Estados Civis Reloaded

Casamento não é para fracos.

Nada pessoal, sem ofensas – apenas uma frase de efeito para sublinhar a complexidade da condição de casado. Sou até a favor do casamento –  de tantos quanto forem necessários, como dizia uma amiga.  Para mim bastou um, obrigada, tô satisfeita.

Um alerta para os incautos que ainda acreditam em felizes para sempre. Você nunca vai ser feliz para sempre, baby: nem quando casar, nem quando tiver filho, nem quando tiver um casal, nem quando separar, nem mesmo, suspeito eu, quando acertar na loteria sozinho. Essa é outra lenda urbana, igual  fucking zona de conforto. Quanto antes você compreender isso, mais chances tem de ser feliz. Mas nunca para sempre, ciliga.

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Já a solteirice cai bem nos jovens, claro (o que lhes cai mal?) e nos que se mantêm no mercado, digamos assim. Porque independente do seu grau de interessância, a Lei Geral da Física Sexual (e a demografia)  estabelece que a quantidade de opções decai com o passar do tempo, salvo raríssimas exceções. E há dificuldades específicas para quem volta a ser solteiro depois de um tempo fora de combate. Equivale a voltar para uma festa que estava ótima e perceber que tudo mudou enquanto você esteve fora: a decoração, os convidados, o DJ e até (ou sobretudo) você. Que começa, inclusive, a questionar se a festa estava tão boa assim quando você saiu.

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Mas eu suspeito que, no frigir dos ovos (uia, alerta de velhice essa expressão, hein?), a pessoa é para o que nasce. Só, somente só. Assim vou lhe chamar, assim você vai ser. O que salva é que pra sempre não é todo dia.

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E esse é um post reescrito ou reciclado porque o Carlos me lembrou dele e porque you know the drill: calabocajámorreuquemmandanomeubloguesoueu. E porque eu quis postar essa imagem do perfil que mais tem me divertido nos últimos tempos, o Pensador Sincero:

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Helê

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Pastilhas Garota* – científicas

Uma pesquisa sobre o cérebro humano concluiu, entre outras coisas, que a habilidade de cozinhar, única entre as espécies, é crucial para o acúmulo de células no córtex cerebral que só nós temos. Cozinhar nos coloca num patamar diferente entre todas as espécies, veja você. Ainda que eu só consiga fazer um ou dois pratos sazonais com discutível destreza, percebo o quanto de transformador e místico há na capacidade de transmutar comida em refeição. Ambos nutrem, mas só a segunda alimenta, para além do corpo. Não, eu não consigo olhar para ciência sem a lente da poesia e do sagrado.

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outro estudo divulgado esta semana afirma que as mulheres podem acumular o DNA dos homens com os quais já fizeram sexo. Pode ler de novo que é isso mesmo. São tantas as implicações e piadas possíveis que eu fico com a de A., que imediatamente se propôs a doar seu cérebro para a Fiocruz. Eu sabia que a gente podia pegar umas manias, acumular lembranças, criar defesas, até contrair doenças, mas absorver DNA?! E a gente achava lindo o Chico dizer ‘quero ficar no seu corpo feito tatuagem’, quando na verdade ele tarra entrando muito mais fundo do que poderíamos imaginar.

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O material se aloja, vejam vocês, no cérebro. Como a descoberta foi acidental e o grupo estudado era composto apenas de mulheres, resta saber se o mesmo se observa nos machos. Cérebro, DNA, ressonâncias, sobre isso eu nada sei, embora me fascine. Sei do coração de homens e mulheres, por comprovação empírica e sabedoria etária. Pegada, impressão plantar, digital, mordida, arranhão, os cinco dedos abertos: a gente nunca sabe que marcas deixamos no território insondável do coração alheio.

*Porque Drops, senhoras e senhores, só da Fal.

Helê

Avesso

Não, a cota infortúnios de 2016 ainda não tinha esgotado.

