O menino e a selva

Quando eu era bem pequena, tive um avô gente boa, que me botava para navegar em cima da sua barriga e contava histórias imitando vozes engraçadas – a mais marcante delas era o Mogli, cuja versão Disney foi lançada três anos antes de eu nascer. O “vovô Bagui” (nosso jeito tatibitati de chamá-lo de Baguera) morreu antes de eu completar seis anos de idade, e minha lembrança desse avô querido sempre ficou meio misturada à jornada do menino-lobo criado pela pantera protetora e o urso divertido.

Agora está nos cinemas um filme que reconta a história do Mogli, com uma roupagem de aventura mais apropriada às infâncias do século XXI. O fato de não ser uma animação permitiu um aprofundamento um pouco maior da trama e dos personagens – por outro lado, ainda é uma história contada do ponto de vista de um menino, o que garante alguma leveza à experiência.

A história de Mogli, de certa forma, é uma alegoria sobre a jornada da humanidade – da selva à civilização, ou da infância à vida adulta. Mogli é o símbolo do engenho humano, da vivacidade, da anima em seu sentido mais filosófico. Baguera representa a lei e a ordem, às quais precisamos nos ajustar para sobreviver e superar o caos da natureza. Já Baloo é o princípio do prazer, a vida em suas bare necessitites – o extraordinário já é demais. O tigre Shere Khan é a violência incontida, a agressividade que foge ao controle, e que precisa ser superada com o amadurecimento. Kaa é o inconsciente onírico, as memórias latentes que vêm à tona e eventualmente nos ajudam a equacionar crises. A alcateia simboliza a família e a proteção que ela nos dá – e, também, a necessidade de se transcender o pai, que “matamos” ao chegar à vida adulta. Os macacos do rei Louie são a transgressão, a malandragem, o outro lado da moeda, eventualmente tão necessária para nossa sanidade mental. Por fim, os elefantes, que nunca esquecem, estão lá para fazer nosso vínculo com as tradições ancestrais – eles “criaram tudo”, é o que conta Baloo.

Talvez eu tenha uma ligação afetiva muito forte com o menino-lobo para ser capaz de elaborar uma análise objetiva. O fato é que me emocionei em rever suas aventuras na selva.

-Monix-

Vá ver o Chico

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Se ainda não viu, faça a você mesmo um favor e vá. Contra fel, moléstia, crime; para um coração mesquinho, contra solidão agreste: Chico Buarque Artista Brasileiro é inconteste. O filme, que continua lotando sessões no Rio, serve de antídoto para o inevitável pessimismo reinante (Veríssimo, meu rei, com a lucidez de sempre,  chamou de uma clareira de talento e sensibilidade em meio à estupidez crescente). Antítese desses tempos de império do Ego e supervalorização das Caras, o documentário é totalmente anticelebridade. A gente sai do cinema com a sensação de que bateu papo com o Chico por duas horas – o que, convenhamos, vale o ingresso. Um papo agradável, bem-humorado, cheio de reminiscências mas sem nenhuma nostalgia.

Logo no início ele avalia que, quando jovem, mergulhou na literatura para chegar até o pai, amoroso mas um tanto inacessível. “Eu tive que achar o caminho até o escritório do meu pai”, ele diz, e na hora pensei: “mas não é o que todos nós fazemos, seja um bar, a oficina ou só a cabeceira da mesa?”.  Também em outros momentos Chico se mostra gente como a gente,  lidando com desafios, surpresas e sobretudo percalços da vida.  Sobre os quais, aliás, ele parece ter até mais prazer em falar: lembra, entre risadas, da primeira turnê fracassada pela Europa, com Toquinho; diverte-se ao contar do surfista no Arpoardor que o reconheceu na foto ao lado de Bob Marley num museu em Kingston. Com a mesma leveza reflete sobre a velhice  – fazendo contas que depois abandona – e sobre as mudanças no país.

Há momentos emocionantes, como o depoimento do Carvana sobre a primeira vez em que Chico viu a Marieta. Minha emoção se liquefez nos trechos sobre o Rio de Janeiro e a Mangueira porque aí é, literalmente, muito amor envolvido. Eu saí da sessão leve e satisfeita com o meu guri, que além de suas muitas e decantadas habilidades, domina mais uma, rara: soube envelhecer bem, mantendo a fleuma, o charme, a mente aberta e a gargalhada farta. Melhor só se estivesse, como encantado, ao lado meu.

Helê

Meus dois centavos – Oscar 2015

Se o senador McCarthy fosse vivo, sua lista negra teria aumentado ontem: entre feminismo, direitos dos negros, dos gays e dos imigrantes, foi um belo caldo cultural. Prato cheio.
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Pareço feminista mas adoro olhar as celebs no tapete vermelho. Só que, diferentemente de toda a internet, acho todas lindas – seja com vestido esquisito, cabelo solto, maquiagem assim ou sapatos assado.
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Muita gente vem desanimando com as indicações nos últimos anos. Como ser desprovido de memória que sou, confesso que não sei se concordo com a avaliação das outras premiações, mas este ano tivemos pelo menos quatro filmes muito bons indicados à categoria principal: Birdman, Boyhood, Grande Hotel Budapeste e Whiplash. Todos filmes autorais, com assinatura – gostando ou não do resultado, não se pode desmerecer o trabalho em si. O Jogo da Imitação e Foxcatcher também são obras bem feitas, mesmo que mais convencionais.
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Há muito tempo não me divertia tanto com o Oscar. Além de ter visto boa parte dos indicados nas principais categorias, consegui acompanhar a cerimônia toda, depois de um ano em que perdi a festa, e ainda por cima com a companhia da minha irmã, que durante muito tempo foi parceira inseparável para efeito de eventos televisionados.
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Como a Otra, acompanhei os babados pelo WhatsApp – muito divertido – e, diferente dela, pelo twitter e não facebook. A fofoca cibernética deixa a festa ainda mais animada.
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Por fim, uma nota de torcedora: apesar do resultado esperado, até o último momento imaginei que meu favorito pudesse levar o prêmio do ano. Não deu. #TeamBoyhood

-Monix-

Pastilhas Garota* – Oscar 2015

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Patrick me ganhou na primeira piada, sobre a noite dos mais brancos, digo, mais brilhantes. Tá, as piadas incômodas são praxe, mas para abrir a noite assim tem que ter…eu ia dizer balls mas não, tem que ter coragem nível Tina Fey e Amy Poehler. Não senti falta da Ellen.

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Aliás, é engraçado isso, como Oscar é tão careta e coreografado que tem espaço inclusive pra rebeldia. Que perde a força dentro dessa liberalidade consentida.

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Mas dane-se, a gente gosta assim mesmo. Eu pelo menos, me comovo e tudo. Patrícia Medium Arquette me rancou uma lágrima quando falou de “each women who had gave birth”. E que mãe memorável ela viveu em ”Boyhood”! (Pra mim, baideuei,  um grande injustiçado da noite).

Essa cena.

Essa cena.

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Birdman? Não vi, não verei. Iñárritu: sou contra.

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Depois da minorias políticas, étnicas e sociais, esse foi o ano das minorias médicas.

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E Lupita tra-ba-lha-da nas pérolas? Queria ser ela quando crescesse, mas como já cresci pode me chamar de Viola Davis.

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Uma noite de maridos devotados: J.K. Simons (BFF: Betty Faria Fácil, muito antes do Oscar), antes de dar sermão nos meninu dele e do mundo, fez uma declaração emocionada para a mulher. E o marido leeendo de Julianne Moore lacrou só com a cara de besta com a qual ele olhava pra ela, fora as gentilezas.

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Geral pagando pau pra Lady Gaga porque ela…canta bem. Ah, para.

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“Há mais homens negros sob o controle corretivo hoje do que sob a escravatura em 1850”. John Legend. A melhor frase numa noite de discursos inspiradíssimos.

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Surpreendentemente, o discurso de Legend foi mais contundente e melhor que o de Common. Aliás, um belo exemplo de diferentes (e igualmente importantes) falas sobe o racismo: uma mais conciliadora, unindo todas as minorias mais ou menos no mesmo saco;  outra desafiadora e franca, botando o dedo na ferida. Arrisco dizer que ontem Common foi Dr. King, Legend foi Malcom.

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Mas Juliane Redhead Moore agradecendo os 5 anos a mais para curtir o marido mais jovem também foi memorável.

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Seu Oscarchrispine é issoaê, essa (nem sempre) divertida mistura de politics and vanity. Às vezes até emoção. Tipo o Facebook.

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A propósito: Oscar no Face é hora do recreio, no What’s up é ficar com grupinho no fundão. Não perdi nenhum dos dois, mas advinha onde eu me diverti mais…

 

Helê

*Porque Drops, só a Fal.

