Cuidado, spoilers

Nos últimos oito anos – mais ou menos, porque teve gente que chegou antes, gente que chegou depois – nós acompanhamos juntas a saga dos sete reinos de Westeros em busca de uma certa harmonia (a paz nunca existe, mas vale cada minuto da busca). Então, nosotras não poderíamos deixar de registar aqui algumas impressões sobre o final desse épico, nem que seja para lembrarmos, um dia, de como estávamos nos sentindo dois dias depois do fim da série que conseguiu, quando ninguém mais apostava nisso (exceto em eventos esportivos e coberturas jornalísticas) reunir o mundo inteiro na frente de uma tela, ao mesmo tempo.

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A Monix não liga para spoilers, a Helê fica brava quando leva um. Então, no espírito da conciliação, fizemos este post com um grande nariz-de-cera, assim quem quiser lê, quem não quiser vai fazer outra coisa e volta depois de assistir tudo.

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Antes de mais nada, a gente precisa dizer que de modo geral gostamos do final. Então se você está buscando um lugar para resmungar coletivamente, sorry, não é aqui 😉

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Acho que já enrolamos bem, né? Então vamos ao que interessa.

Impressões mui loquazes da Monix:

  • Começando pelo episódio anterior, eu tinha ficado meio chatiada com o final do Jaime Lannister, mas olhando em retrospecto, fez sentido. Eu achava que a história do Jaime era uma jornada em busca da honra, e que a tinham “estragado” mandando-o de volta para a Cersei. Se pelo menos ele tivesse ido matá-la, mas nem isso. Mas depois fiquei pensando que esse final foi bem roots. As Crônicas de Gelo e Fogo do George R. R. Martin não são sobre arcos de personagens, são sobre o fato de a vida não fazer sentido. As vidas acabam como e quando têm que acabar. E aí simplesmente o Jaime tentou superar a Cersei, mas não deu. Na hora que ele percebe que ela vai morrer – porque é claro que aquele exército vai ganhar -, e que nunca vai se render… ele precisa voltar. Achei bonito o jeito com a Brienne contou a história dele no Livro Branco da Guarda Real. (Só não gostei porque ficou registrado que o Tyrion mandou matar o Joffrey. Queria que ela passasse um Liquid Paper em cima. Mas pensando bem, a Brienne não sabe que a mandante do crime foi a Olenna Tyrell. Todos os que sabem estão mortos.)
  • Falando mais em geral, tem um monte de furos nos roteiros dessa temporada. Várias coisas estão ali só para a história poder seguir, mas não fazem sentido. Por exemplo, ontem vi em uma live da Omelete um comentário sobre o Sam: ele estava em Winterfell, a Gilly grávida, tinha abandonado a Patrulha da Noite, tinha abandonado a Cidadela. Daí de repente o cara me aparece na reunião dos “grandes lordes” de Westeros. Fazendo o quê lá? Representando a Casa Tarly? Tá, que seja. Aí meia dúzia de cenas depois ele vira arquimeistre! Mas e a Gilly? E os bebê tudo? Meistre pode ter filho? Fora que ele nem terminou o curso. Ficou parecendo o ministério de um certo presidente que nomeia gente que não tem experiência nenhuma só porque é amigo do amigo.
  • Sobre o novo rei, tenho que admitir que foi surpreendente (embora eu já tivesse lido teorias a respeito, achava um chute totalmente fora de cogitação). Minha primeira sensação não foi boa. Ele passou a temporada inteira dizendo que não era mais o Bran Stark. “I’m not him”, eu acho, era a frase. Aí de repente ele é indicado para o trono como Bran Stark e responde: por que você acha que eu vim até aqui? Estranho. Mas tá bem, entendi que a ideia era ter um rei neutro e deixar o conselho governar. No fim das contas, me incomodou menos do que eu pensei quando li as teorias de fãs. Talvez porque no fim das contas Bran, the Broken é um nome ótimo para o rei que vai reconstruir o reino. Gostei também do Podrick ser o empurrador do trono. Mas na prática ele não vai governar. Aquele conselho é que vai cuidar das paradas e ele vai ficar wargando por aí. Foi bacana também o rei passar a ser escolhido por um conselho, e não mais por direito hereditário. Já inventaram as eleições indiretas em Westeros. 😉
