Recapitulação precoce

Eu não vou reclamar (ainda) desse ano porque não dá sorte; se tem uma coisa que sempre pode é piorar. 2016 parecia o fim do mundo e aconteceu a Chapecoense, então só acaba quando termina e até lá eu só posso dizer que este está sendo um ano longo, muuuito longo. Até aqui…não sei você, mas eu já vivi uns 15 meses em 2018. Essa impressão aumentou bastante depois que comecei a limpar meu celular de imagens e arquivos recebidos. A pessoa objetiva #NOT vai vendo um por um, ao invés de mandar aquele selecionar tudo + delete. Aí já viu, comecei uma retrospectiva antes do tempo, viajando por prints de apps desinstalados, conversas e fotos que eu não reconheço, uma avalanche de memes e piadas. O carnaval sempre me parece mais longe que o desejado, mas eu não lembrava que neste você podia encontrar um “CarnaCrush” via aplicativo.  A Copa do Mundo da Rússia, gente, a Praça Vermelha/Fiocruz, lembra? Parece que terminou há pelo menos seis meses! Chegamos a rir do cabelo do Neymar antes dele nos matar de vergonha, veja você. A greve dos caminhoneiros, meu pai! Achei fotos de tanques na reserva, e depois de pratos ostentação, repletos de verdura, além de foto-fetiche de dúzias de ovos! Não parece que isso aconteceu há pelo menos uns dois anos? E o Lulapaloosa na porta do Sindicato dos Metalúrgicos, que pareceu ter durado uma semana e terminou com Luiz Inácio Khalesi, o primeiro do seu nome, carregado nos braços do povo na foto tão icônica que já nasceu pintura? Já nem sei se foi antes ou depois do casamento real com direito a coral afro preto e pastor idem. E nem vou citar as tragédias cariocas/nacionais porque falei disso ainda pouco – há dias ou semanas? Até a Ursal, recém-fundada, já parece coisa do passado. Tudo tanto, tão intenso – e as eleições nem terminaram ainda! – que acho que essa retrospectiva fora de hora se justifica – sabe-se lá quantos meses mais teremos até dezembro?!

Exemplos de imagens aleatórias encontradas no meu celular sobre as quais não sei a procedência nem tenho nada a delcarar.

Helê

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Ideias e argumentos

Há uns dois anos atrás, tive alguns (poucos) alunos particulares de Redação, que estavam se preparando para o Enem. Foi então que eu aprendi (e passei a ensinar) que hoje em dia todos os alunos do Ensino Médio precisam fazer redações segundo um modelo chamado “dissertativo-argumentativo”. A redação no Enem é eliminatória, ou seja, quem tirar zero nesta prova pode saber todas as Físicas e Matemáticas do mundo, mas não poderá cursar a faculdade de Engenharia (pelo menos não com a nota do Enem).

As bancas avaliam, nos textos, cinco competências, sendo que duas delas são: a) selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista; e b) elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.

Fico pensando que, uau, será mesmo que teremos uma geração de pessoas capazes de sustentar um ponto de vista através de argumentos? (Infelizmente minha experiência direta com jovens não necessariamente confirma essa hipótese, mas estatisticamente as nossas experiências diretas todas, somadas, não significam nada.)

Enfim. Não seria lindo? Que as escolas conseguissem ensinar as novas gerações a, em primeiro lugar, saber qual é seu ponto de vista sobre os temas do mundo real, a ter opiniões sobre a vida, o universo e tudo mais; e, em segundo lugar, a sustentar esse ponto de vista por meio de argumentos? (Sendo que esses argumentos não podem ferir os direitos humanos!)

Foto: Pixabay

Escola é escola em qualquer canto…

Discutir ideias por meio de argumentos pode parecer que é o óbvio, mas vamos lá… quantas situações vocês são capazes de lembrar em que as pessoas confundiram argumentos com sarcasmo; argumentos com ataques ad hominem; argumentos com uma negação do fato, sem apresentação de evidências (não é porque não é). Ou, ainda, que confundiram informação com opinião.

