Calou-se o cavaquinho de Gallotti

Acordei com a notícia terrível da morte do músico Eduardo Galllotti, aos 58 anos de idade. Soube por um post do Pratinha, outro músico-personagem da cidade, e só por isso acreditei no inacreditável. Não era meu amigo, acho que nunca falei com ele, só aplaudi. Era um excelente músico, comandante de memoráveis rodas de samba que frequentei nos últimos anos nesssa cidade que é musical antes de qualquer outra coisa. Desde cedo passa na minha cabeça um filminho mal editado mas com a melhor trilha sonora e as locações são o Trapiche Gamboa, a livraria Folha Seca, o Samba do Peixe e mais outras que não me lembro o nome mas tinham em comum aquele moço de caracóis no cabelo e óculos redondos, que vez por outra também cantava – sempre bons sambas; não necessariamente conhecidos mas de inconstetável beleza – só a fina flor. A perda de alguém como Gallotti é um baque profundo, desnecessário e atordoante: perde o samba, o choro, as rodas, a Lapa, a cidade, a boemia, perdemos todos nós amantes de tudo isso. Uma belíssima matéria da Maria Fortuna no Globo de novembro passado, que exaltava o retorno dele depois do tratamento do câncer, o chamou de ‘elo perdido’, pela habilidade em transitar por rodas em todos os cantos da cidade, fazendo preciosas conexões entre elas: da Tia Surica em Madureira até Paquetá, passando por Botafogo, Vila Isabel e onde mais você imaginar nesse Rio em que cada ribanceira é uma nação. Veja você se o Rio de Janeiro merece perder alguém desse naipe, essa cepa de carioca que é a sua síntese mais necessária e valiosa! Esta cidade, partida em mil pedaços, fragmenta-se e enfraquece mais sem um elo como este; perde-se em tristeza.

Cedo demais, cedo demais.


Obrigada por tudo, Gallotti.

Helê

Duas Fridas, vários Rios

Na verdade, tá tendo: você já pode acessar no Spotify o novo episódio do Podcast das Fridas – o terceiro no total, segundo se descontar a pilota. Nós conversamos sobre o Rio de Janeiro, essa cidade que nos acolhe e repele diariamente, nossa miragem mais real, nosso amor vagabundo compartilhado. Mas será que o Rio que a Helê navega é o mesmo que a Monix atravessa? Correm paralelos, cruzam-se ou só vão se encontrar no Atlântico? Ouça nosso podcast e descubra. E depois passe aqui e diga o que achou, qual é o seu Rio, de que lado você samba e onde a gente se encontra, ok? 😉

E ainda: Opiniões Não-Solicitadas e as sempre imperdíveis Dicas das Fridas.

Sintonize nas Fridas (eita, entreguei a idade!) e divirta-se. Nós adoramos fazer 😁😁.

Helê

São Jorge, carnaval

Eu já reclamei no twitter (onde mais, né?) desse calendário doido em que o carnaval vem depois da Páscoa – e nem católica eu sou, veja você!… Botei a culpa do meu desconforto no ascendente em virgem, mas esse moço definiu melhor:

Tentando abotoar essa camisa existencial e retomar os preceitos fundamentais da vida, lá fui eu no dia 23 para a Igreja de São Jorge, vestida de melindrosa. Porque também era sábado de carnaval, a roupa é vermelha, achei que o Santo entenderia. Em sinal de respeito, tirei a pena da cabeça, na hora da reza.

Foi um reencontro comovido, como têm sido todos na Retomada. Eu, que já choro nessas ocasiões porque a fé me emociona demais, chorei dobrado esses dois anos de ausência, perdas e lutas, em que, apesar de tudo, as roupas e as armas de Jorge protegeram não só a mim, mas também os meus. Salve, Jorge! Sempre! Ogunhê!

