Lula lidera

O malabarismo da imprensa para não dizer que Lula lidera as intenções de voto com 37% – é, perdoem o meu francês, de cair o cu da bunda. Eu vi as primeiras páginas dos jornais nacionais e há alguns, como a Falha de S.P e o Abestado de Minas*, que sequer citam a pesquisa. Os que citam Lula, quase todos, o fazem em referência ao 2o colocado, que alguns veículos dizem liderar. Sim, o “segundo lidera”, vejam vocês. Em que pese a provável impugnação da candidatura Lula, ao que me consta 1) hoje ele é candidato, como todos os outros e 2) é fato jornalístico de grande relevância que um candidato preso, há quatro meses sem nenhuma aparição pública, tenha mais votos que os quatro candidatos atrás dele somados.

O que disparou meu alarme foi o comedido Canal Meio, cuja newsletter eu assino, sapecar a manchete “Bolsonaro tem 20%. Marina, 12%; Ciro, 9%”. E o Lula foi aonde?, meu pai?! Se o Meio tá assim…fui ver alternativas aos jornalões.  O Nexo publica uma matéria sobre como ler as pesquisa, o que me parece oportuno, e mantém a coerência com a linha editorial deles, mais analítica que factual. Nas fontes estrangeiras, que utilizo quando quero me informar, a BBC não repercute a pesquisa (mas ela não tem mesmo uma pegada noticiosa); a Deutch Weller é a única que faz o básico (Lula lidera intenções de voto); El país procura dar um cenário amplo, mas sem omitir o que não pode ser omitido (“Ibope: preso, Lula reforça liderança. Sem ele, Bolsonaro tem 20% e Haddad, 4%).

Se ainda for necessário embasamento para a importância jornalística da liderança do candidato petista, o G1 destrincha a pesquisa por sexo, idade, escolaridade, renda, região, religião e raça. Lula lidera com maior ou menor folga em quase todos – só tem um empate com o milico entre os eleitores com ensino superior. Mas ninguém destacou isso na primeira página dos jornais ou nas telas de desaque das homes; no contorcionismo da chamada do G1, Lula e o candidato com 18% de intenções de voto parecem mais próximos do que realmente estão; afirmam que Lula lidera em 3 regiões e empata tecnicamente em duas (que eu sinceramente não identifiquei quais seriam).

Quer dizer: de cair o cu da bunda.

Resultado de imagem para pesquisa ibope

Helê

*Contribuição sábia da leitora idem,  Vera Guimarães ;-) .

*Pideite: La Otra escreveu um ótimo artigo no Linkedin sobre temas correlatos, “A desinformação como efeito do novo ecossistema de informações“. Leia, vale a pena; entre outras coisas interessantes ela diz: “a única solução eficaz para combater a desinformação é educar o público para consumir informações de forma crítica“. É isso.

 

Nós votamos Dilma

Se é que isso não ficou claro antes.

Monix, aliás, já havia se posicionado  neste post aqui, ó.

Duas Fridas

Médici ou Gandhi?

Foto: Márcio José da Silva, disponível no site www.chicoalencar.com.br

Essa foto é incrível. Expressa perfeitamente um dos princípios mais caros da democracia, que é a convivência de contrários. E que contrários! O senhor da esquerda (na foto, apenas na foto!) é o deputado Jair Bolsonaro, de extremíssima direita. O da direita (apenas na foto, insisto!) é o deputado Chico Alencar, representante da esquerda democrática e libertária, considerado um dos melhroes parlamentares do país. Ambos são eleitos pelo Rio de Janeiro. Coincidiu de panfletarem no mesmo dia, no mesmo local – o calçadão de Copacabana –, usando camisas com personagens que, por motivos diferentes, marcaram seus nomes na História: um tornou-se símbolo do momento mais cruel da ditadura brasileira, redator daquela “página infeliz da nossa história” a que se refere (o grande) Chico Buarque, de tempos de medo e de tortura; outro é o símbolo mundial da resistência pacífica (e vitoriosa) a regimes antidemocráticos.

Tais como Eros e Tânatos, os princípios e ideias representados por estes personagens continuam muito vivos na política brasileira e mundial. E não nos enganemos: não são poucos os que vestem a velha camiseta com a estampa do Médici por baixo do uniforme de democratas…

Christian Morais

Mais um participação de um de nossos top leitores, o Chris.

Em tempo 1: Chico é meu candidato a deputado federal (PSOL 5050).

Em tempo 2: La Otra, quando viu a foto, espantou-se: “Tem alguém que usa uma camisa do MÉDICI???? Mesmo sendo o Bolsonaro, cara, é inacreditável.”

Poizé.