Na minha geração (e nas mais velhas), conheço inúmeras pessoas que, de modo geral, estudaram nas melhores escolas do Brasil, e são incapazes de construir uma discussão a partir de argumentos. É uma competência perdida para muitos de nós. O mundo digital certamente não contribui para melhorar isso, mas, sei lá. Vai que as escolas – aquelas instituições que se mantiveram praticamente iguais nos últimos 200 anos – é que trarão uma parte da solução? Vai que, no fim das contas, o século XIX é que vai nos salvar?

-Monix-

Origens

Esbarrei nesse vídeo dia desses e fiquei impressionada com essas reminiscências do compositor. Acho notável que ele, tão jovem, tenha elaborado toda uma crítica social a partir da observação da impossibilidade de um amor. Claro que influenciado por uma família reconhecidamente progressista, por assim dizer. Mas a narrativa que ele faz é, antes de tudo, a elaboração individual de um menino. Acho que me identifiquei: já contei aqui que depois de adulta percebi que foi muito nova, por causa do Flamengo, que estabeleci meus primeiros conceitos sobre raça e classe.

Acho particularmente interessante que o Chico tenha feito essa construção (com ou sem trocadilho) em detrimento da figura paterna, de um tamanho enorme para uma criança. Na comparação entre o trabalho (fácil) do pai com o desagradável esforço do lixeiro, o menino identifica a injustiça que sofre o trabalhador braçal (e, por extensão, também a doméstica). E compreende a injustiça do mundo – uma dura lição que muita gente passa a vida inteira sem aprender. Diante dela, como não virar comunista ?

Curioso ainda que nesse episódio estão amalgamadas duas das temáticas mais recorrentes do compositor ao longo de sua extensa carreira: a desigualdade social e o amor. Parece que já estava tudo ali, desde muito cedo; depois ganhou sofisticação, requinte e beleza, talhados pelo talento único do Chico. (Vai ver a teoria do meu amigo Vitor está certa: que a gente já sabe quem é aos 12, 13 anos; às vezes dá uma volta danada na vida pra voltar a ser a pessoa que a gente sabia que seria naquela idade).

A babá, o lixeiro e seu romance interdito poderiam facilmente ser protagonistas de uma canção buarquiana. Ele encontra paralelo imediato com o pedreiro que espera o aumento desde o ano passado para o mês que vem; ela viu morrer alegrias e rasgar fantasias enquanto sonhava com o casamento. Ou cansou de ser babá e voou para a América, feito a Iracema que trabalha numa casa de chá. Talvez eles vivam anônimos em algumas músicas de Chico: posso vê-los gratos pela fumaça, desgraça, que a gente tem que engolir; mas prefiro imaginá-los correndo para praça cheios de ternura ao som da Valsinha. Porque graças àquele garoto que reparou num amor não realizado, eu posso sonhar com um outro destino para o casal. Afinal, talvez a vida não seja um fato consumado.

Helê

Este post vai pra Dorival Caymmi, João Gil…não, péra; vai pro Christian, me inspirou a escrevê-lo e é, além de grande fã do Chico, um mestre nas paródias infames e bem elaboradas; a esta altura já está imaginando a babá cantarolando “Olha aí, olha o meu gari, olha aí….” Feliz aniversário, Chris!

Boas maneiras em tempos de crise

Com licença: nós queremos falar da “vaca na sala” que é o fato de boa parte da classe média que sofre, na qual nos incluímos, estar desempregada/subempregada/com pouco frila/sem frila.

Isso significa que tem muito mais gente do que você imagina sem dinheiro para frequentar restaurante-modinha, viajar nas férias, sair para uma tarde de compras com as amigas, ver todos os filmes interessantes em cartaz ou de vez em quando pegar um teatrinho porque ninguém é de ferro.

Talvez você tenha a sorte de ter um emprego fixo, ou frilas constantes. E talvez com isso você não esteja percebendo que a vida social do pessoal desempregado/subempregado/com pouco frila/sem frila (DSPFSF) não pode ser a mesma de antigamente, porque simplesmente esse pessoal não dá mais conta (ou nunca deu) de acompanhar, financeiramente, esse pique. Mas, claro, somos DSPFSF porém não perdemos o rebolado. Dificilmente a pessoa vai te dizer que não dá pra ir no restaurante-modinha porque a conta equivale à conta mensal do gás ou do celular. E que ela já teve que sortear uma das duas para pagar, não rola de gastar isso para comer três cogumelos fatiados com torradinhas requentadas e uma taça de vinho nacional barato em vez de cozinhar e tomar banho quente o mês inteiro.

