Pop Frida

Por que Frida Kahlo virou um ícone contemporâneo, ninguém sabe explicar. Por que ela, por que agora? Como, afinal, nascem os ícones? (Hoje em dia, com memes e gifs, mas não só).

Tem a ver com a internet, parece claro, mas isso é apenas um fator para entender o fenômeno. De algum modo e a partir de certo momento ela virou um símbolo das mulheres, do feminismo, da esquerda, das mulheres feministas de esquerda, do latinamericanismo e outras tantas cositas mais. Razões há várias em sua trajetória, mas a questão é que parece que ninguém tinha notado isso até uns 15 anos atrás.

Diz uma matéria da Folha de S. Paulo que uma pintura dela encalhou na Sotheby’s em 1985 e foi leiloada por 3 milhões de dólares 10 anos depois. Mas uma aumento na cotação no seletivo mercado da arte não parece ter relação com o mundo pop – nem sempre, não necessariamente. E quando me perguntaram outro dia o porquê da recém conquistada popularidade da Madrinha, eu não soube responder.

Os indícios dessa popularização estão aí e vão desde a quantidade de Fridas no carnaval do Rio aos incontáveis produtos que ela estampa – entre eles,  uma controversa versão da Barbie. Frida tá hype, tá pop, como diria o Olodum. Uma versão feminina do Che – dizem aqueles que não resistem a usar um homem para definir uma mulher (como na matéria da Folha). “A inventora da selfie”, disse a acadêmica que fez uma tese que investiga a imagem pós-moderna da pintora – cujo hermético resumo não respondeu minhas indagações (mas pode ser ignorância minha).

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O fato é que a gente entrou de gaiata nessa onda quando ainda era marola, e estabelecemos com ela uma relação de carinho e admiração. Por isso ela foi tema de vários posts, e levou em peregrinação até o MoMA, em ocasiões diferentes, essas duas mulheres que pegaram de empréstimo seu nome e criaram para si novas identidades (e talvez alguns super poderes).

Na verdade, o que faz da Lisa, Mona, e do Che esse símbolo tão replicado que se presta a qualquer coisa, até aos neozistas alemães? Não sei se chegaremos a descobrir um dia. Talvez o grande diferencial para nós é que o ícone Frida Kahlo a gente viu nascer e, muito, muito, muito modestamente, contribuímos para formar.

Frida Helê

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Paralelas

Quem não se comunica se trumbica, já dizia o Velho Guerreiro. Isso lá pelos idos do século XX, aqui na nossa república de bananas. Os gringos lá do FBI e da CIA não conheceram o famoso bordão, e como resultado o mundo ocidental as we knew it se trumbicou.

poster minissérie The Looming Tower

Essa é a premissa da minissérie The Looming Tower, que terminei de assistir esses dias, baseada em fatos e pessoas reais. A história que se conta é a de que as duas agências governamentais norte-americanas investigavam em paralelo atividades suspeitas de pessoas ligadas à Al-Qaeda. Só que existe uma divisão de tarefas entre as duas, e, resumindo em poucas palavras, a CIA cuida dos assuntos internacionais e o FBI dos crimes em território nacional (no caso, o deles, ou seja, dentro dos Estados Unidos). Daí o FBI pedia informações para tentar achar os responsáveis por atos terroristas contra instalações norte-americanas mundo afora (as embaixadas no Quênia e na Tanzânia e um navio no Iêmen), mas a CIA negava, porque, afinal, foram crimes cometidos fora do território americano.

Quer dizer.

É meio impressionante – e bastante assustador – pensar que em grande medida a segurança do mundo dependia de umas pessoas que, no fundo, são gente como a gente. Que se apegaram a insignificâncias como “isso é meu”, “isso é seu”, em um mundo globalizado como esse em que vivemos. Que, em última instância, não entenderam que a comunicação é essencial para tomar decisões bem informadas. Que agiam como se fossem as duas torres que caíram: paralelas que só se encontraram no infinito.

