Slut shaming

Estava indo para o trabalho e ouvindo a BandNews FM quando começou o comentário do Milton Neves, que escuto mais por hábito que por gosto. Hoje o tema inicial da fala dele foi o caso Elisa Samudio, e antes de qualquer coisa, disse ele, era preciso prestar um esclarecimento muito importante. “O pessoal fica aí falando que ela era modelo, mas ela era mesmo garota de programa, Boechat.”

Ao que o âncora retrucou imediata e precisamente: fosse ela modelo, garota de programa, enfermeira ou freira, não se justifica que seja assassinada brutalmente como tudo indica que foi.

É uma ressalva que pode parecer meio óbvia para você leitora/leitor que é meio-intelectual-meio-de-esquerda – mas não é. A essa altura dos anos 2000, ainda é bem mais comum do que a gente pensa essa mentalidade de que “ela pediu”, “ela mereceu”, “ela provocou”. Não acho que o comentário do Milton Neves tenha sido intencionalmente machista, mas esse discurso muito me preocupa, pois justamente por não ser explícito acaba contribuindo para a propagação de uma cultura que justifica e corrobora a violência contra a mulher.

Nem sempre o Boechat acerta, mas acredito sinceramente que desta vez ele prestou um grande serviço aos seus ouvintes. Às vezes uma pulga atrás da orelha é o primeiro passo para fazer as pessoas pensarem melhor sobre assuntos incômodos.

-Monix-

Correndo como uma mulher

Para Manu, companheira de corridas, cortejos  e desfiles ;-)

Kathrine Switzer, primeira mulher a participar da Maratona de Boston (EUA), em 1967 – apesar da tentativa de um dos organizadores de retirá-la da prova. Ela correu um total de 35 maratonas e até hoje viaja pelo mundo promovendo corridas femininas. Leia mais sobre ela nessa reportagem.

A americana campeã dos 800 m,  Alysia Montano, cresceu jogando futebol e apostando corrida com os meninos da vizinhança. Nessa época começou a usar uma flor nos cabelos “para lembrar a eles que estavam perdendo para uma menina”. Alysia mantém a marca registrada: “a flor significa força com feminilidade. Acho que as pessoas dizem coisas como ‘você corre feito uma garota’. Isso não significa que você corra macio ou  de um jeito delicado. Significa que você é forte”. (via High Heels)

Helê, voltando a correr

Crie sem moderação

Só há pouco soubemos da ação  feita pela cerveja Bohemia do México,  um concurso para que artistas plásticos criassem peças com nuestra madrinha, Frida Kahlo. O The Kahlo Challenge aconteceu no ano passado, mas a iniciativa, que premiou com 10 mil dólares o vencedor, merece registro. Nos quedamos encantadas pela ousada, elegante e inteligente maneira de vender cerveja sem comercializar mulher. E, de quebra, estimulando a arte e valorizando uma personalidade  nacional. Aumentou nossa vergonha das propagandas do gênero feitas aqui e comprovou que sim, é possível fazer diferente. ‘Bora deixar de preguiça, minha gente. Saúde!

Ernesto Camacho, primeiro colocado

Ande Cook

Jose Luis Padilla – Terceiro colocado (desenho favorito da FridaHelê)

As Duas Fridas

Desalento

Os economistas chama de “desalento”  o fenômeno que explica a queda nos índices de desemprego motivada pela desistência. Acontece quando número significativo de desempregados deixa de procurar emprego, alterando as estatísticas sem propriamente aumentar o contingente de pessoas empregadas. Atinge mais as mulheres –  veja você, são elas as mais desalentadas. Ao mesmo tempo em que somos mais vulneráveis no mercado de trabalho, também temos maior capacidade de encontrar alternativas ao emprego formal.

Achei tudo isso melancólico e injusto. Mas não pude evitar apreciar esse nome, desalento, e pensar que a poesia invadiu a economia e se fez presente, como alguém decidido a reaver o que lhe pertence, talvez num arroubo de loucura ou sensatez, vai saber. Ou talvez para protestar contra a frieza dos números e lembrar que, afinal,  eles tratam de pessoas e do imensurável em suas vidas.  Acho belíssima essa insolência das palavras, quando cruzam fronteiras sem apresentar passaporte ou pedir permissão, usando a autonomia que pretendemos  lhes cassar.

A propósito: pesquisando para o post soube que o desalento diminuiu no últimos meses. Tomara Deus, todos eles.

