Crônica da autodestruição

Estava eu atravessando a rua Voluntários da Pátria de ônibus, debaixo de chuva e engarrafamento, no início da tarde, quando chegou uma mensagem de uma amiga, carioca honorária, que morou aqui um tempo e voltou para sua cidade:

Gente, acordei com tanta vontade de morar aí , que nem sei.

Minha resposta para ela foi:

Já procurou um psiquiatra?

***

Desci do ônibus, almocei na charmosa Livraria da Travessa de Botafogo e fui assistir ao documentário O Desmonte do Monte, sobre a história do Morro do Castelo, local de fundação da mui leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, demolido por meio de uma prodigiosa engenharia no início do século XX.

Morro do Castelo

Foto de Augusto Malta

O filme conta a história do morro desde a época em que lá viviam os índios tamoios e tupinambás – postos em guerra por conveniência de portugueses e franceses que disputavam aquele pedaço de terra -, passando pela construção do castelo que lhe deu o nome e da igreja consagrada ao padroeiro da cidade, até a ocupação final pelas camadas mais empobrecidas da população, o que, certamente, contribuiu para o discurso higienista daqueles que defenderam sua destruição.

A pesquisa de imagens do documentário é impressionante, e me fez pensar no quanto essa cidade “maravilhosa” já nasceu vocacionada para a autodepreciação. Desde a fundação até hoje, já foram muitas e muitas versões de Rios de Janeiros, cada uma delas diminuindo nossa parcela hídrica (rios, pântanos, lagoas, até mesmo a baía e o mar foram aterrados sem dó nem piedade), sufocando o traçado natural dos cursos d’água, condenando estilos arquitetônicos considerados ultrapassados, elevando outros, considerados mais modernos.

O Rio é uma cidade de cidades misturadas, já dizia a poeta, mas o caso é que essa mistura não é apenas sincrônica – é, também, diacrônica.

Vi imagens de um Rio de Janeiro irreconhecível, mesmo para mim, que gosto de pensar que o conheço mais ou menos bem (pelo menos o meu circuito, composto de Centro-Zona Sul e grande Tijuca).

Durante o desmonte

A cidade vira as costas para o lugar onde nasceu

Quem passa pela Cinelândia hoje não consegue imaginar que atrás dos prédios da Biblioteca Nacional e do Museu de Belas Artes havia um morro inteiro. Com castelo, igreja, casas e mais casas, e até a lenda de um tesouro dos jesuítas, supostamente enterrado em galerias subterrâneas. Se o tesouro existia, e se foi encontrado durante o desmonte, ninguém sabe ninguém viu.

Depois da destruição do morro, foi construído um novo Centro do Rio, com ares parisienses, cortado pela Avenida Central – durou pouco. Talvez três ou quatro décadas depois, boa parte dos prédios nos estilos eclético e neoclássico foram considerados um entrave ao progresso, monumentos ao mau gosto, e, portanto, derrubados para dar lugar a um paredão de “espigões”.

A história do Rio é uma história de autodestruição e de ocultamentos. Em certo momento do filme, um dos entrevistados diz, respondendo se havia preocupação com o patrimônio histórico: “Não existia História. Nem patrimônio.”

***

Se o Brasil não é para amadores, o Rio de Janeiro não é para pessoas sãs. Tem que ser um pouco louco para conseguir sobreviver nessa cidade alucinada – e alucinante.

-Monix-

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Tamo junto!

Eu tinha rascunhado umas coisas pra dizer sobre Rio em Shamas, livro do Anderson França, mas ficou perdido numa nuvem dessas da internêta. Reencontrei essa semana e acho que ainda vale a pena postar; além de divertidíssimo, o livro merece toda atenção que puder despertar. Porque o Dinho, como também é conhecido, ainda é uma voz incomum na literatura: a periferia falando e refletindo sobe si mesma. E com humor.

Eu fui fisgada pelo primeiro texto dele que li, que tem o título singelo de “São Jorge – O Cu Enquanto Memória Expandida – O Pessach”. Devota que sou, recebi num 23 de abril e repassei pra várias pessoas, porque me pareceu uma excelente homenagem, malandramente carioca. A partir dessa crônica passei a seguir o Anderson no feicebuque e conheci “Rio em Shamas”. Tem muitas coisas interessantes na escrita dele, sendo a primeira delas o estilo, que parece anárquico mas possui uma lógica própria. Além disso, soa familiar: assim que li achei que estava reencontrando um parceiro, mesmo que nunca o tenha visto.

