Semi-retrospectiva (na metade de 2022)

Sempre tive o costume de anotar filmes, livros, eventos culturais que vejo, leio, assisto, compareço. No final do ano, transformo essas anotações em retrospectivas aqui no Dufas, seja para registrar e me lembrar, seja pra deixar aí como dicas pra quem se interessar.

Este ano, em vez de anotar em uma agenda ou caderno de papel, como era meu hábito, estou fazendo isso num quadro do Trello (meu vício atual, não vivo sem ele). Não sei se pela facilidade de anotar tudo por conta da onipresença do celular ou se pelo esforço deliberado que venho fazendo para acompanhar menos notícias, o que gerou um tempo livre “extra” no fim de cada dia… fato é que minha lista de vistos e lidos já está gigantesca e mal passamos da metade do ano.

Olhando pra essa lista e pensando na preguiça que eu teria de fazer a mãe de todas as retrospectivas no final do ano, resolvi me antecipar e já soltar uma semi-retrospectiva. Se alguém tiver curiosidade e fôlego pra chegar até o final, me contem nos comentários se gostaram (ou não) de alguma coisa.

Livros

Essa Dama Bate Bué – li em janeiro esse, que recomendei até no nosso podcast. Foi a primeira obra de uma série involuntária de leituras sobre a colonização e seus efeitos. Me transportou para Luanda e eu reconheci muito do meu Rio de Janeiro por lá.

Cachorro Velho – segundo livro dessa minha série pessoal com histórias de quem foi colonizado, e não dos colonizadores. A obra, que ganhou o prêmio Casa de Las Américas, se passa em Cuba, mas o tempo todo eu li pensando num engenho de cana por aqui mesmo. Somos todos resultado dos mesmos sofrimentos.

O Som do Rugido da Onça – para completar essa trilogia involuntária sobre a herança (maldita) colonial, foi a vez da ficção alcançar as histórias de indígenas e nossa relação ancestral com suas culturas, mesmo que a gente esqueça disso tantas vezes.

Viver É Melhor Que Sonhar – mudando de assunto, peguei essa biografia do incrível Belchior, que conta principalmente a vida do artista no período em que ele desapareceu dos holofotes e passou por uma experiência que, se não podemos chamar de loucura, não sei que nome tem.

Meu Muito Querido Pedro – engraçado, acabei de me dar conta que depois das leituras, digamos assim, pós-coloniais, encarei uma pequena série sobre mulheres da realeza. A primeira foi a Imperatriz Leopoldina, cuja história é pouco conhecida por nós brasileiros e foi desvelada nessa pequena pérola da Drops Editora, da nossa querida Fal.

Maria Stuart – a segunda rainha que fui conhecer é conhecida como Mary, Queen of Scots. A biografia, escrita por Stefan Zweig, mostra uma personalidade interessantíssima. Se tivesse nascido homem, Mary seria tipo um Henrique VIII da Escócia, e provavelmente sua vida teria um final bem menos trágico.

Claraboia – um delicado Saramago que permaneceu inédito até a morte do autor.

Meninas – este livro de contos da escritora russa Liudmila Ulítskaia traz um retrato singelo e intenso sobre a infância sob o stalinismo na antiga União Soviética.

Querido Lula – escrevi sobre o livro aqui.

Filmes

Netflix

A Filha Perdida – mais uma história de Elena Ferrante, mais uma mulher atormentada. Ferrante é tipo ame ou odeie. Veja e descubra qual é seu time. Só um aviso: tem Olivia Colman arrasando, como sempre, então, sei lá, acho que a chance de gostar é tipo bem grande.

Imperdoável – um thriller sem grandes pretensões, com mais uma boa atuação da Sandra Bullock.

Axé: canto do povo de um lugar – quem escuta um axé e não tem vontade de sair dançando, desculpe, só pode ser doente do pé. Esse documentário conta a história do gênero mais alto astral da música brasileira.

O Guia da Família Perfeita – essa “dramédia” não vai mudar a vida de ninguém. Mas às vezes a gente só quer passar o tempo assistindo algo sério e divertido ao mesmo tempo, sabe. Gosto dessas surpresinhas despretensiosas da Netflix, especialmente quando vêm de países que a gente não costuma ver no cinemão. Essa é do Canadá.

The House – essa animação stop-motion em três capítulos mostra três histórias possíveis em uma mesma casa, em diferentes épocas. Todas bastante surreais e muito bem contadas.

América Latina para Imbecis – o comediante John Leguizamo só precisa de um quadro-negro e uns pedaços de giz para recontar três mil anos de história do nosso continente.

O Barato de Iacanaga – que Rock in Rio que nada. O festival de música mais incrível deste país aconteceu em uma fazenda no interior de São Paulo, produzido com a cara e a coragem. Esse documentário conta a história do Festival de Águas Claras, o “woodstock brasileiro”.

Contra o Gelo – a editoria “exploradores da natureza” é com a Helê, mas esse filme conta uma história tão incrível que me deixou alguns dias levemente obcecada por essa expedição à Groenlândia (e suas implicações).

Munich e O Soldado Que Nunca Existiu – esses dois são da editoria “nós contra o nazismo”. Para mim, mais interessante que os filmes em guerra propriamente ditos é o fato de que, quase 80 anos depois do fim da II Guerra, ainda existam incontáveis filmes sendo feitos sobre o assunto. Talvez um dia eu escreva um post com meus dois centavos sobre o assunto ;)

Our Father – esse documentário conta a história mais bizarra dessa retrospectiva. É um daqueles casos que, se fosse ficção, a gente diria que é inverossímil; como aconteceu na vida real, só nos resta acreditar.

HBO

Confisco – documentário sobre o inacreditável período da história em que o governo brasileiro achou por bem confiscar o dinheiro de todas as contas bancárias, de pessoas físicas e jurídicas, e só devolver um ano e meio depois, quando o valor tinha virado (quase) pó.

King Richard: criando campeãs – opinião polêmica: onde todo mundo viu um filme sobre uma linda história de superação, eu vi um pai com tendências claramente abusivas empurrando as filhas (Serena e Venus Williams) para uma trajetória obviamente bem sucedida, mas sabe-se lá a que custo. Ou não. O que você achou?

Globoplay

Agente Duplo – indicado ao Oscar de melhor documentário, esse filme chileno borra a fronteira entre o que é real e espontâneo e o que é ensaiado, brinca com a dúvida (será que a narrativa apresenta é honesta mesmo?, a gente pensa o tempo todo), e tudo isso para mostrar que às vezes o vilão da história está bem perto de nós mesmos (talvez até dentro de nós).