Helê

Voto proporcional ou Como Judas se dá bem

O chamado “voto proporcional” é uma das maiores aberrações do sistema eleitoral brasileiro. Diferentemente do voto majoritário, no qual o candidato que obtiver mais votos está eleito, o voto proporcional utiliza um malabarismo numérico – uma espécie de equação – para calcular “proporcionalmente” quem foi eleito, tomando como referência a quantidade de votos válidos e a quantidade de votos recebidos pelos partidos e pelas coligações partidárias, redistribuindo-os internamente. Em outras palavras, você vota em Jesus, mas, por tabela, também elege Judas, que faz parte da mesma coligação ou partido do Crucificado e se beneficia com a “sobra” de votos dele. E o pior: se Jesus estiver num partido pequeno, mesmo que receba milhares de votos a mais do que Judas, que está num partido grande, corre o risco de não se eleger, porque seu partido não teria obtido o tal coeficiente eleitoral. É totalmente absurdo.

O sistema proporcional é usado na eleição de deputados federais e estaduais e vereadores. É por isso que, com frequência, a população não se reconhece nos parlamentares eleitos. É porque, na verdade, não votou neles. Quase ninguém lembra disso na hora de votar. E adivinhe por que ninguém divulga esta questão (nem o TSE!) ou toma alguma iniciativa para acabar com isto…

O cientista Jairo Nicolau explica bem melhor neste texto: Como votar para deputado.

Do sempre perspicaz Christian Morais, um de nossos top leitores. Por essas e outras.

Atenção no voto, pípol.

Helê

Ainda eleições

Pois é. Percebia-se no Rio de Janeiro ontem, um dia após a eleição municipal, um clima de ressaca amarga – pelo menos para os 49% de eleitores que votaram no Gabeira e viram a derrota ser decidida por míseros 55 mil votos. Considerando que mais de 900 mil elitores deixaram de votar, há muito o que lamentar. E haveria muito o que aprender e repensar, mas tenho dúvidas profundas sobre a capacidade dos políticos cariocas, em especial os de esquerda – seja lá o que isso signifique  atualmente – de reciclagem e humildade, tão necessárias para o exercício da (boa) política.

Resta-me agora acompanhar, com algum interesse e grande curiosidade, as eleições americanas. Entendo nada da política daquele país – disso sabe o mestre Idelber – e não tenho grandes ilusões a respeito do Obama. Visto daqui, ao sul do Equador, ele  é, antes de tudo,  um americano.

Mas para o imenso contingente de afrodescendentes daqui e de lá, ver um negro na presidência dos Estados Unidos possui um espetacular e inegável apelo simbólico. Como se vê nessa fotografia precisa de Callie Shell complementada pelas informações da legenda:

© Callie Shell / Aurora for Time: These two boys waited as a long line of adults greeted Senator Obama before a rally on Martin Luther King Day in Columbia, S.C. They never took their eyes off of him. Their grandmother told me, "Our young men have waited a long time to have someone to look up to, to make them believe Dr. King's words can be true for them." Jan. 21, 2008.

A fotógrafa acompanhou o senador Obama em campanha nos últimos meses. Tendo trabalhado  por alguns anos na Casa Branca, procurou nesse trabalho fugir das poses estudadas e dos sorrisos burocráticos, privilegiando flagrantes (tanto quanto isso é possível com um político) e bastidores.  O resultado reúne fotos belas e inusitadas.

Veja mais em Travels with Barack e em Portrait of a candidate .

Helê

Eleições – agora um assunto

Bom, como sempre, houve o que comemorar e o que lamentar. Como eu prefiro, de um modo geral, look on the bright side, comemoro:

– Maluf derrotadíssimo em São Paulo

– Crivella fora do 2º turno

– Acêemezinho fora do 2º turno em Salvador

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No domingo à noite os “analistas” da Globonews repetiam à exaustão que os números de Gabeira se deviam ao fato de que as urnas dos subúrbios ainda não tinham sido computadas. Tá. Isso com 45% de apuração. Só que com 75%, o papo era o mesmo, e aí começou a pegar mal.

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Aliás, a Mônica Coringa Waldvogel entrevistou um so called especialista, que eu esqueci o nome, que começou a analisar as eleições paulistanas, dizendo que o 2º turno é uma outra eleição, que é quando se desenham as alianças… Mudei de canal. Ah, fala sério, precisa ser cientista político pra dizer isso?

