Diarices

Semana intensa em enredos e emoções, entrei e sai de ficções e realidades às vezes sem divisar claramente bordas e fronteiras. Isso eu li ou vivi, está mesmo cotesseno, is this real life?

– Moro numa casa nova que escolhi para mim, e todo o tempo nela é pouco. Quero intimidades, descobrir o que lhe cai bem, preencher seus espaços preservando os vazios necessários, quero torná-la nossa e minha. Tento listar urgências e equilibrar desejos: pintar a porta de roxo talvez deva vir depois de chamar o eletricista, na lista de prioridades (ser adulto sucks). Enquanto isso, passo a vida a limpo, jogando fora o que escapou da primeira seleção, reunindo pares de brincos outrora separados, descobrindo roupas esquecidas e me livrando caixas, sem pressa mas com alívio. Sempre cantarolando ‘Starting Over’, que, ok, não deu muita sorte pro Lennon, mas é uma bela canção e traduz com fidelidade meu sentimento  just like startin oooover !

– A Fal veio ao Rio e eu de repente me vi tomando o café da manhã mais nobre da vida – não por causa do seu aprumo e elegância, o anel combinando com a blusa, as alvas pérolas, mas porque ela era tão educada com o garçom que ele, querendo retribuir-lhe a gentileza, serviu um copo d’água e desejou: saúde. Porque a Fal causa essas reações nas pessoas: a gente quer agradar, retribuir, fazer o certo e o melhor e aí tropeça, gagueja, um horror – e ela, ali, a coisa mais linda, com cara que quem não reparou. O humor ao vivo e a cores, a atenção, a delicadeza da Fal, gente. Ela me explica o Feminismo segundo Maliu, fala da família, conta histórias, elogia os amigos e eu só vou embora porque preciso (volto porque te amo). E também porque chegaram outras pessoas para lhe fazer a corte, que eu não conseguiria deixar sozinha a Princesa da Ervilha (®Renata Lins). Depois, em penso em 47 coisas que deveria ter feito diferente e morro de vergonha.

– Nos intervalos leio “A Casa dos Espíritos” e, como sempre me acontece com as narrativas da Isabel Allende, vivo um pouco naquele mundo. Como leio muito no transporte, me deixo levar a ponto de tomar um susto na hora de saltar: fecho o livro e desço do Chile em 1970 no Centro de Niteroi em 2016. Já li outros livros dela, gosto imenso, principalmente dessa capacidade que ela tem de nos pegar pela mão e inserir naquele enredo. A certa altura interrompi a leitura por motivo de: angústia. O relato do golpe no Chile é muito vívido e aterrorizante; e a descrição do período pré-golpe guarda desagradáveis semelhanças com o que vivemos atualmente. São situações muito diferentes, eu sei, mas não tão distantes como seria ideal.

– No sábado a notícia da morte de Muhammad Ali me alcançou logo cedo, e entristeci de imediato. Eu devia ter 6 ou 7 anos quando meu tio Luiz Carlos colocou no filho o nome de Marcellus – por causa daquelo lutador, me explicaram -; é minha primeira lembrança dele, que  deduzi ser especial. Depois fui crescendo e acompanhando sua trajetória; nunca me recuperei do impacto de ver aquele homem negro dizer na tevê “Eu sou lindo, eu sou ótimo, sou o melhor”. A idade e a memória, mancomunadas, me confundem e já não tenho certeza se assisti isso quando era criança ou muitos anos depois, mas não importa: lessons taken; ficou a admiração imensa por essa figura ímpar. Há alguns meses li o excelente “A Luta”, do Norman Mailler, e uma amiga se espantou: “Mas boxe, Helê?” E eu respondi: “Mas é o Ali!”.

Era isso, só, anotações no que seria um caderno de anotar a vida, se eu tivesse um e fosse uma personagem da Isabel.

 

criativo

(by Travis Bedel via Inag)

Helê

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