Storm Video – mais um documentário, dessa vez sobre aquela que talvez seja a última videolocadora do Rio de Janeiro. Em pleno ano de 2022, a existência da Storm Video parece algo surreal. As instalações parecem cenográficas. O dono parece uma personagem. Mas, até prova em contrário, é tudo verdade.

Eles Não Usam Black-Tie – um dos filmes mais aclamados do cinema brasileiro, e eu nunca tinha assistido. A versão que está na Globoplay foi restaurada digitalmente em 2007 e tem uma qualidade muito boa.

O Lobby do Batom – já escrevi sobre esse filme aqui.

8 presidentes 1 juramento – a dolorida história da redemocratização brasileira é contada através dos presidentes que tivemos. Montanha russa emocional define.

Amazon Prime Video

Coda – poderia ser apenas um belo filme tipo Sessão da Tarde, e de certa forma é, mas levou o Oscar de Melhor Filme em 2022. e, convenhamos, em 2022 tudo o que estamos precisando é de um pouco do clima de sessão da tarde.

Disney+

West Side Story – Steven Spielberg decidiu refilmar um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos. Deu certo? Claro que sim.

No cinema (sim, eu tomei coragem e voltei às salas de projeção, com máscara e tudo)

Medida Provisória – uma distopia de um futuro próximo/alternativo, que é na verdade uma alegoria do tempo presente. Já está na Globoplay.

Amigo Secreto – um documentário que conta os bastidores da Vaza Jato, a aliança entre veículos jornalísticos que denunciou e documentou os abusos cometidos pela operação Lava Jato.

Séries

Netflix

Queer Eye (sempre)

Como se Tornar um Tirano (falei sobre a série aqui)

Anatomia de um Escândalo

Grace and Frankie (última temporada)

HBO

The Gilded Age (para os órfãos de Downton Abbey)

It’s a Sin

Julia

My Brilliant Friend

A Escada

Hacks

Globoplay

Avisa Lá Que Eu Vou (se você tiver que escolher só uma série da lista, escolha essa)

O Canto Livre de Nara Leão

Expedição Rio

Elza e Mané e Casão

Queer Eye (sempre)

Amazon Prime Video

Em Casa com os Gil (errei, se tiver que escolher só uma série, escolha esta, sem dúvida. Escrevemos sobre ela aqui e aqui)

The Marvelous Mrs Maisel

Em dezembro tem mais (ou não)!

-Monix-

Três coisas belas

Daqui a uns anos espero pensar neste 2022 e ter sentimentos positivos. Porque o cotidiano é feito de sensações, mas a memória é feita de recortes. E por mais difíceis que sejam os dias deste ano intenso, há também belezas que poderão ser lembradas. Nos últimos três dias recebi três coisas bonitas, e deixo aqui como registro para minhas lembranças do futuro, torcendo para que ajudem a alegrar o presente de mais alguém.

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Na sexta-feira, meu amigo Ricardo compartilhou uma playlist só de músicas brasileiras lançadas em 2022. Conheço muita gente que acredita mesmo que não há mais música brasileira que valha a pena. Seja você deste time ou não, te convido: apenas escute.

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No sábado, minha amiga Geide deu a dica: o livro Querido Lula, que reúne cartas recebidas pelo ex-presidente na cadeia, em Curitiba. Na introdução, a historiadora Maud Chirio resume o que a obra tem de tão especial. Outros livros tipo “cartas da prisão” publicados até hoje (Gramsci, Wilde, Mandela e tanto soutros) mostram as reflexões provocadas pela experiência carcerária. Mas este é um registro diferente: quem denuncia a injustiça e contextualiza a situação política do país são os apoiadores do ex-presidente. Durante todo o período em que esteve preso, Lula recebeu milhares de cartas que falam dos imensos benefícios trazidos para a vida das pessoas. Não é um manifesto, é um testemunho escrito por milhares de mãos.

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No domingo, conversando com amigas, perguntei sobre a série Em Casa com os Gil. As recomendações foram entusiasmadas e chegando em casa maratonei até o limite da insônia. A família Gil é uma prova viva de que o Brasil tem talento, tem poesia, tem gentileza, tem sensibilidade, sim senhor. Que privilégio sermos contemporâneos de pessoas tão incríveis.

Os poucos episódios têm vários diálogos antológicos, mas registro aqui um dos que mais me comoveu. Cada membro da família deveria escolher uma música para incluir na turnê europeia que está acontecendo agora, em comemoração aos 80 anos do patriarca. Um dos netos explica sua escolha dizendo que escutava uma determinada música todos os dias, mas não sabia que era uma composição do avô. E conta de sua felicidade quando descobriu a autoria. A música é a imortal Sítio do Picapau Amarelo. Achei fofo demais. Imagine que legado incrível, ter um avô que é o autor desta canção.

-Monix-

Retrospectiva de um ano-década

Desde maio de 2004, nunca este blogue tinha ficado um mês inteiro sem ter pelo menos um post publicado. Nunca, até dezembro de 2021. O último mês do segundo ano da pandemia teve esse efeito indelével na história do Dufas: nossos arquivos ficarão para sempre com um mês faltando, um mês que não aconteceu.

Será que essa ausência é um sintoma do quanto estamos (todas nós) esgotadas? Não é à toa. Nas últimas semanas, me peguei pensando que no início de janeiro de 2021 Trump ainda era presidente dos Estados Unidos. Foi só no dia 6 que aconteceu aquele episódio dramático no Capitólio. Um ano atrás, nós não tínhamos vacinas no Brasil. Em 12 meses, vimos Manaus sofrer, vimos o país atingir 3.000 mortes por dia por causa de uma doença para a qual poderíamos estar imunizados, vimos uma CPI eletrizante alçar à cena nacional personagens até então desconhecidos. Vimos Lula voltar ao jogo, com a anulação de suas condenações. E isso são só os destaques da editoria de política. Enfim, foi um ano intenso, que valeu por uma década. Ou pelo menos é essa a sensação que tenho quando tento me lembrar de como estava minha vida 12 meses atrás.

