Pastilhas Garota* – científicas

Uma pesquisa sobre o cérebro humano concluiu, entre outras coisas, que a habilidade de cozinhar, única entre as espécies, é crucial para o acúmulo de células no córtex cerebral que só nós temos. Cozinhar nos coloca num patamar diferente entre todas as espécies, veja você. Ainda que eu só consiga fazer um ou dois pratos sazonais com discutível destreza, percebo o quanto de transformador e místico há na capacidade de transmutar comida em refeição. Ambos nutrem, mas só a segunda alimenta, para além do corpo. Não, eu não consigo olhar para ciência sem a lente da poesia e do sagrado.

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outro estudo divulgado esta semana afirma que as mulheres podem acumular o DNA dos homens com os quais já fizeram sexo. Pode ler de novo que é isso mesmo. São tantas as implicações e piadas possíveis que eu fico com a de A., que imediatamente se propôs a doar seu cérebro para a Fiocruz. Eu sabia que a gente podia pegar umas manias, acumular lembranças, criar defesas, até contrair doenças, mas absorver DNA?! E a gente achava lindo o Chico dizer ‘quero ficar no seu corpo feito tatuagem’, quando na verdade ele tarra entrando muito mais fundo do que poderíamos imaginar.

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O material se aloja, vejam vocês, no cérebro. Como a descoberta foi acidental e o grupo estudado era composto apenas de mulheres, resta saber se o mesmo se observa nos machos. Cérebro, DNA, ressonâncias, sobre isso eu nada sei, embora me fascine. Sei do coração de homens e mulheres, por comprovação empírica e sabedoria etária. Pegada, impressão plantar, digital, mordida, arranhão, os cinco dedos abertos: a gente nunca sabe que marcas deixamos no território insondável do coração alheio.

*Porque Drops, senhoras e senhores, só da Fal.

Helê

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Avesso

Não, a cota infortúnios de 2016 ainda não tinha esgotado.

Meu primeiro contato com o acontecido foi na rua. Sabia que era grave porque vi  um estranho comentando com outro algo como “Viu que horror?” O tipo de reação provocada por tragédias. Provando que sou do século passado, fiz o quê? Liguei o rádio; ele sem demora falou sobre um acidente de avião: muitos mortos, o time da Chapecoense, alguns jornalistas.

Lamentei mas não me comovi, confesso.  Era terrível, claro, mas não me conectei de imediato. Há tragédias de todos os tamanhos acontecendo todos os dias, e o que as diferencia é precisamente o nosso grau de envolvimento. E naquele momento eu tinha pouco ou nenhum.

O futebol sempre me interessou mais pela mística, pelo ritual, as relações, metáforas e toda a complexidade de seu universo que pelo jogo propriamente. Nunca fui das que acompanham com regularidade, sabem de cor a escalação e discutem esquemas; de uns tempos pra cá, me afastei mais, sobretudo depois do inominável 7×1. Interessa-me apenas o Flamengo, e mesmo com ele sou desatenta e relapsa (como podemos ser com os amores definitivos).

Mesmo evitando os noticiários, que tendem ao senasacionalismo nessas ocasiões, fui obtendo informações aqui e ali. E foi exatamente pelo viés do futebol que fui me aproximando e me comovendo. Primeiro com o texto do Victor Belart, curto e certeiro, bem-escrito e emocionante, falando do futebol como essa liga entre pessoas, como uma chave de leitura do mundo. Depois começaram as manifestções de apoio mundo afora, de times, jogadores, dos mais célebre aos mais humildes. E então assisti ao vídeo com a torcida do Atlético Nacional cantando uma música feita por eles para a Chape. Um videozinho filmado com celular, som ruim, custei um pouco a entender o que eles cantavam e o que faziam. A compreensão se liquefez em lágrimas imediatamente: eles davam o título ao adversário abatido e prometiam nunca esquecê-lo. Aquele time do meu país que eu mal conhecia.

Depois, foi como se esse gesto se multiplicasse por mil, por muitos mil, naquela impressionante cerimônia  em que a solidariedade colombiana não coube no estádio – e se espalhou pelas ruas ao redor. Eu, sozinha em casa, diante da TV, me senti hipnotizada com aquela demonstração de afeto de uma população latino-americana por  nós, brasileiros. Justo nós, que esquecemos e quase desprezamos nossa condição de latinos. Fiquei mesmerizada com a força do futebol, esse universo/cultura/dimensão/chame como quiser, mas esporte parece pouco e pobre; é evidentemente bem  mais que isso.

