Festa na favela  

Há tempos quero escrever sobre isso, mas não achava o timing certo. Não podia ser depois de  um título, goleada ou vexame; tinha que ser num momento em que o Flamengo não estivesse nem rondando as últimas posições da tabela nem no G4. Status raro para um clube que não sabe viver sem sobressaltos, e passa de favorito a condenado em uma rodada. Minha amiga Ângela inclusive instituiu a expressão “Crise na Gávea” para os momentos tensos da vida cotidiana, porque carrega a dose exata de drama e gravidade.

Mas o que quero contar aqui tem a ver com o Flamengo, mas não só; relaciona-se com o futebol, mas não apenas; é ainda mais importante que essas entidades excepcionais. Falo do nascimento, ou seria melhor dizer, da construção da minha identidade flamenguista – ou deveria dizer minha nacionalidade rubro-negra. De cara eu devo dizer foi uma escolha, das primeiras que fiz na vida e, provavelmente, uma das mais determinantes. Eu decidi ser Flamengo.

Final dos anos 70, começo dos 80, eu cursava o primário (o atual fundamental), na escola Debret, em Vila Valqueire. Na minha família ninguém era muito ligado em futebol, só descobri o time dos meus pais quando perguntei. Mas naquela época não era possível ficar alheia ao esporte; soube logo que o Flamengo tinha um timaço, se não me engano havia ganhado um tricampeonato. Lembro-me do Zico, no início do que viria a ser sua canonização, e de outros craques como Adílio e Júnior. Comecei a dizer que torcia pelo time, comecei a ser Flamengo. E nas acaloradas e fundamentadas discussões que temos aos 10 anos de idade, os adversários debocharam de mim dizendo que o Flamengo é time de favelado, de preto, de pobre – isso numa escola pública do subúrbio, onde a maioria poderia se enquadrar nessa classificação.

Lembro com uma clareza assustadora e surpreendente de ter refletido sobre aquelas acusações. Eu não gostei de ser chamada de favelada –  talvez apenas porque não fosse, não tenho certeza. Preta e pobre eu era mesmo; por que então aquilo era um xingamento? Não fazia sentido. E, mais importante, o Flamengo era campeão e, naquele momento, o melhor time do Rio de Janeiro. Então, talvez, ser preto, pobre (e até favelado) só fosse um xingamento por despeito de quem não podia ser tão bom quanto nós. E ainda tinha esse “nós”: estar entre os melhores vinha com um sentido de coletividade e pertencimento, eu não estava só porque, afinal, o Flamengo é uma nação. Aos 10 anos fiz, sozinha, minha primeira desconstrução, desmontando o que me jogaram como ofensa e costurando como elogio – o que é o exercício 1 do primeiro livro de como ser negro nesse país (talvez no mundo). É sobre isso o orgulho negro que alguns têm tanta dificuldade (e/ou má vontade) de entender.

Voltando para a infância: depois dessa elucubração solitária, na primeira disputa em que a filiação clubista entrou em questão e que me acusaram de ser de um time de preto, pobre e favelado, eu devolvi cheia de propriedade e autoafirmação (embora desconhecesse essas palavras) e com a mão nas cadeiras: “E daí?!” Tá, eu reconheço que não fui muito eloquente, mas foi uma libertação, talvez a primeira de muitas. E por isso eu tenho com meu clube uma relação especial, profunda, e uma enorme gratidão. Porque foi aquele time vencedor,  e aquela torcida apaixonada e enlouquecida – que chegou até mim sem que houvesse uma figura dedicada a me converter, mas que me influenciou com sua força magnética – que concederam minha primeira identidade. Ser Flamengo, para mim, está intimamente ligado a ser negra e de origem pobre, e foi o Flamengo quem primeiro me ensinou a ter orgulho disso. Só por isso não perco a oportunidade de cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro negra.

 

Helê

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Quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro negro

Dezessete anos atrás estava no coração da Chapada Diamantina, na viagem mais bacana da minha vida, quando vi meu time ser pentacampeão. Meninos, eu vi uma charanga sair comemorando pela pequenina cidade de Lençóis com o mesmo entusiasmo que vi no Baixo Gávea domingo passado. Foi um dos muitos testemunhos da força dessa Nação.

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Desde domingo a prova passa a ser chamar EMEN (GO), ok?

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Durante todo o jogo o Cristo Redentor esteve completamente encoberto. Só depois da cabeçada de Angelim ele mostrou-se inteiro, límpido e feliz. Porque como disse o Chris, não sei se Deus é brasileiro, mas o Cristo é flamenguista, for sure!

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Esse é o título dos improváveis, do imponderável. Esse é o título de Andrade e de Ronaldo Angelim, o operário do time. Sobre Andrade o texto mais belo que li foi esse aqui, do Fabrício Carpinejar. Sobre Angelim o mais tocante foi escrito pelo meu amigo Christian, que não tem blogue porque é muito exigente com o próprio talento e não me obedece. Mesmo tendo sido o herói do título, o novo deus da raça, o zagueiro salvador, Angelim não estava ontem em nenhuma das primeiras páginas. Então receba aqui, Angelim todas as minhas honras e graças.

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A cidade estava ainda mais maravilhosa ontem, red & black, como disse o Jimmy Page. O mais bacana era a criatividade da galera que por motivos profissionais não podia usar o manto sagrado e inventava jeitos de exibir a identidade flamenguista: a senhora que colocou uma saia vermelha e blusa preta, os vários ônibus em que o motorista colocou a camisa bem em frente ao volante; ou os que apenas sorriam para desconhecidos por se saber parte da mesma torcida.  Aliás, que torcida é hexa, gente?

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Contrariando todas as previsões – inclusive as minhas – corri 5 km na Lagoa, ontem de manhã. Enrolada na bandeira do Flamengo, of claro.

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Há quem diga o consagrado “Eu já sabia!”. No meu caso prefiro: “Eu merecia!”

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Que se torne público: voltei às boas São Judas Tadeus, com que trocara de mal desde outubro do ano passado.

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Pra sair bem na foto não diga ‘xis’, diga HEXA.

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E, last, mas nunca least, babem com meu modelito novo, produzido pelo botafoguense mais gentil e talentoso que conheço, Cláudio Luiz (sobre ilustra da Sil Falqueto, como vocês sabem):

Sorry, perifa, mas não é pra qualquer um não….

Helexa

FLAMENGO HEXACAMPEÃO BRASILEIRO

É o meu maior prazer vê-lo brilhar

Saudações Rubro-negras

Hexalente!

Helê Pinto no Lixo

É hoje

que eu só volto amanhã!!!!!!!!!!!!

Helê

O que será que foi aquilo?

por Christian Morais

Alguém aí saberia definir o que foi isto que ocorreu ontem à noite no Maracanã?
Desavisadamente, liguei a televisão e, a princípio, me pareceu um jogo de futebol. Aos poucos, deu para perceber que não era. Futebol é um jogo onde ocorrem passes, dribles, lançamentos, tabelas, cruzamentos, cobranças de faltas e de escanteios e defesas de goleiros. Não consegui identificar nada disso em campo, embora houvesse uma porção de gente uniformizada correndo para lá e para cá e uma bola no meio deles. A princípio, também pareceu que era um jogo entre Flamengo e Fluminense, o que antigamente se definia como um clássico, o maior do futebol brasileiro. Evidentemente que não era, apesar de os dois bandos vestirem as camisas dos clubes. Flamengo e Fluminense eram grandes times de futebol não só do Rio de Janeiro, mas do Brasil. E, sendo times de futebol, sabiam fazer aquilo que os (bons) times de futebol fazem: acertar passes, dar dribles, lançamentos, etc. Nenhum destes dois bandos conseguia fazer isto direito.
Também havia uns sujeitos de uniforme amarelo, um com um apito, correndo para lá e para cá, e outros dois com bandeiras nas mãos. Se fosse um jogo de futebol, chamaríamos isto de trio de arbitragem. Mas, percebendo bem, dava para ver que não eram. Isto porque, obviamente, árbitros conhecem futebol, sabem as regras e aplicam-nas. Aqueles senhores de amarelo pareciam não saber de nada.
Na verdade o que vi foi o  bando de preto e vermelho muito agitado, ansioso, com alguns garotos correndo para todo lado e não passando a bola para ninguém. Não conseguiam chegar ao campo do outro bando, de verde e grená, nem chutar ao gol do adversário. No esforço de jogar um arremedo de futebol, na hora de tomar a bola do bando verde e grená, os de vermelho e preto se atrapalhavam todos. Boa parte deles parecia muito nova, e aparentava nunca ter jogado junto antes. Apesar disso, o bando de grená e verde, que não era tão jovem nem deveria ser tão despreparado quanto o de preto e vermelho, não conseguia fazer nada muito diferente do outro bando. Todo mundo esbarrava com todo mundo em campo. Parecia que o gramado estava muito apertado e não havia espaço suficiente para todos.
Como estava tudo muito chato, lá pelas tantas o senhor de amarelo soprou seu apito e inventou um negócio que, se fosse futebol o que estivessem jogando, seria um pênalti. Mas, engraçado, o rapaz do bando verde e grená que “cavou” o que seria um pênalti em futebol se futebol de verdade estivesse sendo jogado, no lance anterior segurou, empurrou e puxou um outro rapaz do bando de preto e vermelho que estava ao seu lado, fazendo o que em futebol, se futebol fosse, seria chamado de “marcação”. O senhor de amarelo fez que não viu e não usou seu apito. Se fosse um jogo de futebol – e não era –, haveria uma pessoa chamada árbitro que marcaria uma coisa chamada “falta”, que é quando o adversário usa um recurso ilegal para obter vantagem no jogo. Mas como não era jogo de futebol, não havia juiz de futebol em campo. Até porque se houvesse juiz de futebol, logo no começo do jogo um jogador do bando grená e verde empurrou um outro, do bando preto e vermelho, dentro da área. Se fosse futebol, isto sim, seria pênalti, que seria marcado, é claro, se houvesse um juiz de futebol em campo.
Mas um rapaz careca do bando grená e verde chutou a bola no “pênalti” e ela entrou naquele lugar que, se fosse um jogo de futebol, chamaríamos de gol. Aí, no que seria o placar, apareceu o número 1 do lado do nome do bando de grená e ficou o zero do lado do vermelho e preto. Quando voltaram para o que seria o segundo tempo num jogo de futebol, o bando de grená, obedecendo ordens de alguém que poderia ser confundido com um técnico de futebol, ficou esperando o tempo passar, apesar de o bando de vermelho e preto ser composto, como já disse, de um monte de garotos atrapalhados, embora esforçados. Um destes esforçados num certo momento pegou a bola, saiu correndo, passou por três adversários, e chutou totalmente errado. A bola ia para fora, mas aí bateu sem querer num rapaz do bando de grená, e depois num outro do bando vermelho e preto, passou por cima do que seria um goleiro, se fosse no futebol, e entrou no que seria o gol, se fosse um jogo de futebol. Aí ficou o que se chama em futebol de jogo empatado. Como não era um jogo de futebol, os jogadores do bando verde e grená começaram a ficar muito entediados com aquilo tudo e, seguindo a orientação do pseudotécnico começaram a deitar no chão a cada vez que seriam substituídos. Todos, pelo jeito, estavam muito cansados, porque futebol cansa muito, mas este jogo que eles inventaram e que parece futebol, mas não é, cansa muito mais. Especialmente a quem está assistindo.
A cada vez que um deles deitava (e foram uns três deitões), entrava um carrinho para remover. O senhor de amarelo ficou um pouco chateado com isto e decidiu que o jogo não ia acabar tão cedo, e  inventou que agora seriam seis minutos a mais de tempo, só de pirraça. O bando de preto e vermelho continuou se estrumbicando em campo, enquanto o de grená e verde corria para todos os lados e chutava para onde apontava o nariz, tão desesperado estava – apesar de o bando de vermelho e preto ter perdido dois jogadores, expulsos pelo senhor de amarelo.
No final, nem o bando de grená e verde nem o bando de vermelho e preto ganhou nada. O bando grená e verde achou o resultado bom, apesar de não vencer o outro há quase dois anos e de estar arriscado a retornar para um lugar ruim, humilhante até, que em futebol se chama segunda divisão. O bando de preto e vermelho também já esteve ameaçado de ir para este lugar várias vezes. Quando acabou o jogo, alguns jogadores do vermelho e preto reclamaram do senhor de amarelo com o apito, e classificaram sua atuação como de muita luta e de muita correria. Eu concordei com eles. Houve, de fato, luta e correria naquele estranho e desconhecido jogo que passou na televisão. Mas o que eu queria mesmo era assistir futebol. Um grande jogo de futebol. Tipo um Fla X Flu, sabe?

Inaugurando a categoria Be my guest, o texto mordaz e afiado do Chris, freguês de caderninho aqui do Dufas, excelente jornalista, grande amigo.

Helê

Ah, os amigos…

Ontem foi um dia de cão, daqueles caprichados, sabem como? Poizé. E quem segurou a minha onda foram os amigos vários, de variadas maneiras. E no fim do dia eu consegui dar uma grande e gostosa gargalhada, quando meu amigo Chris me mandou isso aqui:

Hahahahahaha!

Valeu, pssôuas!

Helê

Lição

Tudo tem seu tempo, há um momento oportuno para cada empreendimento debaixo do céu. (…)

Tempo de chorar, e tempo de rir.

Eclesisastes, 3

 Tá bom, mas precisava ser num intervalo TÃO curto?!

 Helê, acima de tudo rubro-negra

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