Pelo lado bom, esse ano que parecia infinito também foi, para mim, prolífico (uia!) em filmes, séries, livros e podcasts. Os dias, semanas, meses praticamente confinada, sem muito o que fazer além de trabalhar e cuidar da casa, renderam muitas horas diante das telas. Neste início de ano, ainda um pouco incerta sobre como serão os próximos meses, me preparo para uma semaninha de merecidas férias e aproveito para compartilhar com vocês o melhor do que andei vendo, lendo e ouvindo no ano que passou.

Filmes

Os 7 de Chicago, porque adoro Aaron Sorkin. O elenco maravilhoso tem até o Sacha Baron-Cohen em um papel não-cômico. Nem precisava ter uma boa história pra ser incrível. Mas tem. E é.

O Som do Silêncio, filme lindo e meio sinestésico.

Tigre Branco, que conta a história de um indiano, mas poderia se passar no Brasil ou em qualquer outro país onde a vida é bem mais cruel para os muitos e bem mais suave para os poucos.

Alô, Privilégio? É Chelsea. A humorista Chelsea Handler embarca em uma viagem de autoconhecimento para entender o tamanho de seu (nosso) privilégio branco. O filme tem lá suas contradições, mas até elas me pareceram interessantes.

A Ganha-Pão, uma animação delicada sobre uma menina afegã vivendo sob o jugo do Talibã. É uma produção de 2017 e eu assisti antes da situação no Afeganistão se deteriorar novamente, antecipando a tragédia que voltou a ser realidade.

Death to 2020, porque é melhor rir do que chorar. Já saiu o equivalente que fala das mazelas de 2021.

A Incrível História da Ilha das Rosas — o título já diz que vai contar algo incrível: o filme é baseado na história verídica do engenheiro Giorgio Rosa e da Ilha da República da Rosa, que ele construiu no meio do mar em 1968, entrando uma disputa diplomática inacreditável quando pediu a independência do território.

A Escavação, que junta várias coisas que gosto em um filme só: história, romance e sotaque britânico.

O Fotógrafo de Mauthausen é um filme barra pesada, mas que vale a pena ser visto, sobre um fotógrafo catalão enviado para um campo de concentração e sua luta para guardar provas sobre os crimes cometidos pelos nazistas.

Lida Baarová. Ainda na editoria da Segunda Guerra Mundial, este filme conta a história da amante tcheca de Goebbels. É uma história fascinante.

Para descontrair dos dois anteriores: Erasmo 80 AnosMussum Um Filme do CacildisFriends: The ReunionClichês de HollywoodMarisa Monte Portas e Janelas.

Judas e o Messias Negro, sobre o início do movimento dos Black Panthers e a ação de um infiltrado do FBI que investiga a organização.

Doutor Gama, que conta a história do abolicionista Luiz Gama.

Druk: Mais uma Rodada, filme dinamarquês sobre um experimento alcoólico que, obviamente, sai do controle.

Misbehaviour: Mulheres ao Poder. Um filme que mistura ativismo feminista e o concurso de Miss Mundo de 1970. Tudo isso baseado em uma história real.

15 Minutes of Shame, documentário que traz de volta a lendária Monica Lewinski para refletir sobre a cultura dos linchamentos virtuais e cancelamentos — e o que isso tem a ver com o mundo digital.

4 Horas no Capitólio. Este documentário, que injustamente foi pouco comentado, mostra de forma muito vívida como, em 6 de janeiro, algumas (proporcionalmente poucas) pessoas seguraram a democracia americana no braço. E não de forma metafórica. Imperdível.

Marighella. A história do cara que resolveu combater a ditadura militar a qualquer preço é um bom filme de ação. Como thriller político, faltou profundidade. E, na minha opinião, o protagonista é retratado como um herói inquestionável, o que não acredito que ele tenha sido.

Ilusões Perdidas, vejam só, inspirado em um romance de Balzac, foi o filme que marcou minha volta ao cinema depois de quase dois anos de afastamento pandêmico. Como era parte do Festival Varilux, a exibição foi em uma tenda montada no Parque Lage, em que eu e minha amiga M. assistimos ao filme com direito a vislumbrar a mata e as estrelas por cima da lona transparente. Foi quase mágico.

Ethel e Ernest, outra animação delicada e lindíssima sobre a vida em comum de um casal: os pais do desenhista que é autor da história.

Antonia: Uma Sinfonia, a história de uma mulher que abriu mão de muita coisa para ir em busca do sonho de reger uma orquestra.

Abe conta a história de um menino que vive como síntese de uma guerra: a família paterna é palestina e a materna, israelense. Eles moram no Brooklin e ele sonha em ser cozinheiro. Quando conhece o chef Chico Catuaba (interpretado por Seu Jorge), a descoberta da culinária fusion se torna uma metáfora perfeita para seu desejo de integração.

Não Olhe Para Cima: eu demorei uma semana para assistir esse filme e tive a impressão que todo mundo me recomendou. É uma sátira trágica, ou uma tragédia satírica, que apesar do roteiro nem sempre muito bem amarrado faz a gente rir da nossa própria desgraça. O que não deixa de ser uma boa saída, na falta de possibilidade melhor.

Ataque dos Cães. Um filme em que ninguém é o que parece. Eu teria muito a dizer, mas dona Luciana já fez isso bem melhor que eu seria capaz.

Séries e Novelas

Cidade Invisível mostra um mundo fantástico, povoado por criaturas folclóricas como o Curupira, o Saci, o Boto Cor-de-Rosa como pano de fundo para uma trama policial.

Bridgerton, uma série que deu o que falar por um tempo e depois parece ter sido esquecida. O principal assunto foram as escolhas de atores e atrizes negros/negras para interpretar personagens da nobreza inglesa, mas sinceramente… e daí? Achei a história mais interessante que essa (zzzz) “polêmica”.

A Corrida das Vacinas, porque esse foi o assunto mais importante — o único assunto que realmente importava — em 2021.

Doutor Castor, série documental que escancara a absurda tolerância que nós, como sociedade, tínhamos para com os mafiosos do jogo do bicho.

Allen contra Farrow. Em uma história difícil de formar opinião, essa série documental claramente escolhe um lado e o defende com convicção: segundo os fatos apresentados, Woody Allen foi sim responsável por pelo menos um caso de abuso sexual, contra sua filha Dylan, na época com sete anos de idade. Assim como já havia acontecido com as canções de Michael Jackson dois anos atrás, assistir a um filme de Woody Allen agora traz um sabor amargo.

Mare of Easttown, porque a Kate Winslet está simplesmente maravilhosa e sozinha faz valer a série.