  • Sobre o final trágico de Jon e Danaerys, estava na cara que ele ia ter que matá-la. Sendo assim, gostei que ela não ficou louca, apenas intensificou características de personalidade que sempre teve. Aquela estética nazi do início do episódio eu amei. Aliás, toda a parte visual foi incrível.
    Tirando o fato de não ter sentido nenhum ela estar sozinha na sala do trono, achei bacana o Jon dando um oi pro Drogon e entrando pra levar um papo com a mamãe. Mas no geral, o Jon foi totalmente filho do Ned Stark (adotivo, eu sei) nesse final. Relutando em enxergar o que tem que ser feito, escravo da honra e zero pragmatismo político. Mas quando finalmente ele vê que a Danaerys é aquilo mesmo, que Targaryens são fogo e sangue, ele entende que quem dá a sentença tem que segurar a espada.
    Tenho que dizer que amei o Drogon queimando o trono. Tá, é um dragão filósofo, com raciocínio simbólico, mas é daí? Foi uma simbologia poderosa. E a única cena que vibrei.
  • (Eu gostei que nessa temporada final eles voltaram a dar importância para as tramas políticas. Aquela guerrinha contra os zumbis estava enchendo o saco.)
  • Quanto ao final do Jon, eu interpretei de uma forma positiva. Acho que talvez seja o único que teve um destino realmente grandioso (e feliz, na medida do possível).
    Eu não acho que ele foi para o exílio. Acho que ele foi ser o rei-pra-lá-da-muralha. O novo Mance Rayder. O Jon nunca ia ser feliz no trono, nem no Sul, nem em Porto Real. Ele é um filho do Norte. E acho que o momento que ele viveu algo mais próximo da felicidade foi quando estava com os selvagens.
    Achei genial terminar o episódio com ele atravessando a muralha e ignorando a ordem de ir para a Patrulha. Que mané patrulha? Não tem mais inimigos do lado de lá. Vai ficar fazendo nada o resto da vida? Melhor não. Foi embora com o povo livre e deu uma banana para os sete reinos.
  • Adorei o final das irmãs Stark. Sansa fez por merecer. Vai entrar para a história com a primeira rainha do Norte, aquela que conquistou a independência de novo para os nortenhos. Não se ajoelhou e se livrou dos dragões com a arma mais feminina possível (#estereotipodegenero): a fofoca. E a Arya, minha queridinha, meu xodó desde o primeiro livro, virou Américo Vespúcio e vai provar que o planeta é redondo. Uma alma de viking.
  • Senti falta de explicações melhores sobre o que aconteceu com os castelos. Por exemplo: o Tyrion agora é o Lorde de Rochedo Casterly? O Rob Arryn é o Lorde do Ninho da Águia, senhor dos lordes do Vale? Por que o sor Royce estava ao lado dele? Como conselheiro ou como vassalo? E o Sam é meistre ou é Lorde Tarly, afinal? O Edmure voltou para Corerrio? Ainda existe a Casa Frey? Talvez essas questões na série não tenham tanta importância, acho que é mais uma coisa dos livros.

Impressões breves da Helê:

  • O que mais me chamou atenção foi a redenção da História — e da literatura, por extensão. As Humanas foram redimidas! No discurso do Tyrion (“nada mais poderoso que a História, nada nos liga mais que a História”), na escolha do Bran, na cena da Brienne alterando a Wikepedia deles, opa, o registro da história do Jaime. Senti a alma lavada nesse aspecto.
  • Gostei que o episódio deslegitimou a teoria da loucura da Dany.
  • Também vi furos, mas overall, achei tudo muito coerente. A dor é mesmo pelo fim. A internet ama odiar. E procurar copo de Starbucks.

