Êxtase

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(Big Jay McNeely (via fotografias incríveis de celebridades)

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(via ◆ COOL PHOTOS ◆ /)
tumblr_mam2zvoIh31qacyauo1_500(via Fotografije / sweet)

Helê

Quando o samba me salva

 

É de manhã cedo, e no primeiro post do dia Maria Bethânia, ao lado de Zeca Pagodinho, pede para buscar quem mora longe. Tiro o olho da tela por um instante e encontro ‘A Vida no Campo’ bem ao lado; momentaneamente parece haver uma relação entre as obras, mas talvez seja só a minha cabeça delirante. Sonho meu. Volto para a tela do lépi tópi. A princípio, Bethânia parece tímida ao lado de Zeca. Ele, indisfarçavelmente feliz, exercita a típica marra carioca: “Agora sou eu e ela!”.  Nas primeiras notas, some qualquer vestígio de timidez e Maricotinha ordena, sensual e dengosa: “Vá buscar quem mora longe, Sonho meu”. Tão bonito ouvir Betânia encontrando entonações surpreendentemente novas nessa canção já antiga; que cena prazerosa vê-la feliz, rodeada de músicos também extasiados com o momento, incluindo Zeca, orgulhoso, totalmente “pinto no lixo”! O maestro Rildo Hora rege tudo com entusiasmo e vigor, as usual. A ternura e o sorriso que o vídeo desencadeia em mim têm raízes fundas: me dou conta de que ouvi muito essa canção na infância; minha mãe tinha o disco, e houve um tempo, senhoras e senhores, em que Bethânia tocava no rádio e era sucesso de execução e vendas. O Gúgol me acode e denuncia minha velhice: o álbum é de 1978. Eu ainda contava a idade com um dígito; tudo desse tempo visto daqui parece feliz. “Sonho meu” encaixa na categoria confort music porque desperta intimidade, reconhecimento, soa familiar – na acepção mais positiva e agradável da palavra.  Reparo que a letra, breve, tem versos simples e belos, como sói acontecer com os sambas de qualidade. A música de Dona Ivone Lara e a poesia de Délcio Carvalho têm ainda um bocado de tristeza – como Vinícius advertiu ser necessário para fazer um samba com beleza. Traz a pureza de um samba sentido, marcado de mágoas de amor. Que, não obstante isso, nos envolve e leva ao movimento, seja com palmas, seja um leve balançar da cabeça ou remexendo as cadeiras. Um samba que mexe com o corpo da gente.  E essa gravação/congraçamento que reúne Santo Amaro e Rio de Janeiro, Recôncavo e Guanabara, a Abelha Rainha e o Rei de Xerém, me deu a alegria necessária (mesmo que não suficiente) para começar o dia e – por que não? – o mês com alguma esperança.

Obrigada, Cláudio Luiz, por postar o vídeo e pelas emoções subsequentes (e por me possibilitar escrever um post musical como eu não fazia há tempos e morria de saudade).

Helê

De Amy a Kesha

e4328e152cc07582c39cd63cb087bddbAproveitando um ânimo kinda blues, finalmente assisti “Amy”. Sabia que depois sofreria o pior tipo de saudade, a incurável. Mesmo assim, sempre vale a pena ver Amy Winehouse, essa luz singular que se autoconsumiu. Uma angústia extra me acompanhou durante o filme, porque logo no início, aos 15, 20 minutos de documentário, eu tive a impressão que seu fim era inescapável. Como se faltasse algo desde sempre, algo na estrutura dela, que a fazia incapaz de suportar o próprio dom; sua fragilidade era do tamanho do seu talento. Emocionei-me algumas vezes, entre elas com Tony Benett, esse gentleman, e sua frase lapidar: “Life teaches you how to live it — if you live long enough”*.

Mas se Amy não viveu o bastante para aprender a lidar com suas habilidades e limitações, o fato de ter se tornado uma pop star foi crucial para isso. O documentário de Asif Kapadia, premiado com o Oscar, faz claras referências ao caráter duvidoso do pai de Amy e à influência do marido. Mas eu fiquei chocada com o episódio em que ela foi colocada desacordada em um avião para fazer um show que ela não queria. Como se faz uma coisa dessas com uma pessoa? Quando foi que a gente concordou que um contrato estava acima da vontade ou do bem-estar do contratado? E por que o papel de agentes, gravadora e assessores tem pouca ou nenhuma atenção quando se discute as razões dessa morte escandalosamente precoce?

Enquanto a imprensa dedicar amplos espaços a coincidências elevadas à categoria de maldição, enquanto insistirmos em apontar o dedo para familiares e para a própria Amy, vamos manter a conversa em um nível facebook, raso e pleno de obviedades repetitivas. A discussão deve ir mais fundo nas entranhas do showbizz e nos expedientes que ele usa para exaurir uma alma como a de Amy, depois de lucrar bastante. Nesse momento em que uma cantora vai a um tribunal solicitar a liberação de um contrato acusando seu produtor de variados assédios** – e tem seu pedido negado – precisamos olhar para essa engrenagem com menos deslumbre e um olhar mais crítico. Precisamos falar sobre Kesha. Amy nós precisamos ouvir, sempre.