Helê

Só por isso

Duas Fridas

Da série “Bis é bão”: Cabrochas

A estação já começou. Mas assim no início vemos poucas, ainda não maduraram por completo. Eu vi uma meia dúzia outro dia, na feijoada da Velha Guarda da Portela. Mas florescem mesmo é no carnaval, as cabrochas. Uma espécie de mulher que só dá no carnaval. Não, não, eu não estou falando no sentido sacana do verbo; elas dão como frutas e flores que surgem numa certa época do ano, em certos lugares e condições específicas – e apenas dessa maneira. Negras, altas, fartas, essas mulheres chegam em partes: primeiro os seios, depois elas mesmas, e quando você pensa que acabou, chega a bunda. Poderosas, onde quer que apareçam estabelecem um raio de atração que ofusca qualquer outra infeliz que desafortunadamente esteja por perto. E quando você pensa que não é possível alguém ter uma presença tão marcante elas … sambam. Ah, elas sambam. Aquela profusão farta de cabelos, sorrisos, carne, dentes e luz evolui com leveza e graça impensáveis, a despeito do ritmo acelerado da música. E sambando revogam vários códigos e leis, incluindo a da gravidade e o nono mandamento. Os homens intimidam-se; outras mulheres as respeitam, todos as reverenciam e elas desabrocham nos bailes, nas ruas, nas escolas de samba, despertando paixões, ereções, beliscões enciumados, olhares hipnotizados. Eu já vivi esta que é uma experiência sensorial: observá-las de perto e em movimento. São uma força da natureza em ação que, acreditem, nenhum take televisivo – nem o close obsceno nem a panorâmica completa – consegue reproduzir. O maior mistério sobre essas mulheres é onde elas passam o resto do ano. Não sei se murcham ou desfolham, se são raptadas por argentinos, se permanecem disfarçadas de merendeira numa escola pública do subúrbio. Já procurei várias vezes por diferentes localidades no Rio de Janeiro – onde elas são endêmicas – e não encontrei. Mas talvez isso não seja tão importante quanto simplesmente apreciá-las em floração. Se você está no Rio, fique atento: a estação já começou.

Publicado em 7 de fevereiro de 2006,  na casa antiga.

Trilha sonora do post: ”Os passistas”, Caetano Veloso (pelo ritmo) e “É luxo só”, com Elza soares (por tudo).

Ilustração do Lan – claro, que ninguém desenha cabrocha melhor que ele.

Helê

Receita para dançar sem parar após os 35 anos

Ingredientes:
1 babá quase perfeita
1 carona de ida e volta
4 ou 5 taças de prosecco
água à vontade

Modo de fazer:
Poupe suas energias ao longo do dia, chamando a babá de manhã e deixando-a brincar com seu filho de 4 anos recém-completados. (Ele não vai gastar nem um dia a mais de análise porque a mamãe passou um sábado lendo na cama – talvez alguns dias a menos.) Vá de carona com o casal mais animadoda festa, e assim garanta que será a primeira a chegar e a última a ir embora. Beba o prosecco todo de uma vez, antes de começar a música-pra-dançar. Vá pra pista. Pare a cada 5 ou 6 músicas e beba um copo d’água. Vá bastante ao banheiro, por motivos óbvios. Prepare-se para encarar o day after com dignidade.

Rendimento: 5 horas sem sair da pista

-Monix-

Update depois da Fefê: a trilha sonora desse post já passou por aqui. Se ela dança, eu danço…

Sociedade das Mulheres Vivas

Sociedade das Mulheres Vivas

Quando ”O sorriso de Monalisa” esteve em cartaz eu pensei em ver, mas temi que fosse apenas mais um filme de colégio, tipo ”Ao mestre com carinho” ou ”Sociedade dos poetas mortos”. Acabei não vendo na telona; mas assisti sem arrependimento no dvd.

Sim, é um school movie com um grupo de alunas de diferentes temperamentos e destinos, mas ”O sorriso de Monalisa” dribla o óbvio em vários momentos. E é antes de tudo um cuidadoso retrato do universo feminino e dos padrões impostos às nós mulheres na década de 50, 60 do século passado. Para a minha geração, que curtiu ”Grease” e ”Estupido Cupido” na infância, achando graça da juventude das nossas mães, fica claro que o buraco era mais embaixo, mui abajo…

Foi Monix quem me alertou que o filme ajudava a entender melhor de onde vieram, ou melhor, onde estiveram essas mulheres que nos geraram e geriram, contra as quais colidimos com mais freqüência do que gostaríamos. E, sobretudo, de quem quase nunca temos distância suficiente para olhar como de fato elas são: mulheres também geradas e geridas por outras mulheres, a partir de outros valores, muitas cobranças, todas as dúvidas.

