Pastilhas Garota* (de meia idade)

O carioca é mesmo um ser muito desbocado. Criou uma alternativa xrated para o etcétera, que é, como se sabe, oscaralho. Pode denotar um sentido coletivo (“Ele levou pai, mãe, filho e oscaralho); ou intensidade (Vai desfilar em três escolas, nos blocos e oscaralho). Mas se a intensidade for muita, utilizamos o superlativo ocaralhoaquatro. Um fino, o carioca.

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Tem certas palavras ou expressões que se auto denunciam como falsas. Adquiriram uma reputação tão ruim que, mesmo quando usadas legitimamente, inspiram desconfiança. Coisas como “não é que eu seja….” – já era, irmão, pra mim você é o que quer que venha depois. Ou quando o sujeito fala que “não é de esquerda nem direita” – direitoba, certamente. Em mim já dá vontade de centralizar um soco, pro cabra parar de tentar me enganar.

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Quando eu tinha uns 10 anos, meu pai me disse algo que me chocou: “tudo é política, todo ato é político”. Tentei o que me parecia mais impossível: “Até um beijo?” Ele, convicto: “Até um beijo”. Não foi na hora, mas logo depois eu entendi o que ele quis dizer, e hoje agradeço a ele essa lição precoce, porque me poupa de certos vexames. Como um juiz federal dizer que a greve dos petroleiros é política. O que não é, moço?

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Não quero me acostumar com a vida de desempregada. O horário é bom, mas paga muito mal.

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E atenção, recrutadores: vamo combiná que pretensão salarial num pais com 13% desempregados é uma cretinice brutal, não? Joga o candidato um dilema terrível, porque ele não deve pedir alto demais, tão pouco se desvalorizar, mas nos dias atuais a grande pretensão tem sido conseguir um emprego. Tenho vontade de devolver a bola para o empregador em forma de enigma: minha pretensão é receber três vezes mais o que eu aceitaria. Ele que lute pra saber quanto é isso.

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Trudia tava zanzando pelo YouTube e comecei a assistir uma entrevista do Paulo Coelho. Ele metia o pau no Pesadelo Eleito®, estarrecido com as declarações, os ministros e oscaralho. Aí quando o cabra pergunta: “O que ainda te dá orgulho no Brasil”, o mago responde: “o povo”. E eu: “Hã?! O mesmo que elegeu esse imbecil?” Vamos parar de romantizar o Brasil?

Avenida Paulista, São Paulo
Photo by Lucas Martins @lucasport01
everydaybrasil

Helê

*Porque Drops, só da Fal

®Tina Lopes, que se não inventou essa expressão precisa, foi quem me ensinou

Um retrato do Brasil

Severino bordando, na porta de sua casa, a gola de caboclo que ele vai usar no Carnaval. Tracunhaém, mata norte de Pernambuco.
Do twitter da Fabiana Moraes

Reza a lenda (urbana) que João Gilberto teria dito, ao ver uma mulher negra descendo o morro, “Olha o Brasil descendo a ladeira!”. A partir dessa “exclamação poética”, Moares Moreira escreveu sua conhecida canção. Pois eu tive reação semelhante ao ver essa foto hoje: de estar vendo o Brasil – ao menos aquele que me interessa, instiga e inspira. Um ao qual eu pertenço e em que me reconheço: tudo nessa foto soa familiar, embora eu não nunca estado em Tracunhaém e tão pouco tenha visto um Caboclo de Lança ao vivo. Não queria morar nessa foto: sinto que, de algum modo, eu vivo ali. 

Helê

Um país sufocado

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Quando eu era criança, nas décadas de 70, 80, Biafra era sinônimo de fome e pobreza. Servia de apelido para qualquer magricela, em referência aos meninos negros esquálidos  que víamos na TV, lá na distante e triste África.

Depois Biafra passou a ser apenas um cantor de relativo sucesso (que ganhou o apelido exatamente pela magreza, apesar de branco e de classe média). Biafra lugar, onde quer que fosse, sumiu do noticiário – como sumirá a Síria daqui a algum tempo, como sumiu a Somália, o Haiti…

Reencontrei o lugar por acaso, lendo “Meio do Sol Amarelo”, da Chimamanda  Adichie*, de quem quero ler tudo o que puder depois do empolgante “Americanah”.  Nesse premiado segundo romance, aprendi que Biafra foi uma tentativa separatista de uma região da Nigéria, uma guerra tão curta quanto terrível, que em menos de três anos matou mais de um milhão de pessoas, civis incluídos. Um sonho de nação igbo (uma das muitas etnias nigerianas) violentamente sufocado.

Mas isso eu poderia ter lido em qualquer livro de História, ou só na Wikipedia se tivesse preguiça. É preciso ler Chimamanda para entender que a Nigéria – e por extensão, a África – não é uma terra fadada à desgraça e à pobreza por maldade divina ou falta de sorte. É um país em busca de caminhos, identidades, pactos sociais, como qualquer outro no mundo. Um grupo de personagens ricamente construído estabelece uma trama de relacionamentos com os quais nós rapidamente nos identificamos, em maior ou menor medida. De um modo muito sutil e mais eficiente que discursos militantes, a autora vai minando estereótipos e ideias pré-concebidas, nos aproximando daquela realidade, em que terminamos por nos reconhecer. Estão lá as crianças famélicas, no pior momento da guerra, mas fazem parte de um vasto mosaico que constitui aquela história, também composta por uma elite econômica, por camponeses, pela classe média nigeriana e pela intelectualidade acadêmica. Uma sociedade complexa e múltipla, um espectro bem mais amplo do que qualquer menção à África evoca, ainda hoje.

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Terminei a leitura novamente impressionada com o talento de Chimamanda, com o quão pouco sabermos sobre a África e seus países, e impactada com a crueldade da guerra, sua imensa capacidade desumanizadora e desagregadora, as chagas e cicatrizes que grava nas pessoas e nas sociedades. Ia quase me permitindo um suspiro de alívio ao pensar que desse mal não padecemos no Brasil. Mas fui interrompida por uma mensagem de what’s app que pedia notícias de uma amiga que é professora no Complexo da Maré.

O suspiro virou soluço.

Helê

PS: Escrevi esse post às vésperas do carnaval. Achei que não ornava com a atmosfera e guardei pra depois.

Agora, escrevendo sob intervenção militar, combina muito mais do que eu gostaria.

*Chimamanda forma hoje a santíssima trindade das minhas autoras preferidas, junto com Elena Ferrante e Isabel Allende. Bem, tem a Fal, mas ela é hors concurs. Ah, e a Lionel Shriver tá correndo por fora, com grandes chances de transformar a tríade em quadratura. :-)

 

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