***

Eu acho cá comigo – aliás, muita gente também deve achar – que o século XXI começou em 11 de setembro de 2001. Ou, dependendo do  ângulo que se vê, o século XX terminou ali. Espero que seja mais essa segunda opção. Seria bom acreditar que nossa nova época será menos mesquinha que a anterior. Tipo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera. Mas né? Acho que não. Aguardemus e oremus.

-Monix-

Pública, mas não gratuita*

Quando eu tinha 18 anos, tendo estudado a vida inteira em escola particular**, me deparei com a forte certeza de que minha primeira opção no vestibular seria uma universidade federal. Naquele distante final da década de 1980 estavam sendo realizadas as primeiras provas discursivas em muito tempo, portanto para meu plano dar certo era necessário conseguir notas muito boas em uma prova bastante difícil. Meu perfil como estudante era o de uma convicta “pessoa de Humanas”: ótimas notas nas disciplinas de cá, péssimas nas de lá. Mas minha formação básica garantiu um resultado suficientemente bom para ser aprovada para o segundo semestre, e assim tive meu primeiro contato com o ensino público em uma circunstância extremamente privilegiada, em uma instituição de excelência em todos os sentidos.

Porém, a escolha pela universidade federal passou por caminhos bem tortuosos e motivos muito pessoais, e mesmo subjetivos – claro que eu queria uma faculdade boa, um diploma para enfeitar bem meu currículo, essas coisas que (quase) todo estudante quer quando toma decisões sobre o vestibular. Mas queria também sair da esfera da PUC, onde a esta altura minha mãe lecionava, ampliar horizontes e evitar uma dependência financeira que àquele ponto da minha vida eu já não desejava.

Quando cheguei na UFRJ, no entanto, pela primeira vez tive uma vivência daquilo que hoje chamamos diversidade. Conheci gente de diferentes origens, gente que morava em bairros que eu nem sabia que existiam, gente que tinha estudado em colégios muito diferentes do meu, e, principalmente, gente que não vinha do mesmo ambiente protegido da classe-média-zona-sul, que precisava comer no bandejão para sobrar dinheiro para a passagem, que  vinha de famílias que nem sempre podiam financiar as condições mínimas para se estar ali.

Muitas vezes me questionei se era justo que eu estivesse naquele lugar. Sentia que estava ocupando uma vaga que deveria ser destinada a quem de fato não pudesse pagar. Durante algum tempo cheguei a concordar com os defensores do pagamento, por quem tivesse condições para tanto, de uma taxa anual.

Me formei, passou o tempo, muita coisa mudou na forma de acesso à universidade e acabei chegando à conclusão de que o ensino público só faz sentido se for gratuito e universal, no sentido de ser acessível a todos. Inclusive à elite. Esta é a riqueza da educação pública: ela trata a todos igualmente. Caso se instituísse uma taxa, os que pagassem se diferenciariam dos que não pudessem pagar, e pronto: já estaria criada uma hierarquia. Por outro lado, se a classe média alta/elite intelectual não frequentasse as escolas públicas, muito provavelmente o nosso sistema educacional seria como o sistema de saúde: atenderia mais ou menos mal a mais ou menos todo mundo. Porque os lugares frequentados pelos filhos da elite, mesmo sem verbas, mesmo com todas as dificuldades, mesmo sem papel higiênico nos banheiros, são alvo de um escrutínio muito mais rigoroso. E isso é ruim, porque expõe o duplo padrão da nossa sociedade, mas é bom porque beneficia a todos os que estão lá.

Então, acho que uma parte importante de acreditar no ensino público é estar nele. Investir numa educação pública de qualidade também passa por frequentar esses espaços. A chave para uma democratização do ensino não é fazer com que as pessoas paguem individualmente por ele: é melhorar as condições de acesso, sem criar falsas simetrias. Se nem todo mundo teve as mesmas condições na educação básica, faz sentido que haja uma reserva de vagas para quem vem com uma bagagem de conteúdo que, por si só, não seria suficiente para garantir a entrada na instituição. A política de cotas já está consolidada e os resultados são auto-explicativos. Basta frequentar um ambiente universitário hoje para ver como todos saíram ganhando.

