Grumari

Meu pai é o sujeito da canção do Raul que não acha nada engraçado — macaco, carro, jornal, tobogã, ele acha tudo isso um saco. Exceto praia. Quando ele passou a ter o compromisso de sair comigo e com meu irmão todos os sábados, tinha um problema semanal porque só suportou um programa genuinamente infantil no primeiro fim de semana, quando nos levou ao Tívoli Parque (beijo pra você, velhinho como eu, que entendeu a referência!). Havia o bar, sempre divertido pra ele, mas que a gente achava chato depois de cinco refrigerantes, sete picolés e 20 balas. Vez por outra íamos a Petrópolis, mas desconfio que era um passeio dispendioso, não dava para ser feito sempre. A praia era a melhor alternativa, um lugar que todos adorávamos por diferentes razões: meu pai tomava cerveja, olhava as mulheres, lia o jornal; meu irmão não saia da água e eu alternava entre o mar e ficar torrando à milanesa. O programa também não exigia de meu pai interação constante, que ele não era (continua não sendo) de muita conversa, ainda mais com crianças. Assim, na ilha de edição que é a minha memória há rolos e rolos de filmes de incontáveis sábados passados no Recreio (ou no que era o Recreio há 30 anos) e no que continua sendo a praia mais linda do Rio de Janeiro, o Grumari.

Do Recreio não sobrou quase nada, a não ser a Pedra do Pontal, que deve ter sido mantida por fazer parte de algum condomínio. Mas o Grumari não: permanece impávido que nem Mohamed Ali. Talvez parte do encanto que esse lugar exerce sobre mim tenha ver com este pequeno milagre: a praia à qual cheguei mês passado para uma corrida era virtualmente a mesma que eu deixei décadas atrás, quando ainda disputava com meu irmão quem iria no banco da frente (crianças sentavam no banco da frente, incréus. Cinto de segurança e lei seca também não tinham sido inventados). Sempre sou acometida de um leve pânico ao me aproximar, com medo de que tenham mexido no meu lugar, mas logo respiro aliviada e me delicio com aquela beleza intocada e selvagem. Encontrá-la praticamente intacta preserva algo em mim que não consigo definir em palavras.

Na ilha de edição da memória encurto os momentos de tédio, aborrecimentos ou de insegurança para fixar dias inteiros de sol e cachorro-quente, a amizade com os tiozinhos do único trailer de toda a praia, o prazer de caçar tatuís com meu irmão e depois devolvê-los todos (já éramos conservacionistas, veja você). Pores de sol incríveis de um verão interminável, nós no intrépido fusquinha azul do pai ao som de “Toada”, do Boca Livre, ou “Sultans of Swing”, do Dire Strait, o marzão da Barra crescendo a cada curva. Curvas que eu cruzei no trecho mais difícil da corrida mais desafiadora, uma prova de revezamento de esforço solitário (como todas), mas com celebração coletiva (como poucas). As imagens do passado, que eu achei que me acompanhariam no trajeto, ficaram borradas pelo extremo esforço físico que me obrigou a focar no presente, no próximo passo, na respiração seguinte, só mais um pouco, tem alguém me esperando, preciso continuar. Tive que reforçar a conexão com o presente para conseguir encarar uma escada de pedra e ladeiras diversas depois de 2,5km correndo na areia fofa. O que terminou de maneira apoteótica e ensolarada, cruzando a linha de chegada em grupo e com festa, começou com o dia felizmente nublado quando, sozinha entre muitos, só me acompanhava de perto a dúvida: será que dou conta? Dei, e vivi mais uma experiência memorável no Grumari, esse lugar onde sempre sou feliz.

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Helê

 *Você sabe que está velho quando começa a escrever reminiscências que não têm interesse para ninguém além de você mesmo.
Isso e quando te dão lugar no metrô e você desiste de entender porque – apenas senta.
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