Notas da quarentena

**Na newsletter que enviamos no dia 11 de março eu comentei rapidamente sobre o abraço do Dr. Dráuzio e suas repercussões: a onda de solidariedade, num primeiro momento e, em seguida, uma tsunami de ira e indignação. Na despedida, desejei a todas e todos muitos abraços e nenhuma tsunami.

Mas ela veio.

E varreu, além da normalidade, a possibilidade de abraços.

Rio de Janeiro, RJ
Foto: Ana Carolina Fernandes @culafernandes para o coletivo @covidlatam. Grafite @nogenta_ e @contraconsciencia

** Impressionante como esse episódio do Dráuzio, que mobilizou tanto e sobre o qual eu escrevi menos de um mês atrás, parece agora algo muito distante. Deve haver até mesmo os que não lembravam. Talvez a mudança mais imediata e radical que estamos experimentando seja nossa relação com o tempo.

** Como os marcos cotidianos estão suspensos ou alterados – trabalho, escola, lazer – todo mundo confunde se hoje é segunda ou quinta, todo dia é um tal de “Comassim, meio-dia?!” e “Mas já é nove da noite?” Os dias se arrastam mas as horas voam, as semanas se misturam e a tarefa de contar o tempo perdeu os referenciais coletivos.

** O tempo também se altera em função do espaço. Dizem que estamos a uma ou duas semanas de viver o que aconteceu com a Itália — estamos, portanto, no passado deles. Alguém nos Estados Unidos alerta: “Lembre-se que estou duas semanas à frente de vocês, em termos de pandemia”, como se mandasse um recado do futuro.

** Certo está o tuíte que disse: só existem três dias na semana: ontem, hoje e amanhã.

** Participo de pouquíssimos grupos de whatsApp. Meu favorito eu admiro, entre outras coisas, porque só fala quando necessário — por necessário entenda-se desde unha lascada até crise na Gávea, o nosso conceito de necessário. Que exclui ‘bom dia, grupo’ e memes e textões que todo mundo já viu. Pois bem, nesse grupo agora conversamos todos os dias, às vezes em vídeo, sobre as coisas mais comezinhas. “Hoje a máquina quebrou”, “Meu marido cozinhou feijão no dia errado”, “Fiz frango e deu certo”. Numa situação extraordinária fortalecemos nossos laços reforçando normal, o cotidiano.

**Falo com minha mãe por vídeo quase todos os dias, faço a ronda dos amigos, como mensagens periódicas para saber se estão todos bem, seguros. Não consigo terminar um e-mail, telefonema ou zap sem dizer no final: se cuida. E o coração aperta.

**Da série banalidades: eu agradeço sempre que pandemia caiu depois do carnaval. E que eu faço aniversário no segundo semestre.

** Eu, que sempre apreciei os momentos que em que o mundo parece uma vila – olimpíadas, casamento real , final de Game of Thrones – percorro o noticiário internacional entre angustiada e curiosa, querendo compreender de que maneira pessoas distantes estão vivendo a mesma ameaça (ainda que em “fusos” diferentes). Observo a política (e as politicagens), as inflexões culturais, e as histórias gentis. Guardei com carinho a delicadeza dessa: no auge da crise em Wuhan, o Japão doou para a China centenas de máscaras de proteção; nas caixas havia um verso em chinês: “Embora em lugares diferentes, estamos sob o mesmo céu”.

**Não sei se nos salva da extinção, mas ao menos uma sobrevida o jornalismo ganha com essa pandemia. Arrisco dizer que, nas atuais circunstâncias, os jornalistas só perdem em importância para os profissionais de saúde.

**Lembre: você não está trabalhando de casa. Você está em casa durante uma crise tentando trabalhar.

Rainha Elizabeth II fala sobre a pandemia de coronavírus: "Dias ...

**A fragilidade dos velhos e o susto dos mais novos me fincou na posição de adulta. Aí quando vi Betinha dizendo que tudo, tudo, tudo vai dar pé eu me emocionei. Tá, eu sei que não era comigo, nem súdita dela eu sou. Mas eu, que desde o começo busquei tranquilizar os meus, ainda não tinha ouvido aquilo que disse mais com esperança do que convicção. Foi reconfortante ouvir de alguém mais velho e experiente, uma vó, que vamos superar. Foi bom, por alguns instantes, não ser o adulto.

** Quando é que a gente vai se abraçar novamente?

Helê

 

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