***

Movida por motivações igualmente particulares e subjetivas, propus ao meu filho que, em sua passagem para o Ensino Médio, ele fizesse provas para escolas públicas de excelência da nossa região. Ele foi aprovado e está frequentando um colégio federal tradicionalíssimo do Rio de Janeiro. Esse meu reencontro com o ensino público me fez voltar a pensar nessas questões de inclusão, acesso, democratização, e, cada vez mais, defendo que ocupemos esses espaços, todos nós. É da mistura que nasce a qualidade. Esta foi a maior lição que aprendi em quatro anos de faculdade, e fico feliz por ver o aprendizado se repetindo na adolescência do meu filho.

(Aliás, já faz um tempo que estou usuária de transporte público – pago, mas enfim, coletivo. Quase dá vontade de frequentar o SUS e fazer esse mesmo caminho na saúde. Estou mesmo bem convicta de que as soluções individuais não podem ser a saída – não em um planeta habitado por 7 bilhões de pessoas.)

-Monix-

* Um professor da escola (pública) do meu filho disse essa frase na primeira reunião de pais, querendo dizer que embora a escola não seja paga por meio de taxas diretas, ela é, sim, financiada pelos impostos de todos os brasileiros. Inclusive, e principalmente, os mais pobres. É por isso que eu acredito – e digo isso sempre que posso – que ele, como aluno daquela instituição, tem a responsabilidade de levar seus estudos a sério. O Brasil inteiro está pagando por isso.

** É curioso que sempre me vi como uma pessoa nascida e criada em um ambiente privilegiado – e sou, mesmo. Mas na prática meus pais nunca pagaram pela minha educação. Como filha de professora secundária, tive bolsa no colégio durante todo o ensino básico, e estudei em universidade federal. A primeira vez que paguei para estudar foi muito, muito tempo depois, quando fiz uma pós-graduação lato sensu.

Irrelevância

Há um tempinho atrás a HBO lançou uma série de produção brasileira chamada Magnífica 70. Uma iniciativa ótima – produções brasileiras em grandes distribuidoras de conteúdos internacionais, quem não quer?
Assisiti, com muito esforço, metade da primeira temporada. Mesmo concedendo o mérito de ser uma série muito bem produzida, só com muito boa vontade dava para dizer que eu estava minimamente me divetindo – ou fruindo de alguma forma. Roteiro chaaato, direção arrastada, personagens risíveis, e uma interpretação tediosa do Marcos Winter, protagonista da série. O tema até era interessante, mas peloamor. Meu tempo de entetenimento podia ser (e foi) mais bem utilizado.
 
Magnifica70

Foto: Divulgação

Parece que estão rodando uma terceira temporada. Parabéns para eles. Mas convenhamos que “Magnífica 70” não fedeu nem cheirou e foi condenada à sua própria irrelevância.
 
***
 
Aí vem a Netflix e produz uma série tão chata quanto, tão mal dirigida quanto, com um Selton Mello quase pior que o Marcos Winter, e a gente vai e enche de azeitona essa empada.
Deixem O Mecanismo para lá. Como toda obra do José Padilha, essa também tem graves problemas. Mas as anteriores vinham com o agravante de serem boas obras audiovisuais. “O Mecanismo” não é.
Deixem a série ser condenada à sua própria irrelevância, mudemos de assunto.
-Monix-

Estados Civis Reloaded

Casamento não é para fracos.

Nada pessoal, sem ofensas – apenas uma frase de efeito para sublinhar a complexidade da condição de casado. Sou até a favor do casamento –  de tantos quanto forem necessários, como dizia uma amiga.  Para mim bastou um, obrigada, tô satisfeita.

Um alerta para os incautos que ainda acreditam em felizes para sempre. Você nunca vai ser feliz para sempre, baby: nem quando casar, nem quando tiver filho, nem quando tiver um casal, nem quando separar, nem mesmo, suspeito eu, quando acertar na loteria sozinho. Essa é outra lenda urbana, igual  fucking zona de conforto. Quanto antes você compreender isso, mais chances tem de ser feliz. Mas nunca para sempre, ciliga.

