Vá ver o Chico

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Se ainda não viu, faça a você mesmo um favor e vá. Contra fel, moléstia, crime; para um coração mesquinho, contra solidão agreste: Chico Buarque Artista Brasileiro é inconteste. O filme, que continua lotando sessões no Rio, serve de antídoto para o inevitável pessimismo reinante (Veríssimo, meu rei, com a lucidez de sempre,  chamou de uma clareira de talento e sensibilidade em meio à estupidez crescente). Antítese desses tempos de império do Ego e supervalorização das Caras, o documentário é totalmente anticelebridade. A gente sai do cinema com a sensação de que bateu papo com o Chico por duas horas – o que, convenhamos, vale o ingresso. Um papo agradável, bem-humorado, cheio de reminiscências mas sem nenhuma nostalgia.

Logo no início ele avalia que, quando jovem, mergulhou na literatura para chegar até o pai, amoroso mas um tanto inacessível. “Eu tive que achar o caminho até o escritório do meu pai”, ele diz, e na hora pensei: “mas não é o que todos nós fazemos, seja um bar, a oficina ou só a cabeceira da mesa?”.  Também em outros momentos Chico se mostra gente como a gente,  lidando com desafios, surpresas e sobretudo percalços da vida.  Sobre os quais, aliás, ele parece ter até mais prazer em falar: lembra, entre risadas, da primeira turnê fracassada pela Europa, com Toquinho; diverte-se ao contar do surfista no Arpoardor que o reconheceu na foto ao lado de Bob Marley num museu em Kingston. Com a mesma leveza reflete sobre a velhice  – fazendo contas que depois abandona – e sobre as mudanças no país.

Há momentos emocionantes, como o depoimento do Carvana sobre a primeira vez em que Chico viu a Marieta. Minha emoção se liquefez nos trechos sobre o Rio de Janeiro e a Mangueira porque aí é, literalmente, muito amor envolvido. Eu saí da sessão leve e satisfeita com o meu guri, que além de suas muitas e decantadas habilidades, domina mais uma, rara: soube envelhecer bem, mantendo a fleuma, o charme, a mente aberta e a gargalhada farta. Melhor só se estivesse, como encantado, ao lado meu.

Helê

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Ainda sobre biografias

Sobre o tema das biografinhas, como diria F., eu queria dizer uma ou duas coisas, aqui no meu Reino da Opinião Não-Solicitada:

– Sim, soy contra probir a publicação prévia, sob qualquer alegação. Ainda acho genial aquela frase “discordo totalmente do que você diz, mas vou defender até o fim o seu direito de dizê-lo” – quem foi mesmo que falou isso?

– Agora, vamos combinar que o polvo da emepebê tem uma péssima assessoria de comunicação. Erraram em tudo: no nome da associação – imperativo, arrogante, professoral; nos argumentos pífios e na porta-voz, alguém que nunca primou pela habilidade de relacionar-se com a imprensa. Ou de relacionar-se lato sensu.

– Fiquei mais chocada com os textos do Chico e do Caetano do que propriamente com suas opiniões. Confusos, evasivos, mal-escritos mesmo. Neste sentido, eu realmente esperava mais deles.

– Chico pergunta se, no caso de proibir que a Globo o citasse, se isso o tornaria um censor. Sim, meu querido, deal with it. Censor e censura viraram xingamento supremo na cultura brasileira, não sem motivo. Mas devemos deixar de demonizar as palavras e questionar as atitiudes.

– Fiquei incomodada com comentários, não raros, que mal escondiam um rancor ou um ar de ‘bem-feito” nas entrelinhas. Li mais de uma vez coisas como “os seus ídolos”, “aqueles que veneram o Chico agora tem que lidar…” Se o cara se decepcionou com alguém que idolatrava, faça um mea culpa ou se esconda embaixo da coberta. Mas começar um texto dizendo como eu me sentia antes e o que devo pensar agora? Ah, para.

– E como sói acontecer aqui, o que era para ser discussão, debate, vira ‘polêmica’, essa coisa vazia, superficial e pessoal, do mesmo campo semântico de ‘celebridade’. Vira um Fla-Flu, um contra ou a favor infantil. A propósito: nunca achei nehum desses caras infalível, nem vou deixar de apreciá-los por achar que estão equivocados.

– Agora: sério que é a primeira vez que vocês decepcionaram com o Caetano? Eu não. E nunca discordaram do Chico antes?! Desculpaí, gente, mas minha relação com ele é mais forte que isso. Basta lembrar que o cara é tricolor, o que comprova a minha extrema leniência. Eu continuo querendo dar para ele – embora tenha sido informada, por fonte fidedigna, que o Paulinho da Viola manda melhor 😉 (Ih, será que ele autorizaria o post, se lesse?) .

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Helê

Eu e ele

Quando eu disse lá no play (aka facebook) que ele é o fundador da Mansão Foster para Namorados Imaginários, falava sério. Nossa história é das mais duradouras da minha vida, mesmo sendo uma relação aberta (tinha que ser, quando o conheci ele era casado). Todos os outros homens  da minha vida (cof, cof) aprenderam a respeitar o  espaço dele: sabiam que tinham sorte por ele não estar disponível naquele momento (bad timing sucks). Jamais o confrontaram, sabendo que perderiam a batalha e a guerra. Os espertos tornaram-se adversários amistosos, chegando mesmo a me presentear com seus discos, livros, dvds. Os demais, se houve, não são dignos de nota.  Apesar de tudo isso, eu morro de ciúmes dele. Confesso que em épocas como essa, em que ele está em evidência, incomoda-me que todos falem dele como se dele fossem, do modo como eu sou. Falam com uma intimidade que nem ele deu nem eu concedi, um comportamento altamente inadequado. Mas só me cabe suportar:  faz parte das parcas agruras de amar Chico Buarque.

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Helê

Bom domingo

 Suspiro. Duplo. Carpado

Helê

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