Aliás, toda a parte visual foi incrível.
    Tirando o fato de não ter sentido nenhum ela estar sozinha na sala do trono, achei bacana o Jon dando um oi pro Drogon e entrando pra levar um papo com a mamãe. Mas no geral, o Jon foi totalmente filho do Ned Stark (adotivo, eu sei) nesse final. Relutando em enxergar o que tem que ser feito, escravo da honra e zero pragmatismo político. Mas quando finalmente ele vê que a Danaerys é aquilo mesmo, que Targaryens são fogo e sangue, ele entende que quem dá a sentença tem que segurar a espada.
    Tenho que dizer que amei o Drogon queimando o trono. Tá, é um dragão filósofo, com raciocínio simbólico, mas é daí? Foi uma simbologia poderosa. E a única cena que vibrei.
  • (Eu gostei que nessa temporada final eles voltaram a dar importância para as tramas políticas. Aquela guerrinha contra os zumbis estava enchendo o saco.)
  • Quanto ao final do Jon, eu interpretei de uma forma positiva. Acho que talvez seja o único que teve um destino realmente grandioso (e feliz, na medida do possível).
    Eu não acho que ele foi para o exílio. Acho que ele foi ser o rei-pra-lá-da-muralha. O novo Mance Rayder. O Jon nunca ia ser feliz no trono, nem no Sul, nem em Porto Real. Ele é um filho do Norte. E acho que o momento que ele viveu algo mais próximo da felicidade foi quando estava com os selvagens.
    Achei genial terminar o episódio com ele atravessando a muralha e ignorando a ordem de ir para a Patrulha. Que mané patrulha? Não tem mais inimigos do lado de lá. Vai ficar fazendo nada o resto da vida? Melhor não. Foi embora com o povo livre e deu uma banana para os sete reinos.
  • Adorei o final das irmãs Stark. Sansa fez por merecer. Vai entrar para a história com a primeira rainha do Norte, aquela que conquistou a independência de novo para os nortenhos. Não se ajoelhou e se livrou dos dragões com a arma mais feminina possível (#estereotipodegenero): a fofoca. E a Arya, minha queridinha, meu xodó desde o primeiro livro, virou Américo Vespúcio e vai provar que o planeta é redondo. Uma alma de viking.
  • Senti falta de explicações melhores sobre o que aconteceu com os castelos. Por exemplo: o Tyrion agora é o Lorde de Rochedo Casterly? O Rob Arryn é o Lorde do Ninho da Águia, senhor dos lordes do Vale? Por que o sor Royce estava ao lado dele? Como conselheiro ou como vassalo? E o Sam é meistre ou é Lorde Tarly, afinal? O Edmure voltou para Corerrio? Ainda existe a Casa Frey? Talvez essas questões na série não tenham tanta importância, acho que é mais uma coisa dos livros.

Impressões breves da Helê:

  • O que mais me chamou atenção foi a redenção da História — e da literatura, por extensão. As Humanas foram redimidas! No discurso do Tyrion (“nada mais poderoso que a História, nada nos liga mais que a História”), na escolha do Bran, na cena da Brienne alterando a Wikepedia deles, opa, o registro da história do Jaime. Senti a alma lavada nesse aspecto.
  • Gostei que o episódio deslegitimou a teoria da loucura da Dany.
  • Também vi furos, mas overall, achei tudo muito coerente. A dor é mesmo pelo fim. A internet ama odiar. E procurar copo de Starbucks.

As Duas Fridas

Papo de Fridas

Outro dia nosotras nos encontramos, com um petit comité de amigos/as-leitores/as na casa da Monix sob o pretexto de (não) assistir um filme enquanto bebíamos e conversávamos sobre outras coisas. Como o objetivo de beber e conversar era mais premente que o de assistir um filme, escolhemos um que já praticamente sabemos de cor: Harry e Sally – Feitos um para o Outro (que inclusive já assistimos juntas). Para brindar o primeiro encontro do ano, nada como um bom confort movie.

Mas você já sabe que quando as Fridas se encontram nada nunca é só o que era pra ser. A gente adora complicar e botar caraminholas nas nossas próprias cabeças. Então, uns dias depois, tivemos mais ou menos a conversa abaixo por WhatsApp (que aqui segue editada e ampliada, que nós somos dessas). Foi, em suma, um papo sem compromisso, bem pingue-pongue mesmo, mas que rendeu um bom fio de pensamento e que quisemos dividir com vocês.