São Jorge Ogun no desfile da campeã Império Serrano

Como faço todos os anos, saí da igreja com planos vagos, disposta a andar um pouco pelas redondezas, observando o movimento dos fiéis, disponível para o que a rua oferecesse. Sempre, desde que instaurei pra mim essa tradição de ir à Igreja no dia de Jorge, coisas surprendentes e felizes acontecem: já encontrei rodas de samba memoráveis, já comi feijoada de graça, encontrei amigos, vi apresentações de choro, celebração de umbanda no Campo de Santana, já fui parar na quadra da Estácio de Sá… Desta vez achei que nada aconteceria já que o movimento foi muito menor, mas ao longe ouvi um batuque, fui me aproximando e era um maracatu que veio ao meu encontro. Vinha lindo e potente o Baque Mulher, com sua magnética rainha à frente, e eu fui acompanhando o cortejo, lembrando imediatamente dos passos, como se não fizesse dois anos que eu não dançava. E para que o recado não passasse despercebido, minha mestra no Tambores de Olokun me encontrou no meio do povo, e num abraço esfuziante me convocou: “Volta!”.

Surpreendentes e felizes, eu disse.

Depois disso, fui até a Praça da Harmonia, onde novamente encontrei São Jorge e uma mistura indelével de fiéis e foliões. No caminho, fui abordada por um “frei” (“ô, melindrosa, sabe que horas sai o bloco?”), fiz duas amigas (“Oi, eu sou a Vanessa, ela é a Michele, tá indo pra praça também?”) e ouvi alguém reclamando sozinho pela rua: “É São Jorge, é carnaval, é jogo do Flamengo, assim não dá! Vai ter que ter um auxílio emergencial de mil reais! E quando o Lula for eleito, vai ter outro carnaval!”. Ou seja, puro suco de Rio de Janeiro, só um pouco mais bagunçado que o habitual.

Fora essa rápida saída sacro-profana, o carnaval de abril não me capturou, e nem sei explicar bem o porquê. Só não bateu, simples assim. Acabei curtindo pela tevê, e mesmo assim, só algumas escolas. A Mangueira, belíssima, me fez chorar em camadas com a comissão de frente: o surgimento dos três homenageados, as rosas brotando, a homenagem a Seu Nelson Sargento. É realmente uma lástima que não tenhamos nova oportunidade de vê-la, assim como o magnífico carro em que Seu Delegado bailava etéreo sobre uma caixa de música, bailarino exímio que foi (tive a honra de vê-lo de perto e cumprimentar, juntamente com D. Mocinha, em uma apresentação na Uerj, garbo e elegância inesquecíveis). Não consegui uma boa foto desse carro, o que me fez pensar que o desfile tem uma volatilidade desconcertante. Todos os anos vemos alas refinadas, fantasias primorosas, carros estonteantes por alguns minutos – e isso dentre aquilo que a transmissão monopolizada, precária e parcial decide mostrar, que ainda é apenas uma parte o espetáculo real. A gente não pode normalizar algo tão improvável e espetacular, e deveríamos manter um registro cuidadoso dessa expressão ímpar e magnífica que é o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Que mesmo acontecendo meio fora de lugar no calendário, foi fundamental para restabelecer laços, crenças e esperanças. Além de marcar o tempo: é preciso o carnaval, ou pelo menos o desfile, sua raiz profunda, para que a gente acerte os botões da camisa – ou desista dela de uma vez e vista um collant de lamê.

Quem sabe agora, com Exu devidamente reconhecido e celebrado – ele que deve ser o primeiro a ser servido – não possamos nós, de fato, recomeçar? Laroyê! E que a gente cumpra a obrigação ancestral de ser feliz.
Helê

O não-carnaval

Se a guerra for declarada
Em pleno domingo de carnaval
Verás que um filho não foge à luta
Brasil, recruta
O teu pessoal

Se a terra anda ameaçada
De se acabar numa explosão de sal
Se aliste, meu camarada
A gente vai salvar o nosso carnaval

Alguém sugeriu que, já que vai ter guerra mesmo, deviam então liberar o carnaval (foi no tuíter, claro, aquele repositório de sabedoria e bobagens). Desde então eu não tiro da cabeça essa marchinha deliciosa do Chico, na qual a tropa do general da banda dança o samba em Berlim, a melindrosa manda bala e a rajada é de tamborim.

