Espelho

Filha veio encontrar comigo no trabalho,  no fim do expediente. Saindo de casa, manda um what’s up:

– Tô saindo.

E eu:

– Traz um casaquinho.

Nos encontramos, entramos no ônibus e eu ligo pra minha mãe:

– Oi, mãe. É que eu tô indo jantar com uns amigos, queria saber se tá tudo bem…

E ela:

– Leva um casaco.

Me senti dentro de uma matrioska.

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Helê

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Só as mães são felizes?

Então liguei para casa para avisar que já estava chegando, num horário em que a pessoa [já nem tão] pequena costuma estar pronta para a escola. A primeira ligação caiu na secretária eletrônica, chamei carinhosamente por ela; na segunda, secretária de novo, comecei a ficar brava, mas me controlei; na terceira já estava p*ta, imaginando a pessoa ouvindo música alta enquanto minha preocupação aumentava na mesma proporção. Em resumo, foram 10 ligações até chegar, abrir a porta, chamar,  a pessoa não responder  e a alma deixar o corpo por instantes infinitos. Entre a porta de entrada e o quarto, separados por menos de quatro passos, o que a pessoa [que deveria ser] grande pensa? Caiu no banheiro, bateu a cabeça e está desacordada. Claro. Aí depara-se com a inocente  dormindo. E só então percebe que sequer cogitou a hipótese extraordinariamente provável de a criança ter perdido a hora.

Quer dizer.

Você, companheira mãe, não se engane. Você ainda é aquela que acordava de madrugada pra ver se o bebê tava respirando. Muda o berço, o bebê (um pouco) e a hipótese, mas você é a mesma. Sua mente continua dotada de velocidade supersônica de pensar merda. Mãe: uma condição que não tem cura.

Cá entre nós: ainda bem 🙂 ♥.

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(mother and son, 1962 • walter chappell do Ilpost.it)

Helê

Interativa

Uma das muitas expectativas de uma mãe é a interação com o filho. Sim, porque o Bebê ou a Bebéia, quando estréiam nem olham direito na nossa cara, mal abrem os olhos. Até que ele começa a olhar, e depois a encarar (Ôba, ele já me conhece!, comemora a mãe). Passa o tempo e o Nenén ou a Nenenha começam a sorrir, mas novamente pode ser até pra vassoura. A primeira vez que a criatura sorri pra você, nossa! É uma alegria. Mas sua expectativa de mãe não termina — suspeito que nunca terminará — e você continua tentando interagir com a criança.
Isto posto, segue a historinha:
Domingão à noite, eu e Júlia, meu filhote de 1 ano e meio, no quarto. Eu tento arrumar as tranqueiras todas e a mochila do dia seguinte. Ela desarruma o que consegue. No som tocam as ”Canções Curiosas”, do Palavra Cantada – cd que comprei pra ela, mas sou eu quem sabe as letras e dança, animada. O disco termina e eu, na ilusão de que estamos ouvindo música juntas, pergunto:
– Júlia, vamos ouvir agora ”A arca de Noé?”
Ela concorda, balançando a cabeça pra cima e pra baixo vigorosamente. Eu, animada com a compreensão da minha filha, peço especificações:
– O 1 ou o 2?!
Ela, alegre, detona minhas ilusões:
– Têêêis!!!

Helena Costa

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