Assisti a praticamente toda a cerimônia esperando, quase contando com o momento do constrangimento. Certa de que viria em uma fala exagerada, um puxa-saquismo fora de lugar, uma inadequação qualquer própria das solenidades.  Mas não houve; nem mesmo as autoridades, sempre propensas a estragar momentos de emoção e congraçamento, nem eles interromperam meu enlevo; alguns até colaboraram. Tudo soou genuíno, sincero, humano de um jeito que esquecemos que podemos ser.

Acompanhei tudo com um olho na missa e outro no gato – o gato, no caso, eram o twitter e o face. Para ter companhia (ou fazer de conta que tinha), para partilhar impressões, para observar como as minhas bolhas estavam reagindo. No começo o tuiter estava todo em Medellín enquanto  o Face olhava para Brasília, comentado as tenebrosas transações daquela noite; mas aos poucos a potência daquele momento alcançou também o FB.

A maioria estava tão impressionada quanto eu. Mas apareceram os que questionavam a nossa capacidade de solidariedade diante dos colombianos – se fosse aqui, faríamos algo assim? Ah, a nossa viralatice não conhece limites, até nisso a gente precisa provar que é pior! Isso e a nossa  tendência quintasseriana de competir com o coleguinha, medir  o imensurável – sua solidariedade é maior que a minha, você tem, eu não tenho, lálálálá. Faríamos o mesmo, não faríamos, que me importa isso no momento em que 100 mil pessoas nos oferecem um abraço coletivo ?

Eu senti necessidade de escrever aqui sobre isso, sobre o impacto desses vizinhos que falam outra língua, para os quais a gente não presta muita atenção, e que saíram de casa para ir a um estádio jogar flores no gramado onde haveria uma partida de futebol. Não acho que a humanidade está salva por isso – do mesmo modo que não acho que está condenada pela ganância  que, afinal, derrubou o avião. Ela é precisamente a soma de todas essas emoções e atitudes misturadas, indivisíveis às vezes. Mas quero lembrar daquela noite e daquele estádio; é o que quero reter: o avesso da dor, que dela nasce e a engole.

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#ForçaChape #GraciasColômbia

Helê

Apenas parem

Gente, 2016 tem muitos motivos para ser considerado uma merda monumental mas, pô, pessoas morrem todos os anos, e aos 90 não chega a ser exatamente uma surpresa, né? Quem quiser pedir pra descer, pedir pro mundo acabar, chamar o meteoro, ok. Acho que a piada já deu mas quem sou eu? Sei que eu quero continuar; agora que eu tô aqui quero ver como termina essa p*rra. Como cantou o Chico, que sabe das coisas: “Façam muitas manhãs que se o mundo acabar eu ainda não fui feliz” – não o suficiente. 2016 teve uma larga cota de desastres e tragédias, queira deus que já tenha se esgotado (não olhe agora, mais ainda tem ano pela frente). Mas não coloquem a morte de Fidel nesta conta – ou a da maravilhosa Sharon Jones, que eu amava, ou a do Cohen, que eu mal conhecia. Morrer não é uma das misérias do ano, e sim da vida.
E ainda assim há controvérsias.
Apenas parem.
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Ao comandante, todo o meu respeito. Meu carinho e admiração para Sharon, que foi cedo demais, e sobre que nem consigo escrever, só ouvir e admirar.
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Helê

O presente e seus desafios

No celular tento digitar com os dedões porque a adolescente me explicou que de outro modo “é como faz o pessoal da sua idade”. Nenhum problema com esse pessoal, que é o meu, mas she’s gotta a point, faz mais sentido e é até mais confortável, tenta só pra ver. Provavelmente vai acarretar uma nova L.E.R.,  uma -ite digital,  mas vem no combo novas tecnologias /possibilidades/doenças também; paciência. Não é isso que me incomoda. Desagrada-me o fim da privacidade, ou por outra, a sua atual indefinição e fluidez. E não é só da minha que falo, é também a do outro.