Segunda Chamada, a segunda temporada de uma série que já havia me cativado mostrando os dramas das turmas do ensino noturno de jovens e adultos. Eu gosto demais dos personagens.

The Flight Attendant, uma série meio comédia meio suspense que traz Kaley Cuoco, a atriz que ganhou fama em Big Bang Theory, em um papel totalmente diferente.

1971, sobre a qual já escrevi aqui.

Chico e Caetano foi disponibilizada (argh, odeio esse verbo) na íntegra e proporcionou alguns dos momentos mais emocionantes do meu ano de 2021. É um lugar onde podemos nos refugiar sempre que precisarmos de um pouco de beleza.

Only Murders in the Building, série divertidíssima com Steve Martin, Selena Gomes e Martin Short.

Defending Jacob é um thriller intenso sobre um pai que tem certeza, uma mãe que tem dúvidas e um filho que é acusado de matar um colega de escola.

Colin em Preto e Branco: aqui também vemos uma delicada relação entre pais e filho, mas com um componente racial desempenhando um papel importante nesse delicado equilíbrio. A história é real, narrada pelo quarterback e ativista Colin Kaepernick.

The Chair na verdade não é nada demais, mas me diverti assistindo. Como sou a favor de diversão, entrou na lista.

2021 foi um ano que assisti muitas novelas. Fui muito noveleira numa época da minha vida, depois parei, agora estou revivendo esse lado que andava esquecido. Das antigas, foi sensacional ter a oportunidade de ver O Bem Amado original, de 1973, com os personagens antológicos de Dias Gomes. Das atuais, gostei de sofrer com a Dona Lurdes procurando seu filho perdido em Amor de Mãe, e agora estou acompanhando as desventuras do questionável herói vivido por Cauã Reymond em Um Lugar ao Sol (que também deu espaço para uma interpretação magistral de Andréa Beltrão como a heroína improvável de todas nós mulheres da menopausa).

Podcasts

Medo e Delírio em Brasília: como enfrentar essa bad trip escrota em que a gente se meteu? Só mesmo rindo de nervoso com os memes impagáveis de Pedro Daltro e Cristiano Botafogo. Bora passar raiva juntos?

Noites Gregas: se a realidade é dura demais, a gente sempre pode recorrer à mitologia para entender a tragédia humana.

República Debochevique, para entender e digerir os acontecimentos mais surreais de 2021.

A Vida Secreta de Jair, série curta e imprescindível. É sério. Você é uma pessoa cidadã do Brasil e não ouviu ainda? Para tudo e vai lá.

República das Milícias, outra série que dói, mas explica coisas que precisamos saber.

Papo de Parente: essa é prazerosa de ouvir. A educadora Célia Xakriabá conta histórias e recebe convidados que nos conectam com a cultura indígena que existe e resiste no Brasil do século XXI.

Livros

Os Engenheiros do Caos é apresentado assim pela editora que publicou a obra no Brasil: “No mundo de Donald Trump, Boris Johnson, Matteo Salvini e Jair Bolsonaro, cada dia traz sua própria gafe, sua própria polêmica, seu próprio golpe brilhante. No entanto, por trás das manifestações desenfreadas do carnaval populista, está o trabalho árduo de ideólogos e, cada vez mais, de cientistas e especialistas do Big Data, sem os quais esses líderes nunca teriam chegado ao poder.” O livro de Giuliano Da Empoli é básico para entender nosso tempo.

Torto Arado foi o livro que todo mundo comentou em 2021. Eu, também, me encantei.

Travessia de Verão eu encontrei em uma incursão a um sebo, no início de um momento de flexibilização pós-vacina. É um romance curto de Truman Capote, sua primeira obra de ficção, que ficou esquecida em um caixote e só foi recuperada (e publicada) após sua morte. Um daqueles livros cujo final salva a obra.

Toda Luz que Não Podemos Ver conta lindamente a história de duas crianças / adolescentes cujas vidas são entrelaçadas de forma inesperada durante a Segunda Guerra Mundial. Não é um livro de guerra, mas de busca por paz.

Terra Americana acompanha uma mulher mexicana de classe média que vê sua vida virar de cabeça para baixo quando toda sua família é assassinada por um chefe de cartel e ela precisa fugir para os Estados Unidos com o filho pequeno. É uma história eletrizante, que me prendeu do início ao fim? Sim. Mas também é uma obra que foi alvo de justas críticas da comunidade latina.

10 Histórias para Tentar Entender um Mundo Caótico: em forma de conversa, Jamil Chade e Ruth Manus reúnem croônicas sobre temas fundamentais e atualíssimos.

Lula, Volume 1. A vida do nosso ex-presidente (e esperamos, futuro presidente também) é fascinante. Mas é preciso registrar: o livro é uma biografia muito bem comportada e “chapa branca”. Este primeiro volume começa pela prisão mais recente, retrocede no tempo, conta as origens de Luiz Inácio e mostra sua formação como metalúrgico e líder sindical, até encerrar com a história da primeira prisão, ainda durante a ditadura. Vale a pena ler, mas recomenda-se um certo senso crítico.

-Monix-

Representatividade importa

Então as manifestações antirracistas ganharam o mundo: o alvo não é mais apenas a polícia dos Estados Unidos, mas o racismo estrutural que molda as relações sociais no mundo ocidental há séculos. Parece que a ficha caiu: esse problema não está nem perto de ser resolvido.

Já houve várias ondas de protestos antes — na verdade, quantas vezes tivemos a sensação de estar de volta a 1968? —, mas desta vez a novidade é ver uma multidão de pessoas pretas e não-pretas marchando juntas, brigando juntas, exigindo juntas que o mundo seja mais igualitário. Tudo isso em meio a uma pandemia de uma doença mortal e tendo como pano de fundo a ascensão de uma extrema direita que ressuscitou discursos excludentes e supremacistas.

Minha mãe era professora de História, e ela costumava dizer que a História anda não em círculos, mas em espiral. A cada volta, a cada vez que parece que estamos retornando ao mesmo ponto, na verdade estamos uma dimensão acima. O que a morte de George Floyd nos ensinou foi que pessoas brancas não podem mais ficar caladas esperando que “eles que lutem”. Meu aprendizado com isso tudo foi: como pessoa de privilégio que sou, tenho a responsabilidade de usar minha voz para falar sobre essas tantas injustiças. E principalmente, preciso usar meus ouvidos para escutar o que os negros têm a dizer, respeitosamente, e mudar o que for preciso, em mim mesma, para ajudar a tornar este mundo melhor para todos e não só para alguns.