Caminhando para o terceiro ano de pandemia temos novamente o carnaval cancelado – mas se pagar, pode. Suspensos o desfile das escolas e o esparramar dos blocos, multiplicam-se programações pagas pela cidade, porque o coranavírus, como se sabe, só funciona em eventos gratuitos. Surgem também, aqui e ali, uns subversivos que insistem em ir às ruas, e assim o carnaval popular carioca entra na clandestinidade – algo que eu nunca pensei que veria.

Mas o Francis Hime, parceiro de Chico, perguntou há tempo atrás, numa canção repleta de absurdos, “e se o carnaval cair em abril?” , e é para este mês que foi transferido o desfile na Sapucaí. E não podemos esquecer que o Botafogo foi campeão (da segunda divisão, mas o Francis não especificou). Então eu já não duvido de mais nada, e torço pro meu amor gostar, então, de mim.

Não consigo evitar a melancolia desses dias, um banzo orgânico e incontornável. Não julgo quem vai pra folia, pagando ou escondido; condeno o poder público, incapaz de exercer a autoridade concedida pela população para protegê-la. Para mim não funciona esse carnaval meia boca, fantasia é muito diferente de disfarce. Eu quero ver cada paralelepípedo dessa cidade se arrepiar, quero botar o bloco na rua, festejar o teu sofrer, o teu penar, ser rainha no meio de uma gente tão modesta. Na rua e sem medo.

Pretendo encontrar uns poucos amigos, tomar algumas cervejas e dar um grito de Carnaval (só um, pra não espantar a clientela do bar). Vou aproveitar para discuitr com outro foliões desterrados nomes de não-blocos, como Náufragos da Alegria, Se melhorar eu volto, Abstêmios da Folia, Órfãos de Momo, Me beija que eu tô vacinada, Sambistas da Saudade. Uma brincadeira melancólica, mas é o que temos para hoje.

Sigo torcendo para que em 2023 a gente volte pra rua com alegria e fervor. Até lá, vou continuar me guardando pra quando o carnaval chegar.

Helê

Valei-me meu São Jorge Guerreiro!

VACINA!

Helê

Cinzas

Passei os dias mais tristes da pandemia neste último fim de semana, num banzo abissal. Uma ausência imperiosa, esmagadora, o silêncio ensurdecedor da rua. Suspirei pelos cantos como quem perdeu um amor. De vez em quando olhava pela janela pra ver se ele por acaso iria voltar. Temi que fosse exagero, mas um amigo, também feito no carnaval como eu, me disse que olhar para suas fantasias era como encontrar peças de roupa do ex esquecidas no armário. E suspiramos juntos, embora separados.

Não se trata propriamente de sentir falta da ilusão, porque pra mim o carnaval é de um realidade inconteste. Também não sinto falta do escapismo, como dizem alguns: eu escapo* o ano todo para que no carnaval eu possa estar e ser, plenamente.

Carnaval de Olinda, 2021. Foto de Ivanildo Machado.

Para atravessar esse feriado, esse deserto de folia, alegria e purpurina, recorri aos amigos, às lembranças e ao colo que Maria Bethânia deu ao Brasil em sua live transmitida no sábado de carnaval. Verdade, vacina, respeito e misericórdia exigiu a rainha, que nos vacinou com beleza e esperança, assegurando que a primavera virá, mesmo que esqueçamos seu nome. Dormi naquela noite aninhada na fé em Bethânia e em suas palavras.

12 de Fevereiro de 2021
O dia em que os nossos tambores não rufaram. Estamos em silêncio, não apenas por causa do carnaval, mas também por todos que perderam as suas vidas para o Covid-19! @OlodumOficial

Os outros intermináveis dias atravessei como foi possível. A minha alegria, que todo ano atravessava o mar e circulava sem âncora pela cidade, virou um refluxo, um travo. Não poder estar com os amigos celebrando o fato singelo e necessário de estar com eles me abateu demais. Ouvi repetidas vezes nesses dias: “Até eu, que não sou de carnaval, estou sentindo…”, o que só comprova a dimensão e potência do carnaval, que atinge mesmo aqueles que não se dão conta disso.

Meu coração ficou em desalinho, como disse Monarco; não fiquei feliz, como Bel Marques declarou. Mas fiquei satisfeita ao perceber que aqueles que amam o carnaval de verdade, que compreendem sua função e importância – mais na pele que intelectualmente -, esses comungaram dessa tristeza coletiva, sem tentativas de burlar a proibição. Porque quem ama o carnaval entende que não adianta uma festa pra mim ou para os meus: ou salvam-se todos ou não há carnaval possível.

