Ler para aprender

Lembrando da época em que os memes nasciam (e prosperavam) nos blogs (blog? whaaat?, pergunta um incauto que lê isso no Facebook), imaginamos uma lista de livros “Ler para”, livros de ficção que, além da qualidade literária, podem ser usados com um objetivo bem específico, como se didáticos fossem. A Helê teve essa ideia quando identificou claramente dois que serviriam a este papel – número suficiente para iniciar uma lista, principalmente com a colaboração das leitoras e leitores (can I get an amem here?). Se te ocorrer um livro que se enquadre na definição, indique nos comentários, sifazfavoire.

Livros da Helê

Para compreender a formação do Brasil: Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves

Tenho uma dívida enorme com esse livro e com a Ana porque nunca falei dele aqui no blog. Não que isso vá fazer alguma diferença para ele ou para ela, mas é que eu me sinto em falta, já que escrevi sobre outros que me causaram menos comoção. Demorei muito a ler, fiquei achando que perdi o timing do post. Mas quando tive a ideia desta lista, nenhum outro poderia encabeçá-la. Porque eu indico aos amigos dizendo que pode substituir sem perda Raízes do Brasil, Casa Grande e Senzala, e quetais (como se eu tivesse lido todos esses, abafa). Mas é disso que trata esse romance épico, narrativa cheia de sangue, suor e lágrimas sobre a fundação dessa bagaça do ponto de vista de uma mulher africana escravizada, tornada brasileira pela liberdade alcançada para voltar de onde não se retorna. Clássico incontestável, a história de Kehinde me antecede e me acompanha, e pela primeira vez na vida olhei para África com um sentimento de pertencimento. Tive a oportunidade de dizer isso à Ana, numa cachaçaria na Lapa, muitos anos atrás, onde ela me ensinou a comer pimenta biquinho. Ou seja, uma mulher que vi duas vezes na vida e que só me trouxe ensinamentos valiosos.

Para entender a (não) elite carioca: Leite Derramado, Chico Buarque
Também li muito depois de todo mundo, e foi até aqui o livro dele que mais gostei. Na verdade já tinha simpatia e curiosidade pelo livro por causa da canção que o originou, “O velho Francisco”, dolorosa e delicada. Mas aquilo que parece uma biografia desafortunada na letra da música ganha contornos mais amplos nas páginas; salta aos olhos uma elite que já nasce decadente, cuja riqueza não se produziu em bens como terra e indústrias, mas principalmente nas relações mais ou menos espúrias com o Estado e com quem mais pudesse apresentar benefícios. Uma elite deslumbrada e sem poder, que só tardiamente se dá conta da sua desimportância.

Livros da Monix

Para entender a passagem do Brasil rural para o Brasil que se quer urbano: O Tempo e o Vento, Érico Veríssimo

Aprendi a amar Érico Veríssimo (além de tantas outras coisas) graças à Fal. É uma saga de fôlego, mas fundamental. Através de várias gerações da família Terra/Cambará a gente acompanha o surgimento das primeiras povoações, ainda na época da colônia, as guerras, revoluções e outros (e)ventos que foram, ao longo de décadas e séculos, ajudando a moldar isso que hoje chamamos de Brasil. Mas também espiamos pela fresta da porta da História, e ficamos sabendo um pouco de como viviam as pessoas comuns, como eram criados os filhos, como se nascia e morria no Brasil de antigamente. O Tempo e o Vento é o Rio Grande do Sul, mas é o país inteiro.

Para conhecer onde e quando tudo começou: Onde Vais, Isabel, de Maria Helena Ventura

É um livro difícil: de encontrar e de ler. Parece ter sido escrito de forma que a gente mergulhe na alma medieval – toda a musicalidade, todo o ritmo do livro nos levam a um lugar diferente. Essa é a beleza da história da Rainha Santa Isabel de Portugal, que nos ensina sobre a fundação da cidade de Coimbra, sobre a vida na corte do século XIII, sobre uma época em que a religião ocupava o lugar que hoje damos à ciência, sobre tecnologias que não enxergamos como tal. A lição mais interessante que tirei dessa leitura foi sobre o visionário Dom Dinis, rei de Portugal e marido de Isabel. É ele que prepara o Portugal do futuro, da expansão marítima, que conquistará os oceanos e colonizará nosso Brasil. Uma das coisas que Portugal deve a Dom Dinis é a plantação de imensos bosques de pinheiros, para que a madeira fosse utilizada na construção dos navios que se lançaram para o além-mar. A história de Isabel tem ainda um toque de realismo fantástico avant la lettre, com a bela lenda do milagre das rosas. Como entender o Brasil sem, antes, passar por Portugal?