As Duas Fridas

Papo de Fridas

Outro dia nosotras nos encontramos, com um petit comité de amigos/as-leitores/as na casa da Monix sob o pretexto de (não) assistir um filme enquanto bebíamos e conversávamos sobre outras coisas. Como o objetivo de beber e conversar era mais premente que o de assistir um filme, escolhemos um que já praticamente sabemos de cor: Harry e Sally – Feitos um para o Outro (que inclusive já assistimos juntas). Para brindar o primeiro encontro do ano, nada como um bom confort movie.

Mas você já sabe que quando as Fridas se encontram nada nunca é só o que era pra ser. A gente adora complicar e botar caraminholas nas nossas próprias cabeças. Então, uns dias depois, tivemos mais ou menos a conversa abaixo por WhatsApp (que aqui segue editada e ampliada, que nós somos dessas). Foi, em suma, um papo sem compromisso, bem pingue-pongue mesmo, mas que rendeu um bom fio de pensamento e que quisemos dividir com vocês.

Helê: Fiquei pensando depois que não tem um casal negro naquelas entrevistas de Harry e Sally.
Monix: Verdade. Outro dia eu Estava revendo Friends e pensei a mesma coisa, não tem personagens negros na série inteira.
Helê: Pensando bem, preto, no filme (Harry e Sally), só garçom, staff em geral. E aí eu fiquei pensando que ficou tão ok falar mal do politicamente correto, mas isso hoje não aconteceria.
Monix: Sem dúvida
Helê: [A maior presença de negros nos elencos] tem a ver com um ativismo maior? Sim. Mas com o politicamente correto também. E o que veio primeiro, quem puxou quem?
Monix: Acho inclusive que tem algum tipo de regulação nos EUA (não sei se governo ou autorregulação) que exige diversidade nos elencos. #pesquisar [A pesquisa não nos trouxe conclusões definitivas, mas este artigo leva a crer que não há regras nesse sentido, apenas uma discussão bastante rica e ainda em curso sobre a passagem do colorblind para o color-conscious.]
Monix: Representation matters !
Helê: Sim. Dá uma tristezinha admitir isso porque a gente ama o filme, né?
Monix: Mas não acho que isso diminua o valor do filme. Era o contexto da época.
Helê: Não, mas é como admitir defeito em amigo
Monix: Não dá pra julgar uma obra de 30 (?!) anos atrás com o raciocínio de hoje. A não ser coisas escandalosas, tipo o filme do Griffith que defendia a Ku Klux Klan. [O filme é O Nascimento de uma Nação.]
Helê: Entendo. Claro que eu não posso cobrar feminismo do Mario Lago e a sua Amélia. Mas como a gente gosta muito, preferia não tivesse esse defeito de cor, hahaha!
Monix: Hahahah verdade. Aliás, ótimo exemplo esse da Amélia.
Monix: Nem contei do problema que foi assistir 7 Noivas para 7 Irmãos no telão com o Fridinho. Ele ficou incomodadíssimo com o rapto.
Helê: Caramba! Nunca tínhamos visto desse jeito! Cárcere privado.
Monix: Lá pelas tantas ele disse que se no final as moças casassem com os sequestradores, ia ficar muito p*to. Quase mandei ele dormir 😬

E vocês, o que acham? Como assistir obras de arte criadas em outros contextos, com tudo o que sabemos hoje? Dá pra gostar, levar em consideração o contexto, ou fica difícil? Dividam seus pensamentos com a gente. A discussão é boa.

Las Dos Fridas

Agoniza mas não morre

Assisti “Spotlight – segredos revelados” na Netflix, sobre o escândalo de padres católicos pedófilos em Boston. Bem filmado, com ótimas interpretações, conta uma história importante sem aquelas bobagens roiludianas de inventar romance e drama onde não existe. Quando o filme terminou fiquei pensando no papel do jornalismo e em como não podemos prescindir dele – que, não por acaso, já foi escolhido como inimigo do atual governo.

À parte minhas angústias pessoais, “Spotlight” reafirma que o jornalismo pode ir mal das pernas, mas sempre haverá espaço para a investigação criteriosa,  redação bem feita, supervisão e orientação editorial responsável e divulgação de material de verdadeira utilidade pública. E há várias iniciativas sérias do chamado jornalismo independente à disposição em diferentes plataformas e formatos – YouTube, podcasts, newsletters e sites. Gratuitos, dependentes de assinaturas e financiamento coletivos ou híbridos, essas frentes merecem cada vem mais nossa atenção, apoio e incentivo. Creio que não conseguiremos resultados diferentes utilizando os mesmos caminhos, como já ensinou vovô Einstein.

