Sobre banho e outras rotinas

Pessoal que chegou agora no home office, compulsório ou voluntário, sem planejar nem necessariamente desejar, uma dica muito importante: não esqueçam de tomar banho!

É sério. Cinco anos atrás, vocês sabem, eu pedi demissão de um emprego estável para trabalhar em casa por conta própria, movida principalmente pelo desejo de administrar meu próprio tempo. Naquele momento de tantas dúvidas (como vai ser minha rotina? vou conseguir clientes? vou ter disciplina para trabalhar todo dia?) um amigo que já estava há um tempo nesse mesmo caminho me deu esse conselho que agora repasso: não esqueça de tomar banho!

Parece piada, mas é verdade, pelo menos para mim. Muitas vezes passo o dia todo absorta, me dividindo entre o trabalho remunerado (demandas de clientes) e o trabalho doméstico (necessidades da família), e só na hora de dormir me dou conta: opa, ainda não tomei banho hoje!

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Bem, nos últimos dias muitas pessoas com quem convivo (digitalmente, pessoal, estou no isolamento desde sexta passada) têm comentado que passaram a trabalhar em casa. Muitas nunca tiveram essa experiência, pelo menos não por longos períodos de tempo. Então me dei conta de que uma das coisas que posso fazer para contribuir nesse momento difícil é compartilhar com vocês minhas experiências e minha rotina. Cada um irá descobrir suas soluções, mas espero que esse post ajude de alguma forma.

Primeiro, uma palavrinha sobre infraestrutura. Quem fala sobre home office (e tem gente que posta conteúdo sobre isso já há muitos anos) costuma recomendar que se crie um espaço exclusivo para o trabalho, um canto separado na sala, um cômodo convertido em escritório, etc. No meu caso isso não é possível. Meu “escritório” fica no meu quarto. Isso não significa que eu não tenha um espaço onde possa me concentrar. Dispensei a mesinha de cabeceira e mandei fazer uma bancada de trabalho bonita, colorida, e principalmente, ampla. Mas falarei mais sobre infra a seguir.

Um pedacinho do meu “escritório”

Para o home office funcionar, o mais importante é conseguir criar e manter uma rotina que faça nosso corpo e nossa mente entenderem que o mesmo lugar pode servir para o descanso/lazer e para o trabalho. Todos os dias de manhã eu arrumo minha cama, inclusive colocando almofadas no encosto para dar uma cara de “sofá”. Troco de roupa, mesmo que seja um vestidinho de malha confortável (nos dias em que não há reuniões por vídeo). Transformo o quarto em escritório e começo o expediente.

Não sigo horários rígidos, mas mantenho certos hábitos mais ou menos consistentes (dependendo da agenda do dia). De manhã leio e-mails e resolvo assuntos tipo pagar contas, etc. Começo a dar andamento às tarefas do dia. Faço um pausa para o almoço, que inclui preparar a comida, servir, comer, lavar a louça. Ultimamente estava começando um novo hábito: dar uma caminhada de 20 minutos aqui na minha rua mesmo, para fazer a digestão, melhorar um pouco a circulação (fico muito tempo sentada) e pegar um solzinho. Suspendi temporariamente para evitar exposição, mas retomarei quando der. Volto para a bancada cheia de disposição e me concentro muito à tarde.

Aliás, essa é uma coisa que me espantou muito no início. As pessoas costumam dizer que trabalhar em casa é muito dispersivo, que há muitas distrações. De fato, nos primeiros meses isso acontecia sim, não vou negar. Mas depois que me acostumei com a rotina, a verdade é que acho o trabalho profundamente focado. Raramente sou interrompida. É muito comum eu trabalhar duas horas seguidas sem parar para nada, sem sentir o tempo passar.

Aí entra uma recomendação tão importante quanto lembrar de tomar banho: bebam água, amiguinhos! Eu não gosto de café (dsclp, gente!), então deixo uma garrafinha de água ao meu lado. É muito útil, especialmente durante reuniões por vídeo, quando falo mais. Mas o mais importante é fazer pausas ao longo do dia, levantar, esticar as pernas, ir ao banheiro. E voltar ao batente, que a vida não tá ganha, né?