***

Essas reflexões me fizeram pensar que representatividade também importa. Sou da Comunicação, e para mim é impossível pensar em mudar o mundo se os conteúdos culturais e jornalísticos continuarem os mesmos.

Foi assim que nasceu este post. Eu estava assistindo uma minissérie na Netflix e de repente me veio uma lista praticamente completa de coisas que li e assisti e que tinham como protagonistas mulheres negras. É importante, sabe? Faz diferença. Quanto mais a gente vê mulheres negras como protagonistas, mais natural é a presença delas em lugares de destaque (já escrevi sobre como representação ajuda a criar uma ideia de mudança em outro contexto, mas também vale para essa reflexão aqui).

Então ficam as minhas dicas — que tal aproveitar o pouco tempo livre da quarentena para conhecer obras que não são protagonizadas por homens brancos, mas por mulheres negras? Nem todas são perfeitas, algumas são estilo cinema-é-a-maior-diversão, outras são profundas, ou belas, mas todas irão ajudar a expandir seus horizontes. Vai na fé.

A Vida e a História de Madam C. J. Walker (a minissérie que me fez pensar nesse post).

Madame C.J. Walker: liberdade contra o racismo
Madame C. J. Walker foi a primeira mulher negra a ficar milionária nos Estados Unidos

Lionheart e Harriet (um filme não tem nada a ver com o outro, mas eu escrevi sobre os dois nesse post aqui).

Toda e qualquer coisa sobre a Elza Soares.

O livro Um Defeito de Cor, obrigatório mesmo.

O livro Kindred – Laços de Sangue.

O documentário What Happened, Miss Simone?

O filme Pantera Negra, é claro.

A novela gráfica Aya de Yopougon (há anos procuro as continuações, mas até onde eu sei só dois dos seis volumes da série foram publicados no Brasil).

O livro e o documentário Minha História, de Michelle Obama, a maravilhosa.

O livro e o filme A Cor Púrpura.

E para encerrar essa lista (que está longe de ser definitiva), é preciso citar o Em Pauta que virou Globo Repórter reunindo pela primeira vez na bancada as jornalistas negras Maria Julia Coutinho, Aline Midlej, Zileide Silva, Flavia Oliveira e Lilia Ribeiro, junto com Heraldo Pereira, para debater o racismo no Brasil a partir dos protestos antirracistas nos Estados Unidos. E assim, terminamos voltando ao começo — espero que em espiral.

Agora é sua vez: se puder, deixe nos comentários suas sugestões.

-Monix-

Parabólico

Quando eu era criança, Chico Buarque era trilha sonora frequente dos fins de semana, no toca-fitas do meu pai. Aprendi cedo que Chico é um dos maiores poetas que a música brasileira já conheceu, e cresci admirando seus versos, suas melodias e sua voz tímida e tão carismática.

Na adolescência, descobri Caetano Veloso, com sua exuberância erudita, suas letras tão instigantes para uma garota que estava descobrindo o mundo, seus ritmos deliciosos de cantar junto, sua presença leonina que ocupa todos os espaços.

Os dois moram no meu coração até hoje e para sempre.

Mas foi só depois de adulta que entendi que o verdadeiro gênio daquela geração é Gilberto Gil. Tanto assim que Caetano atribui a ele o fato de ter continuado na música. Conto a história de cabeça, pois não consegui encontrar no Google um registro sobre isso, mas consta que Caetano em algum momento, antes da fama, teria dito que ia desistir de tentar a carreira na música, não sei se por dificuldades financeiras ou por alguma insegurança artística. Aí Gil respondeu: se você desistir, eu paro também. Caetano pensou que não queria ser responsável por fazer o mundo perder tamanho talento (aqui já rola uma licença poética para minha imaginação, relevem) e assim ficamos com os dois.

Documentário da HBO mostra julgamento e condenação de Gilberto Gil ...
Este é o verdadeiro gênio da melhor geração de gênios que a música brasileira já teve.

Esses dias aproveitei um intervalo entre o trabalho e a faxina e assisti o documentário Refavela 40, que estava na minha lista há tempos. E está tudo lá: Gil pioneiro, poeta, um músico incrível, e dono de um charme imbatível. Esse homem é a verdadeira antena parabolicamará.

Eu costumo dizer, meio brincando, que não existe um tema sobre o qual não haja uma canção de Gilberto Gil. Confiram aí. Ele falou sobre tudo, e falou lindamente.

-Monix-

Histórias negras

Comecei meu sábado meio desanimada (aliás, a semana toda tinha sido assim) e resolvi ticar alguns itens da minha lista na Netflix. (Parênteses: uma vez eu li em algum lugar que a Netflix tinha contratado o Adam Sandler – faz tempo, isso, né? – pra fazer alguns filmes para a plataforma. Isso porque eles perceberam que as pessoas incluem vários filmes interessantes, filmes de arte, filmes dramáticos, etc, na lista, mas o que de fato é assistido são as comédias leves. Tipo assim: eu quero ver filmes significativos, mas não agora. Enfim. Fim do parênteses.)

Nessa linha dos “filmes significativos mas não agora” minha lista incluía uma sugestão do algoritmo, um filme chamado Lionheart. É o primeiro filme nigeriano com distribuição mundial pela Netflix. Eu já tinha ouvido falar na chamada Nollywood, a prolífica indústria cinematográfica da Nigéria, mas nunca tinha tido a oportunidade de assistir uma de suas produções. Fico feliz por minha primeira experiência já ser de cara um filme de que gostei tanto. Fica aí o agradecimento à Netflix por suas contribuições ao globalismo cultural (disclaimer para eventuais paraquedistas de palavra-chave: não existe globalismo cultural e eu estou sendo irônica, talkey?).

Assistir um filme nigeriano é por si só uma experiência impactante. Se nós aqui deste país pseudo-ocidental, em que predominam produtos culturais estrelados por gente branca, comemoramos o elenco predominantemente negro em um filme de super-herói, imagine um filme cujo elenco inteiro é de pessoas negras. E elas não vivem em uma realidade fantástica, um país mítico, um mundo de super poderes. Elas são pessoas comuns, algumas ricas, outras mais ricas ainda. O filme tem uma trama corporativa – uma empresa de ônibus que corre o risco de fechar ou ser comprada por um empresário inescrupuloso. E aí vem a cereja do bolo: a protagonista, a heroína que chega para salvar o dia, é uma mulher. Quer dizer, por sua trama, Lionheart é um filme que poderia se passar em Chicago, estrelado por homens brancos norte-americanos, mas não: ele é um filme muito nigeriano, ele mostra questões étnicas, questões sociais, mostra uma estética diferente da que estamos acostumados a ver, mas além disso ele conta uma história bem contada, protagonizada por pessoas que normalmente nós só vemos como exóticas – ou não vemos at all.