Acompanho a produção do Intercept, do canal Meio e do Nexo, que estou considerando assinar. Também ouvi falar bem da Apublica, mas conheço pouco. E vocês, o que acompanham ou sugerem? 

Helê

 

A princesa-memória

Esses dias eu estava pesquisando sobre inteligência artificial para um artigo acadêmico e me deparei com um autor chamado Heinz von Foerster, que, em 1984, já questionava o uso de metáforas “antropomórficas” para falar das máquinas:

Por exemplo, a perpétua referência à “memória”: mas os computadores não têm memória! Nunca teremos uma máquina capaz de escrever suas Memórias! Os computadores têm sim elementos de armazenagem que lhes permitem conservar números ou programas. Existe uma enorme diferença entre uma “memória” e um “sistema de armazenamento”: este último só pode reproduzir o que foi nele colocado, ao passo que a memória é um processo de transformação. (Grifo meu; a citação é desse livro aqui.)

(A propósito, e isso não tem nada a ver com o tema deste post – se é que este post tem um tema-, eu também já escrevi sobre minha implicância com essa história de “inteligência” artificial.)

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Comecei falando sobre a memória ser um processo de transformação, e não foi à toa. Isso porque meu filho fez aniversário e eu, em um momento #maedecasarea, comprei para ele um livro que na verdade era eu que queria ler: A Princesa Prometida, de William Goldman. A obra foi (re?)lançada no Brasil, e uma breve folheada nas primeiras páginas já me fez entrar em um túnel do tempo e resgatar uma memória afetiva que eu sinceramente não sei se aconteceu ou não.

The-Princess-Bride

Reconhece essa mocinha? Não?

Lembrava perfeitamente de ter visto o filme A Princesa Prometida, o qual eu nem sabia que era baseado nesse livro delicioso, no cinema. Lembrava de ter gostado muito, muito, do jeito cômico com que o filme retrata o gênero capa-e-espada, tipo “mocinho vive altas aventuras para salvar mocinha em nome do amor verdadeiro”. Lembrava de diálogos que já nasceram memes, antes de sabermos que memes existiam, como o inesquecível “My name is Inigo Montoya. You killed my father. Prepare to die.” Por fim, lembrava que vi este filme em uma tarde de um dia de semana, provavelmente em férias escolares, quase com certeza no cinema Paissandu, e aí é que minha memória se turva: lembrava de sair do cinema com minha avó, rindo atrasada das cenas hilárias e curtindo a surpresa de constatar que todo o romantismo daquela mulher do início do século não tinha resistido ao cinismo satírico do fim do século (e essa interpretação é feita totalmente a posteriori, pela versão de mim que já está muito mais próxima da idade que minha avó tinha naquela época que da Mônica que viveu a cena).

Só que, embora eu traga bem nítida a lembrança de ter visto esse filme com minha avó, não sei por que motivo sempre que penso nisso, desconfio. Tenho uma sensação difusa de que talvez esteja confundindo duas situações e que não vi o filme com ela, talvez sozinha, ou com outra pessoa.

Por sorte, eu mantive um hábito, durante muitos anos, de registrar o que fazia em agendas/diários, como muitas mulheres da minha geração (e de outras). Então resolvi investigar. O filme foi produzido em 1987, portanto separei as agendas daquele ano e do seguinte, pois na época os filmes demoravam a ser lançados no Brasil. Mergulhei em anotações de estudante (ler capítulo tal, estudar para a prova de tal coisa), bilhetes de amigas (algumas de que nem me lembro mais), lembretes de aniversários, registros de brigas com o namorado, ingressos de shows, e muitas, muitas notas sobre filmes, peças de teatro e espetáculos que assisti quando adolescente.

Depois de um ano e meio de reminiscências, finalmente encontrei a anotação sobre A Princesa Prometida:

Casa da Fulana.

