R.E.S.P.E.C.T

Já escrevi mentalmente várias anotações sobre a copa da Rússia mas esse vídeo de ontem não pode esperar: tem que ser exibido muitas e muitas vezes. Nele, a jornalista Júlia Guimarães se defende do assédio de um passante e revida, falando por si e por todas as mulheres:

 

 

A postura dela é absolutamente impecável; embora irritada e abalada com a postura do macho, Júlia retruca sem ofender (o que nem acho imprescindível, apenas impressionante que tenha conseguido). E ainda educa o cidadão – caso ele tenha a capacidade de aproveitar o ensinamento.

Na lenta  evolução das relações entre gêneros e no combate permanente ao machismo, depois de denunciar e expor talvez tenha chegado a hora de reagir e revidar. Ainda que isso me cause conflitos, dada minha índole pacifista e o caráter excessivamente belicoso que vivemos. Mas a imagem de uma mulher que além de se defender, também ataca –  armada apenas de inteligência e presença de espírito – tem um poder inegável.

É este tipo de imagem que precisa viralizar para denunciar o assédio – e não o assédio em si, captado em vídeos idiotas de brasileiros que insistem em nos envergonhar.

Aretha Franklin já mandou essa letra – inclusive soletrou – mas ainda é preciso ouvir a Júlia dizer o que queremos: respeito.

Helê

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#vaiterAlzirão

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Nem tudo está perdido: dois dias antes do início da Copa foi confirmada a realização de eventos na rua Alzira Brandão. Eu, que além de tijucana (por adoção) prezo pela tradição (cof, cof), gostei da notícia porque o Rio tem essa vocação para festa e para a rua. Agora sim, pode começar a Copa do Mundo.

Helê

Pastilhas* da copa

Estava achando todo mundo desanimado, mas me lembrando que achei isso em outras copas do mundo e na hora H apareceram as decorações, camisas, bandeiras. Até que minha filha me disse que não vai ter Alzirão. Se você não está ligando o nome à pessoa, essa é a mais antiga festa de rua organizada para acompanhar as copas no Rio de Janeiro, uma tradição de 78 anos. Então eu tive certeza que os preparativos e a animação para esta copa atingiram os níveis mais baixos, seja pela crise econômica ou pelas sequelas do 7×1.

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Além disso, embora pareça ter acontecido há 50 anos, a última copa foi aqui, né, aquele clima de festa, invasão de argentinos na Lapa, alemães assistindo jogo com a gente no Alzirão, Podolski parça postando no Instagram em português. Depois disso, e com a humilhante eliminação do Brasil, fica difícil se empolgar. Mesmo 50 anos depois.

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Vendo o último amistoso da seleção eu me perguntei se o bom futebol apresentado pode reverter esse quadro. Não creio: o vexame é ainda muito recente, há remanescentes atuando e estamos todos muito desconfiados – pra não dizer putos. Não por acaso, o mascote é o canarinho pistola.

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Fora a associação da camisa verdeamarela com a massa acéfala que nos trouxe a esse 2018 desesperançado e desesperador.

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Rodrigo Lasmar é médico da seleção. Que é, como deduziram os leitores da minha idade, filho de Neylor Lasmar, que foi médico da seleção em copas passadas. A CBF é a uma capitania hereditária, não é mesmo? (E a medicina também).

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Brasil x Áustria foi o primeiro jogo do Brasil que assisti desde aquela vergonha patética. Preciso aprender o nome dos jogadores, a copa tá aí nos calcanhares, e eu não posso perder os memes!

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Assisti a entrevista do Tite e percebi que estava gostando. Muito. Aí me dei conta do motivo: falta a arrogância, a empáfia e a deselegância de Dungas, Zagalos, Scolaris e quetais. Taí uma evolução gigantesca e bem-vinda.

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As viúvas da Itália (70% das mulheres que conheço) ficaram chorando a não-classificação dos bambinos. Eu quase perdi o sono com a lesão Salah – que, graças à Alá, está se recuperando.

#objetificaçãoagentevêporaqui.

 

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Enquanto a copa não chega, só há uma alternativa: segue o líder.

Helê

*Pastilhas porque, como até Pelé sabe, Drops só da Fal.

