Mariana, Marielle, Museu Nacional

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Eu não queria escrever sobre a destruição do Museu Nacional porque acho, sinceramente, que não tenho nada a acrescentar às dezenas de textos já produzidos de domingo até aqui sobre o assunto. Não creio que possa oferecer a quem me lê agora algo original, elucidativo, consolador — útil, em resumo. Desista enquanto pode, porque vou escrever mesmo assim. A gente escreve por vários motivos, entre eles, porque precisa. Eu preciso escrever para acomodar meus sentimentos, lustrar lembranças, arrumar ideias, reunir afetos, atrair carinho, prantear um museu e lamentar um país — chorar por escrito, em resumo.

Soube do incêndio de modo semelhante a como soube da execução da Marielle Franco: naquela ocasião estava relaxada no sofá de casa vendo um jogo do Flamengo quando peguei o celular por acaso e vi a mensagem de uma amiga. No domingo, também relaxada após um dia de praia, vendo TV sem assistir, peguei o celular e no Facebook vi o post da Karina Kuschnir. Nos dois momentos, a mesma surpresa e incredulidade, a dor e o choro imediatos, a tentativa de explicar o inexplicável para minha filha, a busca por informações, o peso da gravidade do acontecimento e novamente a sensação de que algo foi rompido: ultrapassamos um limite, transbordamos uma medida.

Agora parece que descemos mais fundo, fomos mais longe, atingindo um ponto sem retorno. E já não consigo acreditar que a magnitude do fato vai, por si só, provocar uma mudança. Estamos todos mais cansados, envergonhados, desesperançados. Em menos de seis meses a cidade sob intervenção militar viveu o assassinato de uma vereadora e o incêndio fatal do museu que era nacional e carioca, o museu da Quinta, nosso quintal. Por onde caminhei na semana passada, pelo qual nunca passei sem lamentar a decadência e sorrir com ternura, como fazemos com antigos vizinhos.

Não quero vencer nenhum campeonato de sofrimento (neles meu objetivo é ser desclassificada). Mas devo dizer que essas duas mortes acontecerem próximos demais a mim, real e simbolicamente. Moro a pouco mais de um quilômetro tanto da Quinta quanto do Estácio. Mariele foi eleita com meu voto; o Museu Nacional foi o primeiro que conheci, menina do subúrbio que fui (e sou). Não é pessoal, mas dói como se fosse.

Nublaram as fronteiras entre o literal e o metafórico. Nossos piores pesadelos estão se materializando, desde o mar de lama de Mariana; no episódio do incêndio, ainda acompanhamos com transmissão ao vivo. Na esteira das perdas seguem partes enormes do nosso acervo afetivo e moral. Meu amigo português me escreveu estarrecido e solidário e, sem buscar poesia mas sim precisão, disse a ele que sinto uma tristeza oceânica (único parâmetro que me pareceu adequado). E  não percebo terra à vista.

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Helê

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Sem palavras, sem ação

O que dizer diante do fogo que destrói a memória de um país?

Nada. E tudo. Mas, ao fim e ao cabo, nada mesmo.

***

Desde domingo tenho pensado muito na Biblioteca Nacional. Enquanto muitas das minhas amigas compartilham memórias afetivas inesquecíveis do Museu Nacional, eu confesso que tenho uma relação menos emocional e mais intelectual com ele. Quando criança, não era a Quinta da Boa Vista meu programa de domingo – minhas brincadeiras eram no Parque da Cidade, no Parque Lage, no Jardim Botânico. Coisas de menina-zona-sul que fui (e sou). No entanto, depois de adulta, e principalmente depois de me (re)aproximar da vida acadêmica, só aumentou meu respeito pela instituição – muito mais que um museu, trata-se de um centro de produção de conhecimento de altíssimo gabarito. Sua importância vai muito, muito além das peças exibidas para os visitantes que por lá passavam.

Mas, enfim, o que a Biblioteca Nacional tem a ver com isso?

É que do mesmo jeito que minhas amigas têm essa relação afetiva com o Museu Nacional, eu me sinto ligada (de um jeito meio platônico, diga-se de passagem) à Biblioteca.

