África lusófona

Andei lendo sobre o Acordo Ortográfico (estou meio monotemática, mas juro que penso em outras coisas nos intervalos), e me deparei com este texto do angolano José Eduardo Agualusa em que ele não apenas defende a adoção do tratado internacional como vai além: defende que se Portugal não aceitar o acordo, Angola deve adotar a ortografia portuguesa. O argumento dele é no mínimo interessante:

Somos um país independente. Não devemos nada a Portugal. O Brasil tem cento e oitenta milhões de habitantes, e produz muito mais títulos, e a preços mais baratos, do que Portugal. Assim sendo, parece-me óbvio que temos mais vantagem em importar livros do Brasil do que de Portugal.

Enquanto isso, a Maria João mandou outro texto, dessa vez do moçambicano Mia Couto, sobre seu avô Jorge, que acaba contando também um pouco sobre como a literatura brasileira é importante para a formação cultural dos países da África lusófona.

Na altura [anos 1960,período final da ditadura colonial de Portugal em África], nós carecíamos de um português sem Portugal, de um idioma que, sendo do Outro, nos ajudasse a encontrar uma identidade própria. Até se dar o encontro com o português brasileiro, nós falávamos uma língua que não nos falava. E ter uma língua assim, apenas por metade, é um outro modo de viver calado. Jorge Amado e os brasileiros nos devolviam a fala, num outro português, mais açucarado, mais dançável, mais a jeito de ser nosso.

Nós brasileiros nos acostumamos a lamentar muito a falta de conexão e identificação com nossos hermanos latino-americanos. Acabamos esquecendo de países que podem ter muito em comum conosco, além, obviamente, da língua. (E se você, como eu, acredita que a língua molda a forma de ver o mundo, vai concordar que só a língua já seria muito para se ter em comum.)

As relações entre os povos refletem, em grande parte, as relações entre os indivíduos, por óbvio. A gente olha para cima, no máximo para os lados – nunca para baixo. Eu posso imaginar como deve ser a vida dos milionários, e sei bem como vive a classe média brasileira, mas não faço a menor idéia de como é o dia-a-dia da minha empregada doméstica (quais são seus problemas, como é sua rotina, com o que ela sonha, por que ela sofre, como ela ama? Sei lá.) O mesmo acontece nas relações internacionais: a gente conhece a cultura americana de trás pra frente; a gente sabe que na Argentina, no México e no Chile as pessoas vivem mais ou menos os mesmos dilemas que nós aqui no Brasil; mas não temos a mínima pista de como é a sociedade angolana – ou a moçambicana. Aliás, a maioria de nós deve pensar que Angola, Moçambique, Madagascar, Zanzibar é tudo a mesma coisa, não é?

Ler os dois textos lincados neste post me fez sentir uma saudade do que nunca vi. Deu vontade de saber mais, como se de repente descobrisse uma parte da família que estava afastada, tipo primos distantes, que de repente se aproximam.

Primeira providência: ler Agualusa e Mia Couto.

-Monix-

Porque Veríssimo é meu pastor

Nada me faltará, e está garantido ao menos um sorriso no domingo. Neste que passou ele me arrancou uma gargalhada :

Estou me sentindo culpado. Nunca usei o trema. Desde que aprendi a escrever — sem piadas, por favor — , ignorei o trema. Quando comecei a escrever, por assim dizer, em público, continuei a ignorá-lo. Os revisores, se quisessem, que acrescentassem os tremas onde cabiam. (…)

Mas, com a nova reforma ortográfica, o trema vai desaparecer. E eu fiquei com remorso. Talvez tenha sido injusto com ele. O trema, afinal, tinha uma história. Tinha uma razão para existir, mesmo modesta. Tinha uma função, mesmo dispensável. E eu o desdenhara sem dó, coitadinho. ”

“Müller e Anaïs”,  O globo, 30/11/08

Helê

Velhos hábitos custam a morrer

Está pronto o decreto presidencial que vai estabelecer um cronograma para a adoção das novas regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. (…) O ministro da Educação, Fernando Haddad, acredita que o decreto será assinado até outubro. O texto estebelece que as novas regras serão obrigatórias, em caráter definitivo, a partir de 1.º de janeiro de 2013. Até lá, haverá um período de transição, de 2009 a 2012.

Do blog Educação à Brasileira, do Globo Online.

Sobre o assunto, tenho a dizer o que já disse antes:

Eu gosto de me considerar uma pessoa que se adapta facilmente a mudanças. Ou, melhor ainda: uma pessoa que gosta de mudanças. Não sei se tem a ver com meu ascendente Aquário, com uma certa mania de estar sempre perto do que é novo. O fato é que gosto de pensar que fujo, sempre que consigo, do comodismo, da zona de conforto, rumando em direção ao que vai ser diferente. Claro que na prática a teoria é outra, mas estou falando de como venho construindo minha auto-imagem ao longo dos anos.
Só que agora, com a proximidade da adoção do acordo ortográfico dos países lusófonos, estou me sentindo, talvez pela primeira vez na vida, uma pessoa antiga. Nem é antiquada: é antiga, mesmo. Minha avó, uma mulher esclarecida, diria até antenada, até hoje escreve “êle”, com esse acento circunflexo esquisito. Nunca entendi esse apego a um sinal que já era obsoleto quando eu nasci. Agora percebo que provavelmente essa mudança foi feita quando minha avó tinha, sei lá, entre 40 e 50 anos, ou seja, já escrevia desse jeito há tempo demais.
Eu posso até me acostumar com a eliminação dos acentos nos ditongos crescentes (ou descrescentes?), e é óbvio que nunca vou decorar as regras para uso do hífen (mas isso eu nunca soube mesmo). Mas sinto que jamais me conformarei com a eliminação total do trema. Pô, gente, o trema tem uma função fonética super importante! Eu não como linguiça, e sim lingüiça! Não pago cinquenta, e sim cinqüenta! (Que, aliás, às vezes minha avó se distrai e escreve como “cincoenta”.) Já me vejo uma velhinha gagá, reclamando da “juventude de hoje em dia”, lembrando como era bom no meu tempo de outrora, e escrevendo muitas palavras estranhas com uns pinguinhos em cima do U, que meus netos nunca saberão para que servem.
Lamentável ter que me confrontar com a inexorável marcha do tempo, assim, tão cedo.

Publicado originalmente em 10 se setembro de 2007

-Monix-

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