Copa(cabana) do Mundo

No dia da abertura da Copa do Mundo, indo para a casa de um amigo assistir o jogo do Brasil, torci o pé, rompi o ligamento do tornozelo (o diagnóstico é de lesão “grau 2”), e o resultado foi uma imobilização cuja consequência é uma licença médica que já entra na segunda semana. Repouso forçado é isso aí.
Sendo assim, em plena Copa das Copas estou eu trabalhando em home office e instalada na casa do namorado há quase dez dias. O filhote está de férias e botou pé na estrada (primeiro a colônia de férias, depois BH com o pai pra ver Copa do Mundo), e para não ficar sozinha em casa me aboletei por aqui.
Está sendo uma experiência interessante (para além das questões pessoais de morar junto, ainda que por tempo determinado e em circunstâncias especiais, com o moço que namoro há quase oito anos), essa de ficar confinada num momento em que todo mundo – e, digamos, todo O mundo – está nas ruas.
Mas o apartamento do namorado é em Copacabana – e Copacabana não engana.
Copacabana é a sede da Copa do Mundo. Eu que tenho visto o mundo pela janela (do apartamento ou do táxi, a caminho da fisioterapia), estou completamente absorvida pelos jovens moços que invadiram o bairro, a cidade, o país.
Aqui é uma rua pequena, ladeira de paralelepípedos, estreita, mas tem dois hostels. Já tivemos a onda dos argentinos, dos chilenos, teve um bando que falava uma língua estranha (teve jogo da Holanda aqui no Rio?), ontem foi uma turma de belgas e desde ontem à noite, incluindo esta manhã barulhenta, os chilenos voltaram. Ô povo animado!
A Fifa Fan Fest é aqui perto e eles chegam de noite alegríssimos, cantando e comemorando. E durante o dia são os grupos saindo para assistir o jogo. Às vezes ficam na calçada conversando e tomando cerveja. Uma festa bacana de ver.
Sempre compro briga com meus conterrâneos quando digo que os cariocas não são hospitaleiros – e as pessoas, de fato, não são; mas a cidade, com certeza, é.
E uma coisa que digo há anos é isso, que não sei explicar como, onde, nem por quê, mas o Rio realmente funciona bem em grandes eventos. No dia a dia é bem difícil morar aqui, mas se a proposta for produzir um show pra um milhão de pessoas na praia ou um carnaval na Rio Branco tudo sai às mil maravilhas. 🙂
Agora começou um corinho de “salve a seleção” aqui na rua. Acho que os brazucas moradores resolveram revidar.
Estar em Copa(cabana), mesmo que confinada no terceiro andar, numa rua sem movimento, nunca poderia ser sinônimo de perder o babado. Aqui, se a pessoa não vai até o babado, o babado vem até a pessoa.
Quer dizer, teve Copa, mesmo não tendo. Ou vice-versa.
-Monix-

#vaiterjogo?

Entre o estridente ôba-ôba  da rede globo, fifa e anunciantes e o engajado grito do #nãovaitercopa de Mídia Ninja, Rafuko e indígenas de boa mira, há algo que pelo que anseio: futebol. Ando saudosa de assistir bons jogos (além de envergonhada com a bolinha que meu time vem jogando). Espero que o juiz apite logo o início do jogo para que a gente se concentre no que realmente interessa – ou deveria interessar mais  – em uma Copa do Mundo: o bom e velho futebol,  bem jogado, emocionante, surpreendente, despido de todo tipo de mercadoria e discurso.

Impossível, né? A menos que os jogadores entrassem em campo literalmente despidos. E as laterais não tivessem placas de publicidade, e a tevê não enchesse de efeitos a tela em que as seleções deveriam figurar como elemento principal. Mas que, pelo menos entre um comercial e outro, haja bola rolando.

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Helê

Vibração

Por incrível que pareça, em quase 20 anos de carreira hoje será a primeira vez que sairei mais cedo do trabalho, no Centro, para assistir a um jogo do Brasil.