Não.

A pessoa DSPFSF vai dizer coisas do tipo “esta semana estou meio enrolada”, ou, no máximo, “vamos esperar virar o cartão”. Mas creia: ela está falando isso porque não quer criar um constrangimento para você e para ela. Quando o cartão virar ela continuará sem dinheiro para o cogumelo pretensioso, e terá que inventar outra desculpa, ou acabará cedendo para não ser estraga-prazeres, mas deixará de fazer outra coisa talvez mais prioritária.

Então, qual é a saída? Abandonamos nossa vida social até nosso país voltar a ser minimamente viável?

Nananinanão. Isso a gente espera sentada, porque em pé cansa. Mas sentada bebendo com as amigas, que ninguém merece sofrer sozinha.

Então se você tem percebido que aquela amiga ou aquele parente não tem topado seus convites, ou tem relutado, ou tem tentado dar uma dica de que a coisa talvez esteja feita para o lado dele/dela, tem algumas coisas que você pode fazer para continuar criando oportunidades de encontros felizes e afetivos sem criar uma situação difícil para ninguém:

  • Em vez de jantar no restaurante-modinha, vocês podem almoçar em um quilo simpático, cuja conta provavelmente custará a metade do preço, mas a diversão será a mesma. Ou você pode simplesmente dizer: “eu convido, quero ter o prazer da sua companhia”.
  • Você pode propor um convescote em casa: “traz um pão gostoso que eu providencio o vinho e um queijinho”. O inverno é ótimo para ficar do lado de dentro.
  • Dá para organizar um chope online: todo mundo entra no Skype e cada um toma a sua cerveja enquanto põem os assuntos em dia.

Enfim, não faltam soluções criativas.

O que você não deve fazer, no entanto, é:

  • Esperar “o cartão virar” e fazer o mesmo convite novamente – se a pessoa não tinha dinheiro para ir no mês passado, a chance de não ter de novo este mês é grande.
  • Sugerir comprar no “parcelado”. Passar dez meses pagando por uma tarde (ou um fim de semana) de diversão não é legal.
  • Dizer que “este mês eu pago, mês que vem é você”. É uma forma sutil de convidar, mas de certa forma cria uma obrigação de reciprocidade que nem sempre poderá ser cumprida.
  • Parar de chamar a pessoa porque ela recusa sempre com uma desculpa. Seja sensível e tente incluí-la de alguma forma.

E bora ser feliz, porque estar junto com os amigos e a família não tem preço (ou não deveria ter).

Las Dos Fridas

Pop Frida

Por que Frida Kahlo virou um ícone contemporâneo, ninguém sabe explicar. Por que ela, por que agora? Como, afinal, nascem os ícones? (Hoje em dia, com memes e gifs, mas não só).

Tem a ver com a internet, parece claro, mas isso é apenas um fator para entender o fenômeno. De algum modo e a partir de certo momento ela virou um símbolo das mulheres, do feminismo, da esquerda, das mulheres feministas de esquerda, do latinamericanismo e outras tantas cositas mais. Razões há várias em sua trajetória, mas a questão é que parece que ninguém tinha notado isso até uns 15 anos atrás.

Diz uma matéria da Folha de S. Paulo que uma pintura dela encalhou na Sotheby’s em 1985 e foi leiloada por 3 milhões de dólares 10 anos depois. Mas uma aumento na cotação no seletivo mercado da arte não parece ter relação com o mundo pop – nem sempre, não necessariamente. E quando me perguntaram outro dia o porquê da recém conquistada popularidade da Madrinha, eu não soube responder.

Os indícios dessa popularização estão aí e vão desde a quantidade de Fridas no carnaval do Rio aos incontáveis produtos que ela estampa – entre eles,  uma controversa versão da Barbie. Frida tá hype, tá pop, como diria o Olodum. Uma versão feminina do Che – dizem aqueles que não resistem a usar um homem para definir uma mulher (como na matéria da Folha). “A inventora da selfie”, disse a acadêmica que fez uma tese que investiga a imagem pós-moderna da pintora – cujo hermético resumo não respondeu minhas indagações (mas pode ser ignorância minha).