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Sim, o Chico Alencar tem razão, foi uma eleição despolitizada, fria. Não se via muitos adesivos, bottons, nem se falava muito sobre eleições no Rio, a bem da verdade. Agora a coisa vai mudar de figura, acho que a candidatura do Gabeira tem potencial pra empolgar, e o outro vai pegar pesado, embora tentando fazer de conta que não. Quer ver como? A capa do Globo de hoje estampa o outro fazendo campanha e o Gabeira saindo da piscina do Flamengo, onde nadou ontem pela manhã. Nada de mais, né? É, pode ser. Mas eu achei que era uma maneira de citar a história da tanga sem citar. Ou, no mínimo, mostrar um trabalhando e o outro não.

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E eu dizia ontem pro Luba que o Gabeira conseguiu trocar a imagem de porra-louca-zona-sul pela de político sério, utilizando de modo inteligente – e incessante – o vídeo do discurso dele contra o Severino Cavalcante na campanha da tevê. Hoje de manhã o Lu dizia “É, eu acho que ninguém vai usar essa história da tanguinha, ninguém vai usar uma baixaria dessas…” Aí eu vi a capa do Globo e pensei: usar a tanga não, mas fazer uma alusão…

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Aliás, o Globo se esmera no reacionarismo, né? E vem chumbo grosso por aí, podem aguardar. A manchete do dia das eleições era uma imensa foto da favela do Vidigal e a pergunta “Quem vai dar um jeito nisso?”.  Uma ode ao preconceito, não? O que é “isso”, exatamente? As favelas, os “favelados”?  As favelas que se expandem pela zona sul da cidade – porque o Vidigal e não o Complexo do alemão, por exemplo? Na zona norte pode? Como é que um chamado grande jornal se refere dessa maneira desrespeitosa, pra dizer o mínimo, ao local de moradia de cerca de 20% da população carioca – e de 35% da população brasileira?

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Na Tijuca, Gabeira deu de 45% a 25% no outro. Fiquei feliz com meu bairro.

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Lembrancinha: Gabeira foi incentivado a se candidatar, e a primeira vez que ouvi falar sobre a candidatura dele foi aqui na blogosfera. Só pra registrar.

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E voltando ao post de domingo: pensei depois que eu mudei meu título quando estava grávida da minha filha; votei de barrigão no Lula em 2002 (e fui pra Cinelândia comemorar com um barrigão ainda maior). Repeti o voto em 2006, e dessa vez ela apertou o confirma e apontou feliz da vida pra máquina: “Olha o Lula, mãe, o nosso Lula!”. Domingo lá fomos nós outra vez votar juntinhas. Pensando bem, às vezes umas tradições precisam morrer pra dar lugar a outras.

Helê

Onde você vota?

Dia de votação em geral é um dia meio festivo, pelo menos aqui no Rio de Janeiro. Parte disso creio que se justifica porque ainda permanece a memória de quando isso não era permitido, e o ato de votar tem um sabor de conquista, mais do que direito e dever. Mas há outro fator, não-político, que contribui para esse clima alegre: a maioria das pessoas que conheço vota no bairro em que foi criado, ou no mesmo bairro que morava quando tirou o título de eleitor. E fazem questão de manter assim, pois abrigam-se, a cada dois anos pelo menos, a rever amigos, lugares, histórias. Mesmo que isso signifique atravessar a cidade e que eles se prometam “Vou mudar meu título!”, na próxima eleição lá estão eles, atualizando a conversa na fila da urna.

Há cinco anos eu mudei de zona eleitoral, e sou uma exceção por votar no bairro em que moro. Acontece que eu tirei o meu título com o endereço da minha vó, em Marechal Hermes, para ter um pretexto para vê-la, nos dias de eleição. Porque quando você tem 18 anos não pensa que a sua vó vai morrer um dia – muito menos o tio querido que mora com ela. Depois que eles se foram, o efeito foi contrário, e votar passou a ser doloroso, um desnecessário lembrete da ausência. Então transferi meu título para Tijuca, mas de dois em dois anos eu tenho que contar essa história pra alguém, porque todo mundo se espanta por eu votar tão perto. Mas hoje dói menos, ou dor se acomodou num cantinho; ficou a lembrança deles e da minha ingenuidade.

E você, vota aonde?

Helê, pautada pela Dedéia, que ouviu minha história e achou que dava um post.

PS: Votarei no Gabeira e no Eliomar, mas sem nenhuma paixão. Chato votar assim, viu?