Monarco vacinado na Praça da Apoteose no sábado de carnaval

Então vamos nos salvar, gente. Pela arte, pela fé, pela militância, pelo amor, como for possível. Salvemo-nos todos, bravamente; vamos nos manter vivos, a mais desafiadora e eficiente forma de resistência. Estaremos aqui quando o carnaval chegar – porque ele, assim como a primavera, também voltará.

Helê

*Ao falar sobre escapar a Rádio Cabeça começou a tocar “Feliz por um triz”, de Gil:
“Mal escapo à fome
Mal escapo aos tiros
Mal escapo aos homens
Mal escapo ao vírus
Passam raspando
Tirando até meu verniz”

 

 

Notas sobre um carnaval teórico

Você sabem que eu não sou a pessoa mais animada do bloco quando chega o carnaval.

Mas sou uma carnavalesca teórica. Acho essa festa a coisa mais potente que nosso povo já criou. Adoro a ideia de carnaval, embora não a ponto de ir. (Quer dizer, às vezes eu até vou.)

Um registro meio tremido de uma vez que fui…
… e vários outros direto do baú da Helê, minha guardiã da folia.

***

Nos últimos anos tenho me sentido cada vez mais exilada no meu próprio país. Não sei se o povo brasileiro se transformou em alguma coisa horrível com a qual não me identifico, ou se ele sempre foi isso aí mesmo e a elite intelectual à qual pertencemos criou uma fantasia sofisticada de Brasil na qual acreditamos. Só sei que tem sido difícil me sentir parte dessa nacionalidade. Mas o carnaval sempre me lembrava que sou sim brasileira, que tem algo no Brasil-que-toca-bateria que também reverbera aqui dentro.

***

Eu adoro os blocos, mas tenho um carinho especial pelo desfile da Sapucaí. Acho aquilo um espetáculo extraordinário, sem igual no mundo.

Ver o vídeo da Alcione cantando sozinha na avenida me derrubou. Mesmo sabendo que é propaganda pra vender mais cerveja, não importa. Chorei demais quando me dei conta do tamanho dessa ausência, desse silêncio forçado que na verdade já começou mas que vai ser mais palpável a partir de hoje.

***

Sei que a Helê está sofrendo, nossa Frida carnavalesca de coração, corpo e alma. Ela e outras amigas queridas que vivem o carnaval intensamente. Fico pensando que se eu estou nesse estado de espírito, elas não devem nem conseguir colocar em palavras o que significa um ano sem folia. Talvez isso explique porque é que a Frida menos animada foi quem conseguiu escrever sobre isso.

***

Hoje eu assisti uma live da prefeitura do Rio sobre os números da Covid na cidade. Em determinado momento o prefeito pediu para dar um recado (ele queria dizer que estão fiscalizando bailes e festas não autorizadas e que não pode ter aglomeração de nenhum tipo). A gente sabe que Dudu é do balacobaco, que ama carnaval, provavelmente tanto quanto minhas amigas foliãs. Ele começou dizendo mais ou menos o seguinte: “é um ano difícil pra quem gosta de carnaval. Imaginem para mim, que passei quatro anos esperando para dar a chave da cidade ao Rei Momo… O sujeito que veio antes de mim fez tudo pra acabar com o carnaval, e logo no meu primeiro ano, tive que cancelar a festa.”

Se tá ruim pro Dudu, se tá ruim pra Helê, tá ruim pra todos nós. Dá vontade de sair por aí implorando a todo mundo: pelo amor de Dadá, faça esse sacrifício valer a pena, fica em casa e se cuida. Bora curtir esse (espero que) único carnaval teórico de verdade, para que no ano que vem a gente possa se acabar de alegria. Quem sabe até eu me junto à empolgação? Vai ser histórico.