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O fato é que a gente entrou de gaiata nessa onda quando ainda era marola, e estabelecemos com ela uma relação de carinho e admiração. Por isso ela foi tema de vários posts, e levou em peregrinação até o MoMA, em ocasiões diferentes, essas duas mulheres que pegaram de empréstimo seu nome e criaram para si novas identidades (e talvez alguns super poderes).

Na verdade, o que faz da Lisa, Mona, e do Che esse símbolo tão replicado que se presta a qualquer coisa, até aos neozistas alemães? Não sei se chegaremos a descobrir um dia. Talvez o grande diferencial para nós é que o ícone Frida Kahlo a gente viu nascer e, muito, muito, muito modestamente, contribuímos para formar.

Frida Helê

Paralelas

Quem não se comunica se trumbica, já dizia o Velho Guerreiro. Isso lá pelos idos do século XX, aqui na nossa república de bananas. Os gringos lá do FBI e da CIA não conheceram o famoso bordão, e como resultado o mundo ocidental as we knew it se trumbicou.

poster minissérie The Looming Tower

Essa é a premissa da minissérie The Looming Tower, que terminei de assistir esses dias, baseada em fatos e pessoas reais. A história que se conta é a de que as duas agências governamentais norte-americanas investigavam em paralelo atividades suspeitas de pessoas ligadas à Al-Qaeda. Só que existe uma divisão de tarefas entre as duas, e, resumindo em poucas palavras, a CIA cuida dos assuntos internacionais e o FBI dos crimes em território nacional (no caso, o deles, ou seja, dentro dos Estados Unidos). Daí o FBI pedia informações para tentar achar os responsáveis por atos terroristas contra instalações norte-americanas mundo afora (as embaixadas no Quênia e na Tanzânia e um navio no Iêmen), mas a CIA negava, porque, afinal, foram crimes cometidos fora do território americano.

Quer dizer.

É meio impressionante – e bastante assustador – pensar que em grande medida a segurança do mundo dependia de umas pessoas que, no fundo, são gente como a gente. Que se apegaram a insignificâncias como “isso é meu”, “isso é seu”, em um mundo globalizado como esse em que vivemos. Que, em última instância, não entenderam que a comunicação é essencial para tomar decisões bem informadas. Que agiam como se fossem as duas torres que caíram: paralelas que só se encontraram no infinito.

***

Eu acho cá comigo – aliás, muita gente também deve achar – que o século XXI começou em 11 de setembro de 2001. Ou, dependendo do  ângulo que se vê, o século XX terminou ali. Espero que seja mais essa segunda opção. Seria bom acreditar que nossa nova época será menos mesquinha que a anterior. Tipo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera. Mas né? Acho que não. Aguardemus e oremus.

-Monix-

Pública, mas não gratuita*

Quando eu tinha 18 anos, tendo estudado a vida inteira em escola particular**, me deparei com a forte certeza de que minha primeira opção no vestibular seria uma universidade federal. Naquele distante final da década de 1980 estavam sendo realizadas as primeiras provas discursivas em muito tempo, portanto para meu plano dar certo era necessário conseguir notas muito boas em uma prova bastante difícil. Meu perfil como estudante era o de uma convicta “pessoa de Humanas”: ótimas notas nas disciplinas de cá, péssimas nas de lá. Mas minha formação básica garantiu um resultado suficientemente bom para ser aprovada para o segundo semestre, e assim tive meu primeiro contato com o ensino público em uma circunstância extremamente privilegiada, em uma instituição de excelência em todos os sentidos.

Porém, a escolha pela universidade federal passou por caminhos bem tortuosos e motivos muito pessoais, e mesmo subjetivos – claro que eu queria uma faculdade boa, um diploma para enfeitar bem meu currículo, essas coisas que (quase) todo estudante quer quando toma decisões sobre o vestibular. Mas queria também sair da esfera da PUC, onde a esta altura minha mãe lecionava, ampliar horizontes e evitar uma dependência financeira que àquele ponto da minha vida eu já não desejava.