Meu primeiro contato com o acontecido foi na rua. Sabia que era grave porque vi  um estranho comentando com outro algo como “Viu que horror?” O tipo de reação provocada por tragédias. Provando que sou do século passado, fiz o quê? Liguei o rádio; ele sem demora falou sobre um acidente de avião: muitos mortos, o time da Chapecoense, alguns jornalistas.

Lamentei mas não me comovi, confesso.  Era terrível, claro, mas não me conectei de imediato. Há tragédias de todos os tamanhos acontecendo todos os dias, e o que as diferencia é precisamente o nosso grau de envolvimento. E naquele momento eu tinha pouco ou nenhum.

O futebol sempre me interessou mais pela mística, pelo ritual, as relações, metáforas e toda a complexidade de seu universo que pelo jogo propriamente. Nunca fui das que acompanham com regularidade, sabem de cor a escalação e discutem esquemas; de uns tempos pra cá, me afastei mais, sobretudo depois do inominável 7×1. Interessa-me apenas o Flamengo, e mesmo com ele sou desatenta e relapsa (como podemos ser com os amores definitivos).

Mesmo evitando os noticiários, que tendem ao senasacionalismo nessas ocasiões, fui obtendo informações aqui e ali. E foi exatamente pelo viés do futebol que fui me aproximando e me comovendo. Primeiro com o texto do Victor Belart, curto e certeiro, bem-escrito e emocionante, falando do futebol como essa liga entre pessoas, como uma chave de leitura do mundo. Depois começaram as manifestções de apoio mundo afora, de times, jogadores, dos mais célebre aos mais humildes. E então assisti ao vídeo com a torcida do Atlético Nacional cantando uma música feita por eles para a Chape. Um videozinho filmado com celular, som ruim, custei um pouco a entender o que eles cantavam e o que faziam. A compreensão se liquefez em lágrimas imediatamente: eles davam o título ao adversário abatido e prometiam nunca esquecê-lo. Aquele time do meu país que eu mal conhecia.

Depois, foi como se esse gesto se multiplicasse por mil, por muitos mil, naquela impressionante cerimônia  em que a solidariedade colombiana não coube no estádio – e se espalhou pelas ruas ao redor. Eu, sozinha em casa, diante da TV, me senti hipnotizada com aquela demonstração de afeto de uma população latino-americana por  nós, brasileiros. Justo nós, que esquecemos e quase desprezamos nossa condição de latinos. Fiquei mesmerizada com a força do futebol, esse universo/cultura/dimensão/chame como quiser, mas esporte parece pouco e pobre; é evidentemente bem  mais que isso.

Assisti a praticamente toda a cerimônia esperando, quase contando com o momento do constrangimento. Certa de que viria em uma fala exagerada, um puxa-saquismo fora de lugar, uma inadequação qualquer própria das solenidades.  Mas não houve; nem mesmo as autoridades, sempre propensas a estragar momentos de emoção e congraçamento, nem eles interromperam meu enlevo; alguns até colaboraram. Tudo soou genuíno, sincero, humano de um jeito que esquecemos que podemos ser.

Acompanhei tudo com um olho na missa e outro no gato – o gato, no caso, eram o twitter e o face. Para ter companhia (ou fazer de conta que tinha), para partilhar impressões, para observar como as minhas bolhas estavam reagindo. No começo o tuiter estava todo em Medellín enquanto  o Face olhava para Brasília, comentado as tenebrosas transações daquela noite; mas aos poucos a potência daquele momento alcançou também o FB.

A maioria estava tão impressionada quanto eu. Mas apareceram os que questionavam a nossa capacidade de solidariedade diante dos colombianos – se fosse aqui, faríamos algo assim? Ah, a nossa viralatice não conhece limites, até nisso a gente precisa provar que é pior! Isso e a nossa  tendência quintasseriana de competir com o coleguinha, medir  o imensurável – sua solidariedade é maior que a minha, você tem, eu não tenho, lálálálá. Faríamos o mesmo, não faríamos, que me importa isso no momento em que 100 mil pessoas nos oferecem um abraço coletivo ?