***

O sábado começou bem, e resolvi continuar no clima da maratona de filmes. Há poucos dias tive acesso a alguns lançamentos recentes, digamos assim, por meios não-oficiais. Vi Judy, com a Renne Zellweger (sei lá como escreve) e achei no máximo passável. Aí resolvi encerrar com Harriet, que tinha chamado minha atenção quando recebeu duas indicações ao Oscar.

A história de Harriet Tubman é, por si só, impressionante. Ela nasceu escravizada, fugiu, conseguiu atravessar 160 quilômetros a pé, desde uma fazenda em Maryland até a Filadélfia, onde já não havia escravidão. Não satisfeita em conquistar a própria liberdade, ela se uniu a uma organização de negros abolicionistas e fez inúmeras viagens, correndo riscos altíssimos, para resgatar seus pais, irmãos, amigos e muitas outras pessoas escravizadas. Segundo consta nos registros históricos, Harriet foi responsável pela libertação de mais de 300 pessoas – ela as resgatava nas fazendas e guiava por trilhas secretas que ficaram conhecidas como “a ferrovia subterrânea”, ligando os estados sulistas ao norte dos EUA e ao Canadá.

É claro que uma vida como essa tem tudo para dar um ótimo filme. E deu. Mas o aspecto mais interessante é que em Harriet (o filme) nós vemos de fato uma história de protagonismo negro. Não há um branco heroico que aparece no final para salvar todo mundo ou para “endossar” a luta dos negros. No filme, os brancos são coadjuvantes – ou vilões. É uma perspectiva importante, mas mais do que isso, é um filme bom. E não há nada mais pedagógico do que uma história bem contada.

***

Não escolhi ver esse dois filmes em modo combo de propósito, mas lá pela metade de Harriet me dei conta de que estava tendo um sábado mais ou menos temático. Foi bastante inspirador.

Monix (há! pensou que era a Helê? Te peguei.)

PS: Jão das Neves

Eu não li os livros, mas talvez Jon Snow tenha sido o personagem que mais sofreu com a transposição para a tela e a popularidade da série. Sua ressuscitação foi um baque na trama do qual muitos não se recuperaram: houve quem deixasse de ver a série ali; muitos outros simplesmente pegaram ranço, mas gente, a culpa não foi dele.

“Ainnn, mas no fim das contas não adiantou de nada ele ser Targeryan…” Porque no fim das contas importa mais o que você faz com o que tem do que de onde você vem.

“Ainn, porque o arco do personagem o levou para o mesmo lugar onde começou…”. Primeiro começo a implicar com “arco do personagem” porque ninguém consegue comentar mais nenhuma série/livro/samba enredo sem usar essa expressão (não se aplica a você , Sócia). Segundo: o tal arco não é onde você chega, mas a trajetória que você faz. E por fim, Jaime Lennister também terminou onde começou, nos braços da Cersei. Só que ele era mais bonito, viril e contraditório. E dele o povo não pegou ranço.

Eu só queria reforçar um ponto das mui sagazes observações de mi sócia: eu gostei muito do final do Jão. After all, foi ele que “break the wheel”, pelo menos a roda do próprio destino, ao escolher se unir àqueles chamados tanto de ‘selvagens’ quanto de ‘homens livres’ – o que eu sempre achei bem desconcertante.

Helê

Cuidado, spoilers

Nos últimos oito anos – mais ou menos, porque teve gente que chegou antes, gente que chegou depois – nós acompanhamos juntas a saga dos sete reinos de Westeros em busca de uma certa harmonia (a paz nunca existe, mas vale cada minuto da busca). Então, nosotras não poderíamos deixar de registar aqui algumas impressões sobre o final desse épico, nem que seja para lembrarmos, um dia, de como estávamos nos sentindo dois dias depois do fim da série que conseguiu, quando ninguém mais apostava nisso (exceto em eventos esportivos e coberturas jornalísticas) reunir o mundo inteiro na frente de uma tela, ao mesmo tempo.

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A Monix não liga para spoilers, a Helê fica brava quando leva um. Então, no espírito da conciliação, fizemos este post com um grande nariz-de-cera, assim quem quiser lê, quem não quiser vai fazer outra coisa e volta depois de assistir tudo.

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Antes de mais nada, a gente precisa dizer que de modo geral gostamos do final. Então se você está buscando um lugar para resmungar coletivamente, sorry, não é aqui ;)

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Acho que já enrolamos bem, né? Então vamos ao que interessa.

Impressões mui loquazes da Monix:

  • Começando pelo episódio anterior, eu tinha ficado meio chatiada com o final do Jaime Lannister, mas olhando em retrospecto, fez sentido. Eu achava que a história do Jaime era uma jornada em busca da honra, e que a tinham “estragado” mandando-o de volta para a Cersei. Se pelo menos ele tivesse ido matá-la, mas nem isso. Mas depois fiquei pensando que esse final foi bem roots. As Crônicas de Gelo e Fogo do George R. R. Martin não são sobre arcos de personagens, são sobre o fato de a vida não fazer sentido. As vidas acabam como e quando têm que acabar. E aí simplesmente o Jaime tentou superar a Cersei, mas não deu. Na hora que ele percebe que ela vai morrer – porque é claro que aquele exército vai ganhar -, e que nunca vai se render… ele precisa voltar. Achei bonito o jeito com a Brienne contou a história dele no Livro Branco da Guarda Real. (Só não gostei porque ficou registrado que o Tyrion mandou matar o Joffrey. Queria que ela passasse um Liquid Paper em cima. Mas pensando bem, a Brienne não sabe que a mandante do crime foi a Olenna Tyrell. Todos os que sabem estão mortos.)
  • Falando mais em geral, tem um monte de furos nos roteiros dessa temporada. Várias coisas estão ali só para a história poder seguir, mas não fazem sentido. Por exemplo, ontem vi em uma live da Omelete um comentário sobre o Sam: ele estava em Winterfell, a Gilly grávida, tinha abandonado a Patrulha da Noite, tinha abandonado a Cidadela. Daí de repente o cara me aparece na reunião dos “grandes lordes” de Westeros. Fazendo o quê lá? Representando a Casa Tarly? Tá, que seja. Aí meia dúzia de cenas depois ele vira arquimeistre! Mas e a Gilly? E os bebê tudo? Meistre pode ter filho? Fora que ele nem terminou o curso. Ficou parecendo o ministério de um certo presidente que nomeia gente que não tem experiência nenhuma só porque é amigo do amigo.
  • Sobre o novo rei, tenho que admitir que foi surpreendente (embora eu já tivesse lido teorias a respeito, achava um chute totalmente fora de cogitação). Minha primeira sensação não foi boa. Ele passou a temporada inteira dizendo que não era mais o Bran Stark. “I’m not him”, eu acho, era a frase. Aí de repente ele é indicado para o trono como Bran Stark e responde: por que você acha que eu vim até aqui? Estranho. Mas tá bem, entendi que a ideia era ter um rei neutro e deixar o conselho governar. No fim das contas, me incomodou menos do que eu pensei quando li as teorias de fãs. Talvez porque no fim das contas Bran, the Broken é um nome ótimo para o rei que vai reconstruir o reino. Gostei também do Podrick ser o empurrador do trono. Mas na prática ele não vai governar. Aquele conselho é que vai cuidar das paradas e ele vai ficar wargando por aí. Foi bacana também o rei passar a ser escolhido por um conselho, e não mais por direito hereditário. Já inventaram as eleições indiretas em Westeros. ;)
  • Sobre o final trágico de Jon e Danaerys, estava na cara que ele ia ter que matá-la. Sendo assim, gostei que ela não ficou louca, apenas intensificou características de personalidade que sempre teve. Aquela estética nazi do início do episódio eu amei. Aliás, toda a parte visual foi incrível.
    Tirando o fato de não ter sentido nenhum ela estar sozinha na sala do trono, achei bacana o Jon dando um oi pro Drogon e entrando pra levar um papo com a mamãe. Mas no geral, o Jon foi totalmente filho do Ned Stark (adotivo, eu sei) nesse final. Relutando em enxergar o que tem que ser feito, escravo da honra e zero pragmatismo político. Mas quando finalmente ele vê que a Danaerys é aquilo mesmo, que Targaryens são fogo e sangue, ele entende que quem dá a sentença tem que segurar a espada.
    Tenho que dizer que amei o Drogon queimando o trono. Tá, é um dragão filósofo, com raciocínio simbólico, mas é daí? Foi uma simbologia poderosa. E a única cena que vibrei.
  • (Eu gostei que nessa temporada final eles voltaram a dar importância para as tramas políticas. Aquela guerrinha contra os zumbis estava enchendo o saco.)
  • Quanto ao final do Jon, eu interpretei de uma forma positiva. Acho que talvez seja o único que teve um destino realmente grandioso (e feliz, na medida do possível).
    Eu não acho que ele foi para o exílio. Acho que ele foi ser o rei-pra-lá-da-muralha. O novo Mance Rayder. O Jon nunca ia ser feliz no trono, nem no Sul, nem em Porto Real. Ele é um filho do Norte. E acho que o momento que ele viveu algo mais próximo da felicidade foi quando estava com os selvagens.
    Achei genial terminar o episódio com ele atravessando a muralha e ignorando a ordem de ir para a Patrulha. Que mané patrulha? Não tem mais inimigos do lado de lá. Vai ficar fazendo nada o resto da vida? Melhor não. Foi embora com o povo livre e deu uma banana para os sete reinos.
  • Adorei o final das irmãs Stark. Sansa fez por merecer. Vai entrar para a história com a primeira rainha do Norte, aquela que conquistou a independência de novo para os nortenhos. Não se ajoelhou e se livrou dos dragões com a arma mais feminina possível (#estereotipodegenero): a fofoca. E a Arya, minha queridinha, meu xodó desde o primeiro livro, virou Américo Vespúcio e vai provar que o planeta é redondo. Uma alma de viking.
  • Senti falta de explicações melhores sobre o que aconteceu com os castelos. Por exemplo: o Tyrion agora é o Lorde de Rochedo Casterly? O Rob Arryn é o Lorde do Ninho da Águia, senhor dos lordes do Vale? Por que o sor Royce estava ao lado dele? Como conselheiro ou como vassalo? E o Sam é meistre ou é Lorde Tarly, afinal? O Edmure voltou para Corerrio? Ainda existe a Casa Frey? Talvez essas questões na série não tenham tanta importância, acho que é mais uma coisa dos livros.

Impressões breves da Helê:

  • O que mais me chamou atenção foi a redenção da História — e da literatura, por extensão. As Humanas foram redimidas! No discurso do Tyrion (“nada mais poderoso que a História, nada nos liga mais que a História”), na escolha do Bran, na cena da Brienne alterando a Wikepedia deles, opa, o registro da história do Jaime. Senti a alma lavada nesse aspecto.
  • Gostei que o episódio deslegitimou a teoria da loucura da Dany.
  • Também vi furos, mas overall, achei tudo muito coerente. A dor é mesmo pelo fim. A internet ama odiar. E procurar copo de Starbucks.

As Duas Fridas

Ler para aprender

Lembrando da época em que os memes nasciam (e prosperavam) nos blogs (blog? whaaat?, pergunta um incauto que lê isso no Facebook), imaginamos uma lista de livros “Ler para”, livros de ficção que, além da qualidade literária, podem ser usados com um objetivo bem específico, como se didáticos fossem. A Helê teve essa ideia quando identificou claramente dois que serviriam a este papel – número suficiente para iniciar uma lista, principalmente com a colaboração das leitoras e leitores (can I get an amem here?). Se te ocorrer um livro que se enquadre na definição, indique nos comentários, sifazfavoire.

Livros da Helê

Para compreender a formação do Brasil: Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves

Tenho uma dívida enorme com esse livro e com a Ana porque nunca falei dele aqui no blog. Não que isso vá fazer alguma diferença para ele ou para ela, mas é que eu me sinto em falta, já que escrevi sobre outros que me causaram menos comoção. Demorei muito a ler, fiquei achando que perdi o timing do post. Mas quando tive a ideia desta lista, nenhum outro poderia encabeçá-la. Porque eu indico aos amigos dizendo que pode substituir sem perda Raízes do Brasil, Casa Grande e Senzala, e quetais (como se eu tivesse lido todos esses, abafa). Mas é disso que trata esse romance épico, narrativa cheia de sangue, suor e lágrimas sobre a fundação dessa bagaça do ponto de vista de uma mulher africana escravizada, tornada brasileira pela liberdade alcançada para voltar de onde não se retorna. Clássico incontestável, a história de Kehinde me antecede e me acompanha, e pela primeira vez na vida olhei para África com um sentimento de pertencimento. Tive a oportunidade de dizer isso à Ana, numa cachaçaria na Lapa, muitos anos atrás, onde ela me ensinou a comer pimenta biquinho. Ou seja, uma mulher que vi duas vezes na vida e que só me trouxe ensinamentos valiosos.

Para entender a (não) elite carioca: Leite Derramado, Chico Buarque
Também li muito depois de todo mundo, e foi até aqui o livro dele que mais gostei. Na verdade já tinha simpatia e curiosidade pelo livro por causa da canção que o originou, “O velho Francisco”, dolorosa e delicada. Mas aquilo que parece uma biografia desafortunada na letra da música ganha contornos mais amplos nas páginas; salta aos olhos uma elite que já nasce decadente, cuja riqueza não se produziu em bens como terra e indústrias, mas principalmente nas relações mais ou menos espúrias com o Estado e com quem mais pudesse apresentar benefícios. Uma elite deslumbrada e sem poder, que só tardiamente se dá conta da sua desimportância.

Livros da Monix

Para entender a passagem do Brasil rural para o Brasil que se quer urbano: O Tempo e o Vento, Érico Veríssimo

Aprendi a amar Érico Veríssimo (além de tantas outras coisas) graças à Fal. É uma saga de fôlego, mas fundamental. Através de várias gerações da família Terra/Cambará a gente acompanha o surgimento das primeiras povoações, ainda na época da colônia, as guerras, revoluções e outros (e)ventos que foram, ao longo de décadas e séculos, ajudando a moldar isso que hoje chamamos de Brasil. Mas também espiamos pela fresta da porta da História, e ficamos sabendo um pouco de como viviam as pessoas comuns, como eram criados os filhos, como se nascia e morria no Brasil de antigamente. O Tempo e o Vento é o Rio Grande do Sul, mas é o país inteiro.

Para conhecer onde e quando tudo começou: Onde Vais, Isabel, de Maria Helena Ventura

É um livro difícil: de encontrar e de ler. Parece ter sido escrito de forma que a gente mergulhe na alma medieval – toda a musicalidade, todo o ritmo do livro nos levam a um lugar diferente. Essa é a beleza da história da Rainha Santa Isabel de Portugal, que nos ensina sobre a fundação da cidade de Coimbra, sobre a vida na corte do século XIII, sobre uma época em que a religião ocupava o lugar que hoje damos à ciência, sobre tecnologias que não enxergamos como tal. A lição mais interessante que tirei dessa leitura foi sobre o visionário Dom Dinis, rei de Portugal e marido de Isabel. É ele que prepara o Portugal do futuro, da expansão marítima, que conquistará os oceanos e colonizará nosso Brasil. Uma das coisas que Portugal deve a Dom Dinis é a plantação de imensos bosques de pinheiros, para que a madeira fosse utilizada na construção dos navios que se lançaram para o além-mar. A história de Isabel tem ainda um toque de realismo fantástico avant la lettre, com a bela lenda do milagre das rosas. Como entender o Brasil sem, antes, passar por Portugal?

Outros livros que são aulas: O Nome da Rosa; Anarquistas Graças a Deus; a trilogia Os Subterrâneos da Liberdade; A Casa dos Espíritos e Inés de minha alma, de Isabel Allende, para conhecer o Chile e essa América que é nossa mas não parece; enfim, são muitos… conta para nós qual é o seu.

As Duas Fridas

Impressões olímpicas

Parecia até que a gente estava viajando – foi assim que minha cunhada definiu nosso deslumbramento ao chegarmos no primeiro domingo no Parque Olímpico da Barra, para ver a esgrima.

Não sou uma grande fã de esportes, mas gosto de grandes eventos, e sempre digo que esta é a verdadeira vocação do Rio. O dia a dia aqui é complicado (e tem sido cada vez pior), mas nas ocasiões de gala a gente para tudo e recebe os visitantes com a melhor louça e a toalha de linho na mesa. Por isso, já desde o ano passado, quando se abriram as vendas dos ingressos, comecei a preparar uma programação olímpica. Não poderia perder o maior evento do mundo acontecendo no quintal da minha casa.

E o primeiro deles foi mesmo no meu quintal: a prova de ciclismo de estrada, no sábado, incluía três voltas na minha rua. Assim, ainda nem bem recuperada do impacto da lindíssima cerimônia de abertura que vi pela TV, na manhã seguinte já estava tomada pela energia dos incríveis homens que pedalam mais de 200 km numa velocidade estonteante.

Mas um dos pontos positivos dos Jogos foi a distribuição dos locais de competição por vários pontos da cidade. Sendo assim, tive oportunidade de conferir de perto outros lugares, inclusive alguns que não costumo frequentar, e esportes diferentes, que nunca passam por aqui. Fui ver vôlei de praia em Copacabana; rúgbi em Deodoro; tênis de mesa no Riocentro; canoagem no Estádio de Remo da lagoa mais linda do mundo; atletismo no Engenhão; ginástica artística na Barra de novo. Passei no boulevard para dar uma conferida na tocha e na já famosa Orla Conde. Por duas semanas, fui turista na minha cidade e gostei.

Os Jogos Olímpicos reúnem os melhores seres humanos do mundo do ponto de vista físico. Mas também trazem para a cidade-sede centenas de milhares de visitantes – é impossível calcular quantos exatamente, porque muitos turistas domésticos ficam em casas de parentes e amigos, mas chegaram a falar em 1 milhão de turistas estrangeiros. A grandiosidade do evento preocupava por causa de coisas como o deslocamento desse povo todo, a capacidade da cidade de hospedar e alimentar todo mundo, etc. Não preciso dizer que deu tudo certo pois disso a imprensa já falou e ainda falará.

Já sobre a sensação de estar neste lugar, neste momento, sinto muito mas quem não viveu nunca saberá.

-Monix-

PS: E cá entre nós, estávamos precisando de um intervalo de euforia antes de retornar à depressão que nos aguarda na ressaca pós-olímpica. Que a energia positiva nos ajude a enfrentar a realidade.
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