No início dos anos 1990, na esteira da extinção de várias empresas estatais durante o governo Collor, meu pai, que tinha sido funcionário público quase toda a sua vida profissional, se viu sem emprego. Mas, graças às voltas que o mundo dá, foi convidado a ser diretor administrativo-financeiro da BN. Já naquela época, falava-se em um projeto que tiraria o acervo de obras gerais da situação de armazenamento inadequada em que se encontrava (e ainda se encontra), concentrando a coleção em um equipamento mais moderno, maior, mais funcional, na zona portuária.

Na época, a região do Porto do Rio estava completamente decadente. Hoje, por conta do tal legado olímpico, bem ou mal a cidade ganhou uma área totalmente revitalizada. O projeto do edifício anexo (que inclusive já foi selecionado em concurso e tudo) ficaria incrível, se fosse executado. E resolveria de forma mais permanente a preocupação que todos temos com as condições de preservação de – simplesmente – tudo o que foi publicado no Brasil desde que o país existe até hoje – e além.

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Projeto de Vigliecca & Associados para o Edifício Anexo da Biblioteca Nacional.
Fonte da imagem: ArchDaily

Depois que papai saiu da BN, tive contato com algumas amigas e amigos que trabalham ou trabalharam lá. Eu mesma cheguei a cobrir alguns eventos, profissionalmente. Minha torcida pela Biblioteca só aumenta. Minha admiração pelas pessoas que lá trabalham, e que a ela dedicam sua vida, é imensa.

Estou pensando no que posso fazer para ajudar mais concretamente, em vez de ficar só resmungando nas mídias sociais. Se você acha que outros equipamentos culturais também merecem mobilização, faça o mesmo. Não tenho esperanças vãs – sei que em época de crise, a primeira coisa que dança são os orçamentos de educação, cultura, ciência e tecnologia. Mas não posso ficar quieta, vendo tudo em que mais acredito e tudo o que mais amo virar cinzas – em alguns casos, literalmente – sem fazer nada.

-Monix-

 

Crônica da autodestruição

Estava eu atravessando a rua Voluntários da Pátria de ônibus, debaixo de chuva e engarrafamento, no início da tarde, quando chegou uma mensagem de uma amiga, carioca honorária, que morou aqui um tempo e voltou para sua cidade:

Gente, acordei com tanta vontade de morar aí , que nem sei.

Minha resposta para ela foi:

Já procurou um psiquiatra?

***

Desci do ônibus, almocei na charmosa Livraria da Travessa de Botafogo e fui assistir ao documentário O Desmonte do Monte, sobre a história do Morro do Castelo, local de fundação da mui leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, demolido por meio de uma prodigiosa engenharia no início do século XX.

Morro do Castelo

Foto de Augusto Malta

O filme conta a história do morro desde a época em que lá viviam os índios tamoios e tupinambás – postos em guerra por conveniência de portugueses e franceses que disputavam aquele pedaço de terra -, passando pela construção do castelo que lhe deu o nome e da igreja consagrada ao padroeiro da cidade, até a ocupação final pelas camadas mais empobrecidas da população, o que, certamente, contribuiu para o discurso higienista daqueles que defenderam sua destruição.

A pesquisa de imagens do documentário é impressionante, e me fez pensar no quanto essa cidade “maravilhosa” já nasceu vocacionada para a autodepreciação. Desde a fundação até hoje, já foram muitas e muitas versões de Rios de Janeiros, cada uma delas diminuindo nossa parcela hídrica (rios, pântanos, lagoas, até mesmo a baía e o mar foram aterrados sem dó nem piedade), sufocando o traçado natural dos cursos d’água, condenando estilos arquitetônicos considerados ultrapassados, elevando outros, considerados mais modernos.

O Rio é uma cidade de cidades misturadas, já dizia a poeta, mas o caso é que essa mistura não é apenas sincrônica – é, também, diacrônica.