Aos poucos fui entendendo que além do óbvio lado bom – ser dona do meu próprio tempo – a experiência de home office tem lá suas questões também. Hoje eu sou responsável direta por toda a minha infraestrutura de trabalho. Precisei fazer investimentos ao longo do tempo: internet de alta velocidade e estável; um bom computador desktop, com monitor grande, teclado e mouse, para dar conforto, e um notebook que não me deixe na mão; pacote Office original com direito a 1 Tera de armazenamento na nuvem, para garantir que meus arquivos não sejam perdidos por acidente; domínio e servidor de site e e-mail profissionais (eu separo o e-mail pessoal do profissional, senão não consigo administrar). E por fim, mas definitivamente não menos importante, uma cadeira bem confortável para dar sustentação à minha já calejada coluna vertebral.

Quando você decide trabalhar em casa, você vira seu próprio patrão, com todos os ônus de ser patrão. Inclusive o pagamento do “salário”. Sei qual é o valor estipulado que devo pagar a mim mesma. Em meses (raros) em que faço mais dinheiro do que preciso, deixo na conta pessoa jurídica ou invisto. Se ganhar menos, preciso completar com a reserva financeira que construí justamente para poder dar esse passo (e que graças à crise que nunca termina está bem minguada, infelizmente). Mas em suma, sei quanto eu tenho me pagar a mim mesma por mês, e isso é muito importante para não perder o controle dos gastos.

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As próximas semanas (ou meses) vão ser difíceis. Nós nunca vivemos uma pandemia em um mundo totalmente globalizado. Por outro lado, nunca vivemos uma pandemia com tantos recursos para nos ajudar a enfrentá-la minimizando os impactos na economia.

Faz tempo que defendo a possibilidade de trabalho remoto, ainda que parcial, como uma forma de tornar as cidades lugares mais acolhedores. Menos pessoas se deslocando geram menos trânsito, menos poluição, menos estresse, e teoricamente mais tempo livre (embora na prática nem sempre isso aconteça). Desejo que esse momento tormentoso pelo menos sirva para o mundo repensar alguns hábitos que talvez já não fizessem mesmo tanto sentido.

E acima de tudo, torço para que passemos por essa com o mínimo de danos, que todos fiquem bem e seguros. Cuidemo-nos uns aos outros, está bem?

Update: uma coisa importante sobre rotina que quase esqueço de incluir aqui – se você tiver um horário certo para começar o expediente, tenha também um horário certo para encerrar os trabalhos. Se for como eu, sem rigidez de horários, estabeleça pelo menos um número total de horas a trabalhar por dia. Tão bom quanto começar o trabalho sem precisar sair de casa é encerrar o trabalho… e já estar em casa!

-Monix-

Desculpas

Nos tempos que correm, em que o tribunal da internet funciona célere e sem direito a recurso ou habeas corpus, com pessoas sendo “canceladas” (como se fossem um evento), e em que  o anonimato dá coragem momentânea a covardes permanentes, é preciso ter cuidado com o que se diz on ou off line. Estamos todos mais beligerantes, e também muito apressados e sobrecarregados, o que cria um ambiente propício à proliferação de mal-entendidos, juízos apressados e, claro, erros.

Por isso considero que tão ou mais importante que o cuidado com o discurso, a atenção no momento de pedir desculpas – pessoas físicas e jurídicas; usuários, influenciadores e marcas. Primeiro porque sua chance de errar ao fazer um post (ou simplesmente abrir a boca) é de pelo menos 50%. Mais cedo ou mais tarde você pode ofender, aborrecer ou incomodar alguém na praça pública que é a internet, com seus coretos diversos (twitter, facebook, etc). E depois porque um pedido de desculpas genérico, vago ou falso é feito roupa transparente: revela mais do que cobre; potencializa o erro ao invés de amenizá-lo.