Essa geração da minha mãe ainda presenciou uma espécie de ”aceleração do tempo”, já que o mundo parece ter rodado muito mais rápido entre 50 e 60 do que é possível numa década. Minha mãe, em 1967, tinha ”só” e ”já” 18 anos: casada e mãe, tinha responsabilidades demais pra desbundar, ao mesmo tempo em que era jovem demais para ignorar a revolução social, cultural e sexual que acontecia a sua volta. Como muitas mulheres dessa época, ela ficou na esquina entre os anos 50 e os 60. Uma geração de mulheres educadas pra casar, mas que se separaram; formaram-se, mas nem sempre conseguiram fazer uma carreira de destaque; educaram os filhos oscilando entre Piaget e Pinochet, ou seja, entre a pedagogia e a palmada.

”O sorriso de Monalisa” retrata de modo eficiente uma época não tão distante quanto parece, e cujos efeitos ainda somos capazes de sentir. Não é nenhuma obra-prima, longe disso, mas é um filme honesto e bem feito. E sobre o qual recai, claro, certo preconceito. Nas críticas que encontrei na internet, há muitas referências a ele como um ”filme de mulheres” ou ”para mulheres”. Ainda que seja sobre mulheres, significa que só a nós interessa? Por que um filme como ”Sociedade dos Poetas Mortos”, de elenco quase completamente masculino, é universal, e ”O sorriso” é de menina? O feminino é específico, o masculino é universal? Ora, francamente! Além do mais, se em vários aspectos os dois filmes se parecem, ”Monalisa” é infinitamente mais solar e positivo que ”Sociedade”; portanto, viva a diferença, mesmo!

Helê

Cabrochas

A estação já começou. Mas assim no início vemos poucas, ainda não maduraram por completo. Eu vi uma meia dúzia outro dia, na feijoada da Velha Guarda da Portela. Mas florescem mesmo é no carnaval, as cabrochas. Uma espécie de mulher que só dá no carnaval. Não, não, eu não estou falando no sentido sacana do verbo; elas dão como frutas e flores que surgem numa certa época do ano, em certos lugares e condições específicas – e apenas dessa maneira.

Negras, altas, fartas, essas mulheres chegam em partes: primeiro os seios, depois elas mesmas, e quando você pensa que acabou, chega a bunda. Poderosas, onde quer que apareçam estabelecem um raio de atração que ofusca qualquer outra infeliz que desafortunadamente esteja por perto. E quando você pensa que não é possível alguém ter uma presença tão marcante… elas sambam. Ah, elas sambam. Aquela profusão farta de cabelos, sorrisos, carne, dentes e luz evolui com leveza e graça impensáveis, a despeito do ritmo acelerado da música. E sambando revogam vários códigos e leis, incluindo a da gravidade e o nono mandamento. Os homens intimidam-se; outras mulheres as respeitam, todos as reverenciam e elas desabrocham nos bailes, nas ruas, nas escolas de samba, despertando paixões, ereções, beliscões enciumados, olhares hipnotizados.

Eu já vivi esta que é uma experiência sensorial: observá-las de perto e em movimento. São uma força da natureza em ação que, acreditem, nenhum take televisivo – nem o close obsceno nem a panorâmica completa – consegue reproduzir.

O maior mistério sobre essas mulheres é onde elas passam o resto do ano. Não sei se murcham ou desfolham, se são raptadas por argentinos, se permanecem disfarçadas de merendeira numa escola pública do subúrbio. Já procurei várias vezes por diferentes localidades no Rio de Janeiro – onde elas são endêmicas – e não encontrei. Mas talvez isso não seja tão importante quanto simplesmente apreciá-las em floração. Se você está no Rio, fique atento: a estação já começou.

Trilha sonora do post: ”Os passistas”, Caetano Veloso. 

Pideite das ilustrações: Ninguém melhor que o Lan pra retratar as cabrochas. Quem quiser conferir seu traço erótico-elegante e as belas esculturas que o artista plástico Wellington Fernandes fez a partir desses desenhos deve visitar na Casa França-Brasil, no Rio, a exposição Sempre carioca, onde se pode contemplar as ilutras deste post ao vivo e a cores.

Helê

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