-Monix-

Notas sobre o réveillon de Copacabana

Estou chegando de uma rápida caminhada de reconhecimento pela Atlântica, na altura do Copacabana Palace. Pouca gente na rua. Nem todos de máscara. Bastante policiamento. A chuva forte que caiu deve ter contribuído pra deixar o pessoal em casa. Muitas vagas disponíveis, uma visão inédita. O metrô fechou às oito em ponto. Quiosques e restaurantes funcionando discretamente, com pouca gente, sem música nem nada, todo mundo sentado em mesas separadas. Tinha gente entrando e saindo de prédios com travessas de comida na mão, esperando Uber na calçada… Acho que as festas em casa vão ser o maior problema. Mas aglomeração na rua não creio que tenha mesmo não.

Escrevi esse textinho ontem, antes da meia-noite. Já passei muitas viradas de ano em Copacabana e dessa vez me senti bastante dividida entre a intenção de me manter dentro de casa respeitando o isolamento social (estou temendo muito pelo janeiro que enfrentaremos) e a curiosidade de ver esse bairro, conhecido internacionalmente pelos réveillons lotados, nesse momento excepcional. Acabei chegando a esse meio-termo possível: uma caminhada de reconhecimento, para ver uma inédita Copacabana semi-deserta, algumas horas antes da virada. E depois a ceia em casa, ao som da live de Natal do Caetano.

***

Um pouco mais cedo, ainda à tarde, conversava por telefone com um amigo que cresceu no Leme. Ele, com sua memória extraordinária, contou que se lembra das viradas de ano de antes das queimas de fogos: depois da meia-noite ia até a praia com os pais, a mãe jogava flores ao mar, ele via grupos de pessoas fazendo suas homenagens para Iemanjá. Até que em 1980 o hotel que na época se chamava Méridien (hoje Hilton) estourou uma cascata de fogos de artifício às duas da manhã. No ano seguinte, a atração passou a acontecer à meia-noite. Outros hotéis também faziam suas próprias queimas de fogos. Foi só nos anos 1990 que a prefeitura centralizou o espetáculo pirotécnico — àquela altura, o número de pessoas que comparecia à festa já beirava o milhão.

Imagem
A cascata do Méridien, em 1982
(fonte: Rio Antigo no Twitter)

***

Na passagem do ano 2000 para 2001 eu fui a Copacabana para saudar o novo milênio (tá, eu sei que oficialmente começou no ano seguinte, me deixem). Um ano depois eu estava em um trabalho temporário, cobrindo férias na sucursal carioca do SBT. Comecei no dia 1º de janeiro de 2001 às sete da manhã. Ao chegar lá, a primeira matéria que precisei editar foi sobre o acidente acontecido na festa de Copacabana: a queima de fogos oficial (promovida pela prefeitura) era disparada da areia. Por conta dessa tragédia, desde então o show pirotécnico acontece em balsas no mar. Nunca mais o impacto visual foi o mesmo, mas é claro que a segurança é mais importante que a pirotecnia.

***

Eu amo fogos de artifício. Adoro a festa popular que acontece todos os anos nas areias de Copacabana. Sei que para os animais da região o estrondo é ruim. Que para os idosos o barulho e o tumulto são um problema. Que para os moradores do bairro é uma loucura ficar quase 24 horas com seu direito de ir e vir muito comprometido — os acessos ao bairro ficam fechados, as vagas de calçada são um sonho impossível, o metrô funciona em regime especial, os ônibus idem. Ontem deve ter sido um dia bom para quem sofre com a maior festa de rua da cidade. Eu confesso que senti falta da mega aglomeração. Só resta esperar a vacina e a volta dos abraços, das multidões, das ruas lotadas em Copacabana na virada do ano.

-Monix-

Pastilhas* eleitorais

O mais legal dessa eleição pra mim foi voltar a votar numa escola. Passei as últimas eleições todas votando num banco. Eu ficava muito incomodada porque, né, eu sou da geração que voltou a votar pra presidente da república depois da ditadura, festa da democracia, tanani tananã. Votar no Itaú era o maior anti-clímax, o Capetalismo parecia que tava rindo de mim escondido atrás do caixa.

***

Votar em banco: mó caído, como diria minha filha. Que votou comigo ainda na barriga, em 2002 – vocês sabem em quem (Lulalá!) -, neste mesmo colégio de domingo. Que depois veio a ser o dela, durante vários anos. Fomos lá novamente juntas, como diferentes nostalgias.

***

Por que isso foi o mais legal da eleição? Bom, Rildejanêro, né, mores? Entre a igreja evangélica e a milícia, ou pior, atordoada pela associação entre eles, lá vai a esquerda de novo fazer conta retroativa e considerar que “se tivéssemos nos unidos…” Odeio roteiro repetitivo.

**

E o carma, hein, bitches? Zoaram os ianques até enjoar e nossos resultados atrasaram…duas horas, se muito. O que eu achei impressionante foi a galera às 18h fazendo análise. De boca de urna. Do Datacu. Olha, vôticontá. Por que insistir feito criança birrenta? Ao invés de mandar um “Ó, vamos ali tomar um café e daqui a pouco a gente volta quando tiver o que comentar” – esse é meu sonho de jornalismo. A síndrome da lacração, de dizer logo, primeiro, apressadamente, ainda vai nos levar…ôpa, chegamos lá.

***

Ah, sim, tem as pequenas alegriazinhas: ver o Tarcísio, um professor, o vereador mais votado, com mais votos que o filho do coiso. A eleição de uma expressiva bancada do PSOL, a segunda maior, se não me engano. Eleger uma vereadora negra comprometida – bom mandato, Tainá de Paula! Impossível não pensar : eu espero que, dessa vez, não matem meu voto.

País de maricas: minha terra, minha gente

Helê

*Porque Drops, vocês sabe, só da Fal, primeira e única

Resenha momesca

O carnaval, como se sabe, tem um período flexível, variando de folião pra folião (o calendário oficial só vale para autoridades incompetentes e para os que não gostam mas se locupletam). O meu começou em janeiro quando fui ao Palácio do Samba com P.A. para ela matar as saudades da Verde e Rosa e sair às três da manhã com cara de “Mas já?!”.

 

Outro ponto alto foi minha estreia dançando no Tambores de Olokun, essa embaixada informal de Pernambuco no Rio que rende homenagem aos ancestrais, aos orixás e às nações do Maracatu de Baque Virado do Recife. Uma experiência plural que nem cabe neste post, um começo que parece retorno. “Na beira da praia eu vi que o mar não recuou/ no reino de Yemanjá, estrela do mar é flor“.

 

 

O prêmio de Revelação do carnaval vai para o bloco Terreirada Cearense, para o qual fui achando que seria bom mas foi sensacional. Música da melhor qualidade e um colorido espetáculo que trouxe para a Quinta da Boa Vista minhas raízes nordestinas. O Prêmio Personalidade foi a d. Fofa cujo nome não sei, mas tinha 84 anos e pulou na chuva com a gente na Gamboa, saquinho de confete em punho. Depois do bloco dar a volta no quarteirão, perguntava esperançosa: “Será que vai dar mais uma?”

 

A Imagem do Carnaval já está estabelecido que foi a a Mangueira e Leandro Vieira que nos deram. Mas confesso que me emocionei com Elza Deusa Soares (a quem homenageei no Boitatá) e com o enredo/desfile da Viradouro – o campeonato ficou em boas mãos.

Beth Carvalho foi uma ausência sentida, seja no desfile da Manga ou no Cacique de Ramos. Mas também de presença e encontros se faz um carnaval: elegi o Melhor Reencontro o meu com o Escravos da Mauá, de quem posso me separar por um tempo, mas me recebe de braços abertos – um amor sempre correspondido. Parceiro de todos os dias, Claudio Luiz protagonizou a categoria Melhor Coincidência: nos encontramos de preto e vermelho na terça sem ter combinado antes. E ainda pedimos a um rapaz para tirar uma foto nossa e ele estava vestido de…diabo.

 

Bem amigos, encerro aqui esse brevíssimo registro, feito mais para mim e minha memória suíça como um queijo, que depois de algum tempo fica cheia de furos. Como a Ressaca de Carnaval do Olokun foi adiada por causa da chuva, acabou mas ainda tem. Espero rodar a saia mais uma vez antes de guardar a purpurina e a fantasia. Feliz ano novo pra todo munda!

Helê

PS: Melhor Nome de bloco: “Quem me viu, mentiu”. Levarei pra vida.

 

 

%d bloggers like this: