Sacanagem

Ah, as palavras. Algumas são o que são – ou são para o que nascem, como diz o maravilhoso título daquele filme. ‘Saliência’, por exemplo. Precisa dizer mais? Não, já se sabe do que se trata. Esse era um dos sinônimos pra sexo na minha casa quando eu era menina; suspeitava que era algo vedado a nós, crianças, mas que era bom,  divertido, e transgressor. E não estava de todo errada, não é mesmo?

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Sexo, saliência, sacanagem, safadeza: por que tanto ‘s’, meu deus? Será a sinuidade da letra, o som do fonema, ou só coincidência?

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E ‘lúbrica’? Outra palavra que se explica por si. Ou, dizendo mais adequadamente, se desmancha por si só, porque só de ouvi-la eu deslizo. Aliás, pensando bem, tem outro grupo de palavras sacanas com ‘l’: luxúria, lascívia, libertino… Será novamente o fonema, o movimento da língua nos dentes… ou só eu delirando mesmo?

*

Falando nisso, tem a cuíca. Eu gosto do som, acho que dá um tempero saboroso ao samba, mas não posso prestar muita atenção. Começa a me dar certa aflição. Você já percebeu? Tem coisa mais safada e sugestiva que o som da cuíca? Aí um amigo que toca se pôs a me explicar a dinâmica da coisa, como se pega o couro, de que modo se tira o grave e o agudo… Nossa, piorou muito, quanto mais ele falava, mais eu pensava em sacanagem.

Helê

Desalento

Os economistas chama de “desalento”  o fenômeno que explica a queda nos índices de desemprego motivada pela desistência. Acontece quando número significativo de desempregados deixa de procurar emprego, alterando as estatísticas sem propriamente aumentar o contingente de pessoas empregadas. Atinge mais as mulheres –  veja você, são elas as mais desalentadas. Ao mesmo tempo em que somos mais vulneráveis no mercado de trabalho, também temos maior capacidade de encontrar alternativas ao emprego formal.

Achei tudo isso melancólico e injusto. Mas não pude evitar apreciar esse nome, desalento, e pensar que a poesia invadiu a economia e se fez presente, como alguém decidido a reaver o que lhe pertence, talvez num arroubo de loucura ou sensatez, vai saber. Ou talvez para protestar contra a frieza dos números e lembrar que, afinal,  eles tratam de pessoas e do imensurável em suas vidas.  Acho belíssima essa insolência das palavras, quando cruzam fronteiras sem apresentar passaporte ou pedir permissão, usando a autonomia que pretendemos  lhes cassar.

A propósito: pesquisando para o post soube que o desalento diminuiu no últimos meses. Tomara Deus, todos eles.

Helê

Conselhos

Meus favoritos são care, dance and sing, of claro.

Helê

3 +1

We’ll find strenght in each tear we cry. (Ribbon in the sky, Stevie Wonder)

Muitos temores nascem do cansaço e da solidão. (Desiderata, Max Ehrmann – popularizada pelo Legião Urbana na canção “Há tempos“))

Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve. (Dentro de um abraço, Martha Medeiros).

Helê

Variações sobre o mesmo tema

Adoro regravações, releituras, paródias, variações sobre o mesmo tema. Essas aqui eu colhi intenet afora, via I can read, Visualize.us e demais perdições visuais. O original eu conheci com a bacanérrima Dani Arrais no instigante Dont’t touch my moleskine:

Depois fui colecionando as variações aqui e ali:

Avisem caso caso esbarrem com novas peças pra minha coleção.

Helê

(Também) Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

Pois eu também tenho uma relação intensa com a língua (ui!), repleta de admiração, fascínio e curiosidade. Com o português em especial, com as linguagens todas em geral, pela qualidade de comunicar, traduzir sentimentos, iluminar pensamentos, transubstanciar emoções. Eu não coleciono apenas títulos, mas também ditados, expressões, frases, trechos, versos – todos criados em cativeiro, plantados no quintal, reunidos em canteiros ou mantidos em estufas.

Por ora me ocorre colher duas expressões que eu adoro: hold your horsesrecuar os halfs. São precisas e, como todas as boas expressões, pictóricas; ou melhor: alegóricas. A primeira, para os que não tem intimidade com o inglês, traduz-se ao pé da letra por ‘segure seus cavalos’. Auto-explicativa. Quer imagem melhor de liberdade e insubmissão que cavalos à solta, correndo? Quando alguém diz hold your horses eu visualizo imediatamente o cidadão em cima da charrete puxando os bichanos pelo cabresto e ainda fazendo ôôôôôô!

Já recuar os halfs é elegante, charmosíssima; antiga mas não antiquada. Diriam os mudernos que é uma parada assimvintage. Porque vem do tempo em que os jogadores de futebol do meio campo se chamavam halfs (e os da defesa eram os beques, de back, atrás); e significa adotar uma postura defensiva, diante de um obstáculo ou ameaça. Eu (que tenho uma mente que funciona em modo desenho animado) também imagino na mesma hora a pessoa em questã chegando na beira do campo e dizendo ‘Recua, volta, volta que não tá na hora de pedir aumento, não!’