✽ ✽ ✽

Já a solteirice cai bem nos jovens, claro (o que lhes cai mal?) e nos que se mantêm no mercado, digamos assim. Porque independente do seu grau de interessância, a Lei Geral da Física Sexual (e a demografia)  estabelece que a quantidade de opções decai com o passar do tempo, salvo raríssimas exceções. E há dificuldades específicas para quem volta a ser solteiro depois de um tempo fora de combate. Equivale a voltar para uma festa que estava ótima e perceber que tudo mudou enquanto você esteve fora: a decoração, os convidados, o DJ e até (ou sobretudo) você. Que começa, inclusive, a questionar se a festa estava tão boa assim quando você saiu.

✽ ✽ ✽

Mas eu suspeito que, no frigir dos ovos (uia, alerta de velhice essa expressão, hein?), a pessoa é para o que nasce. Só, somente só. Assim vou lhe chamar, assim você vai ser. O que salva é que pra sempre não é todo dia.

✽ ✽ ✽

E esse é um post reescrito ou reciclado porque o Carlos me lembrou dele e porque you know the drill: calabocajámorreuquemmandanomeubloguesoueu. E porque eu quis postar essa imagem do perfil que mais tem me divertido nos últimos tempos, o Pensador Sincero:

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Helê

Pastilhas Garota* – científicas

Uma pesquisa sobre o cérebro humano concluiu, entre outras coisas, que a habilidade de cozinhar, única entre as espécies, é crucial para o acúmulo de células no córtex cerebral que só nós temos. Cozinhar nos coloca num patamar diferente entre todas as espécies, veja você. Ainda que eu só consiga fazer um ou dois pratos sazonais com discutível destreza, percebo o quanto de transformador e místico há na capacidade de transmutar comida em refeição. Ambos nutrem, mas só a segunda alimenta, para além do corpo. Não, eu não consigo olhar para ciência sem a lente da poesia e do sagrado.

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outro estudo divulgado esta semana afirma que as mulheres podem acumular o DNA dos homens com os quais já fizeram sexo. Pode ler de novo que é isso mesmo. São tantas as implicações e piadas possíveis que eu fico com a de A., que imediatamente se propôs a doar seu cérebro para a Fiocruz. Eu sabia que a gente podia pegar umas manias, acumular lembranças, criar defesas, até contrair doenças, mas absorver DNA?! E a gente achava lindo o Chico dizer ‘quero ficar no seu corpo feito tatuagem’, quando na verdade ele tarra entrando muito mais fundo do que poderíamos imaginar.

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O material se aloja, vejam vocês, no cérebro. Como a descoberta foi acidental e o grupo estudado era composto apenas de mulheres, resta saber se o mesmo se observa nos machos. Cérebro, DNA, ressonâncias, sobre isso eu nada sei, embora me fascine. Sei do coração de homens e mulheres, por comprovação empírica e sabedoria etária. Pegada, impressão plantar, digital, mordida, arranhão, os cinco dedos abertos: a gente nunca sabe que marcas deixamos no território insondável do coração alheio.

*Porque Drops, senhoras e senhores, só da Fal.

Helê

Avesso

Não, a cota infortúnios de 2016 ainda não tinha esgotado.

Meu primeiro contato com o acontecido foi na rua. Sabia que era grave porque vi  um estranho comentando com outro algo como “Viu que horror?” O tipo de reação provocada por tragédias. Provando que sou do século passado, fiz o quê? Liguei o rádio; ele sem demora falou sobre um acidente de avião: muitos mortos, o time da Chapecoense, alguns jornalistas.

Lamentei mas não me comovi, confesso.  Era terrível, claro, mas não me conectei de imediato. Há tragédias de todos os tamanhos acontecendo todos os dias, e o que as diferencia é precisamente o nosso grau de envolvimento. E naquele momento eu tinha pouco ou nenhum.