Eu senti necessidade de escrever aqui sobre isso, sobre o impacto desses vizinhos que falam outra língua, para os quais a gente não presta muita atenção, e que saíram de casa para ir a um estádio jogar flores no gramado onde haveria uma partida de futebol. Não acho que a humanidade está salva por isso – do mesmo modo que não acho que está condenada pela ganância  que, afinal, derrubou o avião. Ela é precisamente a soma de todas essas emoções e atitudes misturadas, indivisíveis às vezes. Mas quero lembrar daquela noite e daquele estádio; é o que quero reter: o avesso da dor, que dela nasce e a engole.

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#ForçaChape #GraciasColômbia

Helê

Apenas parem

Gente, 2016 tem muitos motivos para ser considerado uma merda monumental mas, pô, pessoas morrem todos os anos, e aos 90 não chega a ser exatamente uma surpresa, né? Quem quiser pedir pra descer, pedir pro mundo acabar, chamar o meteoro, ok. Acho que a piada já deu mas quem sou eu? Sei que eu quero continuar; agora que eu tô aqui quero ver como termina essa p*rra. Como cantou o Chico, que sabe das coisas: “Façam muitas manhãs que se o mundo acabar eu ainda não fui feliz” – não o suficiente. 2016 teve uma larga cota de desastres e tragédias, queira deus que já tenha se esgotado (não olhe agora, mais ainda tem ano pela frente). Mas não coloquem a morte de Fidel nesta conta – ou a da maravilhosa Sharon Jones, que eu amava, ou a do Cohen, que eu mal conhecia. Morrer não é uma das misérias do ano, e sim da vida.
E ainda assim há controvérsias.
Apenas parem.
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Ao comandante, todo o meu respeito. Meu carinho e admiração para Sharon, que foi cedo demais, e sobre que nem consigo escrever, só ouvir e admirar.
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Helê

O presente e seus desafios

No celular tento digitar com os dedões porque a adolescente me explicou que de outro modo “é como faz o pessoal da sua idade”. Nenhum problema com esse pessoal, que é o meu, mas she’s gotta a point, faz mais sentido e é até mais confortável, tenta só pra ver. Provavelmente vai acarretar uma nova L.E.R.,  uma -ite digital,  mas vem no combo novas tecnologias /possibilidades/doenças também; paciência. Não é isso que me incomoda. Desagrada-me o fim da privacidade, ou por outra, a sua atual indefinição e fluidez. E não é só da minha que falo, é também a do outro.

Entrei num táxi uma vez onde o motorista participava de uma espécie de chat oral on line: rolava uma animada conversa com mais duas ou três pessoas pelo auto-falante do celular, nem sei que aplicativo eles usavam. Só sei que fui da Tijuca até a Gamboa ouvindo um papo animado sobre religião, mulheres em geral e mulheres da zona sul em particular (!) que me constrangeu bastante. Nem havia nada de picante ou impróprio, mas era uma conversa da qual eu não pedi para participar e fui incluída à revelia. Quase pedi pra descer me desculpando por incomodar. Na sala de espera de um consultório escutei o áudio em que a menina dizia ao rapaz: “Sinceramente, eu esperava mais de você”.  Tipo de coisa que desperta infinitas possibilidades de interpretação na minha mente zombeteira, e ainda me exige esforço e compenetração para não emitir uma opinião técnica, tipo, “Da próxima vez faz assim…”. E as pessoas que falam no celular no ônibus como se estivessem em casa, completamente à vontade? Eu morro de vergonha, seja qual for o teor da conversa; apenas porque eu não deveria e nem queria estar ouvindo aquilo.