Outros livros que são aulas: O Nome da Rosa; Anarquistas Graças a Deus; a trilogia Os Subterrâneos da Liberdade; A Casa dos Espíritos e Inés de minha alma, de Isabel Allende, para conhecer o Chile e essa América que é nossa mas não parece; enfim, são muitos… conta para nós qual é o seu.

As Duas Fridas

Anúncios

Impressões olímpicas

Parecia até que a gente estava viajando – foi assim que minha cunhada definiu nosso deslumbramento ao chegarmos no primeiro domingo no Parque Olímpico da Barra, para ver a esgrima.

Não sou uma grande fã de esportes, mas gosto de grandes eventos, e sempre digo que esta é a verdadeira vocação do Rio. O dia a dia aqui é complicado (e tem sido cada vez pior), mas nas ocasiões de gala a gente para tudo e recebe os visitantes com a melhor louça e a toalha de linho na mesa. Por isso, já desde o ano passado, quando se abriram as vendas dos ingressos, comecei a preparar uma programação olímpica. Não poderia perder o maior evento do mundo acontecendo no quintal da minha casa.

E o primeiro deles foi mesmo no meu quintal: a prova de ciclismo de estrada, no sábado, incluía três voltas na minha rua. Assim, ainda nem bem recuperada do impacto da lindíssima cerimônia de abertura que vi pela TV, na manhã seguinte já estava tomada pela energia dos incríveis homens que pedalam mais de 200 km numa velocidade estonteante.

Mas um dos pontos positivos dos Jogos foi a distribuição dos locais de competição por vários pontos da cidade. Sendo assim, tive oportunidade de conferir de perto outros lugares, inclusive alguns que não costumo frequentar, e esportes diferentes, que nunca passam por aqui. Fui ver vôlei de praia em Copacabana; rúgbi em Deodoro; tênis de mesa no Riocentro; canoagem no Estádio de Remo da lagoa mais linda do mundo; atletismo no Engenhão; ginástica artística na Barra de novo. Passei no boulevard para dar uma conferida na tocha e na já famosa Orla Conde. Por duas semanas, fui turista na minha cidade e gostei.

Os Jogos Olímpicos reúnem os melhores seres humanos do mundo do ponto de vista físico. Mas também trazem para a cidade-sede centenas de milhares de visitantes – é impossível calcular quantos exatamente, porque muitos turistas domésticos ficam em casas de parentes e amigos, mas chegaram a falar em 1 milhão de turistas estrangeiros. A grandiosidade do evento preocupava por causa de coisas como o deslocamento desse povo todo, a capacidade da cidade de hospedar e alimentar todo mundo, etc. Não preciso dizer que deu tudo certo pois disso a imprensa já falou e ainda falará.

Já sobre a sensação de estar neste lugar, neste momento, sinto muito mas quem não viveu nunca saberá.

-Monix-

PS: E cá entre nós, estávamos precisando de um intervalo de euforia antes de retornar à depressão que nos aguarda na ressaca pós-olímpica. Que a energia positiva nos ajude a enfrentar a realidade.

Retrospectiva de um ano estranho

2013 foi um ano montanha-russa: muitas coisas aconteceram – boas, ruins, sempre intensas, de um jeito que chego a este dezembro com o corpo tão exausto quanto a cabeça.

Apesar de ter a sensação de não ter tido tempo para amigos, filho, família, namorado, enfim, apesar de pensar que deixei todo mundo meio na mão, olhando minhas anotações percebo que fiz um bocado de coisas legais e as melhores eu quero contar pra vocês. As coisas chatas e/ou estressantes eu não conto, porque já passaram ou vão passar, e sou dessas que prefere ver o copo meio cheio etc.