 

Helê

*A vida ensina a viver, se você viver o suficiente
** Vale destacar que a cantora recebeu apoio de diversos artistas, alguns com os quais a única afinidade que ela possui é pertencer à mesma categoria. O que significa, a meu ver, que ainda que se possa contestar as acusações, elas são absolutamente plausíveis e, talvez, assustadoramente comuns.

Rolling Stones ou You get what you need

Dez anos atrás, perdi deliberamente o show dos Stones em Copacabana, para horror das minhas amigas roqueiras —  entre elas minha sócia Monix. Eu achava, não sem razão, que conhecia muito pouco para suportar os outros 999.999 espectadores. Declinei, mas a indignação dazamigue instigou meu interesse e comecei a aplicar doses regulares de RS na veia musical. Nesse meio tempo assisti “Shine a light“, do Scorsese, que eu adorei, e decidi então que não perderia nova oportunidade de ver Rolling Stones ao vivo, se tivesse. Tive*, e no sábado parti para o Maracanã, empolgada o suficiente para encarar a multidão de mais de 60 mil pessoas.

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A única boa foto que consegui foi de “Sympathy for the devil”. Eu, heim.

 

Som, luz e cenários de altíssimo nível, exatamente como se espera de um show desse naipe.

Ronnie Wood é o regular guy da parada porque, né, toda banda precisa de um.

Keith Richards, o Highlander, foi ovacioado no Maraca sem fazer gol, mas pelo conjunto da obra. Emo-cio-nan-te. Apesar de tocar há mil anos, deixa a impressão que ainda se diverte, e muito.

Mick fucking Jagger definindo o que é presença de palco e o que faz exatamente um leading man. Uma energia inacreditável e genuína, o tesudo mais improvável do rock. Sem vestígio de beleza, com sua dança desengonçada que só nele faz sentido, do alto dos seus 72 anos (!!!) ele continua sexy, e não é pouco.

12764774_944014535678998_5738843005513890786_oMas para mim a grande atração foi Charlie Watts, o baterista com cara de mordomo, a coluna mais ereta do show bussiness mundial. Parafraseando a Tina, no verbete “Impassível” do dicionário tem a foto dele. Em meio ao visual e estilo esfuziantes dos demais integrantes, Watts mantém a decantada fleuma britânica tocando bateria como se violino fosse: com precisão, classe, vigor e postura impecável. Vestindo uma calça azul e uma camisa amarela, parecia ter acabado de acordar. Ou que veio entregar um Sedex de Londres e aproveitou a viagem pra fazer um show. Fiquei hipnotizada, achando que ele é o cara, exatamente por não ser, sabe como?

Para minha alegria atravessar o mar só faltava uma música, e ela veio aos 42’ do segundo tempo. Dei um pulo quando vi um coral no palco e sim, era “You can’t always get what you want”, hino/mantra/oração/consolo que já me acudiu muitas vezes. Aí foi correr pro abraço e celebrar o fim da partida com “Satisfaction”, que I’ve got a lot, contrariando a letra da canção. Um show impecável e histórico, como só os grandes sabem fazer.

*Obrigada S., pela oportunidade e companhia perfeita.

Helê

Soul cake

Para não dizer que não falei de natal, deixo aqui este vídeo com a canção que dá nome ao post, uma das minhas (poucas) tradições natalinas. Deixo para ouvir apenas nessa época, fica guardada junto com a árvore e pisca-pisca durante o resto do ano:

Conheci por acaso: zapeando pela tevê como sempre faço, me apaixonei à primeira ouvida – o que raras vezes acontece. Claro que a rouca voz do Sting, o arranjo elaborado, o concerto dentro da catedral, a alegria com que os músicos a executam, tudo isso contribuiu. Mas eu segui vendo o especial e nenhuma outra música me tocou tanto. Diz a Wikipedia que trata-se de uma canção cujas origens remontam ao século 19, registrando tradições ainda mais antigas, provavelmente surgidas na Idade Média, em diferentes partes da Europa. Era costume oferecer um tipo de bolinho (os soul cakes) aos mais pobres em certas datas, como o natal.

Algo me comove nesta canção, não sei ao certo se  a melodia,  se a humildade da letra — que pede qualquer coisa que possa alegrar (“Any good thing to make us all merry”) e agradece pedindo bençãos à quem concede (“We’ll wish you ten times more.“). Ou esse violino, tão irish quanto country e nordestino. Ou ainda o registro pungente da miséria e da caridade, que se perpetuam no tempo e no espaço assim como a criatividade de usar a música para realizar algo que, sem ela, seria apenas sofrimento. Talvez seja tudo isso junto, e mais coisas que a gente não explica mesmo.

