Da série Bis é bão: Cidadania e ironia*

Ela era prostituta, politizada, militante dos direitos da categoria. Uma puta cidadã (e vice-versa). Por isso, não titubeou quando teve que informar a profissão ao funcionário do cartório:
– Profissional do sexo – ela disse, como quem diz o dia da semana.
O funcionário ouviu, mas achou melhor fingir que não:
– Como?!?
– Profissional do sexo – ela repetiu, com firmeza.
O funcionário, com ar malicioso, pediu confirmação:
– Isso é aquilo que eu estou pensando?…
– Eu não sei o que o senhor está pensando!, ela respondeu, desafiadora.
O funcionário, visivelmente perturbado, foi atrás de um superior. No caso, superiora. A chefa veio até a moça e repetiu a pergunta; a moça repetiu a resposta. A chefa respirou fundo e afinal perguntou:
– Profissional do sexo é …prostituta?
– É, respondeu a profissional, já meio puta (ou mais puta, digamos).
– Ah, bom; – disse a chefa, satisfeita por ter encerrado o impasse. Para logo depois perceber que o problema não estava resolvido:
– Ah, mas isso não consta da relação oficial de ocupações do ministério do trabalho, vamos ter que colocar outra coisa… vamos ver… cabeleireira? – sugeriu a chefa.
– Tá, tá bom. – concordou a puta, resignada.
– Então a senhora também é cabeleireira?, quis saber a chefa, animada por descobrir uma segunda ocupação da moça. Que já irritada com a situação, respondeu:
– Ah, uma coisa eu garanto: faço barba, cabelo e bigode!

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Helê
* História verídica, contada (se não me falha a danada) pelo Flávio Lenz, editor do saudoso e ousado Beijo da Rua.
Publicada originariamente em preto e branco em 24/5/05.

Na Rádio Cabeça: Lenine

…desde o último post de La Otra. Veja como essa “Rua da Passagem” orna com seu texto, Sócia:

Rua da Passagem (trânsito)

Os curiosos atrapalham o trânsito
Gentileza é fundamentalNão adianta esquentar a cabeça
Não precisa avançar no sinalDando seta pra mudar de pista
Ou pra entrar na transversalPisca alerta pra encostar na guia
Pára brisa para o temporal
Já buzinou, espere, não insista,
Desencoste o seu do meu metal

Devagar pra contemplar a vista
Menos peso do pé no pedal

Não se deve atropelar um cachorro
Nem qualquer outro animal

Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual

Motoqueiro caminhão pedestre
Carro importado carro nacional

Mas tem que dirigir direito
Para não congestionar o local

Tanto faz você chegar primeiro
O primeiro foi seu ancestral

É melhor você chegar inteiro
Com seu venoso e seu arterial

A cidade é tanto do mendigo
Quanto do policial

Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual

Travesti trabalhador turista
Solitário família casal

Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual

Sem ter medo de andar na rua
Porque a rua é o seu quintal

Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual

Boa noite, tudo bem, bom dia,
Gentileza é fundamental

Pisca alerta pra encostar na guia
Com licença, obrigado, até logo, tiau.

Helê

Calçada lisa, eu quero uma pra viver

Gente, na internet não há o que não haja. É muito legal achar nossa turma, seja ela qual for. Minha turma é a das pessoas que reclamam das calçadas péssimas do Rio de Janeiro. (Eu sou uma pessoa que cai.  Ou seja. Ando tensa pelas pedras portuguesas do Centro da cidade.)

Esta semana ouvi no rádio que foi feita uma pesquisa sobre a qualidade das calçadas brasileiras. E adivinhem? Nas 12 capitais pesquisadas, o Rio ficou em penúltimo lugar, perdendo apenas para Manaus. Para mim não foi surpresa nenhuma.

Enfim, cidades são feitas para pessoas, e estas primordialmente caminham.  A necessidade de calçadas de qualidade vale para todos:  jovens, adultos e também para crianças, idosos e pessoas com deficiência física, que demandam pavimentos bem nivelados, sem buracos, e dotados de rampas de acesso para cadeiras de rodas.
Portal Mobilize Brasil

O asfalto da cidade também é uma porcaria. E de forma coerente com a escala de valores que vigora por aqui, a operação “Asfalto Liso” começou antes da mobilização pelas calçadas lisas. Afinal carros geram o pagamento do IPVA. Já os pedestres, sabe-se lá o que pagam, se é que pagam.

O que esse povo esquece é que todo mundo anda.

-Monix-

 

Supercarioca

O Supercarioca chegou
Com seus emblemas culturais
Com samba praia bola e tantas coisas mais
O Supercarioca chegou
Esquecendo a vida entre copos de cerveja
Quando se chutam latas sempre se faz
Mais que um gol!
Picassos Falsos

Quem lê este blog sabe do tanto que eu me ufano do Rio de Janeiro. A cidade é linda, isso não se discute. E tem o charme incomparável de ser habitada por cariocas, de nascença ou por merecimento, pois é claro que ser carioca não é para qualquer um – sendo que, no fim das contas, é para qualquer um.

Só que nos últimos tempos a informalidade e a descontração carioquíssimas por natureza estão se transmutando em seu oposto energético, que se traduz, como diz um amigo, em bundalelê puro e simples. Me sinto vivendo num território sem lei. O jeito meio irreverente de quem vive aqui virou desprezo pelas mínimas regras de civilidade. As pessoas não atravessam a rua (faixa de pedestres? O que é isso?), elas se jogam no meio dos carros, e salve-se quem puder. A seta é um item que só serve para fazer os carros serem reprovados na vistoria do Detran – isto é, quando o motorista em questão se dá ao trabalho de levar o carro para fazer a vistoria, o que nem sempre acontece. As calçadas são terra de ninguém: o camelô monta sua barraquinha, o lojista bota seu tapume e faz a obra (por tempo indeterminado), sem se dar conta de que está impedindo a passagem, os motoristas largam os carros, muitas vezes bloqueando as rampas dos deficientes físicos. Todo mundo buzina indiscriminadamente, de dia ou à noite, na frente de maternidades, hospitais. Os pais de alunos fazem fila dupla ou tripla para buscar seus pimpolhos na escola e dão aula de des-cidadania. É tanto caos que às vezes eu me pergunto como é que ainda não entramos em colapso. Ou vai ver o colapso já aconteceu e a gente simplesmente não percebeu, dada a enorme capacidade de adaptação do ser humano.

A gente ama apesar dos defeitos e não por causa das qualidades. Não deixaria de amar um homem por ele ser difícil, assim como não amo menos minha cidade por ela ser caótica.
Mas às vezes confesso que cansa um pouco.

Chamem o Supercarioca, por favor.

-Monix-

(publicado originalmente em 12 de dezembro de 2007)

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