Entrei num táxi uma vez onde o motorista participava de uma espécie de chat oral on line: rolava uma animada conversa com mais duas ou três pessoas pelo auto-falante do celular, nem sei que aplicativo eles usavam. Só sei que fui da Tijuca até a Gamboa ouvindo um papo animado sobre religião, mulheres em geral e mulheres da zona sul em particular (!) que me constrangeu bastante. Nem havia nada de picante ou impróprio, mas era uma conversa da qual eu não pedi para participar e fui incluída à revelia. Quase pedi pra descer me desculpando por incomodar. Na sala de espera de um consultório escutei o áudio em que a menina dizia ao rapaz: “Sinceramente, eu esperava mais de você”.  Tipo de coisa que desperta infinitas possibilidades de interpretação na minha mente zombeteira, e ainda me exige esforço e compenetração para não emitir uma opinião técnica, tipo, “Da próxima vez faz assim…”. E as pessoas que falam no celular no ônibus como se estivessem em casa, completamente à vontade? Eu morro de vergonha, seja qual for o teor da conversa; apenas porque eu não deveria e nem queria estar ouvindo aquilo.

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Em 1998 eu escrevi uma tese (não dorme, péra) com o título “Luis Fernando Veríssimo. O humor entre o público e o privado”. A única coisa que permanece com contornos definidos é o Veríssimo (Graças a deus!). Escrevi algo que em menos de 20 anos ficou obsoleto. Diz aí você, o que é uma coisa e outra, público e privado ? O Veríssimo, ok, é meu rei; meu pastor e nada me faltará.

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Um dos maiores desafios da atualidade: pegar o celular para fazer algo – uma das 73 coisas que você pode fazer com ele, além de telefonar –, e fazer. Porque esse potente microcomputador portátil também funciona como sumidouro, alçapão, armadilha: você vai, sei lá, procurar um número de telefone,  e de repente está curtindo uma foto do seu amigo no aniversário da mãe dele, no Instagram. Que merece, aquela fofa da D. Alzira –  mas como é mesmo que eu vim parar aqui? Culpa das notificações e avisos, sem os quais a gente não daria conta de saber o que se passa enquanto a gente não está olhando para a telinha. Mas que exigem determinação monástica, concentração zen-budista e força de vontade religiosa para que a gente apenas procure aquele número que buscava quando pegou o celular. Claro que o mesmo acontece no computador (eu vivo me perdendo entre abas e janelas), mas o <ler com sotaque português>telemóvel<fim do sotaque>, como dizem os primos, tornou tudo mais crítico,  colocando essas armas de distração em massa  no nosso bolso (ou bolsas). As definições de transtorno de atenção precisam ser atualizadas – assim como as de educação e etiqueta.

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Entre apocalíticos e integrados eu sempre pendi para os segundos, desde o tempo em que essa distinção fazia sentido e era ensinada nas faculdades de jornalismo, na Idade Média. Não acho que o problema seja o celular, a coisa em si, ou mesmo a tecnologia que a sustenta. Acho que o mal é o que sai da boca do homem, fecho com a bíblia nisso aí. Trata-se apenas de observações sobre um mundo que muda mais rápido que eu achava capaz. Não me entendam mal, nem me considerem uma velha rabugenta. Contra a rabugice lutarei sempre; da velhice finjo que não gosto, mas tô tentando fazer amizade.

Helê

Imagem daqui.

Rio 2016, vésperas

“Quem meu filho beija, minha boca adoça”. Parte do acervo moral e afetivo da minha família, esse ditado me ocorreu quando um casal de amigos mineiros descreveu, com evidente encantamento, os dias em que estiveram no Rio de Janeiro, na semana passada. Com a intenção de justificar um não-encontro, contaram do roteiro que fizeram, uma verdadeira imersão no Centro, visitando tesouros  pouco valorizados como o Real Gabinete Português de Leitura, igrejas centenárias, botequins honestos, palácios, museus. Nem chegaram ao porto olímpico, nem subiram ao Cristo ou Santa Teresa; mergulhados nas ruas e vielas históricas onde a cidade começou descobriram um Rio que não se exibe mas que se dá a conhecer a quem dele se aproxima com interesse legítimo. A descrição empolgada, o carinho para se referir ao Rio e a alegria verdadeira me deixaram feliz por tabela, apenas por saber que eles foram felizes aqui, nessa cidade que eu amo tanto, apesar.

Parei no apesar porque não teríamos tempo para listar todos os pesares, e não é deles que quero falar. Ou não apenas. As adversidades e desvantagens de viver no Rio de Janeiro me parecem de demônio público: são muitas e todo mundo sabe e fala delas constantemente. Ainda assim, não conseguimos saída para a inadimplência ética crônica em que vivemos, (des)governados por políticos vis e vigiados por uma polícia assassina.

Galotti e Pedro Paulo Malta no lançamento do livro de Custódio Coimbra e Cristina Chacel, "Guanabara espelho do Rio"

Eu procuro saídas que não estejam no aeroporto; eu quero saber do que pode dar certo (tenho cada vez menos tempo a perder; envelheço – como os Titãs). Quero saber de iniciativas inovadoras, de alternativas, do Rio que insiste e persiste, apesar. Da Livraria Folha Seca, que promoveu uma roda de samba para o lançamento de um livro sobre a Baía de Guanabara, com o auxílio luxuoso do prof. Simas contando histórias da cidade entre uma música e outra. Do espetáculo Primavera das Mulheres, que me emocionou até a raiz dos cabelos e me deu uma dose do que eu não encontrava há tempos: esperança. Do samba na rua escondido em uma transversal da Tiradentes e do que encontrei aqui, na minha rua, sem propaganda ou alarde, comendo solto em plena tarde de domingo e acolhendo desavisados feito eu.

Na véspera da Olimpíada – literalmente – tenho sentimentos contraditórios. A cidade sabe e gosta de receber grandes eventos e levas de estrangeiros (tese defendida pela sócia há muitos carnavais). A gente tem prazer em ajudar o gringo a pedir café da manhã na padaria em Vista Alegre (né, Yabeta? 😉 ). E houve ganhos urbanos inegáveis (embora, depois da tragédia da queda da ciclovia, tudo tenha ganhado uma demão de suspeita no tocante à qualidade). Mas a que custo foram feitas essas melhorias só podem contabilizar as pessoas removidas da Vila Autódromo ou da região do porto. Foram mais de 6o mil remoções, mais do que na famosa (e também violenta) reforma de Pereira Passos. Do preço a ser pago pelo decantado legado podem falar as mães e pais de Costa Barros que a tristeza ainda não matou, para citar apenas um caso entre centenas em que negros pobres foram mortos por policiais que permanecem impunes. Tudo isso, e mais a conjuntura golpista,  deu uma freada no entusiasmo carioca. Percebo um quase constrangimento quando alguns falam sobre os ingressos que compraram, como se a gente ficassem meio sem graça de participar e gostar de um evento realizado dessa forma, cuja conta nós vamos pagar sem ter quem rache conosco.

O livro “Olympic Favela”, do fotógrafo Marc Ohrem-Leclef, revela a emoção e luta de pessoas de 13 favelas cariocas afetadas pela remoção em virtude dos megaeventos esportivos.

Por outro lado, quase todo mundo conhece alguém que está trabalhando diretamente no evento e que, inserido nas entranhas dos acontecimentos, está entusiasmado com o que de fato é, ou deveria ser, uma Olimpíada, um momento único de congraçamento. Essa visão acaba por nos contagiar positivamente;  a gente lembra porque esse circo foi armado e pensa que, ah, vai, pode ser bacana. Mas a empolgação incipiente esbarra em camadas de propaganda, marcas, negócios e rede globo que embalam o evento. Em meio a tudo isso, lá no caroço, tem o ideal olímpico e tal, mas para chegar até ele a gente tem que aturar uma quantidade enorme de supérfluos, como a bola gigantesca de uma marca de cerveja à beira da Baía de Guanabara e ouvir ad nauseam a estúpida expressão “família olímpica”, bizarrice que combina com coração feito com as mãos e #gratidão. Eu golfo feito bebê toda vez que ouço.

Pensando bem, sentimentos conflitantes são o default de quem vive aqui. É que nesses momentos de superexposição tudo se amplia, potencializa, então o bom vira ótimo, e o ruim fica péssimo. Eu vou torcer pela paz, como diria Jorge Benjor, e esperar pelo melhor. Ouvi de fonte segura que o  espírito olímpico já chegou: baixou num terreiro na zona oeste e ainda não sabe usar o BRT. Mas já pegou uma van e já, já chega aí.

Helê

Imagens: 1ª Galotti e Pedro Paulo Malta na roda de samba do lançamento do livro de Custódio Coimbra e Cristina Chacel, “Guanabara espelho do Rio”.
2ª: O livro “Olympic Favela”, do fotógrafo Marc Ohrem-Leclef, revela a emoção e luta de pessoas de 13 favelas cariocas afetadas pela remoção em virtude dos megaeventos esportivos. Outra referência sobre o tema é SMH 2016: remoções no Rio de Janeiro Olímpico, da Mórula, com o apoio da  Fundação Heinrich Böll. (Olha o jabá de amizade aqui, Manoela! 😀 ).

Mistérios

Fico intrigada com a maneira como funciona a memória, essa biblioteca caleidoscópica autogerida, que segue uma lógica obscura e realiza sinapses surpreendentes. Não entendo como ela opera (talvez não queria saber de fato: descobrir o truque não tem prazer nem próximo do que vê-lo acontecer). Há pouco me lembrei de ‘Beijo Partido’, bela canção do Toninho Horta. E lembrei de uma história que meu irmão me contou, há muitos e muitos anos, de um ex-viciado que teve uma epifania sobre o vício ouvindo essa canção. Entre os versos “eu não gosto de quem me arruína em pedaços” e “onde estará a rainha que a lucidez escondeu?” uma luz acendeu na consciência do cidadão, que então decidiu se tratar. Se você me perguntar a senha do Gmail, que eu uso todo dia, eu vou gaguejar e errar. Mas essa historieta, de alguém que eu não sei nem quem é, que impressionou meu irmão há tempos atrás e que ele comentou comigo num dia qualquer, grudou em alguma esquina do meu cérebro e permaneceu. Nesse mesmo sótão onde não há faxina que recupere a ficha da moça que me cumprimenta no facebook, evocando lembranças que deveríamos partilhar mas que eu, vergonhosamente, desconheço.

brainNa verdade, a memória (a minha eu apelidei carinhosamente de Danada) é um dos muitos engenhos misteriosos do corpo humano. Tem, por exemplo, o cérebro, esse assombroso maquinário. No ótimo documentário “My beautiful broken brain”, disponível na Netflix, Lotje Sodderland, uma mulher de 34 anos, registra sua reabilitação após sofrer um grave derrame. Apesar da situação trágica, o doc escapa com brilho da pieguice e dos clichês motivacionais. Concentra-se em narrar a incrível tarefa de alguém que busca consertar algo defeituoso tendo como instrumento esse mesmo equipamento avariado. Em dado momento, Sodeerland recupera a capacidade de escrever, mas continua sem conseguir ler, o que deu um mini curto-circuito na minha cabeça: achava que as duas habilidades estavam ligadas. Na verdade, são organizadas e controladas por partes diferentes da mente. Fascinante: o mecanismo, as nuances, a capacidade de recuperação, as divisões, funções, tudo distribuído em pouco mais de 1 kg de massa, tão poderoso quando vulnerável.

Tem também o coração, esse músculo involuntário e suas sofisticadas estratégias de sobrevivência. Aprendi outro dia o porquê dos enfartes serem mais perigosos e fatais em pessoas mais jovens. Achava que isso era daquelas coisas que o senso comum afirmar sem ter propriamente fundamento pra isso, mas a amiga médica explicou que procede. Acontece que o coração mais velho torna-se mais capilarizado; com o tempo, o órgão cria novas ramificações, vias secundárias, de modo que, face a uma obstrução, o comprometimento não é tão severo porque o sangue encontra outros caminhos que não existiam no original de fábrica; há ligações imprevistas, gambiarras, novos escapes (entro em beco, saio em beco/há um recurso, Madalena). B. me explicava didática e cientificamente, e eu a escutava deslumbrada com o lirismo e a sabedoria de tudo isso. Fiquei encantada com essa habilidade cardíaca, comovida feito o diabo com essa anatomia poética, com essa inteligência sensível obtida com a experiência (e um pouco aliviada, claro, porque afinal eu já tenho um coração de meia-idade).

Escapei da medicina, que ‘acometeu’ alguns na minha família, mas não do fascínio pelo corpo humano, mas me distraio com beleza  e encanto onde outros só vêem estruturas e sistemas. Aquilo que classificam como ciência e que rescende à razão, química e cálculos, eu só consigo compreender como poesia, da ordem dos mistérios.

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(Travis Bedel)

Helê

Corrrtem-lhe a cabeça!

Na animação Alice no País das Maravilhas, a Rainha de Copas é uma personagem desequilibrada (hoje diríamos que é “surtada”), que resolve as divergências de um modo simples e radical: “corrrtem-lhe a cabeça!” grita ela, eliminando o racional de qualquer oposição que se lhe faça.

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Aqui no Brasil está em andamento uma (oportuna, é bom que se diga) decapitação em massa, liderada pela Operação Lava Jato da Polícia Federal, que tem seu principal mérito no escancaramento de práticas escusas que envolvem políticos e suas campanhas, a gestão irresponsável de empresas estatais e um modo de fazer política que a sociedade brasileira tem expressado que não aceita mais. (Embora eu aplique à política o que Luiz Eduardo Soares dizia sobre as polícias brasileiras: aquilo que apontamos como desvio na verdade é exatamente o que atende aos anseios dos grupos dominantes. Mas isso é outra história.)

O problema é que não basta punir os indivíduos por causa de corrupção. Eu diria até que meio que não adianta nada punir os indivíduos.

A mim me parece que estamos perdendo o foco da discussão. O que temos que apreender dessas notícias escabrosas é que é assim que se faz política no Brasil desde 1500. Por isso não me agrada a indignação que põe a corrupção como o problema número 1 do país. O ponto do debate deveria ser outro. (Acho que a esquerda errou quando assumiu o papel de guardiã da ética, porque era insustentável; e errou de novo quando optou pelo tal “pragmatismo político” para justificar alianças que permitissem a governabilidade. É um beco sem saída essa dualidade ética X governabilidade.)

A discussão deveria ser outra, e deveria obrigatoriamente passar pelo campo da política partidária. Sim, os partidos que temos são uma vergonha. Mas ainda não descobriram nenhuma maneira alternativa de se estruturar uma democracia nos padrões modernos/contemporâneos. Na Itália, a Operação Mãos Limpas resultou numa figura como o Berlusconi. Aqui nos ronda o fantasma de Jair Bolsonaro, que por acaso está bem vivo. Esse tipo de “faxina ética” que atinge todos os partidos traz esse efeito colateral a reboque: um vácuo de poder.

Vejam que meu problema não é nem com os eventuais erros processuais da Lava Jato. É com suas repercussões políticas. Cria-se um cenário de descrença generalizada na classe política e abre-se espaço para a ascensão de pessoas sem nenhum vínculo com uma base de apoio. E já vimos que sem base de apoio não se governa o Brasil (oi Getúlio; oi Jango; oi Collor; oi Dilma).

O que defendo não é o fim da Operação Lava Jato. As investigações têm que continuar. Só quero colocar aqui um certo senso crítico – afinal, para apontar soluções temos os engenheiros e todo o pessoal das Ciências Exatas. Nós de Humanas fazemos miçangas e apontamos problemas. 🙂

Então, como diria o grande filósofo Abelardo Barbosa, eu vim para confundir.

Não acho que se tenha que suspender investigação nenhuma. Que tudo seja apurado e os culpados, punidos. Mas: 1) temos que prestar muita atenção aos métodos empregados, porque juízes tendem a achar que têm o rei na barriga e 2) sempre, sempre, relativizemos o que está sendo descoberto, à luz da realidade política brasileira. Há 500 anos funcionamos na base dos acordos. Não adianta agora fulanizar a questão.

Se fosse para sugerir soluções (mas veja bem que não sou dessas), diria que seria muito mais proveitoso para a sociedade brasileira discutir mudanças na estrutura que sustenta esse estado de coisas. Enquanto houver esse voto proporcional do jeito que está, por exemplo, o Congresso não mudará. A quantidade absurda de partidos inviabiliza qualquer maioria que não seja baseada em conchavos. A possibilidade de alianças em que o chefe do executivo é de um partido e seu vice pode ser de outro, ao contrário de favorecer as coalizões, já se provou que cria um ambiente propício a conspirações. E nem vamos falar sobre a vergonha que são os financiamentos de campanhas.

Enquanto esse esquema permanecer, a caça às bruxas não terminará. Vão prender todo mundo e não vai sobrar um para contar a história.

-Monix-

 

 

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