Ofereço a canção como um soul cake para quem me lê; que essa seja (mais) uma noite feliz.

Helê

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“Acredito ser o mais valente

nesta luta do rochedo com o mar”

(É hoje, Didi eMestrinho, Samba enredo da GRES União da Ilha do Governador, 1981; foto: reblogou )

(Pideite: veja a primeira momentos da série)

Helê

Tears of joy

Não lembro exatamente quando, mas foi há muito tempo. Eu ainda ouvia rádio – porque havia estações de rádio para serem ouvidas (suspiro) – e amava aquela voz forte, límpida e amorosa, mas não sabia quem era. Cada vez que tocava eu ficava atenta para entender o nome da música ou da artista; custou mas cheguei a Tuck & Patti e “Tears of Joy” – o que ainda não era muito naqueles tempos sem Google (eu disse que foi há muito tempo). Perguntava em toda loja de discos em que entrava (sim, já existiram lojas de discos, seus incréus), mas ninguém conhecia. Até o dia em que, numa viagem a São Paulo, entrei numa loja especializada e achei o cd da dupla, a voz excepcional de Pat Cathcart e o violão inconfundível de Tuck Andress. Comprei na hora, apesar de ter causado um rombo no orçamento.
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Depois disso ainda encontrei um ou outro álbum deles, mas sempre nas seções de importados, fora do meu alcance$. Com a internet, no entanto, ficou mais fácil acompanhá-los e ouvi-los (“Contra burguês baixe mp3!”). Eles nunca estouraram, mantiveram uma carreira sólida e coerente sem chegar propriamente ao estrelato – o que, a meu ver, não tem absolutamente nada a ver com a qualidade excepcional do som que fazem.

Corta para maio de 2014: eu no quarto de hotel em Nova York, lendo a Time Out como todo mundo me mandou fazer para ver o que estava rolando na cidade. Musicais para todos os gostos, meu futuro marido em cartaz numa peça (para quem estranhamente ainda não sabe: Denzel Washington será meu marido, nesta encadernação ou na próxima), mil opções. Folheio a parte de casas de jazz, gênero que eu gosto mais do que conheço. E dou de cara com um tijolinho que tenho que ler duas vezes pra ter certeza: Tuck & Patti no Blue Note, na semana seguinte. E eu ainda estaria na cidade. Era num bom horário. E cabia no orçamento. A pessoa pessimista pensou: “Mas vai ver não tem mais ingresso, vai lotar…” Falei com a concierge do hotel, que tentou ligar para fazer reserva mas ninguém atendeu. Ok, tento mais tarde, pensei, já achando que era muito bom pra ser verdade. Dias depois, andando pelas imediações da Washington Square dei de cara com o Blue Note. Assim, sem procurar, sem olhar no mapa, sem ter a noção de que estava tão perto. E a bilheteria estava aberta, então pude fazer a reserva.
No dia do show, cheguei cedo e por isso pude perambular pelos quarteirões próximos. Imperava um clima de celebração, várias turmas comemoravam o fim do curso universitário na festa de formatura mais legal que eu já vi: na rua, com barraquinhas, música, gente fantasiada, jovens de beca, pais sorridentes, um clima festivo de expectativa e esperança. Aguardando um sinal para atravessar a rua, reparo em uma mãe e o filho, negros, ela com um bottom enorme na lapela, distribuído pela organização do evento: “I’m a proud parent of a NYCU graduate”. Não resisti a lhe dizer: “Congratulations!”; ela agradeceu, ainda mais orgulhosa.

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Contei tudo isso só para explicar porque, quando Pat entrou no palco do Blue Note aquela noite e soltou a primeira nota, acompanhada pelo primeiro acorde do Tuck, eu não segurei as lágrimas, my tears of joy. Eu não apenas estava em Nova York – uma frase que pareceu improvável por muito tempo. Eu estava no célebre Blue Note assistindo ao show de Tuck & Patti. Foi um sonho que se realizou sem que eu sequer o tivesse sonhado. E foi melhor do que eu poderia antecipar. A voz de Pat ao vivo envolve, aquece e conduz você por onde ela quiser, nem tente resistir. Não bastasse isso, ela é uma intérprete carismática, divertida, presença a um só tempo doce e radiante. Tuck e seu violão fazem a moldura perfeita para ela, são coadjuvantes à altura da protagonista. A reserva estava ok, sentei em uma mesa próxima ao palco com duas israelenses simpáticas (uma delas apaixonada pelo Brasil que até arriscou umas palavras em português!); o táxi da volta foi eficiente e honesto, deu tudo rigorosamente certo. A night to remember, indeed.

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Helê

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