Descompasso

Uma conhecida me falava sobre a felicidade de, depois de trabalhar com produção, estar em uma escola, lidando com o dia a dia das crianças. Elogiava a concretude do trabalho: “Você vê o resultado do que faz na hora”, ela concluiu, empolgada. E eu concordei, alegando que todo mundo que trabalha com esta vaguidão chamada cultura sente falta disso. Disse a ela: “Às vezes eu queria, sei lá, fazer uma mesa de madeira igual a essa em que estamos, produzir algo real.” Conversa vai conversa vem, logo depois me peguei falando entusiasmada do quanto eu gosto de mexer com texto, com tudo o que lhe diz respeito: escrever, revisar, editar, aprimorar, adaptar. “A carpintaria” eu disse, usando uma metáfora recorrente, que naquela conversa soou redundantemente divertida. Percebi que meus textos são as minhas mesas – ora rústicas, ora elegantes; largas ou aconchegantes, sempre convidativas, generosas. Sobre elas gosto de servir, alimentar, celebrar, apoiar e agregar. E quando possível, tento decorá-las da melhor maneira, com beleza e sem frescura,  com aconchego e alegria, cores e amor.

Mas nasci em tempos de fast-food.

Helê

Do processo de auto-exposição, ou “o trenzinho do meu ego”

Me perguntaram se não acho estranho escrever no blog, para pessoas que não conheço, não sei quem são, nem onde estão. Olha, na verdade eu nunca tinha pensado nisso, por incrível que pareça. Sou jornalista, e fui treinada para escrever com o objetivo de informar ao público, em tom neutro e objetivo, etc etc.
Quando comecei a namorar a possibilidade de criar um blog, o que me moveu foi a descoberta de um texto novo, que eu nem sabia que seria capaz de escrever. Escrevendo, passei a conhecer emoções e opiniões que, mesmo sendo minhas, eu nunca soube que estavam lá. Passei a observar coisas do cotidiano com outro olhar. Passei a elaborar meus pensamentos de outra maneira. E é até meio envergonhada que confesso: passei a viver meio obcecada com o próximo post.
É claro que é muito legal saber que já temos uma “audiência” fiel; que muita gente que não nos conhecia vem ao blog por links em outros blogues; que pessoas de vários cantos do mundo chegam até aqui; que mais que leitores, fizemos amigos por causa deste blogue. É bom demais ler os comentários, é bom demais receber e-mails, é bom demais saber que vocês estão aí. Mas a brincadeira começa aqui dentro, de mim para mim mesma.
Quem está chegando agora pode entender como tudo começou ou dar uma conferida na genial definição da Angela. Enquanto isso eu fico aqui pensando se existe alguém mais incoerente que eu nesse mundo. (A pessoa diz que escreve pra si mesma e passa três parágrafos conversando com leitores imaginários. Podem internar.)

– Monix –

Publicado originalmente em 12 de setembro de 2005

À Moda Antiga

Sempre me espanto quando me dou conta da rapidez das transformações que estamos experimentando no curto intervalo de uma vida. É verdade que, nascida em 1970, já vim ao mundo em velocidade acelerada. (Lembram-se das aulas de física? Eu não. Mas sei que aceleração não é a mesma coisa que velocidade, e é disso que estou falando.)
Mesmo assim, ainda me surpreendo pensando em quantas coisas que foram cotidianas na minha infância, na adolescência e até no início da minha vida adulta, e que para o meu filho serão (já são) totalmente estranhas. Toca-discos, abridores de garrafas e cascos retornáveis (esses deviam voltar, em nome da correção ecológica), fichas de telefone, alfinetes de fralda e calças plásticas, enfim, a lista é infindável, quem quiser fique à vontade para acrescentar suas memórias aí nos comentários. Muitos desses itens que se tornaram obsoletos não fazem a menor falta, ou foram substituídos por outros mais eficientes.
Mas uma coisa que dá saudade é receber cartas.
Eu comecei cedo a me corresponder. Minha madrinha morava em outra cidade, e ainda pequena gostava de escrever para ela.
Até hoje guardo quase todas as cartas e postais que recebi ao longo da vida. No início desse ano, arrumando as caixas da mudança, reli muitas delas. Foi bacana. Gostei de reconhecer as caligrafias das pessoas, observar as dobras no papel, os envelopes, os selos. Lembrei de amigos que estava bem perto de mim por escrito, mas que com o tempo se afastaram em carne e osso. Descobri que algumas amizades ficaram mais sólidas com a distância, intermediadas pelo papel – mesmo que depois tenham desaparecido, porque o tempo passa e essas coisas acontecem. Constatei pelo menos um caso em que meu amigo, que aqui era apenas mais um, ficou especial a partir de uma mudança de cidade, porque aí passamos a ter nossas cartas para nos aproximar.
Há menos de dez anos o e-mail entrou na minha rotina. Aos poucos, ele foi substituindo a correspondência, os cartões de Natal (eu enviava uma lista enorme todos os anos) e até os postais. Meus contatos migraram para o espaço virtual. Hoje é mais fácil falar comigo via web que por telefone. É claro que também arquivo minhas mensagens. No dia que quiser escrever minha autobiografia, é só abrir o Eudora que está tudo lá, desde 1999.
Fiz amizades digitais, que são muito importantes para mim, na internet. Todos os dias escrevo e recebo dezenas de e-mails pessoais (sem contar correntes, piadas e spams).
Aí aconteceu o imponderável – sempre ele – e, de repente, quase sem perceber, voltei a receber cartas. Cartas de verdade, entregues pelo carteiro, com envelopes coloridos, letrinhas desenhadas, presentinhos, aerogramas, cartões de Natal aos montes. Ao guardá-los, me dei conta de que só quem me escreve hoje em dia são minhas amigas “da internet”. Não é curioso?
Domingo fui me encontrar com a Naty e tive uma bela surpresa. Ela veio de Teresina trazendo um delicioso Bolo Verde feito com todo o carinho pela Aline, que mandou junto uma carta dobradinha em forma de camisa (vejam na foto aí embaixo). Dessa vez o carteiro foi substituído por um lindo pombo-correio, mas o efeito foi ainda melhor. Obrigada, Aline, você é tão fofa quanto a massa do bolo. 🙂

-Monix-

Trilha sonora do post: E.C.T.

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