Quando cheguei na UFRJ, no entanto, pela primeira vez tive uma vivência daquilo que hoje chamamos diversidade. Conheci gente de diferentes origens, gente que morava em bairros que eu nem sabia que existiam, gente que tinha estudado em colégios muito diferentes do meu, e, principalmente, gente que não vinha do mesmo ambiente protegido da classe-média-zona-sul, que precisava comer no bandejão para sobrar dinheiro para a passagem, que  vinha de famílias que nem sempre podiam financiar as condições mínimas para se estar ali.

Muitas vezes me questionei se era justo que eu estivesse naquele lugar. Sentia que estava ocupando uma vaga que deveria ser destinada a quem de fato não pudesse pagar. Durante algum tempo cheguei a concordar com os defensores do pagamento, por quem tivesse condições para tanto, de uma taxa anual.

Me formei, passou o tempo, muita coisa mudou na forma de acesso à universidade e acabei chegando à conclusão de que o ensino público só faz sentido se for gratuito e universal, no sentido de ser acessível a todos. Inclusive à elite. Esta é a riqueza da educação pública: ela trata a todos igualmente. Caso se instituísse uma taxa, os que pagassem se diferenciariam dos que não pudessem pagar, e pronto: já estaria criada uma hierarquia. Por outro lado, se a classe média alta/elite intelectual não frequentasse as escolas públicas, muito provavelmente o nosso sistema educacional seria como o sistema de saúde: atenderia mais ou menos mal a mais ou menos todo mundo. Porque os lugares frequentados pelos filhos da elite, mesmo sem verbas, mesmo com todas as dificuldades, mesmo sem papel higiênico nos banheiros, são alvo de um escrutínio muito mais rigoroso. E isso é ruim, porque expõe o duplo padrão da nossa sociedade, mas é bom porque beneficia a todos os que estão lá.

Então, acho que uma parte importante de acreditar no ensino público é estar nele. Investir numa educação pública de qualidade também passa por frequentar esses espaços. A chave para uma democratização do ensino não é fazer com que as pessoas paguem individualmente por ele: é melhorar as condições de acesso, sem criar falsas simetrias. Se nem todo mundo teve as mesmas condições na educação básica, faz sentido que haja uma reserva de vagas para quem vem com uma bagagem de conteúdo que, por si só, não seria suficiente para garantir a entrada na instituição. A política de cotas já está consolidada e os resultados são auto-explicativos. Basta frequentar um ambiente universitário hoje para ver como todos saíram ganhando.

***

Movida por motivações igualmente particulares e subjetivas, propus ao meu filho que, em sua passagem para o Ensino Médio, ele fizesse provas para escolas públicas de excelência da nossa região. Ele foi aprovado e está frequentando um colégio federal tradicionalíssimo do Rio de Janeiro. Esse meu reencontro com o ensino público me fez voltar a pensar nessas questões de inclusão, acesso, democratização, e, cada vez mais, defendo que ocupemos esses espaços, todos nós. É da mistura que nasce a qualidade. Esta foi a maior lição que aprendi em quatro anos de faculdade, e fico feliz por ver o aprendizado se repetindo na adolescência do meu filho.

(Aliás, já faz um tempo que estou usuária de transporte público – pago, mas enfim, coletivo. Quase dá vontade de frequentar o SUS e fazer esse mesmo caminho na saúde. Estou mesmo bem convicta de que as soluções individuais não podem ser a saída – não em um planeta habitado por 7 bilhões de pessoas.)

-Monix-

* Um professor da escola (pública) do meu filho disse essa frase na primeira reunião de pais, querendo dizer que embora a escola não seja paga por meio de taxas diretas, ela é, sim, financiada pelos impostos de todos os brasileiros. Inclusive, e principalmente, os mais pobres. É por isso que eu acredito – e digo isso sempre que posso – que ele, como aluno daquela instituição, tem a responsabilidade de levar seus estudos a sério. O Brasil inteiro está pagando por isso.

** É curioso que sempre me vi como uma pessoa nascida e criada em um ambiente privilegiado – e sou, mesmo. Mas na prática meus pais nunca pagaram pela minha educação. Como filha de professora secundária, tive bolsa no colégio durante todo o ensino básico, e estudei em universidade federal. A primeira vez que paguei para estudar foi muito, muito tempo depois, quando fiz uma pós-graduação lato sensu.

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