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Em 1998 eu escrevi uma tese (não dorme, péra) com o título “Luis Fernando Veríssimo. O humor entre o público e o privado”. A única coisa que permanece com contornos definidos é o Veríssimo (Graças a deus!). Escrevi algo que em menos de 20 anos ficou obsoleto. Diz aí você, o que é uma coisa e outra, público e privado ? O Veríssimo, ok, é meu rei; meu pastor e nada me faltará.

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Um dos maiores desafios da atualidade: pegar o celular para fazer algo – uma das 73 coisas que você pode fazer com ele, além de telefonar –, e fazer. Porque esse potente microcomputador portátil também funciona como sumidouro, alçapão, armadilha: você vai, sei lá, procurar um número de telefone,  e de repente está curtindo uma foto do seu amigo no aniversário da mãe dele, no Instagram. Que merece, aquela fofa da D. Alzira –  mas como é mesmo que eu vim parar aqui? Culpa das notificações e avisos, sem os quais a gente não daria conta de saber o que se passa enquanto a gente não está olhando para a telinha. Mas que exigem determinação monástica, concentração zen-budista e força de vontade religiosa para que a gente apenas procure aquele número que buscava quando pegou o celular. Claro que o mesmo acontece no computador (eu vivo me perdendo entre abas e janelas), mas o <ler com sotaque português>telemóvel<fim do sotaque>, como dizem os primos, tornou tudo mais crítico,  colocando essas armas de distração em massa  no nosso bolso (ou bolsas). As definições de transtorno de atenção precisam ser atualizadas – assim como as de educação e etiqueta.

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Entre apocalíticos e integrados eu sempre pendi para os segundos, desde o tempo em que essa distinção fazia sentido e era ensinada nas faculdades de jornalismo, na Idade Média. Não acho que o problema seja o celular, a coisa em si, ou mesmo a tecnologia que a sustenta. Acho que o mal é o que sai da boca do homem, fecho com a bíblia nisso aí. Trata-se apenas de observações sobre um mundo que muda mais rápido que eu achava capaz. Não me entendam mal, nem me considerem uma velha rabugenta. Contra a rabugice lutarei sempre; da velhice finjo que não gosto, mas tô tentando fazer amizade.

Helê

Imagem daqui.

Rio 2016, vésperas

“Quem meu filho beija, minha boca adoça”. Parte do acervo moral e afetivo da minha família, esse ditado me ocorreu quando um casal de amigos mineiros descreveu, com evidente encantamento, os dias em que estiveram no Rio de Janeiro, na semana passada. Com a intenção de justificar um não-encontro, contaram do roteiro que fizeram, uma verdadeira imersão no Centro, visitando tesouros  pouco valorizados como o Real Gabinete Português de Leitura, igrejas centenárias, botequins honestos, palácios, museus. Nem chegaram ao porto olímpico, nem subiram ao Cristo ou Santa Teresa; mergulhados nas ruas e vielas históricas onde a cidade começou descobriram um Rio que não se exibe mas que se dá a conhecer a quem dele se aproxima com interesse legítimo. A descrição empolgada, o carinho para se referir ao Rio e a alegria verdadeira me deixaram feliz por tabela, apenas por saber que eles foram felizes aqui, nessa cidade que eu amo tanto, apesar.

Parei no apesar porque não teríamos tempo para listar todos os pesares, e não é deles que quero falar. Ou não apenas. As adversidades e desvantagens de viver no Rio de Janeiro me parecem de demônio público: são muitas e todo mundo sabe e fala delas constantemente. Ainda assim, não conseguimos saída para a inadimplência ética crônica em que vivemos, (des)governados por políticos vis e vigiados por uma polícia assassina.

