Sob o sol de Libra

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fe4a4d263dd559b5b9bc397c6e9edbd6 (Encontrado em choklatte-shoppe-4u.tumblr.com)


Sobre esse lugar in between, privilegiado e  kinda angustiante, der ser mãe e filha e de estar mais ou menos no meio da vida. A proto adolescente, como sempre falando 17 assuntos por minuto,  comenta, naquela zona nebulosa e brilhante entre o sério e o divertido, que  uma das maravilhas de crescer vai ser não ter que contar pros pais que tirou nota baixa. Porque,  tipo, se não conseguir, assim, entregar um relatório no trabalho, quando eu for adulta, qualquer coisa assim, não vou  precisar contar pra pai e mãe, que é tipo, uma parada mega tensa!. E concluiu com a seguinte frase: “Porque é muito ruim precisar da aprovação de pai e mãe, cara!!!”

Entendi o que ela disse com o coração, que chegou a pesar, dividido feito uma laranja. Minha reação foi pegá-la no colo – ou o mais próximo disso que ainda consigo -, e responder como filha, como quem entrega um segredo: “O problema é que a gente passa a vida toda esperando a aprovação dos pais”. Ela arregalhou os olhos: “Sééério???” E seguiu direta e reta, como de costume: “E você procura aprovação do seu pai até hoje?!?!” Desviei como quem esquiva de um golpe de capoeira e completei a resposta anterior, agora como mãe, fazendo um cafuné: “Acontece que vocês são muito bobinhos que não sabem que a gente sempre aprova vocês em tudo!”. Risadas, carinhos  e logo 27 novos assuntos inundaram a sala. Embora eu siga até agora librianamente dividida e tocada por essa conversa despretensiosa de uma segunda-feira idem.

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(por valeriahernan em Flickr)

Helê

Mothernidade 2.0 ou What’s up: como usar

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Helê, mãe – mas pode me chamar de Google

Plano

Então eu estou gribada, como já disse alhures. Nada grave, só muito atchim!, saúde, brigada. E moleza no corpo, sem correr 😦  e com mais carência que a média diária permitida por lei. E começam os muitos compromissos nessa época do ano, os inescapáveis, os ininputáveis, os que caem no seu colo e você nem sabe como; providências, caixinhas, decorações precoces como ejaculações, a primavera virando verão, esse mormaço horroroso, coisas que me deixam um tanto atarantada, em resumo. Daí que eu tinha hoje que ir a um “show de talentos” na escola da filha.  Que se apresentaria – mas ela não quis adiantar nada sobre o número. Tá, vou tentar sair mais cedo (do trabalho), chegar mais tarde (no show), comprar o quilo-não-perecível no caminho, saúde, atchim!, obrigada, não necessariamente nessa ordem. Confesso que não me preocupei até que comentei com alguém no trabalho, que fez uma cara de o-que- é-que-essa-menina-vai-aprontar? Minha filha pré-adole criativa e desinibida poderia fazer qualquer coisa, indeed.  Não chegava a ser caso pra ficar nervosa – nem dava tempo. Deu, claro, para alguma culpa (sempre!), e rápido debate mental inconclusivo (“Como assim eu não sei? Devia ter insistido pra saber. Ou não, né, dar liberdade e confiar, não é assim que faz?). Ok, me internem (na ala das mothens, please). Mas nessas horas o que me salva é o meu senso prático: ao invés de me perder em elocubrações eu adoto uma política de redução de danos. Preciso de um plano, e logo que formulo um, relaxo. Seja lá o que for que essa criança inventar, se nada der certo, o que eu faço? Subo no palco com ela, como em “Little Miss Sunshine”. Pronto. Atchim!, saúde, brigada.

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Helê

PS: Nem foi preciso 😉  .

Só as mães são felizes?

Então liguei para casa para avisar que já estava chegando, num horário em que a pessoa [já nem tão] pequena costuma estar pronta para a escola. A primeira ligação caiu na secretária eletrônica, chamei carinhosamente por ela; na segunda, secretária de novo, comecei a ficar brava, mas me controlei; na terceira já estava p*ta, imaginando a pessoa ouvindo música alta enquanto minha preocupação aumentava na mesma proporção. Em resumo, foram 10 ligações até chegar, abrir a porta, chamar,  a pessoa não responder  e a alma deixar o corpo por instantes infinitos. Entre a porta de entrada e o quarto, separados por menos de quatro passos, o que a pessoa [que deveria ser] grande pensa? Caiu no banheiro, bateu a cabeça e está desacordada. Claro. Aí depara-se com a inocente  dormindo. E só então percebe que sequer cogitou a hipótese extraordinariamente provável de a criança ter perdido a hora.

Quer dizer.

Você, companheira mãe, não se engane. Você ainda é aquela que acordava de madrugada pra ver se o bebê tava respirando. Muda o berço, o bebê (um pouco) e a hipótese, mas você é a mesma. Sua mente continua dotada de velocidade supersônica de pensar merda. Mãe: uma condição que não tem cura.

Cá entre nós: ainda bem 🙂 ♥.

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(mother and son, 1962 • walter chappell do Ilpost.it)

Helê

Dura Lex ou a Menina e a Lei

Deve ser a idade, não sei, mas o fato é que minha filha acredita na força da lei. Com tamanha certeza que fiquei surpresa, imaginando de onde veio tamanha crença. Em duas ocasiões recentes o respeito ao código penal manifestou-se:

Cena 1:

Na rua, vemos uma pessoa recolhendo o cocô do cachorro. Comentamos a boa ação, e ela observa que a prática tornou-se frequente. Donde deduziu:

– Deve ter virado lei, mamãe.

– Não minha filha, não virou.

– Claro que virou lei, mãe, só pode!

*

Cena 2:

Vendo as modelos desfilando nas féxions uiquis da vida, seriíssimas, todas fazendo carão, ela pergunta, intrigada:

– Mãe, elas não podem rir não? É proibido? É contra a lei?

Helê

(Pre)Conceitos

A sócia estava além-mar e eu fora do ar, então só nesta semana ela me mostrou o texto que o Marcos VP escreveu sobre o lançamento do livro da Fal. Ele aproveitou a oportunidade para dar uma espetada nas motherns, o implicante: elogia a Monix por ser a exceção que confirma a regra que diz que mothern não gosta de criança (!).

Eu não sei de onde você tirou essa idéia, VP, mas a experiência com La Otra deveria abrir seus olhos e seu coração.  Já pensou se ela não é nem regra nem exceção e você está fazendo apenas um juízo apressado? Mais ou menos como as pessoas podem fazer lendo seus textos e surpreendendo-se ao lhe conhecer, como você afirma, no mesmo post.

Você parece ser um bom pai, VP, mas nunca foi mulher – não que eu saiba -,  e por isso não tem como dimensionar o tamanho e peso do Mito da Maternidade. Segundo ele, os filhos justificam os meios: ser mãe é a realização suprema e única para uma mulher. E disso nós, motherns, discordamos. Daí a deduzir que não gostamos de criança…

E mais: pode haver entre nós quem não goste de criança – e entre vós também 🙂 . Filho e criança não são sinônimos, e uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra, como já disse o destemido e perspicaz Alex Castro. Como diz a propaganda, VP, está na hora de rever seus conceitos.

Ou não.

Helê

Update da Monix: o post que deu origem à resposta pode ser lido aqui.

Sobre filhos

Dia desses eu andava bem tristinha, e minha filha fez alguma coisa que me aqueceu. Não lembro o que foi – sorriu? apareceu na minha frente? existiu, apenas? Não me curou de todo, mas desenhou um caminho, fez entrar uma réstia de sol, empurrou um canto da cortina da tristeza me fazendo ver que a alegria continuava lá fora.

Então eu fiquei pensando nesse poder que os filhos têm de nos manter ligados à vida, esse fio terra com a esperança que eles são. Que não impede que a gente sofra nem garante felicidade eterna, isso é propaganda (enganosa) do dia das mães. Mas nos mantém conectados com o bem e o bom.

E passei a procurar metáforas, imagens pra esse bônus da maternidade. Pensei em âncora, mas me pareceu pesado demais. Antena também serve, mas a estética me desagrada. E aí pensei em pipa, esse objeto tão prenhe de poesia e ternura, e gostei. Imaginei que os filhos são aquela linha amarrada no nosso dedo, pra gente lembrar de ser feliz. Na outra ponta estão eles, como pipa no céu, acenando pra gente. E quando o amor deles se expressa e nos invade, aí somos nós a alçar vôo, livres e alegres como deveríamos ser sempre.

 

Helê

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