Livros

imagemSeguem aqui duas indicações, um de uma leitura recente e outra mais antiga, ambas muito prazeirosas.

Foi em alguma revista sobre corrida que soube de “Livre – a jornada de uma mulher em busca de um recomeço”; o título e a sinopse me instigaram o suficiente para comprá-lo.  Lá se foram algumas  semanas numa trilha sobre qual nunca ouvira falar , a Pacific Crest Trail, que cruza os EUA do México ao Canadá. Cheryl Strayed decidiu percorrê-la mesmo sem experiência anterior; acho quem nem ela sabia ao certo se procurava  se salvar ou se enterrar de vez, tentando achar o fio da meada da própria vida depois da morte da mãe. Seria um trail book do mesmo modo que há road movies. O livro foi indicado pela Oprah no seu clube de leitura –  o que me deixou com o pé atrás, que Ms. Winfrey é chegada numa auto-ajuda. E o livro vai virar filme tendo a Reese Queixinho Spoon como protagonista, o que também não me entusiasma. Mas a autora não parece ter culpa de nada isso; em nenhum momento o livro se arvora a ditar regras e conselhos. Ela quer apenas contar sua própria história, narrar essa fantástica travessia, e o faz com uma honestidade tocante. Recomendo, e vou até dar uma chance pra Reese quando o filme sair.

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13172_ggMalcolm X – uma vida de reinvenções” me chamou na loja. Eu procurava um presente para uma amiga, olhei pra ele, achei que as credenciais eram boas (Cia das Letras, Pulitzer) e quando chequei o preço estava em promoção. Fiz o que faz o pobre: ao invés de economizar, comprei um pra mim. Mas valeu a pena, o livro é um trabalho de fôlego de um acadêmico americano sobre a vida de Malcolm, que eu sempre achei fascinante.  Na definição precisa do autor, Manning Marable, “uma biografica mapeia a arquitetura social da vida de um indivíduo” – e é o que ele faz com maestria, traçando os contexto sociais, políticos e econômicos que emolduraram a vida de Malcom, começando pelo pai dele e indo até depois de sua morte. São décadas da história americana e da história negra no mundo, já que aborda importantes questões como o panafricanimso, islaminsmo e outras. Devorei o livro como se fosse uma ficção; até chorei com um final que eu sempre soube como seria.  Também acabou sendo uma maneira de voltar (ou permanecer) em Nova York, cidade adotada por Malcolm e cenário de partes cruciais no livro. Lendo um trecho em que ele conta a incrível  hospitalidade que experimentou na Arábia Saudita apenas por ser muçulmano, tive que recordar a fantástica acolhida que tive em uma igreja do Harlem, apenas por ser negra. Mas isso fica pra outro post; por ora ficam o teaser e a dica do livro.

Helê
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Filhote da ditadura

Lembro da campanha do Sujismundo; do medo que eu tinha do meu tio hippie e cabeludo; da PE patrulhando as ruas; do Figueiredo dizendo ao Alexandre Garcia que prefere o cheiro dos cavalos; da Semana do Presidente nos intervalos do Sílvio Santos; do certificado de censura assinado pela Solange Hernadez; do disco do Chico que incluía Tanto Mar sem letra; da Lei Falcão e as “ameaças à segurança nacional”; das paradas do 7 de Setembro; das bandeirinhas verdeamarelas e da vergonha de ser patriota; do esquadrão da morte e do Mão Branca; da inflação batendo os 100% ao ano pela primeira vez na história do Brasil; do Golbery e do Delfim Netto; do maiô-cortininha que as grávidas usavam antea da Leila Diniz; do Pinochet e do Stroessner; de um tempo em que ninguém podia ir a Cuba, em que o Globo era do mal e o JB era do bem; dos meus tios comunistas cantando “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, chamando os filhos para irem embora da casa do meu avô, que era da direita católica; das primeiras eleições para governador (“Nem Miro nem Sandra, e pra ser Franco, nem Moreira. PT Saudações, voto em Brizola”, era isso que diziam); da volta do Gabeira, de tanga de crochê em Ipanema; da campanha pelas Diretas e da emenda Dante de Oliveira, rejeitada no dia do meu aniversário; do julgamento do Doca Street; das pichações nonsense LERFAMÚ e Celacanto Provoca Maremoto; das pessoas que diziam “golpe” e das pessoas que diziam “revolução”; da proibição dos grêmios escolares, que eu só soube que existiam quando avisaram que estavam liberados; do Renato Russo e os filhos da revolução; da minha amiga que tinha “pai desaparecido”; da Casseta e do Planeta, que eram turmas diferentes (as duas tinham graça).

Lembro de tudo isso. Esse post foi escrito de memória, sem consulta ao Google, a livros, a jornais, após assistir Zuzu Angelno cinema, que, by the way, adorei. Confesso que vivi.

-Monix-

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