Vi imagens de um Rio de Janeiro irreconhecível, mesmo para mim, que gosto de pensar que o conheço mais ou menos bem (pelo menos o meu circuito, composto de Centro-Zona Sul e grande Tijuca).

Durante o desmonte

A cidade vira as costas para o lugar onde nasceu

Quem passa pela Cinelândia hoje não consegue imaginar que atrás dos prédios da Biblioteca Nacional e do Museu de Belas Artes havia um morro inteiro. Com castelo, igreja, casas e mais casas, e até a lenda de um tesouro dos jesuítas, supostamente enterrado em galerias subterrâneas. Se o tesouro existia, e se foi encontrado durante o desmonte, ninguém sabe ninguém viu.

Depois da destruição do morro, foi construído um novo Centro do Rio, com ares parisienses, cortado pela Avenida Central – durou pouco. Talvez três ou quatro décadas depois, boa parte dos prédios nos estilos eclético e neoclássico foram considerados um entrave ao progresso, monumentos ao mau gosto, e, portanto, derrubados para dar lugar a um paredão de “espigões”.

A história do Rio é uma história de autodestruição e de ocultamentos. Em certo momento do filme, um dos entrevistados diz, respondendo se havia preocupação com o patrimônio histórico: “Não existia História. Nem patrimônio.”

***

Se o Brasil não é para amadores, o Rio de Janeiro não é para pessoas sãs. Tem que ser um pouco louco para conseguir sobreviver nessa cidade alucinada – e alucinante.

-Monix-

Tamo junto!

Eu tinha rascunhado umas coisas pra dizer sobre Rio em Shamas, livro do Anderson França, mas ficou perdido numa nuvem dessas da internêta. Reencontrei essa semana e acho que ainda vale a pena postar; além de divertidíssimo, o livro merece toda atenção que puder despertar. Porque o Dinho, como também é conhecido, ainda é uma voz incomum na literatura: a periferia falando e refletindo sobe si mesma. E com humor.

Eu fui fisgada pelo primeiro texto dele que li, que tem o título singelo de “São Jorge – O Cu Enquanto Memória Expandida – O Pessach”. Devota que sou, recebi num 23 de abril e repassei pra várias pessoas, porque me pareceu uma excelente homenagem, malandramente carioca. A partir dessa crônica passei a seguir o Anderson no feicebuque e conheci “Rio em Shamas”. Tem muitas coisas interessantes na escrita dele, sendo a primeira delas o estilo, que parece anárquico mas possui uma lógica própria. Além disso, soa familiar: assim que li achei que estava reencontrando um parceiro, mesmo que nunca o tenha visto.

Impressiona a maneira como Dinho é capaz de observar a realidade sendo “de dentro”, mas se distanciando o suficiente (mas não muito) para descrevê-la como se fosse “de fora”. Essa habilidade se expressa, entre outras formas, na sua incrível capacidade de transcrever os dialetos suburbanos para o papel. Quando ele escreve, no texto do São Jorge, “Ciligou?”, a gente tem um segundo de estranhamento mas entende em seguida (sobretudo nós, cariocas). A palavra não existe, mas quando lê, você a compreende. Em outro trecho ele fala de como o Santo Guerreiro consegue a devoção de católicos e protestantes anglicanos, que só têm em comum, além dele, Jesus. E comenta: “Olha. A. Moral. Do. Maluco.” Uma sentença que você lê ouvindo. E quase vendo a expressão facial e os gestos do narrador.

Nos livros da Elena Ferrante fiquei fascinada, desde o início, com a questão do dialeto, de evidente importância na trama. Delineia personalidades, circunscreve espaços e define o tom de muitas cenas. Desde então me pergunto sobre os nossos, quais seriam? Porque me parece impossível que uma população grande e complexa como a nossa não os tenha. Eu não sei qual é a definição técnica de dialetos – alô, linguistas, socorro – mas me parece que é exatamente o que o Dinho transcreve nas suas crônicas. Aquele não é o Português formal, não tá puro: é a língua descalça na laje pegano sol, desenrolando as situação e dando S nos obstáculos. Uma linguagem rica e vistosa, fluida, de difícil apreensão e fácil compreensão. Talvez por isso poucas vezes possamos ver essa oralidade impressa, e quase nunca valorizada como parte importante da cultura.