Na minha cartilha as regras são duas e claras (como diria o Arnaldo)

  1. é sobre você ter errado, o foco são as suas desculpas

  2. seja breve: quanto mais você fala, menos convincente é

Explicando um pouco mais: muitos pedidos de desculpas tropeçam ao colocar em dúvida a ofensa – “desculpas se ofendi…” Irmão, se você não tem certeza se vacilou ou não, tá pedindo desculpas por que? Outro falha clássica é transferir o foco ( e, de maneira subliminar, a culpa) para o outro: “não entenderam”, “fui mal interpretado”. Novamente, se o problema é do outro, não cabe a você se desculpar, certo? Ou você não está realmente arrependido?

Sobre a regra 2, trata-se de uma questão de estilo que aprendi com o tempo. Ainda que você seja do tipo prolixo, sua desculpa deve ser objetiva, direta e curta, se possível condensada numa sentença. Se não for, provavelmente você está infringindo a regra 1.

Eu só me lembro de um caso, nos últimos anos, de um pedido de desculpas que desconsidera a segunda regra mas consegue enfatizar tremendamente a primeira; parece-me completamente sincero. Foi feito pelo fotógrafo An Le, responsável pela fotografia e pela edição da imagem em que o cabelo da atriz Lupita Nyong’o foi alterado na capa de uma revista. Em suas redes sociais, a atriz se disse decepcionada pela edição que apagou parte de seu cabelo “para se adequar a uma noção mais eurocêntrica do que é bonito”. An Le divulgou uma nota afirmando: “um erro monumental que fiz e gostaria de aproveitar para pedir desculpas a Nyong’o e a todos os outros que ofendi. Embora não fosse minha intenção ferir ninguém, posso ver agora que alterar a imagem de seu cabelo foi um ato incrivelmente prejudicial e doloroso. Não nasceu do ódio mas de sua própria ignorância e insensibilidade com o constante descaso com as mulheres negras em diferentes plataformas midiáticas.” (matéria sobre o caso, que aconteceu em 2017,  no Huffington Post)

Um raro exemplo de eloquente autocrítica. Na dúvida, fique com as duas regrinhas. 

Helê 

Pastilhas Garota*

D. comentou num tuíte que gosta de ver filme sem saber nada antes, nem lê a sinopse. Horas depois, por questões profissionais, adicionei uma pessoa entre os meus amigos do Facebook. Mas não olhei o perfil porque tive esse mesmo impulso: não quero spoiler (e nem quero que o retrato das redes estrague a (boa) impressão que estou tendo da pessoa).
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Comecei a ver “Limitless” – que a minha dislexia tardia só chama de Timeless – porque eu preciso de uma bobagem pra ver de manhã, enquanto saio do banho, tomo café, arrumo a marmita. A série deriva de um filme, outro passatempo banal (com o plus dos olhos às vezes muito azuis do Bradley Cooper). Mas achei significativo que o superpoder do herói seja…a concentração – bem apropriado num mundo em que a gente recebe muito mais informação do que pode processar.
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No filme ele diz,depois de tomar a pílula pela primeira vez, algo como “não estou chapado, alegre, acelerado, bêbado. Apenas focado”. Um superpoder capitalista?!
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Tá, não é o foco. O protagonista da série (e do filme) também consegue acessar todos os arquivos da sua memória, lembrando de tudo o que já viu, leu ou assistiu na vida. Imagina a velha louca da memória sistematizando os trapos por cor, tamanho e textura e etiquetando todas as comidas num freezer computadorizado.

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Hoje me ocorreu que o que eu tenho menos anos a viver do que já vivi . Sem drama, só na matemática e na probabilidade. Como não sou muito boa nem numa coisa nem em outra, cair no drama seria fácil, então achei melhor ouvir algo pra distrair e fui ouvir um podcast pra treinar o inglês (excelente, aliás) . E o cara resolve destacar a expressão “in your prime”. E explica que o ‘prime’ de um atleta é diferente de um profissional, que também difere da perspectiva evolutiva e… Olha, vôticontá, hein!
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Adoro essa expressão, vôticontá, morria de rir dela quando era pequena. Porque na verdade não conta nada, o que era importante já foi dito antes e você só tá sublinhando a gravidade da coisa. Minha mãe usa muito, e eu sempre acho que é daquelas falas tipicamente cariocas/suburbanas . Mas sempre que escrevo essas coisas na internet aparece várias pessoas de diferentes procedências dizendo dizendo que também usam , não é exclusiva do subúrbio e nem sequer do Rio, inclusive era uma expressão usada na Inglaterra medieval…olha…
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O podcast sobre o qual falei acima chama-se Plain English. Tem atualizações duas vezes por semana, é rápido (uns 20 minutos) e o cara tem o tom certo, não é nem “engraçadinho” nem formal demais. Escolhe temas atuais e oportunos. Tenho ouvido coisas bem interessantes, mas isso vale um post inteiro.

Helê

*Porque Drops, só a Fal 

Alta ajuda

Um dos grandes segredos de Fátima revelados na vida adulta é o altíssimo grau de romantização da vida a que somos submetidos, e o quanto isso atrapalha as relações, atrasa soluções, cria expectativas às vezes impossíveis — quando atitudes outras, mais simples e acessíveis, poderiam ser suficientes. Digo ‘romantização da vida’ porque acontece em todos os aspectos (e não apenas as relações amorosas): aprendemos a valorizar um modo específico de expressão do afeto, em geral instintivo, sem palavras, quase mágico. Então os melhores amantes são os que advinham o que você precisa sem que você tenha que dizer; os verdadeiros amigos, ou pelo menos os mais preciosos, entendem como você se sente sem que seja preciso explicar: basta uma troca de olhares e, pimba, a conexão suprema entre vocês foi suficiente para saciar suas necessidades emocionais.

 

Mas na vida real as conexões falham — e nós também. Vivemos inundados de informação e afazeres e boletos, desatentos e sobrecarregados. Condições  que não podem, de forma alguma, ser naturalizadas, mas cuja supremacia não podemos deixar de notar. Por isso quis vir aqui dizer que se você precisa de atenção, cuidado, apoio de alguém de quem gostaria ou esperava, peça. Não de um jeito torto, meio brincando, meio sério, com indiretas. Peça ajuda, diga o que precisa, aceite e expresse a sua necessidade claramente, dê-se a chance de ser ouvido. Não vou mentir: não é uma receita infalível e pode até não funcionar. Mas se você não tentar, jamais saberá, nem dará ao outro a chance de estender a mão, pagar um chopp, carregar uma caixa, estar com você. Admitir que estamos vulneráveis é o primeiro passo para deixar esse lugar desconfortável.

Helê

 

Ciências humanas para humanos melhores

Outro dia fui a uma palestra sobre Inteligência Artificial numa universidade. O palestrante era professor do Departamento de Informática, mas o evento foi promovido pela faculdade de Comunicação. Então lá pelas tantas, depois de apresentar muitas maravilhas que já são possíveis graças à tal da IA (que eu acho que devia ter outro nome, mas isso é outra história), ele começou a falar sobre algumas possibilidades, ainda remotas, de criação de máquinas cuja “inteligência” poderia substituir a humana. E aí a professora da Comunicação perguntou: mas por quê? A princípio, ele pareceu nem entender a pergunta. Para confundir ainda mais a lógica tecnocêntrica, ela ainda acrescentou: que eu saiba, não temos escassez de seres humanos no momento…

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Hoje de manhã recebi uma mensagem com o vídeo do incrível Kodi Lee, o rapaz cego e autista que deixou mesmerizados os membros do júri do programa America’s Got Talent. (Se eu fosse você, parava tudo e ia agora assistir ao vídeo do link. É sério.)

A arte salva. Segundo sua própria mãe, a música salvou a vida de Kodi.

Assistir Kodi falando diante de uma plateia imensa, e cantando tão lindamente, me fez pensar que há algumas centenas de anos esse menino teria sido trancado em casa até enlouquecer. E há algumas décadas talvez tivesse sido internado em um asilo ou manicômio, afastado de uma sociedade que não sabia como lidar com pessoas como ele.

Então, gente, de certa forma, se não fosse por Foucault nós não veríamos Kodi Lee cantando na televisão hoje. Agradeço a ele, agradeço ao povo da luta antimanicomial, agradeço a quem estudou antes de nós e nos ajudou a melhorar como indivíduos e como sociedade.

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As ciências humanas “servem”, entre outras coisas, para ajudar as outras ciências a entender o que fazem, por que fazem, e também como as coisas que estão sendo feitas afetam a todos nós.

E a arte, bem, a arte “serve” para nos salvar, em muitos níveis, de muitas coisas, inclusive de nós mesmos.

-Monix-

Inimigos imaginários

Quase todo mundo que eu conheço está reclamando de cansaço extremo. E eu não acho que seja por causa da “vida moderna”, o estresse da cidade grande, trabalho demais, nada disso.

Acho que é porque cansa demais levar pancada o tempo todo e não saber nem por onde começar a reagir. É isso: a minha turma foi escolhida como inimiga número um da sociedade – pelo menos pela parcela mais alucinada da sociedade.

O problema é que esses ataques são tipo a Ursal. Quando o Cabo Daciolo tirou da cartola essa teoria da conspiração, o que aconteceu? No dia seguinte, quebrou a internet (pelo menos a internet onde eu circulo). Mas por quê a minha turma achou tanta graça e criou tantos memes? Justamente porque a gente nunca tinha ouvida falar em Ursal. Assim como nunca tínhamos ouvido falar em “marxismo cultural” nem em “ideologia de gênero”. E aí é que mora o perigo: como a gente navega em bolhas, tem um pessoal de outra bolha que está nos julgando (e condenando) com base em coisas que simplesmente não existem.

Ou seja, é pior do que combater inimigos imaginários – coisa que desde Dom Quixote já sabemos que é bem difícil. É que nós fomos transformados em inimigos imaginários e estamos sofrendo ataques reais. Quem descobrir como se defender, capaz que ganhe o Nobel da Paz em 2020.

Então somos acusados de ser comunistas e tentamos responder dentro do conceito que a gente conhece de comunista, dizendo: olha, o comunismo já não existe mais em país nenhum do mundo, etc. Só que não é desse comunismo que se está falando. Comunista, na linguagem da direita populista, é qualquer um que se oponha ao seu projeto moralizante-autoritário travestido de anti-sistêmico. Incluindo a Veja, o Papa Francisco, etc.

E é com base nessa realidade que só podemos chamar de “alternativa” (aliás, faça um favor a si mesmo e leia esse artigo do linguista Jan Blommaert sobre “fatos alternativos”) que são tomadas decisões importantes sobre políticas públicas.

Tipo o contingenciamento de verbas das universidades e institutos federais.

Tirar dinheiro dos “doutrinadores” não vai fazer as pessoas mudarem seu pensamento. Se a UFRJ não tiver comida no bandejão, se a UFF não tiver segurança nos campi, se o Colégio Pedro II ficar sem luz elétrica (sem telefone já está, há mais de um ano)… os professores e os estudantes continuarão pensando as mesmas coisas que pensam hoje com luz, segurança e comida. Talvez eles só não possam mais debater essas coisas em sala de aula, porque as aulas terão que ser suspensas.

Mas isso seria exatamente o significado da metáfora “matar um mosquito com tiro de canhão”. Sendo que o mosquito, no caso, nem existe.

-Monix

Educação, balbúrdia, vida

Eu não fui, nos anos da educação básica, uma aluna estudiosa. Fui, sim, interessada, participativa, curiosa. Mas não estudiosa.

Daí que quando me formei na graduação fiz uma pequena cerimônia de libertação, rasgando as folhas do fichário que usei na faculdade, os textos em xerox que já não seriam mais necessários, etc. E à la Scarlett O’Hara fiz uma promessa mais ou menos solene de que nunca mais passaria fom… ops, não era isso. A promessa era de que nunca mais na vida eu iria estudar.

Mas aos vinte e poucos anos a gente é mesmo besta, não é? E “nunca mais” lá é promessa que se faça?

Enfim. Veio a necessidade de me aperfeiçoar e fui fazer uma pós-graduação. A sensação de ser a “tia” da turma foi engraçada. Eu tinha a idade dos professores, estava pagando para estudar pela primeira vez na vida, para fazê-lo deixava meu filho pequeno em casa com uma babá… não estava lá só pra ter um certificado bonito. Eu queria aprender. E então me vi quebrando minha promessa solene. Estudei, e gostei.

Depois que terminei a pós, fui convidada a dar aulas. Ensinei, e gostei.

Nos últimos anos tem sido assim: às vezes eu estudo, às vezes eu ensino. Acabei de terminar o mestrado. Estudei muito, mais do que nunca na vida. Fui feliz.

Hoje dou a última aula de um curso de extensão na Uerj. Foram cinco (ou seis?) semanas em que frequentei, pela primeira vez, este heróico campus. Cheguei um pouco mais cedo e estou escrevendo este post sentada em um corredor por onde passam estudantes de todos os tipos e tamanhos: uma universidade é, sem falta, um ambiente efervescente, fervilhante, onde a energia da criação é tão intensa que quase pode ser tocada. A Uerj vive porque toda Universidade vive.

Tem balbúrdia, sim, seu ministro que não merece nem ser linkado. Porque a juventude é barulhenta, graças aos deuses. Barulhenta, colorida, entusiasmada, esperançosa e ligeiramente transgressora, como nós, do alto da nossa idade e experiência, muitas vezes não conseguimos mais ser.

Acho que foi isso que vim buscar quando quis voltar a esse lugar. E encontrei.

-Monix-

Papo de Fridas

Outro dia nosotras nos encontramos, com um petit comité de amigos/as-leitores/as na casa da Monix sob o pretexto de (não) assistir um filme enquanto bebíamos e conversávamos sobre outras coisas. Como o objetivo de beber e conversar era mais premente que o de assistir um filme, escolhemos um que já praticamente sabemos de cor: Harry e Sally – Feitos um para o Outro (que inclusive já assistimos juntas). Para brindar o primeiro encontro do ano, nada como um bom confort movie.

Mas você já sabe que quando as Fridas se encontram nada nunca é só o que era pra ser. A gente adora complicar e botar caraminholas nas nossas próprias cabeças. Então, uns dias depois, tivemos mais ou menos a conversa abaixo por WhatsApp (que aqui segue editada e ampliada, que nós somos dessas). Foi, em suma, um papo sem compromisso, bem pingue-pongue mesmo, mas que rendeu um bom fio de pensamento e que quisemos dividir com vocês.

Helê: Fiquei pensando depois que não tem um casal negro naquelas entrevistas de Harry e Sally.
Monix: Verdade. Outro dia eu Estava revendo Friends e pensei a mesma coisa, não tem personagens negros na série inteira.
Helê: Pensando bem, preto, no filme (Harry e Sally), só garçom, staff em geral. E aí eu fiquei pensando que ficou tão ok falar mal do politicamente correto, mas isso hoje não aconteceria.
Monix: Sem dúvida
Helê: [A maior presença de negros nos elencos] tem a ver com um ativismo maior? Sim. Mas com o politicamente correto também. E o que veio primeiro, quem puxou quem?
Monix: Acho inclusive que tem algum tipo de regulação nos EUA (não sei se governo ou autorregulação) que exige diversidade nos elencos. #pesquisar [A pesquisa não nos trouxe conclusões definitivas, mas este artigo leva a crer que não há regras nesse sentido, apenas uma discussão bastante rica e ainda em curso sobre a passagem do colorblind para o color-conscious.]
Monix: Representation matters !
Helê: Sim. Dá uma tristezinha admitir isso porque a gente ama o filme, né?
Monix: Mas não acho que isso diminua o valor do filme. Era o contexto da época.
Helê: Não, mas é como admitir defeito em amigo
Monix: Não dá pra julgar uma obra de 30 (?!) anos atrás com o raciocínio de hoje. A não ser coisas escandalosas, tipo o filme do Griffith que defendia a Ku Klux Klan. [O filme é O Nascimento de uma Nação.]
Helê: Entendo. Claro que eu não posso cobrar feminismo do Mario Lago e a sua Amélia. Mas como a gente gosta muito, preferia não tivesse esse defeito de cor, hahaha!
Monix: Hahahah verdade. Aliás, ótimo exemplo esse da Amélia.
Monix: Nem contei do problema que foi assistir 7 Noivas para 7 Irmãos no telão com o Fridinho. Ele ficou incomodadíssimo com o rapto.
Helê: Caramba! Nunca tínhamos visto desse jeito! Cárcere privado.
Monix: Lá pelas tantas ele disse que se no final as moças casassem com os sequestradores, ia ficar muito p*to. Quase mandei ele dormir 😬

E vocês, o que acham? Como assistir obras de arte criadas em outros contextos, com tudo o que sabemos hoje? Dá pra gostar, levar em consideração o contexto, ou fica difícil? Dividam seus pensamentos com a gente. A discussão é boa.

Las Dos Fridas

Noção de tempo

Não sei se sou só eu, ou se outras pessoas do século passado têm a mesma relação estranha com o passar dos anos neste acelerado século XXI. É assim: desde pequena, desde que nasci, o “ano 2000” era um marco temporal muito forte, muito longínquo (embora nem fosse) e, claro, muito no futuro. A gente falava que tal coisa só aconteceria “depois do ano 2000” querendo dizer algo como “no dia de São Nunca”. Gilberto Gil, que tem uma música para cada situação (podem conferir), imortalizou esse zeitgeist no verso “pra depois do ano 2000″…

Daí vem meu problema com o tempo: como que de repente o ano 2000 não é mais um futuro remoto, mas sim um passado (quase) remoto? Como que daqui a um ano vai fazer duas décadas que o “futuro” chegou… e passou? Não tô sabendo lidar, gente. Tô confusa.

-Monix-

Recapitulação precoce

Eu não vou reclamar (ainda) desse ano porque não dá sorte; se tem uma coisa que sempre pode é piorar. 2016 parecia o fim do mundo e aconteceu a Chapecoense, então só acaba quando termina e até lá eu só posso dizer que este está sendo um ano longo, muuuito longo. Até aqui…não sei você, mas eu já vivi uns 15 meses em 2018. Essa impressão aumentou bastante depois que comecei a limpar meu celular de imagens e arquivos recebidos. A pessoa objetiva #NOT vai vendo um por um, ao invés de mandar aquele selecionar tudo + delete. Aí já viu, comecei uma retrospectiva antes do tempo, viajando por prints de apps desinstalados, conversas e fotos que eu não reconheço, uma avalanche de memes e piadas. O carnaval sempre me parece mais longe que o desejado, mas eu não lembrava que neste você podia encontrar um “CarnaCrush” via aplicativo.  A Copa do Mundo da Rússia, gente, a Praça Vermelha/Fiocruz, lembra? Parece que terminou há pelo menos seis meses! Chegamos a rir do cabelo do Neymar antes dele nos matar de vergonha, veja você. A greve dos caminhoneiros, meu pai! Achei fotos de tanques na reserva, e depois de pratos ostentação, repletos de verdura, além de foto-fetiche de dúzias de ovos! Não parece que isso aconteceu há pelo menos uns dois anos? E o Lulapaloosa na porta do Sindicato dos Metalúrgicos, que pareceu ter durado uma semana e terminou com Luiz Inácio Khalesi, o primeiro do seu nome, carregado nos braços do povo na foto tão icônica que já nasceu pintura? Já nem sei se foi antes ou depois do casamento real com direito a coral afro preto e pastor idem. E nem vou citar as tragédias cariocas/nacionais porque falei disso ainda pouco – há dias ou semanas? Até a Ursal, recém-fundada, já parece coisa do passado. Tudo tanto, tão intenso – e as eleições nem terminaram ainda! – que acho que essa retrospectiva fora de hora se justifica – sabe-se lá quantos meses mais teremos até dezembro?!

Exemplos de imagens aleatórias encontradas no meu celular sobre as quais não sei a procedência nem tenho nada a delcarar.

Helê

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