Durma-se com um barulho desses

Tenho observado uma fúria um pouco mais exaltada que o normal de meus amigos em relação à Veja e à grande imprensa de maneira geral. Não gosto do estilo da revista, e não a leio há décadas, mas como jornalista é impossível não enxergar o exagero das críticas, que vêm se intensificando a cada semana, a cada mês.

Por se tratar de uma revista semanal, a Veja se dá ao direito de publicar textos que considera analíticos, incorporando aos fatos uma visão muito própria, que teria por objetivo acrescentar ao leitor o “ponto de vista da revista”, que obviamente vem a ser o ponto de vista de seus editores, já que a “revista” não é uma entidade com vida própria. O caso é que depois de 10 anos de governos de esquerda (ou centro-esquerda, ou progressistas, enfim, chamem como queiram), esse tal ponto de vista precisa ser cada vez mais ideológico para poder marcar a oposição da revista ao governo. Só que o liberalismo não costuma acreditar em ideologias. E esta oposição acaba sendo marcada por um pragmatismo que eu chamaria de beligerante. Isso vem se traduzindo em textos cada vez mais raivosos e menos argumentativos; pelo menos é o que parece pelo pouco que leio de vez em quando.

Ontem fomos brindados com o obituário de Oscar Niemeyer, arquiteto polêmico tanto por sua obra quanto por suas posições ideológicas, mas que inegavelmente foi um brasileiro excepcional e deixou um legado importantíssimo ao país e ao mundo – ao relembrar a vida desta figura, o destaque da notícia é para o fato de o morto ter sido stalinista, como bem previu o Serbon minutos antes. O texto chega a ser de uma infantilidade raivosa em alguns trechos.

Dinossauro – A tenacidade com que Niemeyer  se aferrou aos seus cânones arquitetônicos só é comparável ao seu apego a uma ideologia inimiga dos homens. O arquiteto se tornou um dinossauro da esquerda, e morreu fiel ao comunismo e admirador de Josef Stálin, um dos maiores genocidas da história, que considerava “um estadista fantástico”.

Site da Revista Veja

 

Me parece que a agressividade da revista pode ser uma explicação para a intolerância de seus não-leitores para com ela. É um dos veículos de comunicação mais importante do país, sem dúvida, mas escolheu um caminho estranho, que não me parece ser bom no longo prazo: ofender a parcela da sociedade que não concorda 100% com seu ponto de vista editorial. Isso se reflete claramente nos blogues de colunistas, onde não apenas é praxe deletar comentários (coisa que qualquer bê-a-bá da blogosfera mostra que é totalmente inadequado, a não ser em casos de ofensas graves), como também os próprios colunistas batem boca com seus críticos, inclusive os que não têm educação ou razão, contrariando a regra de ouro de Millôr Fernandes: “não se amplia a voz dos imbecis”.

Reinaldo Azevedo se deu ao trabalho de escrever um post rebatendo as críticas que recebeu por ter falado mal do comunista Niemeyer. Refere-se aos comentários de leitores como “zurros” e os destaca, rebatendo um a um com uma agressividade que beira o inacreditável – aliás, só não é inacreditável porque não é primeira vez que o colunista faz isso.

Ontem Ricardo Setti publicou um pedido de desculpas por ter postado uma montagem grosseira de uma foto de Lula ao lado de uma suposta namorada. (No meu tempo, aprendi que bom jornalismo se faz assim: quando não temos provas, ou antes de condenação judicial, todo mundo é “acusado” ou “suposto”, mas parece que essa prática caiu em desuso.) Enfim, Setti pediu desculpas e os simpatizantes de Lula – que, convenhamos, são muitos – caíram de pau. O que fez o colunista/blogueiro? Partiu para o contra-ataque, numa roda-viva que me lembra as discussões que tinha com minha irmã, aos 10 anos de idade, tipo “mãe, foi ela que começou… não, mas ela falou primeiro…” Olha, constrangedor define. Parece que retiraram do ar todos os comentários, e infelizmente não cheguei a copiar a tela para mostrar uma imagem a vocês. Quem leu ontem pode confirmar que não estou exagerando.