Galotti e Pedro Paulo Malta no lançamento do livro de Custódio Coimbra e Cristina Chacel, "Guanabara espelho do Rio"

Eu procuro saídas que não estejam no aeroporto; eu quero saber do que pode dar certo (tenho cada vez menos tempo a perder; envelheço – como os Titãs). Quero saber de iniciativas inovadoras, de alternativas, do Rio que insiste e persiste, apesar. Da Livraria Folha Seca, que promoveu uma roda de samba para o lançamento de um livro sobre a Baía de Guanabara, com o auxílio luxuoso do prof. Simas contando histórias da cidade entre uma música e outra. Do espetáculo Primavera das Mulheres, que me emocionou até a raiz dos cabelos e me deu uma dose do que eu não encontrava há tempos: esperança. Do samba na rua escondido em uma transversal da Tiradentes e do que encontrei aqui, na minha rua, sem propaganda ou alarde, comendo solto em plena tarde de domingo e acolhendo desavisados feito eu.

Na véspera da Olimpíada – literalmente – tenho sentimentos contraditórios. A cidade sabe e gosta de receber grandes eventos e levas de estrangeiros (tese defendida pela sócia há muitos carnavais). A gente tem prazer em ajudar o gringo a pedir café da manhã na padaria em Vista Alegre (né, Yabeta? 😉 ). E houve ganhos urbanos inegáveis (embora, depois da tragédia da queda da ciclovia, tudo tenha ganhado uma demão de suspeita no tocante à qualidade). Mas a que custo foram feitas essas melhorias só podem contabilizar as pessoas removidas da Vila Autódromo ou da região do porto. Foram mais de 6o mil remoções, mais do que na famosa (e também violenta) reforma de Pereira Passos. Do preço a ser pago pelo decantado legado podem falar as mães e pais de Costa Barros que a tristeza ainda não matou, para citar apenas um caso entre centenas em que negros pobres foram mortos por policiais que permanecem impunes. Tudo isso, e mais a conjuntura golpista,  deu uma freada no entusiasmo carioca. Percebo um quase constrangimento quando alguns falam sobre os ingressos que compraram, como se a gente ficassem meio sem graça de participar e gostar de um evento realizado dessa forma, cuja conta nós vamos pagar sem ter quem rache conosco.

O livro “Olympic Favela”, do fotógrafo Marc Ohrem-Leclef, revela a emoção e luta de pessoas de 13 favelas cariocas afetadas pela remoção em virtude dos megaeventos esportivos.

Por outro lado, quase todo mundo conhece alguém que está trabalhando diretamente no evento e que, inserido nas entranhas dos acontecimentos, está entusiasmado com o que de fato é, ou deveria ser, uma Olimpíada, um momento único de congraçamento. Essa visão acaba por nos contagiar positivamente;  a gente lembra porque esse circo foi armado e pensa que, ah, vai, pode ser bacana. Mas a empolgação incipiente esbarra em camadas de propaganda, marcas, negócios e rede globo que embalam o evento. Em meio a tudo isso, lá no caroço, tem o ideal olímpico e tal, mas para chegar até ele a gente tem que aturar uma quantidade enorme de supérfluos, como a bola gigantesca de uma marca de cerveja à beira da Baía de Guanabara e ouvir ad nauseam a estúpida expressão “família olímpica”, bizarrice que combina com coração feito com as mãos e #gratidão. Eu golfo feito bebê toda vez que ouço.

Pensando bem, sentimentos conflitantes são o default de quem vive aqui. É que nesses momentos de superexposição tudo se amplia, potencializa, então o bom vira ótimo, e o ruim fica péssimo. Eu vou torcer pela paz, como diria Jorge Benjor, e esperar pelo melhor. Ouvi de fonte segura que o  espírito olímpico já chegou: baixou num terreiro na zona oeste e ainda não sabe usar o BRT. Mas já pegou uma van e já, já chega aí.

Helê

Imagens: 1ª Galotti e Pedro Paulo Malta na roda de samba do lançamento do livro de Custódio Coimbra e Cristina Chacel, “Guanabara espelho do Rio”.
2ª: O livro “Olympic Favela”, do fotógrafo Marc Ohrem-Leclef, revela a emoção e luta de pessoas de 13 favelas cariocas afetadas pela remoção em virtude dos megaeventos esportivos. Outra referência sobre o tema é SMH 2016: remoções no Rio de Janeiro Olímpico, da Mórula, com o apoio da  Fundação Heinrich Böll. (Olha o jabá de amizade aqui, Manoela! 😀 ).