Filmes
Qual é o nome do bebê
Argo
No
Faroeste Caboclo
Antes da Meia-Noite
Tese sobre um homicídio
Gravidade
Blue Jasmine

Teatro Musical
A Família Addams
Tim Maia – Vale Tudo

Viagens
Berlim e Portugal
Le Canton
Portobello Eco Resort
Club Med Rio das Pedras

Livros
Ensaios de Amor
Are You My Mother? (li em inglês, mas pouco depois foi lançada a edição brasileira)

TV
Decora (o programa é antigo, mas só este ano me descobri uma amante da decoração)

Exposição
Stanley Kubrick no MIS/SP

Festival
Rock in Rio

Também fui à ópera, encontrei amigos novos e antigos, comi bem, cozinhei receitas de Jamie Oliver com meu filho, arrumei minha casa com a incrível ajuda do Cláudio Luiz, fiz muitas coisas legais no meu trabalho, dei um curso bacana sobre cultura digital e descobri neste um tema no qual gostaria de me especializar. Foi um ano intenso, como eu disse. Estou pronta para o próximo.

-Monix-

O Eterno Deus Mu Dança

E então nosotras fomos ver o show do Gilberto Gil no Teatro Municipal, mais uma vez graças à gentileza de uma leitora que nos presenteou no dia do aniversário do Dufas.

Eu acho o Gil um dos maiores gênios de uma geração rica em genialidades. Mas nem sempre foi assim. Quando comecei a me entender por gente e formar meu gosto musical, lá pelos anos 1980, eu era uma mocinha muito metida a intelectual e me encantei perdidamente pela complexidade vanguardística de Caetano Veloso. Eu pensava em Gil como alguém que entregava diversão, em canções tipo Punk da Periferia, enquanto Caetano produzia pérolas como O Quereres, Outras Palavras, Língua. Caetano era ‘cabeça’, Gil era pop (ou seja, menos interessante).

Até que fui estudar o movimento Tropicalista para meu trabalho de conclusão de curso da graduação, e eis que descobri que Caetano tinha Gil em tão alta conta que chegou a ameaçar abandonar a carreira musical se ele não voltasse a compor e cantar. Isso chamou minha atenção e a partir de então comecei a prestar muita atenção à sofisticação sutil deste “outro” baiano.

As canções de Gilberto Gil têm sempre várias camadas. Eu estava parando na primeira. Quando comecei a desdobrá-las, me apaixonei por sua obra e descobri que sim, trata-se de um gênio.

Sua vida é também muito interessante, e é ela que está sendo comemorada com este show batizado lindamente de “Gilberto Gil Sinfônico – Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo”. Os 70 anos do artista incluem alguns desvios de rota, como o ano em que ele se formou administrador de empresas e foi trabalhar em uma multinacional, em São Paulo. Alguém duvida que teria sido o primeiro CEO negro do Brasil? Mas ele tomou outra bifurcação, foi ser astro da música, e se tornou o melhor ministro da Cultura que o país já teve. Ou seja.

O show é de uma delicadeza ímpar, a emoção transbordando do palco para a plateia, que apesar de calorosa foi respeitosa, reverente. Não foi um show de um artista jovem, com músicas para dançar e pular e aplaudir e gritar. O repertório, escolhido cuidadosamente para refletir seus 50 anos de carreira, trouxe canções especiais, algumas pouco conhecidas, outras novas. O virtuosismo do Gil instrumentista e sua incrível capacidade vocal, aos quase 70 anos, comoveram a todos, inclusive a ele mesmo.

O espetáculo foi gravado e em breve será lançado um DVD comemorativo, com direção de Andrucha Waddington. Só digo uma coisa: comprem.

Monix, com um agradecimento especial à querida Geide

 

Muito além do trocadilho

A primeira vez que ouvi falar no documentário Miss Representation* foi no blogue da Lola. Premiado no Festival de Sundance em 2011, o filme, dirigido por Jennifer Siebel Newson, parte de uma premissa que tem sido o mote dos debates feministas neste início de século: as questões de imagem e representação da mulher nos meios de comunicação, e, consequentemente, no imaginário das pessoas.