O vencedor é

Eu gosto de assistir ao Oscar. Desde os tempos politicamente incorretos em que se anunciavam os vencedores de cada categoria, e não aqueles para quem o Oscar foi.

Gosto do tapete vermelho; de ver atores e atrizes da nova geração cujos nomes sou muito velha para aprender; da Meryl Streep concorrendo todo ano, e a gente sabendo que sempre é merecido; dos apresentadores tentando fazer piadinhas que o Rubens Ewald não consegue traduzir a tempo; das injustiças irreparáveis; dos lifetime achievements que tentam reparar injustiças irreparáveis; dos babados do ano; das homenagens aos mortos do ano, que passam tão rápido que nem dá pra ver; dos tropeções e micos em geral; e, claro, dos prêmios. Mesmo que os indicados deste ano sejam, sempre, piores que os do ano passado, e ainda piores que os de anos passados, eu gosto. É uma diversão que não perco por nada. (Perdi ano passado, marquei viagem pro mesmo dia e estava no avião durante toda a cerimônia, buá.)

Esse é o Oscar do Stanley Kubrick (por efeitos especiais - ele é um dos injustiçados). O único que já vi pessoalmente.

Esse é o Oscar do Stanley Kubrick (por efeitos especiais – ele é um dos injustiçados). O único que já vi pessoalmente.

Este ano, enquanto Helê se esbaldava com seu coração carnavalesco, aproveitei para assistir um monte de “filmes do Oscar”. Super entrei no clima. Pra ficar perfeito, só falta achar um bolão, que com aposta fica mais animado.

E aí, quais são seus palpites?

-Monix-

Salvadores de obras-primas

Eu já tinha ouvido falar na história dos soldados aliados que, durante a II Guerra Mundial, salvaram milhares de obras de arte da destruição. Há um tempo atrás até me passaram um link – que já perdi – para o documentário The Rape of Europa, mas deixei para assistir depois, o depois passou, o tempo passou, e não vi.

Agora que ando atrasadíssima com os lançamentos do cinema, muito mais do que gostaria, fico sabendo que saiu de cartaz, ou está saindo, ou vai sair, enfim, já perdi minha chance, um filme baseado na história dos heróis da arte, os caras que correram a Europa atrás de monumentos e obras de arte – e graças a eles podemos vê-las nas cidades que foram bombardeadas, ou nos museus, galerias etc.

Já que não deu para ver o(s) filme(s), estou lendo o livro. A história é bem mais emocionante do que eu pensava. Na verdade, desde antes do início oficial da guerra Hitler já tinha a intenção de construir em Berlim o museu do Terceiro Reich, que seria o maior do mundo, com o maior e o melhor acervo. Os oficiais do exército alemão eram instruídos explicitamente a retirar obras de valor de seus museus de origem e levar para Berlim. Segundo o livro, estima-se em cinco milhões as obras saqueadas (e depois devolvidas).

Ainda estou no começo do livro, mas já fui completamente tomada pela história. É tão incrível que só poderia ser verdade – a ficção não seria capaz de criar uma trama tão mirabolante.

O autor, Robert M. Edsel, é um americano que, quando esteve na Europa em 1996, perguntou-se como aquelas obras de arte  e monumentos tinham sobrevivido aos bombardeios durante a guerra. E aí descobriu que quase não tinham.

-Monix-

Paris je t’aime

Assisti esta semana, depois de todo mundo, e depois de ter ido à Paris, à “Paris je t’aime”, essa colagem de curtas que supostamente usa a cidade como tema. Digo supostamente porque nem todos os cineastas convidados respeitam essa premissa, algumas das histórias poderiam acontecer em qualquer outra cidade. Há, claro, variações de qualidade, como se poderia esperar ao reunir 20 curtas de diretores diferentes. Mas o resultado final é agradável, e esta história, a última delas, simplesmente me arrebatou. Se não puder assistir ao filme todo, assista ao menos “14e Arrondissement” e a interpretação comovente de Margo Martindale:

E depois da meia noite?