A máquina eleitoral

Março 27, 2007



Certa vez, meu ex-marido (na época em que era atual, enfim, vocês entenderam) encontrou, num restaurante, com oengenheiro Leonel Brizola. (Considerem que esse encontro se deu antes do Brizola passar desta para a melhor – não foi um encontro sobrenatural). Com a cara de pau que Deus lhe deu, foi cumprimentar o ex-governador, que, aproveitando a platéia formada pelo grupo que o acompanhava (ao meu ex-marido), disse: ando muito preocupado com a máquina eleitoral. Todos concordaram, muito graves, pensando nas tramas políticas e no esquema que todos conhecemos de troca de votos por favores ou badulaques, mal que assola o país desde que o primeiro português ofereceu o primeiro espelho ao primeiro índio. Mas não era a essa máquina eleitoral que o engenheiro se referia. Ele estava falando literalmente da “máquina eleitoral”, também conhecida como urna eletrônica, que na época começava a ser implementada em alguns distritos eleitorais em caráter experimental.
Eu, que nunca fui brizolista, ao ouvir essa história realmente tive que admitir que Brizola tinha razão. De fato, o princípio básico da confiabilidade num sistema eleitoral é a possibilidade de recontagem de votos, como o próprio Brizola aprendeu da pior forma. E a urna eletrônica elimina essa possibilidade.
Nem vou falar de outras questões que de lá para cá me ocorreram, tão graves quanto essa. Por exemplo, o alto índice de “analfabetismo tecnológico” da população brasileira, e não me refiro apenas aos grotões, sertões e valões.
O fato é que desde então nunca me conformei com esse discurso que pressupõe a confiabilidade das urnas eletrônicas, como um dado inquestionável. E o pior: toda vez que tocava no assunto, era massacrada, como se fosse um retrógrada que não aceita o progresso (logo eu, com todo meu ascendente Aquário em franca ebulição).
Agora, finalmente, parece que o assunto está sendo discutidocom o grau de questionamento que merece. Não digo que o método é ruim – sim, eu me lembro da complicação que era a apuração dos votos em papel, já fui mesária e sei dos problemas, das filas, etc e tal. Só acho que não dá para resolver um problema criando outro. E, cá entre nós, esse argumento de que a única eleição do mundo totalmente informatizada é a nossa, como se isso fosse motivo de orgulho, sei não… Se o mundo inteiro faz diferente, isso significa que o mundo inteiro está errado e só a Justiça eleitoral brasileira está certa? Com todo o respeito, sei não.

-Monix-

Em tempo: não conheço o deputado em questão, não sei se é sério, que interesses o movem. Mas acho a discussão válida, de toda forma.

Outubro 19, 2006

Ai, Helê, jura que eu vou ter que confessar meu voto pra governador aqui? Tudo bem, por você eu tomaria banho gelado no inverno, então vamos lá.

Eu tenho um critério para votos no segundo turno, e costumo segui-lo, há muitos anos, por isso raramente anulo meu voto (mas já anulei – e me arrependi). A eleição em dois turnos é feita para que na primeira etapa os eleitores escolham a melhor opção e, na segunda, bloqueiem a pior alternativa. Essa é a idéia.
Meu critério é simples: entre um candidato com história política, qualquer que seja, e um candidato que se enquadre no que eu chamo de “arrivista”, ou seja, aquele que acabou de chegar, eu sempre fico com o primeiro. Se tem uma coisa que eu realmente não compro é esse discurso da despolitização da política. Fulano é um ótimo administrador, é sério, etc e tal. Ok, então quando eu for presidente de uma multinacional, contem comigo para contratar Fulano para Diretor Financeiro. Mas estou votando para governador do meu estado. Quero alguém que saiba o que está fazendo. E sim, amigos leitores, por pior que soe aos nossos ouvidos traumatizados, essa criatura estará fazendo política. Exemplo: entre César Maia e Luiz Paulo Conde, voto no primeiro, tapando o nariz, porque com certeza tem muito mais estrada que o segundo.
Segundo esse meu critério, votarei no Sérgio Cabral. A juíza que me desculpe, mas vai ter que comer muito feijão com arroz ainda pra ganhar meu voto. Não me orgulho disso, não faço campanha, não recomendo, mas a sócia perguntou e eu não podia me furtar a dar meus motivos.

-Monix-

Polarização

Não tô gostando nem um pouco da polarização que parece dominar o clima da campanha presidencial. Não lembro de ter sentido os ânimos tão acirrados nem nas eleições de 1989, quando até se justificava uma certa tensão no ar, visto ser aquele o primeiro pleito presidencial após tantos anos de ditadura militar. Essa história de nordestinos versus sulistas, ricos contra pobres, sei não, isso não vai acabar bem. Que tal baixar um pouco o tom, minha gente? Todo mundo quer o melhor para o Brasil, a seu jeito. Podemos discordar na forma, mas o objetivo final é o mesmo. Não é caso para levantar tanta poeira. Eu acho, pelo menos.
-Monix-

Valeu, Juju, pelo link. (Não deixem de clicar, é impressionante.)

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