Estado de exceção

Li o surpreendente e primoroso “Fim”, da Fernanda Torres; assisti quase de uma vez à primeira temporada de “True Detectives”; ouvi e degustei como nunca antes o disco de blues do Hugh Laurie. Tudo no mesmo curto espaço de tempo, sem intenção ou planejamento. Só depois percebi certa familiaridade entre as obras, um degradée  de sombras, uma vibe meio dark. Não é meu elemento, por assim dizer. Mas pouco depois vi “Divertidamente” e reconheci que a tristeza também tem seus méritos.

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Um dos incômodos de ter um grande problema, um Problemão – como,  digamos, estar desempregado –, é que sua mente fica monotemática e você pensa muito sempre no mesmo assunto, o que gera cansaço e desgaste incríveis. Que ninguém entende muito bem porque você, afinal, não está fazendo nada.

Outro aspecto terrivelmente desagradável é que os  probleminhas não se intimidam nem dão trégua (o que seria justo, se a vida também fosse). Eles se apresentam indiferentes e em fila, então não bastasse precisar tratar da sua recolocação (o eufemismo da vez),  o ralo do tanque entope definitivamente, a coroa do dente cai , o computador fica mais lento que o Rubinho, o filho não atende o celular nem responde mensagem. E você no meio, tentando ser otimista .

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cv

Quando você procura emprego – e precisa realmente de um, não está experimentando ou redirecionando a carreira –  encontra trabalhos, empresas, pessoas diferentes, funções que você nem imaginava que ou como existiam. Vai a lugares na cidade onde nunca esteve. Como o currículo deve servir de ponto de partida e ser adaptável de acordo com as oportunidades, a todo momento você precisa a se redefinir, enfatizar habilidades diferentes, destacar um experiência em detrimento de outras, um exercício revelador . Claro que há muita bobagem também, a cara de pau abunda, como se sabe.  Mas em meio a angústia quanto ao futuro, há também novidade, descobertas, e você percebe o quanto o mundo se estreita quando você inicia um emprego. Sua visão forçosamente se enquadra e deixa de fora assuntos, áreas, possibilidades. Poderia ser uma fase interessante e enriquecedora se não viesse acompanhada de tanta insegurança e instabilidade. Seria bom, se não fosse tão ruim.

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Parei de beber água; às vezes boio, outras nado um pouquinho, ainda afundo vez ou outra. Eu me sinto sem margem, o que me angustia profundamente: preciso delas, saber que existem, para que lado estão. Gosto de piscina com raia e de cadernos pautados. Não enxergo margens mas não me sinto à deriva – tenho faróis: tenho amigos . E o personagem mais infeliz e descrente de True Detective encerrou a série dizendo, sobre o embate entre luz e escuridão:  “Well, once there was only dark. You ask me, the light’s winning”. Se ele acha, quem sou eu pra contariar, não é mesmo?

RUST-6

Helê

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Em meses de desemprego…

. fui entrevistada para trabalhar numa fábrica de armas não-letais,

. visitei um Criad e vi mudanças no Degase;

. participei de uma seleção em que oito das dez candidatas usavam preto & branco (fora eu e outra ousada),

. aprendi a preencher um recibo de RPA;

. descobri a diferença entre marinha mercante e militar e também o que ‘prático’ é uma profissão;

. fiz um frila para a melhor colônia de férias do Rio, o Gato Mia;

. escrevi sobre os perigos da toalha molhada, como escolher seu criado mudo, as melhores cortinas, campeonato de videogame, conservando seu edredom;

. levei meses para receber por um serviço;

. dei uma palestra sobre raça & gênero, com powerpoint e tudo, e o roteiro foi feito a partir de posts e uma pleilist publicados aqui;

. recebi  a big help from my friends, as usual,

. e também a solidariedade de gente que nunca me viu, como a generosa Daniela Arrais;

. entre essas pessoas está a Maria Amélia, que me ensinou a cobrar pelo meu trabalho tendo em mente esta pérola : “Não me peça de graça a única coisa que posso vender”.

Foram meses de incerteza e temor, cujos aprendizados e cicatrizes ainda se fazem sentir. Talvez a gente nunca se recupere totalmente do rombo na autoestima, e persista uma vaga insegurança, uma permanente intranquilidade – que a gente tem que domar e transformar em inquietação criativa e propulsora, evitando a paranoia. Mais uma tarefa complexa nessa brincadeira sem volta de ser gente grande.

Helê

PS: Este post não deve ser lido separadamente – o comentário do Chris complementa e enriquece a conversa – porque vocês sabem, conversar com os leitores é a nossa pretensão mor 😉

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