“A Princesa Prometida”.

Parque Recreio.

Assim, sem nenhuma explicação. Sem menção a quem estava comigo. Na grande maioria das minhas anotações eu registrava vários detalhes, como o cinema, as companhias, o que fiz depois, se gostei do filme. Neste, nada.

Minha memória acertou uma coisa: vi o filme em uma quarta-feira, dia 27 de julho de 1988, no meio das férias. Muito provavelmente acertou outra: o restaurante Parque Recreio ficava no Flamengo, pertinho do cinema Paissandu, então é certo que vi o filme lá. Assim, desconfio que minha companhia deve mesmo ter sido minha querida avó. Ao revisitar essas duas agendas, de quando eu tinha 17 e 18 anos, percebi que mesmo no auge da minha adolescência era muito frequente visitar a vovó ou passear com ela – e isso me deixou feliz, porque nos últimos anos de sua vida, por motivos diversos, alguns deles de ordem prática, outros de fundo emocional, não tive muitos momentos compartilhados com ela. Visitava, aceitava as deliciosas sopas e bolos que nunca faltaram em sua casa, ouvia histórias e reminiscências, mas a frequência era pouca.

Ainda bem que, como aprendi com minha amiga Maria João, a memória é uma velha louca, que joga comida fora e guarda trapos coloridos. Esse retalho amarelado pelo tempo me trouxe, nesta tarde de inverno, exatos 30 anos depois, uma lembrança que, na verdade, não importa que tenha (ou não) acontecido. Ao contrário do que creem os defensores da singularidade tecnológica, a gente lembra não é com o cérebro: é com o coração.

-Monix-

A Pantera é negra

Demorei a escrever sobre o filme Pantera Negra porque queria que meus amigos vissem sem muita expectativa, mais ou menos como cheguei ao cinema junto com minha filha. A esta altura do campeonato acho que todo mundo já viu. E da arte de fazer amigos e influenciar pessoas eu sei um pouco só da primeira parte. Também queria escrever algo, se não tão bacana quanto o filme, pelo menos digno de Wakanda. Vou tentar.

Pantera Negra começou a me encantar, antes de tudo, pela beleza – que eu sou militante pela igualdade racial, feminista e tal e coisa, mas sou também libriana: estética me arrebata, e a do filme é absolutamente estonteante. E me pareceu construída a partir de diferentes referências, texturas e padrões africanos, uma representação diversificada de um continente idem, ao contrário do que acredita o senso comum. (Impressão confirmada em várias matérias, como esta do Buzzfeed e este vídeo do NYT)

Também chamou atenção e agradou de cara o inglês não americano dos personagens. Pode parecer um detalhe, mas faz toda a diferença para tornar verossímil aquela fantasia exuberante que matém um pé na vida real. Percebo agora, ao escrever, que o filme conquistou meus sentidos antes que meu coração e mente (que se renderiam pouco depois). Um bom começo, já que é o que se procura no cinema, ser levado pelos sentidos para outras realidades.

O filme do jovem diretor Ryan Coogler tem tudo o que se espera de um filme do gênero: cenas de ação e luta, efeitos tecnológicos, queda e redenção, sem esquecer algum sentimentalismo. Mas tudo feito de uma maneira competentíssima e bem dosada – além de linda, como eu já disse. E escapa, sempre que pode, das obviedades: estão lá as mulheres empoderadíssimas, tanto e tão imprescindíveis à trama que nem precisam ser protagonistas. E, como disse uma espectadora sagaz, elas não são fortes porque sofreram, porque precisaram superar obstáculos etc., elas são fortes apenas porque são.

Pantera tem outras sutilezas, além do sotaque dos personagens, que contribuem para o acerto do filme, várias pequenas subversões cativantes: um herói que “congela” diante da mulher que ama, um vilão que, quando morre, a gente lamenta, porque era divertidíssimo; um branco que até ajuda mas não salva a pátria nem mocinha alguma; inimigos que acolhem, amigos que fazem escolhas equivocadas. O roteiro desvia de muitas cascas de banana em que podia tombar feio, seja escorregando na militância panfletária ou caindo nas soluções pré-fabricadas de filme-pop-de-HQ – dos quais, afinal, ninguém espera mais do que diversão. Mas Pantera Negra entrega mais, diverte com inteligência e humor. E entretém de fato: passei duas horas na sala escura sem lembrar de boletos e demais aporrinhações.