Marechal Hermes, estação do trem. O subúrbio também pode ser bucólico

Além disso, tem o lugar de onde ele escreve, o tal “lugar de fala”, que traz para o texto gentes e espaços sobre os quais eu pouco leio no dia a dia. Acho que nunca tinha lido uma crônica que falasse de Cavalcante, bairro aqui do subúrbio do Rio. Ainda vigora no imaginário coletivo (e nas mídias todas) um Rio de Janeiro que vai da zona sul até, no máximo, o Centro. Então dá um prazer danado reconhecer e reencontrar o subúrbio nos textos do Dinho – ainda mais em crônicas, esse gênero que eu amo e que me ensinou a gostar de ler. Sem folclore ou sentimentalismo, mas com a língua afiada e a mania de rir de si mesmo de um jeito que só quem é pode – só quem é preto, pobre, suburbano, favelado. Nem sempre concordo com Dinho, mas acho absolutamente necessário que ele conquiste espaços de expressão para além da internet; acho um livro como o dele relevante porque rompe expectativas, quebra padrões. No “Rio em Shamas”, o subúrbio e seus moradores faz o que os pretos fizeram recentemente na universidade: deixaram de ser objeto para virar sujeito. É nóis.

Helê

Diálogos carnavalescos

– Vou mais tarde hoje, tô cansada. Ontem fui ao “Desculpe o transtorno”, ao Baile do André e fiquei na merda.

– Fiquei na merda é um bloco ou foi você?

***

– Que fantasia é essa?

– Eu tô de Dalila

– Ah, do Sansão…

– Não, a da música: “Eu sou Dalila, não vou negar…”

***

– Cara, num é que a Ivete Sangalo pariu no sábado de carnaval?

– E foi pra avenida depois?!

Bom carnaval pra geral!

Helê, of claro

Rio de tristeza

Da série “Análises Políticas em Mesa de Bar”:

– Essa merda desse país acabou.

– E o Rio de Janeiro, que sempre foi vanguarda, acabou primeiro.

**
Visitando o Parque Lage, uma das variadas facetas da Floresta da Tijuca, penso: nada pode morrer no entorno dessa floresta magnífica. Ou, por outra, tudo ao seu redor sobrevive, apesar. Talvez o Rio ainda não tenha sucumbindo totalmente, deslizando derrotado pela Baía de Guanabara adentro, porque essa larga formação rochosa, que se esparrama pelas zonas sul, norte e oeste, ainda nos retém, finca no solo uma esperança irracional, mas atávica.  Nessa cadeia de montanhas verde e rocha, o Cristo tem fama mas figura como um adorno,  um piercing delicado; quem reina absoluto,
muito antes do Redentor, é o gigante sisudo da Pedra da Gávea, carranca assombrada com o que fizemos de nós. Na Floresta da Tijuca, desconfio, reside o verdadeiro espírito carioca, ancestral miscigenado dos indígenas daqui e dos africanos trazidos à força do outro lado do Atlântico. Rogo que ele possa nos redimir e refundar a cidade que se formou ao redor da Floresta de maneira selvagem e incivilizada.

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Um dia após a visita ao Lage, num domingo outonal – ou seja, de clima ameno, céu límpido e azul arrebatador – surpreendi o Cristo num ângulo inesperado (inacreditável, mas eles existem) – e senti aquela reincidência de amor, um reapaixonamento fulminante pela cidade. Logo depois eu tive uma triste epifania: constatei que o Rio, meus amigos, é uma miragem. Pense no que há de mais sedutor, desejável, deslumbrante nessa palavra. Pense também em tudo o que ela carrega de ilusório, decepcionante, brutal. O Rio de Janeiro é uma miragem.

Helê

Rio de Janeiro, gosto de você

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Uma alegria de trabalhar em outro município é voltar pra você todos dias, Rio.

Feliz aniversário.

(E o título da Portela é um presente muito apropriado; salve Madureira!)

Helê

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