O futebol sempre me interessou mais pela mística, pelo ritual, as relações, metáforas e toda a complexidade de seu universo que pelo jogo propriamente. Nunca fui das que acompanham com regularidade, sabem de cor a escalação e discutem esquemas; de uns tempos pra cá, me afastei mais, sobretudo depois do inominável 7×1. Interessa-me apenas o Flamengo, e mesmo com ele sou desatenta e relapsa (como podemos ser com os amores definitivos).

Mesmo evitando os noticiários, que tendem ao senasacionalismo nessas ocasiões, fui obtendo informações aqui e ali. E foi exatamente pelo viés do futebol que fui me aproximando e me comovendo. Primeiro com o texto do Victor Belart, curto e certeiro, bem-escrito e emocionante, falando do futebol como essa liga entre pessoas, como uma chave de leitura do mundo. Depois começaram as manifestções de apoio mundo afora, de times, jogadores, dos mais célebre aos mais humildes. E então assisti ao vídeo com a torcida do Atlético Nacional cantando uma música feita por eles para a Chape. Um videozinho filmado com celular, som ruim, custei um pouco a entender o que eles cantavam e o que faziam. A compreensão se liquefez em lágrimas imediatamente: eles davam o título ao adversário abatido e prometiam nunca esquecê-lo. Aquele time do meu país que eu mal conhecia.

Depois, foi como se esse gesto se multiplicasse por mil, por muitos mil, naquela impressionante cerimônia  em que a solidariedade colombiana não coube no estádio – e se espalhou pelas ruas ao redor. Eu, sozinha em casa, diante da TV, me senti hipnotizada com aquela demonstração de afeto de uma população latino-americana por  nós, brasileiros. Justo nós, que esquecemos e quase desprezamos nossa condição de latinos. Fiquei mesmerizada com a força do futebol, esse universo/cultura/dimensão/chame como quiser, mas esporte parece pouco e pobre; é evidentemente bem  mais que isso.

Assisti a praticamente toda a cerimônia esperando, quase contando com o momento do constrangimento. Certa de que viria em uma fala exagerada, um puxa-saquismo fora de lugar, uma inadequação qualquer própria das solenidades.  Mas não houve; nem mesmo as autoridades, sempre propensas a estragar momentos de emoção e congraçamento, nem eles interromperam meu enlevo; alguns até colaboraram. Tudo soou genuíno, sincero, humano de um jeito que esquecemos que podemos ser.

Acompanhei tudo com um olho na missa e outro no gato – o gato, no caso, eram o twitter e o face. Para ter companhia (ou fazer de conta que tinha), para partilhar impressões, para observar como as minhas bolhas estavam reagindo. No começo o tuiter estava todo em Medellín enquanto  o Face olhava para Brasília, comentado as tenebrosas transações daquela noite; mas aos poucos a potência daquele momento alcançou também o FB.

A maioria estava tão impressionada quanto eu. Mas apareceram os que questionavam a nossa capacidade de solidariedade diante dos colombianos – se fosse aqui, faríamos algo assim? Ah, a nossa viralatice não conhece limites, até nisso a gente precisa provar que é pior! Isso e a nossa  tendência quintasseriana de competir com o coleguinha, medir  o imensurável – sua solidariedade é maior que a minha, você tem, eu não tenho, lálálálá. Faríamos o mesmo, não faríamos, que me importa isso no momento em que 100 mil pessoas nos oferecem um abraço coletivo ?

Eu senti necessidade de escrever aqui sobre isso, sobre o impacto desses vizinhos que falam outra língua, para os quais a gente não presta muita atenção, e que saíram de casa para ir a um estádio jogar flores no gramado onde haveria uma partida de futebol. Não acho que a humanidade está salva por isso – do mesmo modo que não acho que está condenada pela ganância  que, afinal, derrubou o avião. Ela é precisamente a soma de todas essas emoções e atitudes misturadas, indivisíveis às vezes. Mas quero lembrar daquela noite e daquele estádio; é o que quero reter: o avesso da dor, que dela nasce e a engole.

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#ForçaChape #GraciasColômbia

Helê

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