Como já disse a antropóloga Rita Lee: toda mulher é chata, todo homem é bobo.
Celine é chata, Jesse é bobo, e talvez por isso sua história possa ser considerada tão arquetípica dos relacionamentos amorosos dessa virada de milênio. Em 18 anos eles viveram um romance-aventura daqueles que só quem tem a vida toda pela frente pode encarar;  passaram pelo choque de realidade dos trinta e poucos, se reencontraram e ousaram experimentar ficar juntos; agora estão simplesmente buscando uma forma de ficar juntos apesar de.
Em determinado momento da longa DR que é Antes da Meia Noite, Jesse diz a Celine que ela é doida (e para ele isso é um elogio). Doida não – acho que Celine simboliza as mulheres de uma geração, a minha. Pela primeira vez na história da civilização ocidental, nós mulheres que hoje temos cerca de quarenta pudemos escolher. Estar ou não casadas, ter ou não filhos, agora ou mais tarde, priorizar ou não a carreira, estudar mais, viajar mais, enfim, são muitas opções e todas elas são válidas. Isso é bom e muito libertador, mas também é muito confuso e fonte de muita angústia. Celine fez escolhas, e essas escolhas definem quem ela é hoje. Mas e se ela tivesse seguido em outra direção? Buscar essa resposta é o que a deixa doida, e culpada, frustrada, cansada, enfim, tantas coisas que a confusão gerada por ela torna tudo ao seu redor ingerenciável.
Se houver uma continuação para essa história, daqui a nove anos espero encontrar Celine em paz com ela mesma. E prestando mais atenção na estrada que ela está trilhando do que em todas as bifurcações que deixou para trás no caminho.
-Monix-

Update: pensando um pouco mais sobre o filme, acho interessante que de certa forma o estereótipo está invertido: Celine racionaliza demais e por isso não consegue controlar suas reações; por sua vez, Jesse sente demais, e tem mais certeza do que sente, por isso consegue, aparentemente manter o equilíbrio enquanto ela surta.

Ideia na cabeça, câmera na mão – e uma vaquinha pra ajudar

Olha aqui, presta atenção: esta não é a nossa canção, mas sim o documentário que a minha amiga Paula Damasceno está preparando sobre o “The Carolina Theatre”, um cine teatro de 85 anos, ativo graças ao empenho da comunidade em Greesboro, Carolina do Norte, EUA. O que você tem a ver com isso? Muito, se você gosta de cinema e história, porque o Carolina é como aquele cinema do seu bairro, lembra? O Baronesa ou o Bruni, no Rio (citem os seus cinemas extintos, leitores paulistas, mineiros e demais). Só que esse sobreviveu e tem inúmeras histórias para contar – inclusive do tempo em que brancos e negros tinham lugares específicos para assistir aos espetáculos e filmes. O tempo passou na janela e essa Carolina viu tudo.

A diretora do documentário está fazendo um crowdfunding, ou melhor, uma vakinha para comprar a passagem necessária para finalizar o documentário. Na página Carolina 85 ela explica tudo melhor que eu, e você pode ver um teaser do filme. Eu agradeço a quem puder colaborar e recomendo naquela minha categoria máxima, dicumforça. Com 10 reais você ajuda a fazer um filme – mais barato que assistir a um, dependendo do cinema. Eu já colaborei, e você? Vai lá. Agora, não deixa pra depois  ;-) .

Helê

Gritos e sussurros

Rede de Intrigas é um filme clássico para quem estuda Comunicação. Assisti pouco tempo depois de me formar, e confesso que não gostei muito – na época, achei que o filme tinha envelhecido mal, que estava datado, que não fazia muito sentido para alguém que, como eu, estava imersa na cultura quase-cyber dos anos 1990.

A trama do filme é a seguinte: o âncora Howard Beale, cuja popularidade está em queda, é demitido da emissora e surta ao vivo. Em determinado momento do filme, ele conclama os espectadores a correrem para a janela e gritar “I’m as mad as hell and I’m not going to take it anymore”, num brado coletivo contra tudo isso que está aí. Para mim, pareceu meio caricato e inverossímil: quem iria para janela gritar, ainda mais uma frase como essa, sem um bordão claro nem objetivo específico?

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Pois é, mas o mundo gira e a Lusitana roda (gente, calma, esse slogan não é do meu tempo não, tá?) e de repente cheguei à conclusão que na era das redes sociais todo mundo grita na janela. O Twitter é lotado de pessoas repetindo “I’m as mad as hell and I’m not going to take it anymore”, sem um bordão claro nem um objetivo específico.

O interessante é que, como costuma acontecer, o “sistema” já tomou conta dessa gritaria na janela. As empresas monitoram redes, criam relacionamento, buscam relevância e tudo mais. O que não deixa de ser uma coisa boa.

Agora com licença que vou ali fechar a janela. Muito barulho.

-Monix-

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