Helê: Fiquei pensando depois que não tem um casal negro naquelas entrevistas de Harry e Sally.
Monix: Verdade. Outro dia eu Estava revendo Friends e pensei a mesma coisa, não tem personagens negros na série inteira.
Helê: Pensando bem, preto, no filme (Harry e Sally), só garçom, staff em geral. E aí eu fiquei pensando que ficou tão ok falar mal do politicamente correto, mas isso hoje não aconteceria.
Monix: Sem dúvida
Helê: [A maior presença de negros nos elencos] tem a ver com um ativismo maior? Sim. Mas com o politicamente correto também. E o que veio primeiro, quem puxou quem?
Monix: Acho inclusive que tem algum tipo de regulação nos EUA (não sei se governo ou autorregulação) que exige diversidade nos elencos. #pesquisar [A pesquisa não nos trouxe conclusões definitivas, mas este artigo leva a crer que não há regras nesse sentido, apenas uma discussão bastante rica e ainda em curso sobre a passagem do colorblind para o color-conscious.]
Monix: Representation matters !
Helê: Sim. Dá uma tristezinha admitir isso porque a gente ama o filme, né?
Monix: Mas não acho que isso diminua o valor do filme. Era o contexto da época.
Helê: Não, mas é como admitir defeito em amigo
Monix: Não dá pra julgar uma obra de 30 (?!) anos atrás com o raciocínio de hoje. A não ser coisas escandalosas, tipo o filme do Griffith que defendia a Ku Klux Klan. [O filme é O Nascimento de uma Nação.]
Helê: Entendo. Claro que eu não posso cobrar feminismo do Mario Lago e a sua Amélia. Mas como a gente gosta muito, preferia não tivesse esse defeito de cor, hahaha!
Monix: Hahahah verdade. Aliás, ótimo exemplo esse da Amélia.
Monix: Nem contei do problema que foi assistir 7 Noivas para 7 Irmãos no telão com o Fridinho. Ele ficou incomodadíssimo com o rapto.
Helê: Caramba! Nunca tínhamos visto desse jeito! Cárcere privado.
Monix: Lá pelas tantas ele disse que se no final as moças casassem com os sequestradores, ia ficar muito p*to. Quase mandei ele dormir 😬

E vocês, o que acham? Como assistir obras de arte criadas em outros contextos, com tudo o que sabemos hoje? Dá pra gostar, levar em consideração o contexto, ou fica difícil? Dividam seus pensamentos com a gente. A discussão é boa.

Las Dos Fridas

Agoniza mas não morre

Assisti “Spotlight – segredos revelados” na Netflix, sobre o escândalo de padres católicos pedófilos em Boston. Bem filmado, com ótimas interpretações, conta uma história importante sem aquelas bobagens roiludianas de inventar romance e drama onde não existe. Quando o filme terminou fiquei pensando no papel do jornalismo e em como não podemos prescindir dele – que, não por acaso, já foi escolhido como inimigo do atual governo.

À parte minhas angústias pessoais, “Spotlight” reafirma que o jornalismo pode ir mal das pernas, mas sempre haverá espaço para a investigação criteriosa,  redação bem feita, supervisão e orientação editorial responsável e divulgação de material de verdadeira utilidade pública. E há várias iniciativas sérias do chamado jornalismo independente à disposição em diferentes plataformas e formatos – YouTube, podcasts, newsletters e sites. Gratuitos, dependentes de assinaturas e financiamento coletivos ou híbridos, essas frentes merecem cada vem mais nossa atenção, apoio e incentivo. Creio que não conseguiremos resultados diferentes utilizando os mesmos caminhos, como já ensinou vovô Einstein.

Acompanho a produção do Intercept, do canal Meio e do Nexo, que estou considerando assinar. Também ouvi falar bem da Apublica, mas conheço pouco. E vocês, o que acompanham ou sugerem? 

Helê

 

A princesa-memória

Esses dias eu estava pesquisando sobre inteligência artificial para um artigo acadêmico e me deparei com um autor chamado Heinz von Foerster, que, em 1984, já questionava o uso de metáforas “antropomórficas” para falar das máquinas:

Por exemplo, a perpétua referência à “memória”: mas os computadores não têm memória! Nunca teremos uma máquina capaz de escrever suas Memórias! Os computadores têm sim elementos de armazenagem que lhes permitem conservar números ou programas. Existe uma enorme diferença entre uma “memória” e um “sistema de armazenamento”: este último só pode reproduzir o que foi nele colocado, ao passo que a memória é um processo de transformação. (Grifo meu; a citação é desse livro aqui.)