Para mim, a maior ousadia do filme foi colocar na boca do antagonista a fala mais contundente: uma referência aos antepassados que preferiram a morte ao cativeiro. Forte, comovente e carregada de significados, o mais evidente deles a existência de múltiplas formas de resistência e de ser negro.

Ah, sim, eu mencionei que o elenco é composto de 90% de atores negros, assim como o diretor? Não? Pois o filme também não alardeia sua negritude: ela está lá, plena como deveria, majoritária como nunca, provocando variados efeitos na audiência, difíceis de mensurar mas indeléveis (tipo Obama na presidência). Sendo negra, o filme tem para mim valor e importância únicos, que a plateia branca pode (e deve) imaginar a extensão. Eu o vejo de outro lugar – como no culto da igreja no Harlem, onde nós ficamos em assentos diferentes (e melhores que) os dos turistas.

Eu chorei ao final de Pantera Negra pelo conjunto da obra, por estar vendo ao lado da minha filha, pelo que ele representa ou pode representar para as novas gerações, e por ter esperado quase 50 anos para ver um filme assim.

Helê

Figuras escondidas

Hidden figures pode soar um filme desnecessário, quase um contrassenso em 2017. Por que fazer um filme sobre mulheres negras que desempenharam papel relevante na corrida espacial americana, se daqui a alguns dias um negro se despede da Casa Branca após oito anos de governo, provocando manifestações de saudade antecipada no mundo todo? Por que precisamos lembrar de banheiros, bebedouros, assentos no ônibus e lugares específicos nas bibliotecas para negros se hoje, ao menos nos EUA, o que se discute é a segregação de banheiros por gênero, algo que até pouquíssimo tempo atrás parecia inquestionável? Ainda precisamos de filmes falando de um passado difícil e limitado, em que negras e negros, mesmo brilhantes (ou talvez até por isso) precisavam de artimanhas e subterfúgios para conseguir respeito e reconhecimento que outros conseguiam com menos esforço ou merecimento, ou por outra, faziam o dobro para obter a metade?

Sim, ainda precisamos de filmes como esse, porque ainda há muitas figuras importantes escondidas nos cantos de páginas da história – como Henrietta Lacks, por exemplo. Porque se, em 2017, a América ainda precisa compreender que black lives matter, isso significa que ainda não progrediu o suficiente como sociedade. E se restasse alguma dúvida da importância desse filme ela teria se dissipado quando a amiga que estava conosco, várias décadas mais jovem, espantou-se com o primeiro coloured space que apareceu na tela. Não que ela não soubesse (ela é apenas jovem, não desinformada). Mas o impacto da cena, provocado por essa capacidade única do cinema, de colocar você dentro da ação, esse impacto dificilmente pode ser obtido apenas com a leitura. Precisamos contar essas histórias porque, como Mr. Obama disse em seu discurso de despedida, “a raça continua a ser uma força poderosa e divisiva em nossa sociedade” e não podemos take for granted os direitos conquistados. Precisamos continuar falando sobre preconceito e discriminação porque a falta de empatia entre as mulheres grita no filme e ainda hoje encontra eco na sociedade. Precisamos porque sim – ainda precisamos.

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O trio de amigas tratado no filme faz parte da elite científica mundial – trabalhar na NASA nunca foi para qualquer um. E mesmo assim, diante de um carro enguiçado e com a aproximação de um policial (branco, obviamente, estamos na Virgínia segregada dos anos 1960), elas temem. Temem porque sabem que devem temer (como ainda hoje, pelo menos aqui no Brasil, negros temem quando policiais dão a “dura” no ônibus). Quer dizer, estamos falando de um filme sobre racismo, sim, mas não sobre o racismo dos excluídos. São mentes brilhantes, pessoas capazes de pôr um homem (*um homem, note-se, e não um ser humano genérico*) na Lua, mas que por sofrerem com um duplo handicap precisam provar todos os dias que são capazes de dignas da confiança nelas depositada.