A grande imprensa tem poder sobre o discurso que prevalece na comunicação de massa. Não faz sentido o poderoso entrar em disputas territoriais mesquinhas com o pequeno, o insignificante. Não entendo, não mesmo, essa linha que a Veja escolheu. Nesse ponto, acho mais graça no site do Globo Online, onde os maiores absurdos são postados e ficam lá para qualquer um ler. Se o jornal optou por disponibilizar espaço para os leitores comentarem, que os deixe comentar.

Ou então, mes amis, se não sabem brincar, recolham as panelinhas.

-Monix-

 

 

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Slut shaming

Estava indo para o trabalho e ouvindo a BandNews FM quando começou o comentário do Milton Neves, que escuto mais por hábito que por gosto. Hoje o tema inicial da fala dele foi o caso Elisa Samudio, e antes de qualquer coisa, disse ele, era preciso prestar um esclarecimento muito importante. “O pessoal fica aí falando que ela era modelo, mas ela era mesmo garota de programa, Boechat.”

Ao que o âncora retrucou imediata e precisamente: fosse ela modelo, garota de programa, enfermeira ou freira, não se justifica que seja assassinada brutalmente como tudo indica que foi.

É uma ressalva que pode parecer meio óbvia para você leitora/leitor que é meio-intelectual-meio-de-esquerda – mas não é. A essa altura dos anos 2000, ainda é bem mais comum do que a gente pensa essa mentalidade de que “ela pediu”, “ela mereceu”, “ela provocou”. Não acho que o comentário do Milton Neves tenha sido intencionalmente machista, mas esse discurso muito me preocupa, pois justamente por não ser explícito acaba contribuindo para a propagação de uma cultura que justifica e corrobora a violência contra a mulher.

Nem sempre o Boechat acerta, mas acredito sinceramente que desta vez ele prestou um grande serviço aos seus ouvintes. Às vezes uma pulga atrás da orelha é o primeiro passo para fazer as pessoas pensarem melhor sobre assuntos incômodos.

-Monix-

Flávia

Na madrugada de ontem, no Rio de Janeiro, Flávia Souza, uma jovem de 15 anos, moradora de rua, grávida (até aqui a frase já é triste, mas fica pior) foi queimada viva.

Avisem-nos da missa que o padre Marcelo rezará por ela, e da camiseta com sua foto.

Queremos ler a reportagem na Veja, ajudar a redigir a manchete da primeira página d’O Globo, assistir entrevista com prefeito e governador no Fantástico.

Nos chamem para a passeata e para acender uma vela pela Flávia.

Ou pra fazer qualquer outra coisa realmente útil. Para que a gente nunca mais tenha que ler uma notícia como essa.

Duas Fridas

 

 

 

A falha do Zuenir

Acho que fez bem em ir à televisão, embora devesse ter raspado a cabeça. Aquele cabelo bombril parecendo tingido me fez entender o que ele disse uma vez, causando polêmica – que tinha “cabelo ruim”. Zuenir Ventura, “A falha do Ronaldo”, O Globo, 07/05/08, pag. 7

Ok, eu nunca considerei o Zuenir nenhum ativista pela igualdade racial, nem acho que ele tenha que sê-lo mas, pelamordedeus! Esperava que ele tivesse inteligência suficiente para não fazer um comentário absolutamente preconceituoso como esse. Sim, porque eu não espero que as pessoas não sejam preconceituosas, mas exijo que elas não exponham ou propaguem seus preconceitos, especialmente num jornal. Que decepção!

Descobri essa pérola do jornalista no blogue Palavra Sinistra e fui conferir o artigo* pra ver se não havia nenhum mal-entendido – e infelizmente não há. A frase é exatamente essa, dita assim, como se fosse a coisa mais natural do mundo e pertinente à discussão. O Rolo disse tudo lá no Palavra, eu só tenho a acrescentar que esse caso do Ronaldo foi uma oportunidade exemplar para observar um leque de preconceitos: sexuais, sociais e, last but not least, raciais também.

Uma canção pro Zuenir: Respeitem meu cabelos, brancos, do Chico César.

Helê

*O Globo mantém o texto disponível gratuitamente por sete dias, no Arquivo Premium.

Ontem, enquanto assistia ao circo de horrores que foi a cobertura da prisão preventiva dos acusados do assassinato, não pude deixar de pensar: A Montanha dos Sete Abutres é logo ali, em Guarulhos.

Tupinicópolis, como sempre, uns 50 anos atrasada, para o bem ou para o mal.

-Monix-

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