Mistérios

Fico intrigada com a maneira como funciona a memória, essa biblioteca caleidoscópica autogerida, que segue uma lógica obscura e realiza sinapses surpreendentes. Não entendo como ela opera (talvez não queria saber de fato: descobrir o truque não tem prazer nem próximo do que vê-lo acontecer). Há pouco me lembrei de ‘Beijo Partido’, bela canção do Toninho Horta. E lembrei de uma história que meu irmão me contou, há muitos e muitos anos, de um ex-viciado que teve uma epifania sobre o vício ouvindo essa canção. Entre os versos “eu não gosto de quem me arruína em pedaços” e “onde estará a rainha que a lucidez escondeu?” uma luz acendeu na consciência do cidadão, que então decidiu se tratar. Se você me perguntar a senha do Gmail, que eu uso todo dia, eu vou gaguejar e errar. Mas essa historieta, de alguém que eu não sei nem quem é, que impressionou meu irmão há tempos atrás e que ele comentou comigo num dia qualquer, grudou em alguma esquina do meu cérebro e permaneceu. Nesse mesmo sótão onde não há faxina que recupere a ficha da moça que me cumprimenta no facebook, evocando lembranças que deveríamos partilhar mas que eu, vergonhosamente, desconheço.

brainNa verdade, a memória (a minha eu apelidei carinhosamente de Danada) é um dos muitos engenhos misteriosos do corpo humano. Tem, por exemplo, o cérebro, esse assombroso maquinário. No ótimo documentário “My beautiful broken brain”, disponível na Netflix, Lotje Sodderland, uma mulher de 34 anos, registra sua reabilitação após sofrer um grave derrame. Apesar da situação trágica, o doc escapa com brilho da pieguice e dos clichês motivacionais. Concentra-se em narrar a incrível tarefa de alguém que busca consertar algo defeituoso tendo como instrumento esse mesmo equipamento avariado. Em dado momento, Sodeerland recupera a capacidade de escrever, mas continua sem conseguir ler, o que deu um mini curto-circuito na minha cabeça: achava que as duas habilidades estavam ligadas. Na verdade, são organizadas e controladas por partes diferentes da mente. Fascinante: o mecanismo, as nuances, a capacidade de recuperação, as divisões, funções, tudo distribuído em pouco mais de 1 kg de massa, tão poderoso quando vulnerável.

Tem também o coração, esse músculo involuntário e suas sofisticadas estratégias de sobrevivência. Aprendi outro dia o porquê dos enfartes serem mais perigosos e fatais em pessoas mais jovens. Achava que isso era daquelas coisas que o senso comum afirmar sem ter propriamente fundamento pra isso, mas a amiga médica explicou que procede. Acontece que o coração mais velho torna-se mais capilarizado; com o tempo, o órgão cria novas ramificações, vias secundárias, de modo que, face a uma obstrução, o comprometimento não é tão severo porque o sangue encontra outros caminhos que não existiam no original de fábrica; há ligações imprevistas, gambiarras, novos escapes (entro em beco, saio em beco/há um recurso, Madalena). B. me explicava didática e cientificamente, e eu a escutava deslumbrada com o lirismo e a sabedoria de tudo isso. Fiquei encantada com essa habilidade cardíaca, comovida feito o diabo com essa anatomia poética, com essa inteligência sensível obtida com a experiência (e um pouco aliviada, claro, porque afinal eu já tenho um coração de meia-idade).

Escapei da medicina, que ‘acometeu’ alguns na minha família, mas não do fascínio pelo corpo humano, mas me distraio com beleza  e encanto onde outros só vêem estruturas e sistemas. Aquilo que classificam como ciência e que rescende à razão, química e cálculos, eu só consigo compreender como poesia, da ordem dos mistérios.

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(Travis Bedel)

Helê

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