Por outro lado, o que a NASA quer é ganhar a corrida espacial. E os engenheiros brancos e homens que comandam a agência sabem que não podem abrir mão de nenhum talento por conta de coisas menores, como o preconceito de toda uma sociedade, ora essa. Então, em nome dos resultados, criam-se as salas dedicadas a mulheres brancas e a mulheres negras (no filme não fica claro se há um espaço para homens negros fazerem cálculos).

Surpreende também, pouco mais de meio século depois da época em que se passa a história, nos darmos conta de que não só havia vida inteligente antes do computador como basicamente todos os cálculos feitos pela equipe da NASA até John Glenn entrar em órbita foram feitos manualmente. Calcular a velocidade de lançamento, o ângulo de reentrada, as resistências dos materiais e outros desafios tão complexos quanto esses era a tarefa desse grupo de mulheres excepcionais. Esse toque tecnológico deixa o filme com um ar meio “Histórias Cruzadas encontra Os Eleitos“.

Em que pese o nome ruim – tanto no original quanto em português – e uma narrativa linear e quadrada, sem sofisticação ou inventividade, Hidden Figures/Estrelas Além do Tempo merece ser visto. Do ponto de vista apenas cinematográfico é bem arroz com feijão – mas isso é o que dá sustança, dizem as avós. Filmes como esse consolidam na memória coletiva os imensos sacrifícios aos quais a população negra foi submetida – não na longínqua época da escravidão, mas ali na esquina da História, 50 anos atrás. Sobretudo no Brasil, onde um eficiente sistema racista ainda mantém a esmagadora maioria da população negra distante dos locais sociais de excelência – e nem foi preciso segregar espaços.

Duas Fridas

O menino e a selva

Quando eu era bem pequena, tive um avô gente boa, que me botava para navegar em cima da sua barriga e contava histórias imitando vozes engraçadas – a mais marcante delas era o Mogli, cuja versão Disney foi lançada três anos antes de eu nascer. O “vovô Bagui” (nosso jeito tatibitati de chamá-lo de Baguera) morreu antes de eu completar seis anos de idade, e minha lembrança desse avô querido sempre ficou meio misturada à jornada do menino-lobo criado pela pantera protetora e o urso divertido.

Agora está nos cinemas um filme que reconta a história do Mogli, com uma roupagem de aventura mais apropriada às infâncias do século XXI. O fato de não ser uma animação permitiu um aprofundamento um pouco maior da trama e dos personagens – por outro lado, ainda é uma história contada do ponto de vista de um menino, o que garante alguma leveza à experiência.

A história de Mogli, de certa forma, é uma alegoria sobre a jornada da humanidade – da selva à civilização, ou da infância à vida adulta. Mogli é o símbolo do engenho humano, da vivacidade, da anima em seu sentido mais filosófico. Baguera representa a lei e a ordem, às quais precisamos nos ajustar para sobreviver e superar o caos da natureza. Já Baloo é o princípio do prazer, a vida em suas bare necessitites – o extraordinário já é demais. O tigre Shere Khan é a violência incontida, a agressividade que foge ao controle, e que precisa ser superada com o amadurecimento. Kaa é o inconsciente onírico, as memórias latentes que vêm à tona e eventualmente nos ajudam a equacionar crises. A alcateia simboliza a família e a proteção que ela nos dá – e, também, a necessidade de se transcender o pai, que “matamos” ao chegar à vida adulta. Os macacos do rei Louie são a transgressão, a malandragem, o outro lado da moeda, eventualmente tão necessária para nossa sanidade mental. Por fim, os elefantes, que nunca esquecem, estão lá para fazer nosso vínculo com as tradições ancestrais – eles “criaram tudo”, é o que conta Baloo.

Talvez eu tenha uma ligação afetiva muito forte com o menino-lobo para ser capaz de elaborar uma análise objetiva. O fato é que me emocionei em rever suas aventuras na selva.

-Monix-

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