Impressiona a maneira como Dinho é capaz de observar a realidade sendo “de dentro”, mas se distanciando o suficiente (mas não muito) para descrevê-la como se fosse “de fora”. Essa habilidade se expressa, entre outras formas, na sua incrível capacidade de transcrever os dialetos suburbanos para o papel. Quando ele escreve, no texto do São Jorge, “Ciligou?”, a gente tem um segundo de estranhamento mas entende em seguida (sobretudo nós, cariocas). A palavra não existe, mas quando lê, você a compreende. Em outro trecho ele fala de como o Santo Guerreiro consegue a devoção de católicos e protestantes anglicanos, que só têm em comum, além dele, Jesus. E comenta: “Olha. A. Moral. Do. Maluco.” Uma sentença que você lê ouvindo. E quase vendo a expressão facial e os gestos do narrador.

Nos livros da Elena Ferrante fiquei fascinada, desde o início, com a questão do dialeto, de evidente importância na trama. Delineia personalidades, circunscreve espaços e define o tom de muitas cenas. Desde então me pergunto sobre os nossos, quais seriam? Porque me parece impossível que uma população grande e complexa como a nossa não os tenha. Eu não sei qual é a definição técnica de dialetos – alô, linguistas, socorro – mas me parece que é exatamente o que o Dinho transcreve nas suas crônicas. Aquele não é o Português formal, não tá puro: é a língua descalça na laje pegano sol, desenrolando as situação e dando S nos obstáculos. Uma linguagem rica e vistosa, fluida, de difícil apreensão e fácil compreensão. Talvez por isso poucas vezes possamos ver essa oralidade impressa, e quase nunca valorizada como parte importante da cultura.

Marechal Hermes, estação do trem. O subúrbio também pode ser bucólico

Além disso, tem o lugar de onde ele escreve, o tal “lugar de fala”, que traz para o texto gentes e espaços sobre os quais eu pouco leio no dia a dia. Acho que nunca tinha lido uma crônica que falasse de Cavalcante, bairro aqui do subúrbio do Rio. Ainda vigora no imaginário coletivo (e nas mídias todas) um Rio de Janeiro que vai da zona sul até, no máximo, o Centro. Então dá um prazer danado reconhecer e reencontrar o subúrbio nos textos do Dinho – ainda mais em crônicas, esse gênero que eu amo e que me ensinou a gostar de ler. Sem folclore ou sentimentalismo, mas com a língua afiada e a mania de rir de si mesmo de um jeito que só quem é pode – só quem é preto, pobre, suburbano, favelado. Nem sempre concordo com Dinho, mas acho absolutamente necessário que ele conquiste espaços de expressão para além da internet; acho um livro como o dele relevante porque rompe expectativas, quebra padrões. No “Rio em Shamas”, o subúrbio e seus moradores faz o que os pretos fizeram recentemente na universidade: deixaram de ser objeto para virar sujeito. É nóis.

Helê

Diálogos carnavalescos

– Vou mais tarde hoje, tô cansada. Ontem fui ao “Desculpe o transtorno”, ao Baile do André e fiquei na merda.

– Fiquei na merda é um bloco ou foi você?

***

– Que fantasia é essa?

– Eu tô de Dalila

– Ah, do Sansão…

– Não, a da música: “Eu sou Dalila, não vou negar…”

***

– Cara, num é que a Ivete Sangalo pariu no sábado de carnaval?

– E foi pra avenida depois?!

Bom carnaval pra geral!

Helê, of claro

Rio de tristeza

Da série “Análises Políticas em Mesa de Bar”:

– Essa merda desse país acabou.

– E o Rio de Janeiro, que sempre foi vanguarda, acabou primeiro.

**
Visitando o Parque Lage, uma das variadas facetas da Floresta da Tijuca, penso: nada pode morrer no entorno dessa floresta magnífica. Ou, por outra, tudo ao seu redor sobrevive, apesar. Talvez o Rio ainda não tenha sucumbindo totalmente, deslizando derrotado pela Baía de Guanabara adentro, porque essa larga formação rochosa, que se esparrama pelas zonas sul, norte e oeste, ainda nos retém, finca no solo uma esperança irracional, mas atávica.  Nessa cadeia de montanhas verde e rocha, o Cristo tem fama mas figura como um adorno,  um piercing delicado; quem reina absoluto,
muito antes do Redentor, é o gigante sisudo da Pedra da Gávea, carranca assombrada com o que fizemos de nós. Na Floresta da Tijuca, desconfio, reside o verdadeiro espírito carioca, ancestral miscigenado dos indígenas daqui e dos africanos trazidos à força do outro lado do Atlântico. Rogo que ele possa nos redimir e refundar a cidade que se formou ao redor da Floresta de maneira selvagem e incivilizada.