Na Copa de 1994, estava recém-formada e fui contratada na semana em que os campeões estavam de volta ao Brasil. No meu segundo (ou terceiro?) dia de trabalho, fui toda animada para a rua receber a comitiva dos tetracampeões (só quem viveu aquela Copa sabe o que significou vencer depois de 24 anos esperando uma seleção campeã). O atraso foi homérico. Eu estava com a garganta inflamadíssima. Trabalhava no dia seguinte (emprego novo, recém-formada, não se esqueçam disso). Resultado: à uma da manhã peguei um táxi e fui para casa. No dia seguinte todos comentavam que ficaram até sei lá que horas da madrugada, viram o sol nascer, beberam até cair e tal e coisa, e eu só lamentava não ter visto Romário e companhia. Segundo maior trauma no que diz respeito a eventos históricos, perdendo apenas para a proibição paterna ao Rock in Rio primeira edição.

Em 1998, trabalhava em TV e fiquei de plantão no Rio, para as indefectíveis matérias sobre esquema de trânsito, Alzirão, comemorações na rua etc. Vi quase todos os jogos comendo pipoca na redação com os coleguinhas.

Em 2002, estava grávida e de repouso absoluto por recomendação médica. Não podia sofrer nenhum tipo de emoção forte sob risco de precipitar um parto prematuro. Tá bom pra vocês? Super combina com Copa do Mundo, né? Tentei não acompanhar os jogos, na madrugada (Japão e Coreia, lembram?), mas foi pior: o silêncio torturante me deixava ansiosíssima para saber o que (não) estava acontecendo. Assisti à Copa deitada na cama, muitas vezes cochilando entre um lance e outro.

Em 2006, estava em Cuba. Ficava sabendo dos resultados por um turista italiano do meu grupo, que torcia deseperadamente contra o Brasil, mas, coitado, remava contra a maré: todos em Cuba eram canarinho desde pequenos. Voltei para o Brasil pouco antes do jogo fatídico de nossa eliminação.

Sendo assim, me preparo para daqui a pouco sair à rua e ver o que nunca vi: a cidade se preparando para a festa máxima da nacionalidade brasileira.

E viva o Brasil.

-Monix-

Bloqueio

Domingo, oito e meia da noite.
Desço de carro de Santa Teresa, um bairro charmosíssimo, no alto de montanhas, cercado por bairros da zona norte, zona sul e centro. E também rodeado por favelas de diferentes graus de periculosidade. Há vários acessos, todos por ladeiras de paralelepípedos de mão dupla, onde o espírito meio comunitário meio bicho-grilo que permeia as relações lá em cima da montanha se transfere com mágica para o trânsito. Se Santa Teresa não tivesse essa cultura tão peculiar, seria inviável andar de carro naquelas ruas tão anacrônicas.
Escolhi para minha descida a rua Cândido Mendes, já que a Benjamin Constant, mais íngreme e menos sinuosa, estava fechada porque caiu um poste (quem me avisou foi outra motorista que estava voltando). O carro estava de janelas abertas, coisa que só faço quando estou em movimento – quem dirige no Rio de Janeiro fecha os vidros, com ou sem motivo concreto.
No final da ladeira, um bloqueio. Quatro ou cinco homens jovens, dois deles segurando uma corda para bloquear a passagem dos motoristas. Um terceiro se dirige a mim com uma caixa de sabão em pó (vazia) na mão. Tremo. O medo é uma presença invisível na cidade, que aparece instantaneamente a cada vez que é convocado.
“Moça, pode colaborar com a pintura da rua para a Copa do Mundo?”
Ufa! Claro que sim, amigo. Infelizmente só tenho poucas moedas, mas vamos lá, Brasil-sil-sil!
Sigo em frente, e mais adiante vejo a festa, os vizinhos estendendo bandeirinhas, rabiscando o chão com giz para receber a tinta verde e amarela sobre os desenhos preparados com carinho.
Lamento me sentir tão refém do pânico. Lamento pelos rapazes, que devem estar arrecadando bem menos dinheiro do que poderiam. E no fim das contas, temo pela segurança deles, que repousa fragilmente sobre motoristas apavorados com pelo menos uma arma na mão – o próprio carro. Sem falar na possibilidade de outra, no porta-luvas. Torço para que sejam protegidos, que consigam enfeitar sua rua, que a festa continue.

-Monix-

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