Ou, num exemplo mais atual: tipo assim, se a mina te falar prahold your horses na balada, você recua os half e vaza, sacô?

Helê

Adoro gírias. Afora o blablabla sobre o fato de as gírias manterem a língua viva e dinâmica e toda a baboseira teórica que queiram desenvolver, é muito gostoso usá-las. Eu uso gíria, direto, em todos os ambientes. Aprendo as novas, incorporo ao meu vocabulário de lavadeira (ops, escorregou um comentário politicamente incorreto), mas mantenho as antigas. O resultado é uma miscelânea que pode misturar na mesma seqüência de idéias termos tão dessincronizados quanto “manêro”, “sinistro”, “baboseira”, “cacilda”, “parada”, “falô” e “já é”.

Sou tão fanática que chego a sentir saudades de uma gíria específica, que usei mooooooito na minha adolescência e sumiu, nem eu mesma uso mais, porque perdeu totalmente o contexto. A palavra é: “chocante”!
(Mas tem que gostar muito de português pra sentir saudades de uma palavra, nénão?)

-Monix-

Coleção

Coleção

Favor incluir na lista de belos títulos:
Albert Santos Dumont: eu naveguei pelo ar

Helê

Títulos

3 fevereiro de 2006

Eu sou apaixonada por títulos. Sou capaz de comprar um livro, visitar várias vezes um blogue, procurar uma letra de música na internet apenas por um título bem feito, original, impactante. Às vezes o que atrai é o humor; noutras a sonoridade; outras ainda a surpresa; muitas vezes nem sei definir ao certo. Mas o fato é que de um bom título eu não escapo. Eis alguns da minha coleção:

Vem buscar-me que ainda sou teu – uma peça que não vi mas que jamais esquecerei (de Carlos Alberto Soffredini). O título é o verso de uma canção de Vicente Celestino (!) chamada Coração Materno.
Nunca te vi, sempre te amei – um clássico na categoria títulos.
Tesouros da blogosfera:
*Uma dama não comenta – é quase um quadro, eu até imagino uma ilustra de uma dama início do século passado, ruborizada, fazendo fofoca com a mão em concha.
*Ao mirante, Nelson – um trocadilho delicioso, e eu não resisto a um bom trocadilho.
*Mothern – um achado, sintetiza numa palavra origem, mensagem e público.
A pessoa é para o que nasce – tem um sotaque nordestino que me é bastante familiar, embora também tenha um quê de Guimarães Rosa.
Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá – título de uma peça de Fernando Melo. Pra quem não é do Rio: Irajá é o nome de um subúrbio da cidade, lugar humilde e simples. O contraste entre a diva suprema e o suburbão é impagável.
Premeditando o breque – banda paulista de canções engraçadíssimas, que eu conheço graças à vastíssima cultura musical do meu irmão (eu, como a Calcanhoto, presto atenção ao que o meu irmão ouve…;-).
Mar de Espanha – na verdade é o nome de uma cidade… em Minas Gerais! Fala sério, isso não é nem título nem um nome, é uma utopia!
Pé Limpo – botequim pésujíssimo no Largo do Machado, aqui no Rio.
Vastas emoções e pensamentos imperfeitos – quem não os teve, quem não as sentiu?
Cordel do fogo encantado – nome de uma banda que traduz seu charme, sutileza, origem e encantamento
Livro – um bom nome para um… um cd. Da categoria “imperdíveis do Caetano”.
Mar de histórias – coleção contos do Aurélio Buarque.
Old habits die hard – belíssima canção de Mick Jagger para o filme Alfie e uma verdade duríssima, quase intranponível…

Helê

Bastidores — ou o post do post

Tivemos dificuldade para escrever o post aí debaixo.

É que uma das Fridas é negra; a outra, não.
Empacamos na frase: “…são os negros que dizem quando e como se sentem ofendidos.”
Para a Helena, a frase estaria na primeira pessoa: “…nós, os negros, dizemos…”
Para a Monix, tinha que ser do jeito que ficou.
Mas a correspondência para negociar a concordância verbal foi tão intensa que decididmos mostrar pra vocês que tudo nessa vida é negociação. Ou: que mesmo pensando exatamente a mesma coisa, não pudemos dizer que concordamos em gênero, número e grau. :-)
Ah, e que ser tolerante, inclusivo e solidário dá trabalho sim, mas também dá um prazer daqueles…

Helena:
“Continuo achando estranho dizer os negros, como se eu não fosse uma. Mas é ainda mais estranho você escrever como se negra fosse. Mas estranho mesmo é não assinarmos juntas algo no qual estamos totalmente de acordo.”
Monix:
“Como escrever nós os negros e eles os negros ao mesmo tempo??? Ó céussssss. Vou pensar mais um pouco. Deve haver uma solução.”
Helena:
“Acho que não tem outra solução a não ser a terceira do plural. E, a rigor, quando eu digo ‘os negros’ não estou me excluindo, necessariamente. Por outro lado, se vc disser ‘nós negros’ estará se incluindo, necessariamente. Na melhor da hipóteses, a gente transforma este impasse em post…;-)
Frida Preta”

Duas Fridas, again

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