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Um dia após a visita ao Lage, num domingo outonal – ou seja, de clima ameno, céu límpido e azul arrebatador – surpreendi o Cristo num ângulo inesperado (inacreditável, mas eles existem) – e senti aquela reincidência de amor, um reapaixonamento fulminante pela cidade. Logo depois eu tive uma triste epifania: constatei que o Rio, meus amigos, é uma miragem. Pense no que há de mais sedutor, desejável, deslumbrante nessa palavra. Pense também em tudo o que ela carrega de ilusório, decepcionante, brutal. O Rio de Janeiro é uma miragem.

Helê

Rio de Janeiro, gosto de você

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Uma alegria de trabalhar em outro município é voltar pra você todos dias, Rio.

Feliz aniversário.

(E o título da Portela é um presente muito apropriado; salve Madureira!)

Helê

Carioquices

Tava no ônibus, não deu pra fotografar. Mas foi, se não me engano, na esquina da General Glicério com Rua das Laranjeiras: embaixo de uma pichação que se repete por toda a cidade, há meses, a frase

Não fui eu

acrescentaram:

e nem a Dilma.

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Baixa gastronomia: você consegue passar pelo Largo do Machado sem comer a esfiha do Árabe? Eu nunca. Ontem consegui comer apenas uma, o máximo do autocontrole. E da necessidade de dieta.

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A assessora de uma autoridade municipal disse pro meu chefe: “Precisamos marcar!”. E ele: “Claro!”. Aí ela emendou: “Sexta-feira tal hora, em tal lugar?” Fiquei chocada. Tive que me segurar para não intervir e dizer “não, péra; não é assim que se faz” (como o samba do Paulinho). Fiquei frustrada como aquele mercador de “A vida de Brian”, que diz o preço e o comprador aceita de cara, sem pechinchar. Quase uma afronta, certamente uma descortesia. Carioca nunca marca de primeira; mesmo um compromisso profissional. Meu chefe, que não nasceu aqui, aceitou – mas eu reparei que ficou levemente desconcertado…

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Helê

Olimpíada, ainda

Para Monix foi como se ela estivesse viajando; eu achei que parecia carnaval (só que mais limpo). Partimos de referências diferentes, nosostras, mas atingimos um estado semelhante: a satisfação de ter vivido um momento histórico. De um jeito ou de outro, as Olimpíadas foram um Rio (novo) que passou nas nossas vidas. E eu, confesso, me deixei levar.

Falando nele: Paulinho da Viola na cerimônia de abertura foi um golpe de mestre,  comissão de frente que deslumbra e ganha a arquibancada. Paulinho cantando o Hino Nacional me fez depor as armas e amoleceu meu coração peludo; emoção diferente mas igualmente acachapante foi ouvir o mesmo hino cantado por crianças ao som de atabaques, na cerimônia de encerramento. Orgulho, emoção. O toque tem um nome e é dirigido a um Orixá (que eu não vou citar por respeito, para não correr o risco de errar); mas é preciso dizer que foi um toque religioso, de uma parte de nossa cultura que tem sido sistematicamente atacada. A cerimônia de encerramento, aliás, foi bem negra e nordestina, como se, depois de dizer como nos formamos, na abertura, finalmente apresentássemos quem nos tornamos, na despedida.

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Talvez a imagem do tsunami seja mais fiel que a do rio, porque antes as águas recuaram: estávamos entre a indiferença e o pessimismo. Depois, com o início das provas e as demais atrações – shows gratuitos, novos espaços da cidade, ruas cheias – fomos inundados pela empolgação; atônitos, tínhamos que decidir entre programações na rua e jogos para assistir em casa. Lembrei, com algum atraso, do que é uma Olimpíada: o maior evento do mundo em vários aspectos; também um dos mais antigos rituais da humanidade, a despeito de todas as mudanças dos rituais e da humanidade.

A diferença é que na Rio 2016 o Brasil também estava em disputa: seus signos e significados: o que é, afinal, o Brasil; do que é feito, a quem pertence, o que quer, como se mostra, quem o merece. E essa disputa inconclusa ultrapassa as cerimônias oficiais: acontece também na torcida e nas avaliações sobre ela; no que a gente chama de zuêra e que diz muito sobre como nos pensamos e vemos o mundo; nos zilhões de posts e tweets  sobre o tema, essa produção de conteúdo em massa mediada por algorítimos que desconhecemos. De um modo paradoxal, as olimpíadas foram um alívio na nossa miséria política atual mas, ao mesmo tempo e de outro jeito,  continuamos fazendo política e discutindo o Brasil.