Sobre o retrato das mulheres na indústria cultural – seja em músicas, filmes, na moda – não há muita surpresa. Sabemos que com raríssimas exceções o cinema privilegia papéis masculinos, e mais do que isso, histórias sobre homens ou coisas que acontecem com homens. Mesmo as ‘chick flicks‘, ou comédias românticas, em última análise tratam de mocinhas independentes e moderninhas que vivem mil e uma situações… em busca do seu príncipe encantado. Sobre esse aspecto da misrepresentation, o melhor depoimento é o de Geena Davis – estrela de Thelma e Louise, um raro filme feminista cujo final é um símbolo do backlash que já estava em andamento desde os anos 1980. Geena está à frente de um instituto de estudos sobre gênero na mídia e, junto com outras pesquisadoras do tema, traz questionamentos muito interessantes durante o filme.

Mas o mais surpreendente é a constatação de que as mulheres são misrepresented (mal representadas?) não só nas áreas ligadas à cultura e ao entretenimento, mas também – e principalmente – na política. A edição do filme confronta imagens de programas jornalísticos apresentando reportagens sobre Hillary Clinton e Sarah Palin. E embora sejam duas políticas completamente diferente em todos os aspectos, atuando em espectros diferentes, uma mais velha, a outra jovem, uma adequada ao padrão de beleza vigente, a outra nem tanto… ambas foram massacradas pela imprensa. Em linhas gerais, Hillary é retratada como uma bitch, castradora, que só chegou ao poder porque o marido “caiu em desgraça”; já Sarah Palin é considerada “material de masturbação”. Difícil decidir qual das duas foi mais ofendida. (Qualquer semelhança com a presidenta Dilma e sua “faxina” ministerial não é mera coincidência.)

Não sei se é um filme fácil de encontrar – parece que no You Tube se consegue assistir a uma versão legendada. Eu demorei a conseguir assistir, mas fiquei com este nome na cabeça em busca de uma oportunidade que enfim apareceu. Se puderem, vejam. Miss Representation, mais que um filme, é um projeto pela mudança, e disseminar a ideia faz parte desse projeto.

-Monix-

* Trocadilho intraduzível com a palavra misrepresentation, que significa algo como uma representação equivocada ou enganosa.

Imperdível

É só até sábado, dia 4, então corre lá na Praça Paris, gente, para ver a instalação “Máximo silêncio”, do artista Giancarlo Neri.

Achou bonita a foto? Não traduz a experiência de estar lá, serião. Belo, lúdico, lisérgico foram alguns dos adjetivos que ouvi. E ainda tem o bônus de ver a praça ocupada por casais, grupos,  famílias, we the people resgatando um valioso espaço público que, em dias normais, fica deserto à noite. Encontrei com alguns conhecidos – o que nesta terra é  indício inequívoco de bom programa. #sigaadica

Helê

As canções, de Eduardo Coutinho

Estreia hoje o mais recente documentário de Eduardo Coutinho, As canções, que une duas paixões desse blogue: música e cinema. Tudo muito bem orquestrado por esse mestre de voz baixa, expressão serena e empatia absolutamente generosa com seus interlocutores. Talvez por ouvir com atenção e interesses genuínos e entrega total, Coutinho opera a mágica de fazer com que seus entrevistados também se entreguem de um modo surpreendente. Há momentos divertidos, dramáticos e românticos, e a empatia com um ou mais personagens é inevitável. Um programa  de fato, imperdível, para quem gosta de música, cinema… e gente.

.

“Interessavam aqueles que não fossem profissionais e que cantassem com a voz normal. Com entonação, com emoção… O que é a voz daquelas pessoas? É uma voz que tem cigarro, bebida, cansaço…

O homem nunca é corno. Ele não entendeu que todo mundo nasce para ser corno. O homem tem dificuldades em revelar sentimentos. As mulheres não. Elas têm um extraordinário talento, não só de aceitar isso como de contar em público.”

Eduardo Coutinho revela as canções que gostaria de ter ouvido em seu documentário, matéria minha na Página do Cinema

Helê

%d bloggers like this: