A bandeira da Copa

Seis ativistas e uma ideia simples e genial para denunciar a homofobia em um país onde você pode ser preso se portar a bandeira LGBT. Coragem e criatividade contra a ignorância e a truculência. Para mim, uma das imagens marcantes dessa Copa da Rússia.

Leia mais sobre a iniciativa no site The Hidden Flag.

Helê

Pastilhas Garota* – da Copa

  • hortelaChegamos à metade da Copa do Mundo, fim da fase de grupos e nós tá como? Achando ruim que hoje não vai ter jogo.
  • Ah, também estou absolutamente enojada de todos os comerciais. Eu não sei que estratégia publicitária é esta que repete à exaustão as peças a ponto de você ficar com raiva do anunciante. Só vejo tevê com o controle na mão, pra tirar o som do aparelho nos intervalos.
  • Várias trajetórias sofridas ganharam destaque nesta primeira fase, como a de Alireza Beiranvand, goleiro do Irã, que fugiu de casa para jogar futebol, o belga Romelu Lukaku, que escreveu sobre a pobreza da infância, ou o Luka Modrik, croata que foi refugiado de guerra. O circo da Copa adora um drama, é verdade, mas parece que foi preciso achar outros heróis quando as grandes estrelas parecem glamorizadas e distantes demais. E vacilando na hora de confirmar o status de super-heróis…

  • Assisti ao primeiro jogo do Brasil em casa, sozinha. Frio, preguiça e a irresistível possibilidade de fazer algo que nunca tinha feito antes. A primeira grande vantagem é se livrar do Galvão, essa anta onipresente. Não fiquei tensa. Nem contente com o gol – essas emoções passam de um a outro como corrente elétrica. Isolada e desconectada desse time que eu mal conheço, foi só mais um jogo.
  • Durante a partida cheguei à janela e ouvi o silêncio mais profundo desde que moro aqui, há mais de dois anos. Domingo à tarde numa movimentada rua da Tijuca parecia madrugada. Impressionante
  • Ao segundo jogo assisti com um galera divertidíssima. O time jogou melhor, mas nada de gol. Abri uma cerveja aos 42 do segundo tempo porque o Brasil, como se sabe, me obriga a beber. Logo depois saiu o gol. Conforme queríamos demostrar.
  • No terceiro jogo estive com outra turma bacana, e o Brasil jogou melhor. Assim, está estabelecida a superstição desta Copa: nunca assistir um jogo da mesma maneira que o anterior.
  • Gente, e Eckateremburgo? É uma cidade ou uma batucada? Toda vez que alguém fala na tv “Agora, direto de Eckateremburgo:” eu espero: “Grupo Fundo de Quintal!!!”
  • Resultado de imagem para troca de passes sportv grafiteLogo no início da Copa dei de cara com o jogador Grafite na bancada de um programa esportivo. Achei que era um convidado, mas ele é comentarista fixo. A simples imagem dele tela causa um impacto: ao ver um negro retinto na tela, imediatamente nota-se a raridade dessa imagem. Uma presença que evoca ausências.
  • No dia seguinte, o ex-árbitro Paulo César Oliveira foi convidado. Dois pretos! Pensei maquiavelicamante: “Até o o final da Copa tomaremos a bancada inteira! Huahahahahaha!” (risada de vilão)
  • Sinto uma sensação boa (e rara) quando me vejo na tela. Algo entre o conforto e a acolhida, numa definição imprecisa.
  • Já são muitas as imagens para colecionar – emocionantes, engraçadas, bizarras. A comemoração do primeiro gol do Panamá em Copas, torcedores da Colômbia consolando um menino polonês, o belga que foi comemorar o gol e se deu uma bolada na cabeça, o zagueiro senegalês descansando na trave enquanto sofria um gol. Entre os mais divertidos estão os que celebram a repentina amizade entre mexicanos e sul-coreanos:

  • Resultado de imagem para mexicanos na embaixada da coreiaE o vídeo impagável dos mexicanos fazendo o Consul da Coréia tomar um shot de tequila com o coro “Coreano, hermano, ja eres mexicano!” O cara foi carregado nos braços!
  • Também muito bacana esse momento captado ao final do jogo Panamá x Bélgica (assista sem som, porque a narração melodramática é desnecessária) :
  • Entre os melhores momentos está, óbvio, a reação da repórter Júlia Guimarães ao assédio de um torcedor (sim, de novo e sempre).
  • Bateu uma schadenfreude com a eliminação da Alemanha (ainda mais que a palavra é deles). Segurei um pouco a onda porque nosso jogo era logo depois, karma is a bitch e tal. Os primeiros memes que recebi eram inclusive ingênuos, com Minions. Mas depois da classificação brasileira, a zoeira foi impiedosa:

  • E eu havia decidido não falar sobre o menino Neyma porque, né? Não precisa, já tem gente demais falando. Mas eu não vou parar de rir nunca com esse vídeo do roda o pião:

  • Nem só de zoeira vive a Copa, mas também de lances belos e plásticos como esta foto de Eugênio Sávio

Lance do gol de Paulinho na partida contra a Sérvia

  • Sobre pão e circo (ainda isso?), devo dizer que estou buscando a alienação deliberadamente, aboletada na arquibancada – mas a lona é transparente. Acompanho a copa sem esquecer das atrocidades do governo russo, um dos piores no tocante aos direitos humanos, em especial contra a comunidade LGBT. Sei que já se passaram mais de três meses sem saber QUEM MATOU E QUEM MANDOU MATAR Marielle Franco. E não pude deixar de chorar quando a polícia assassinou o menino Vinícius na Maré, a caminho da escola. Sem o circo eu não sou capaz de dar contar conta da realidade.

Helê

*Porque Drops só a Fal distribui (e são os melhores).

Pastilhas* da copa

Estava achando todo mundo desanimado, mas me lembrando que achei isso em outras copas do mundo e na hora H apareceram as decorações, camisas, bandeiras. Até que minha filha me disse que não vai ter Alzirão. Se você não está ligando o nome à pessoa, essa é a mais antiga festa de rua organizada para acompanhar as copas no Rio de Janeiro, uma tradição de 78 anos. Então eu tive certeza que os preparativos e a animação para esta copa atingiram os níveis mais baixos, seja pela crise econômica ou pelas sequelas do 7×1.

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Além disso, embora pareça ter acontecido há 50 anos, a última copa foi aqui, né, aquele clima de festa, invasão de argentinos na Lapa, alemães assistindo jogo com a gente no Alzirão, Podolski parça postando no Instagram em português. Depois disso, e com a humilhante eliminação do Brasil, fica difícil se empolgar. Mesmo 50 anos depois.

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Vendo o último amistoso da seleção eu me perguntei se o bom futebol apresentado pode reverter esse quadro. Não creio: o vexame é ainda muito recente, há remanescentes atuando e estamos todos muito desconfiados – pra não dizer putos. Não por acaso, o mascote é o canarinho pistola.

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Fora a associação da camisa verdeamarela com a massa acéfala que nos trouxe a esse 2018 desesperançado e desesperador.

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Rodrigo Lasmar é médico da seleção. Que é, como deduziram os leitores da minha idade, filho de Neylor Lasmar, que foi médico da seleção em copas passadas. A CBF é a uma capitania hereditária, não é mesmo? (E a medicina também).

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Brasil x Áustria foi o primeiro jogo do Brasil que assisti desde aquela vergonha patética. Preciso aprender o nome dos jogadores, a copa tá aí nos calcanhares, e eu não posso perder os memes!

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Assisti a entrevista do Tite e percebi que estava gostando. Muito. Aí me dei conta do motivo: falta a arrogância, a empáfia e a deselegância de Dungas, Zagalos, Scolaris e quetais. Taí uma evolução gigantesca e bem-vinda.

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As viúvas da Itália (70% das mulheres que conheço) ficaram chorando a não-classificação dos bambinos. Eu quase perdi o sono com a lesão Salah – que, graças à Alá, está se recuperando.

#objetificaçãoagentevêporaqui.

 

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Enquanto a copa não chega, só há uma alternativa: segue o líder.

Helê

*Pastilhas porque, como até Pelé sabe, Drops só da Fal.

Festa na favela ou A alegria de ser (rubro) negro  

Há tempos quero escrever sobre isso, mas não achava o timing certo. Não podia ser depois de  um título, goleada ou vexame; tinha que ser num momento em que o Flamengo não estivesse nem rondando as últimas posições da tabela nem no G4. Status raro para um clube que não sabe viver sem sobressaltos, e passa de favorito a condenado em uma rodada. Minha amiga Ângela inclusive instituiu a expressão “Crise na Gávea” para os momentos tensos da vida cotidiana, porque carrega a dose exata de drama e gravidade.

Mas o que quero contar aqui tem a ver com o Flamengo, mas não só; relaciona-se com o futebol, mas não apenas; é ainda mais importante que essas entidades excepcionais. Falo do nascimento, ou seria melhor dizer, da construção da minha identidade flamenguista – ou deveria dizer minha nacionalidade rubro-negra. De cara eu devo dizer foi uma escolha, das primeiras que fiz na vida e, provavelmente, uma das mais determinantes. Eu decidi ser Flamengo.

Final dos anos 70, começo dos 80, eu cursava o primário (o atual fundamental), na escola Debret, em Vila Valqueire. Na minha família ninguém era muito ligado em futebol, só descobri o time dos meus pais quando perguntei. Mas naquela época não era possível ficar alheia ao esporte; soube logo que o Flamengo tinha um timaço, se não me engano havia ganhado um tricampeonato. Lembro-me do Zico, no início do que viria a ser sua canonização, e de outros craques como Adílio e Júnior. Comecei a dizer que torcia pelo time, comecei a ser Flamengo. E nas acaloradas e fundamentadas discussões que temos aos 10 anos de idade, os adversários debocharam de mim dizendo que o Flamengo é time de favelado, de preto, de pobre – isso numa escola pública do subúrbio, onde a maioria poderia se enquadrar nessa classificação.

Lembro com uma clareza assustadora e surpreendente de ter refletido sobre aquelas acusações. Eu não gostei de ser chamada de favelada –  talvez apenas porque não fosse, não tenho certeza. Preta e pobre eu era mesmo; por que então aquilo era um xingamento? Não fazia sentido. E, mais importante, o Flamengo era campeão e, naquele momento, o melhor time do Rio de Janeiro. Então, talvez, ser preto, pobre (e até favelado) só fosse um xingamento por despeito de quem não podia ser tão bom quanto nós. E ainda tinha esse “nós”: estar entre os melhores vinha com um sentido de coletividade e pertencimento, eu não estava só porque, afinal, o Flamengo é uma nação. Aos 10 anos fiz, sozinha, minha primeira desconstrução, desmontando o que me jogaram como ofensa e costurando como elogio – o que é o exercício 1 do primeiro livro de como ser negro nesse país (talvez no mundo). É sobre isso o orgulho negro que alguns têm tanta dificuldade (e/ou má vontade) de entender.

Voltando para a infância: depois dessa elucubração solitária, na primeira disputa em que a filiação clubista entrou em questão e que me acusaram de ser de um time de preto, pobre e favelado, eu devolvi cheia de propriedade e autoafirmação (embora desconhecesse essas palavras) e com a mão nas cadeiras: “E daí?!” Tá, eu reconheço que não fui muito eloquente, mas foi uma libertação, talvez a primeira de muitas. E por isso eu tenho com meu clube uma relação especial, profunda, e uma enorme gratidão. Porque foi aquele time vencedor,  e aquela torcida apaixonada e enlouquecida – que chegou até mim sem que houvesse uma figura dedicada a me converter, mas que me influenciou com sua força magnética – que concederam minha primeira identidade. Ser Flamengo, para mim, está intimamente ligado a ser negra e de origem pobre, e foi o Flamengo quem primeiro me ensinou a ter orgulho disso. Só por isso não perco a oportunidade de cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro negra.

 

Helê

Tijucamérica

Lembro de quando conheci o livro, ou quando tomei conhecimento de sua existência. Foi numa noite memorável, em que saí à procura de alento e encontrei cerveja e celebração. Era o segundo turno da eleição presidencial do ano passado, e durante todo o dia o fogo cruzado de informações contraditórias, alarmistas e preocupantes deixou o meu sistema muito nervoso. Aí a Lôra disse que tava no bar com uma turma bacana e lá fui eu. Ângela foi me apresentando aos outros ansiosos eleitores da Dilma enquanto acompanhávamos a apuração. Depois de algum sofrimento, comemoramos como se fosse um campeonato – embora desde então a minha alegria fosse menos com a “nossa” vitória e mais pela derrota do outro. A turma foi crescendo até que alguém sugeriu: “Vamos pro Chico!”, e segui como se soubesse onde era. Já não importava o destino, eu havia sido incorporada ao grupo e era boa a companhia. Além 544913_826520687368508_4574069953765195040_nda Lôra e do Cláudio, gente interessante como o professor Luiz Antônio Simas e o jornalista José Trajano. Como defini mais tarde, estava entre a fina flor da esquerda tijucana, todos espontanea e momentaneamente irmanados — ainda que fosse possível perceber variados tons de vermelho entre nós. No rubro mais extremo, o do América, estava  o Trajano, que entre uma gelada e outra comentou sobre o livro que estava para lançar. Era uma história meio doida e divertida sobre craques revividos, que misturava inadivertidamente realidade e ficção.  


“Tijucamérica” foi lançado  em agosto no mesmo Bar do Chico. A Lôra me esperava com o meu exemplar, e consegui um autógrafo do autor, embebido em carinho e cerveja. Gentilíssimo, Trajano disse lembrar de mim e da noite da eleição; achei improvável, mas retribui a deferência escolhendo acreditar. Quando iniciei a leitura, uns dias depois,  não demorou para que eu fosse fisgada por esse  verdadeiro vaudeville carioca, ou seja lá qual for o  gênero em que caiba o enredo anárquico do Trajano. No livro, ele convoca uma seleção de religiosos pra lá de ecumênica e traz de volta grandes craques do seu Ameriquinha. Pretende reverter a decadência do clube e vê-lo campeão, levantando o moral da Tijuca lato sensu, aquela que começa nas imediações do Estácio e mistura fronteiras com a Muda, o Alto da Boa Vista, Grajaú e Vila Isabel, sem demarcações rígidas. Como um bom drible,  o livro finge que é sobre algo mas não é exatamente sobre aquilo  – ou é, mas não apenas. Parece que vai ser sobre o América mas vai além, contando saborosas histórias do futebol carioca e brasileiro. Esmiuça a história da Tijuca como eu nunca li antes, mas ultrapassa seus limites: também88128_gg  é sobre o Rio de Janeiro, sua gente, seus ídolos e ícones. Entretanto, em “Tijucamérica” os contornos da cidade não são delineados pela orla, mas pelo relevo dessa terra entre morros, banhada pelo rio Maracanã e coroada pelo estádio de mesmo nome. Há inúmeras estatísticas futebolísticas, escalações e placares, mas o futebol serve mesmo como lente através da qual Trajano olha para o Rio, o Brasil e também para a própria vida (desconfio que, no fundo no fundo, trata-se de um bem disfarçado livro de memórias). Essa ode irreverente à  Tijuca e ao subúrbio me divertiu, instruiu e comoveu – mais ou menos como aquele encontro com uma turma de sonhadores renitentes numa certa noite de outubro de 2014. O fecho de um  ciclo completo, redondo como deve descer uma cerveja gelada, encantador como uma tabela bem feita. Intensificou o sentimento pela minha aldeia, seus personagens e amigos como a Ângela: Tijucamor.

Helê

Imagens da Copa

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Men watch the 2014 World Cup Group B soccer match between the Netherlands and Australia on a laptop, at a camel market in Daba near Tabuk, Saudi Arabia, on June 18, 2014.

(Reuters/Mohamed Alhwaity)

 

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Estação Espacial internacional assistindo a final da Copa do Mundo

 

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 Danke! (AP)

 

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Polícia atuando ontem na Tijuca, na Zona Norte do Rio (Foto: Leo Correa/ AP )

 

Helê

 

Paixão nacional

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(Do Pinterest da Elis Marchioni – de onde eu já vi que vou gostar de muita coisa….)

Uma imagem encantadora pela qual me apaixonei à primeira vista, mesmo. Uma imagem, uma montão de palavras e outros tantos significados. Arrisque o seu :-) .

Helê

O que será que foi aquilo?

por Christian Morais

Alguém aí saberia definir o que foi isto que ocorreu ontem à noite no Maracanã?
Desavisadamente, liguei a televisão e, a princípio, me pareceu um jogo de futebol. Aos poucos, deu para perceber que não era. Futebol é um jogo onde ocorrem passes, dribles, lançamentos, tabelas, cruzamentos, cobranças de faltas e de escanteios e defesas de goleiros. Não consegui identificar nada disso em campo, embora houvesse uma porção de gente uniformizada correndo para lá e para cá e uma bola no meio deles. A princípio, também pareceu que era um jogo entre Flamengo e Fluminense, o que antigamente se definia como um clássico, o maior do futebol brasileiro. Evidentemente que não era, apesar de os dois bandos vestirem as camisas dos clubes. Flamengo e Fluminense eram grandes times de futebol não só do Rio de Janeiro, mas do Brasil. E, sendo times de futebol, sabiam fazer aquilo que os (bons) times de futebol fazem: acertar passes, dar dribles, lançamentos, etc. Nenhum destes dois bandos conseguia fazer isto direito.
Também havia uns sujeitos de uniforme amarelo, um com um apito, correndo para lá e para cá, e outros dois com bandeiras nas mãos. Se fosse um jogo de futebol, chamaríamos isto de trio de arbitragem. Mas, percebendo bem, dava para ver que não eram. Isto porque, obviamente, árbitros conhecem futebol, sabem as regras e aplicam-nas. Aqueles senhores de amarelo pareciam não saber de nada.
Na verdade o que vi foi o  bando de preto e vermelho muito agitado, ansioso, com alguns garotos correndo para todo lado e não passando a bola para ninguém. Não conseguiam chegar ao campo do outro bando, de verde e grená, nem chutar ao gol do adversário. No esforço de jogar um arremedo de futebol, na hora de tomar a bola do bando verde e grená, os de vermelho e preto se atrapalhavam todos. Boa parte deles parecia muito nova, e aparentava nunca ter jogado junto antes. Apesar disso, o bando de grená e verde, que não era tão jovem nem deveria ser tão despreparado quanto o de preto e vermelho, não conseguia fazer nada muito diferente do outro bando. Todo mundo esbarrava com todo mundo em campo. Parecia que o gramado estava muito apertado e não havia espaço suficiente para todos.
Como estava tudo muito chato, lá pelas tantas o senhor de amarelo soprou seu apito e inventou um negócio que, se fosse futebol o que estivessem jogando, seria um pênalti. Mas, engraçado, o rapaz do bando verde e grená que “cavou” o que seria um pênalti em futebol se futebol de verdade estivesse sendo jogado, no lance anterior segurou, empurrou e puxou um outro rapaz do bando de preto e vermelho que estava ao seu lado, fazendo o que em futebol, se futebol fosse, seria chamado de “marcação”. O senhor de amarelo fez que não viu e não usou seu apito. Se fosse um jogo de futebol – e não era –, haveria uma pessoa chamada árbitro que marcaria uma coisa chamada “falta”, que é quando o adversário usa um recurso ilegal para obter vantagem no jogo. Mas como não era jogo de futebol, não havia juiz de futebol em campo. Até porque se houvesse juiz de futebol, logo no começo do jogo um jogador do bando grená e verde empurrou um outro, do bando preto e vermelho, dentro da área. Se fosse futebol, isto sim, seria pênalti, que seria marcado, é claro, se houvesse um juiz de futebol em campo.
Mas um rapaz careca do bando grená e verde chutou a bola no “pênalti” e ela entrou naquele lugar que, se fosse um jogo de futebol, chamaríamos de gol. Aí, no que seria o placar, apareceu o número 1 do lado do nome do bando de grená e ficou o zero do lado do vermelho e preto. Quando voltaram para o que seria o segundo tempo num jogo de futebol, o bando de grená, obedecendo ordens de alguém que poderia ser confundido com um técnico de futebol, ficou esperando o tempo passar, apesar de o bando de vermelho e preto ser composto, como já disse, de um monte de garotos atrapalhados, embora esforçados. Um destes esforçados num certo momento pegou a bola, saiu correndo, passou por três adversários, e chutou totalmente errado. A bola ia para fora, mas aí bateu sem querer num rapaz do bando de grená, e depois num outro do bando vermelho e preto, passou por cima do que seria um goleiro, se fosse no futebol, e entrou no que seria o gol, se fosse um jogo de futebol. Aí ficou o que se chama em futebol de jogo empatado. Como não era um jogo de futebol, os jogadores do bando verde e grená começaram a ficar muito entediados com aquilo tudo e, seguindo a orientação do pseudotécnico começaram a deitar no chão a cada vez que seriam substituídos. Todos, pelo jeito, estavam muito cansados, porque futebol cansa muito, mas este jogo que eles inventaram e que parece futebol, mas não é, cansa muito mais. Especialmente a quem está assistindo.
A cada vez que um deles deitava (e foram uns três deitões), entrava um carrinho para remover. O senhor de amarelo ficou um pouco chateado com isto e decidiu que o jogo não ia acabar tão cedo, e  inventou que agora seriam seis minutos a mais de tempo, só de pirraça. O bando de preto e vermelho continuou se estrumbicando em campo, enquanto o de grená e verde corria para todos os lados e chutava para onde apontava o nariz, tão desesperado estava – apesar de o bando de vermelho e preto ter perdido dois jogadores, expulsos pelo senhor de amarelo.
No final, nem o bando de grená e verde nem o bando de vermelho e preto ganhou nada. O bando grená e verde achou o resultado bom, apesar de não vencer o outro há quase dois anos e de estar arriscado a retornar para um lugar ruim, humilhante até, que em futebol se chama segunda divisão. O bando de preto e vermelho também já esteve ameaçado de ir para este lugar várias vezes. Quando acabou o jogo, alguns jogadores do vermelho e preto reclamaram do senhor de amarelo com o apito, e classificaram sua atuação como de muita luta e de muita correria. Eu concordei com eles. Houve, de fato, luta e correria naquele estranho e desconhecido jogo que passou na televisão. Mas o que eu queria mesmo era assistir futebol. Um grande jogo de futebol. Tipo um Fla X Flu, sabe?

Inaugurando a categoria Be my guest, o texto mordaz e afiado do Chris, freguês de caderninho aqui do Dufas, excelente jornalista, grande amigo.

Helê

Flamengo Tricampeão Carioca 2007/08/09

Cinco vezes tri, 31 vezes campeão. Na manchete do Globo um trocadilho primoroso, provocativo, conciso.  E verdadeiro:

Acima de todos, Rubro-negro.

nacao

Helê Pinto no Lixo

Música do dia

 Gilberto Gil – O Sonho Acabou

Helê

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