(A propósito, e isso não tem nada a ver com o tema deste post – se é que este post tem um tema-, eu também já escrevi sobre minha implicância com essa história de “inteligência” artificial.)

***

Comecei falando sobre a memória ser um processo de transformação, e não foi à toa. Isso porque meu filho fez aniversário e eu, em um momento #maedecasarea, comprei para ele um livro que na verdade era eu que queria ler: A Princesa Prometida, de William Goldman. A obra foi (re?)lançada no Brasil, e uma breve folheada nas primeiras páginas já me fez entrar em um túnel do tempo e resgatar uma memória afetiva que eu sinceramente não sei se aconteceu ou não.

The-Princess-Bride

Reconhece essa mocinha? Não?

Lembrava perfeitamente de ter visto o filme A Princesa Prometida, o qual eu nem sabia que era baseado nesse livro delicioso, no cinema. Lembrava de ter gostado muito, muito, do jeito cômico com que o filme retrata o gênero capa-e-espada, tipo “mocinho vive altas aventuras para salvar mocinha em nome do amor verdadeiro”. Lembrava de diálogos que já nasceram memes, antes de sabermos que memes existiam, como o inesquecível “My name is Inigo Montoya. You killed my father. Prepare to die.” Por fim, lembrava que vi este filme em uma tarde de um dia de semana, provavelmente em férias escolares, quase com certeza no cinema Paissandu, e aí é que minha memória se turva: lembrava de sair do cinema com minha avó, rindo atrasada das cenas hilárias e curtindo a surpresa de constatar que todo o romantismo daquela mulher do início do século não tinha resistido ao cinismo satírico do fim do século (e essa interpretação é feita totalmente a posteriori, pela versão de mim que já está muito mais próxima da idade que minha avó tinha naquela época que da Mônica que viveu a cena).

Só que, embora eu traga bem nítida a lembrança de ter visto esse filme com minha avó, não sei por que motivo sempre que penso nisso, desconfio. Tenho uma sensação difusa de que talvez esteja confundindo duas situações e que não vi o filme com ela, talvez sozinha, ou com outra pessoa.

Por sorte, eu mantive um hábito, durante muitos anos, de registrar o que fazia em agendas/diários, como muitas mulheres da minha geração (e de outras). Então resolvi investigar. O filme foi produzido em 1987, portanto separei as agendas daquele ano e do seguinte, pois na época os filmes demoravam a ser lançados no Brasil. Mergulhei em anotações de estudante (ler capítulo tal, estudar para a prova de tal coisa), bilhetes de amigas (algumas de que nem me lembro mais), lembretes de aniversários, registros de brigas com o namorado, ingressos de shows, e muitas, muitas notas sobre filmes, peças de teatro e espetáculos que assisti quando adolescente.

Depois de um ano e meio de reminiscências, finalmente encontrei a anotação sobre A Princesa Prometida:

Casa da Fulana.

“A Princesa Prometida”.

Parque Recreio.

Assim, sem nenhuma explicação. Sem menção a quem estava comigo. Na grande maioria das minhas anotações eu registrava vários detalhes, como o cinema, as companhias, o que fiz depois, se gostei do filme. Neste, nada.

Minha memória acertou uma coisa: vi o filme em uma quarta-feira, dia 27 de julho de 1988, no meio das férias. Muito provavelmente acertou outra: o restaurante Parque Recreio ficava no Flamengo, pertinho do cinema Paissandu, então é certo que vi o filme lá. Assim, desconfio que minha companhia deve mesmo ter sido minha querida avó. Ao revisitar essas duas agendas, de quando eu tinha 17 e 18 anos, percebi que mesmo no auge da minha adolescência era muito frequente visitar a vovó ou passear com ela – e isso me deixou feliz, porque nos últimos anos de sua vida, por motivos diversos, alguns deles de ordem prática, outros de fundo emocional, não tive muitos momentos compartilhados com ela. Visitava, aceitava as deliciosas sopas e bolos que nunca faltaram em sua casa, ouvia histórias e reminiscências, mas a frequência era pouca.

Ainda bem que, como aprendi com minha amiga Maria João, a memória é uma velha louca, que joga comida fora e guarda trapos coloridos. Esse retalho amarelado pelo tempo me trouxe, nesta tarde de inverno, exatos 30 anos depois, uma lembrança que, na verdade, não importa que tenha (ou não) acontecido. Ao contrário do que creem os defensores da singularidade tecnológica, a gente lembra não é com o cérebro: é com o coração.

-Monix-

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