DSC_2198“A olimpíada é uma vertigem. Um dia de jogos vale por mil” – que o diga a Luciana Nepomuceno, nossa guia oficial 🙂 . E é isso elevado à 10ª potência em tempos digitais. Hoje já parece tarde para falar sobre o assunto, as coisas se sucederam tão vertiginosamente que eu me pergunto quem lembra do choro do Djokovic, de partir o coração. Ou dos treinadores da luta olímpica que tiraram a roupa em protesto contra a decisão dos juízes – cena inusitada que passou quase despercebida, num dia de ouro no vôlei e cerimônia de encerramento. 

Eu, que não comprei ingresso algum, assisti ao pólo aquático, à final do futebol feminino e ao último dia do atletismo. Porque quem tem padrinho não morre pagão, já diz Dona Mamãe. E aqui é o Rio de Janeiro: volta e meia aparece um amigo que fortalece. No pólo vivi pela 1ª vez a experiência de participar de uma olimpíada, ouvir os hinos de outros países  e ver uma partida sem entender bem como se joga. E,  last but never least, com o bônus de ver ao vivo os corpos maravilhosos dos jogadores de pólo. No Maraca tive o prazer de reunir uma torcida feminina e feminista, minha filha included, e ver de perto a alegria de quem ganha uma medalha de ouro. No Engenhão (excessiva e desnecessariamente militarizado),  a glória foi ver o Bolt receber a última medalha olímpica da carreira dele. Eu tava longe pra cacete, mas a energia e reverência do estádio não deixaram dúvida de que aquele cara lá longe era Usain Bolt .

Uma de suas qualidades, pra mim, está em quebrar esse fetiche pela superação e pelo drama que a imprensa esportiva possui. Tem isso, lógico, mas pra mim está implícito no esporte, sobretudo o de elite. E os jornalistas usam sublinhado, itálico e negrito ao mesmo tempo para destacar o sofrimento, e tome musiquinha triste. O Bolt detona um pouco esse frisson pela dor; ele valoriza a glória e a vitória, e nessa hora goza, goza gostoso cada minuto, saboreia o prazer de sua conquista sem falsa humildade. E brinca e dança, resgatando o caráter lúdico do esporte, soterrado pelos incontáveis interesses envolvidos na atividade.

 

 

Imagem de Helena Costa

Sob o olhar de Belini

Falando em jornalismo, a mídia comprou cedo essa história de jogos da diversidade porque essa pauta já estava dada por parte da sociedade e dos movimentos sociais, vamocombiná. E o capetalismo, matreiro que só, rapidamente se apropria de qualquer coisa pra lucrar. Eu aqui acho que, mais que pedidos públicos de casamento, o que demostra que, de fato, vivemos tempos mais tolerantes, é que o choro do Djoko tenha significado apenas a sua decepção e nada mais; que as cenas de afeto e carinho explícito entre os jogadores da seleção de vôlei não tenham causado mais que admiração. Já foi bem diferente, rapeize, cês nem fazem ideia.

Outra coisa: reconheci vários atletas de edições passadas trabalhando como comentaristas, técnicos, e até mesmo entre os cartolas – cf. Bernard do vôlei, gordo, careca e orgulhoso como convém a um membro do COI. E fiz o exercício inverso, de olhar para os atletas de hoje e imaginar que papeis desempenharão nos próximos jogos, de que lado estarão e o que isso diz ou não sobre eles.  Pensando bem, é mais ou menos como na ‘vida real’, com aqueles colegas de colégio que você encontra no facebook 20 anos depois, não? 

Pra encerrar (porque todo carnaval tem seu fim), eu, que falei contra o fetiche da superação, tenho que admitir que o que mais me comoveu nos jogos olímpicos foi a quantidade de medalha ganha pelos brasileiros pretos e pobres. Uma das imagens mais marcantes foi Elza Soares no palco da Praça Mauá repetindo como um grito de guerra: “Rafaela Silva! Rafaela Silva! Rafaela Silva!”. À Rafaela – que eu vi no Parque Olímpico e fiquei tão emocionada que sequer puxei o celular pra foto -, juntaram-se Maicon Andrade, Isaquias Cordeiro, Robson Conceição, Serginho: heróis improváveis de um país acostumado a Graels e Sheidts no pódio. Vocês são os meus ídolos, e eu me emociono só de escrever seus nomes aqui. Não quis saber detalhes das histórias de dificuldades que apenas entreouvi; bastam seus sobrenomes e a cor da pele. Na disputa pelo Brasil, me representam e têm a minha torcida. Que para os que virão, não precise ser tão mais difícil.

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Helê

 

 

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